RESUMO
O trabalho traz uma
análise da questão que envolve a leitura de duas obras que se
relacionam uma por ser um trabalho de adaptação de literatura adulta
para infantil, outra por ser um clássico que traz personagens que
vivenciam, quase que literalmente, a vida das personagens literárias.
Palavras-chave:
literatura, leitura, crianças leitoras, livros
ABSTRACT
The
work brings an analysis of the question that involves the reading of
two workmanships that if relate one for being a work of adaptation of
adult literature for infantile, another one for being a classic that
almost brings personages that they live deeply, that literally, the
life of the literary personages.
Key-Words: reading literature, reading, children, books
Em sua adaptação
Dom Quixote das Crianças, Lobato persegue a função emancipadora de
sua literatura, pois como Dona Benta conta a história para as crianças
e estas têm liberdade de opinião, posto que as atitudes de Sancho e
Dom Quixote são questionadas pelas personagens do Sítio e aí,
justamente nesta recepção crítica, reside o fato de maior
responsabilidade pelo caráter emancipador da narrativa. Também o
contato com estas personagens, como Dom Quixote e seu fiel escudeiro
Sancho Pança, vindas de fora e adaptadas à nova realidade, é visto
como outro modo de emancipação do leitor, já que as histórias das
personagens não são somente traduzidas para uma nova língua, mas
também para uma nova cultura.
Em Cervantes o papel
da leitura é considerado como desencadeador de todas as ações que
envolvem a personagem protagonista. Em Lobato, a leitura representa
uma ponte que une as personagens, já que todas as noites todos se
reúnem ao redor de Dona Benta para ouvi-la. O livro, no sítio, fornece
cultura e material fantástico, uma vez que as personagens a partir das
leituras, criam aventuras e confundem suas vidas com as das
personagens. Na narrativa adaptada à idéia da importância da leitura
clássica é salientada pela avó, mostrando que a criança pode sim
entrar em contato como o clássico, mesmo que seja uma forma adaptada.
1. O lugar do livro
na vida das personagens
O livro, tanto para os personagens do
Sítio, como para Dom Quixote é sinônimo de paixão, fantasia, cultura e
rotina. A paixão de Dom Quixote pelos livros, especialmente os de
novelas de cavalarias, é tão grande que para ele o que de mais valioso
há no mundo são seus livros e é capaz de se desfazer até de seus bens
materiais para ter mais dinheiro com que comprar mais e mais obras
para ler. A maior parte de seu tempo é dedicado à leitura: “[...] nos
intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano) se dava a ler
livros de cavalarias, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase
de todo do exercício da caça e até da administração dos seus bens; e a
tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu
muitos trechos de terra de semeadura para comprar livros de cavalarias
que ler, [...].”[2]
O amor aos livros, pelo pessoal do
Sítio, era muito grande, em se tratando principalmente da boneca
Emília, que por ser um ser muito curioso, adorava demorar-se na sala
de leituras de Dona Benta para descobrir novas histórias e,
principalmente, para ver as ilustrações. Tanto Cervantes quanto Lobato
multiplicam situações de leitura em que as personagens-leitoras se
envolvem demasiadamente com o texto, e como diz Lajolo[3],
passam “de leitores-de-papel-e-tinta a leitores-de-carne-e-osso.” E
esse envolvimento faz com que realidade e fantasia comecem a se
misturar, uma vez que o protagonista da obra de Cervantes contada por
Lobato é um fidalgo castelhano que perdeu a razão pela leitura assídua
de romances de cavalaria e em razão do seu grande “fantasiar” acha que
pode sair pelo mundo a enfrentar gigantes imaginários, encantadores,
terríveis inimigos, e fazer justiça como os seus heróis prediletos dos
livros que lê.
Em Cervantes, a leitura é o elemento
desencadeador das aventuras de Dom Quixote, o herói só é levado a agir
de tal forma por não conseguir separar uma história ficcional das
experiências da vida real. Monteiro Lobato também aponta para a
confusão das personagens do Sítio em relação à obra que estão lendo.
À semelhança do que sucedera por ocasião
dos serões nos quais Dona Benta contara às crianças as histórias de
Peter Pan [...], quando a sombra cortada de Peter Pan sugere a Emília
picotar a sombra de Tia Nastácia, também nesse D. Quixote a boneca não
fica imune à loucura do protagonista.
[4]
A boneca pensa ser
Dom Quixote:
Emília continuava a dar vira-cambotas.
Depois foi buscar um cabinho de vassoura e disse que era lança, e
começou a espetar todo mundo. E botou um cinzeiro de latão na cabeça,
dizendo que era o elmo de Mambrino. Por fim montou no Visconde,
dizendo que era Rocinante.[5]
Ela se convence de
que é uma verdadeira heroína:
Dona Benta foi
espiar pela janela e de fato viu as estripulias que Emília Del Rabicó
estava fazendo no quintal. Vestidinha de cavaleira-andante, toda cheia
de armaduras pelo corpo e de elmo na cabeça, avançava contra as
galinhas e pintos com a lança em riste, fazendo a bicharada fugir num
pavor, na maior gritaria. Até o galo, que era um corijó valente,
correra a esconder-se dentro de um caixão.
Dona Benta gritou-lhe várias vezes que
parasse com aquilo. Tudo inútil. A boneca fora tomada dum verdadeiro
delírio de heroísmo.[6]
O menino Pedrinho
também, em determinada ocasião, não separa vida real da vida dos
personagens de leituras, já que em Lobato, muitas vezes as personagens
muitas vezes não separam a vida da ficção:
-Eu explico tudo, vovó – respondeu o
menino. – Foi na semana em que caiu em casa aquele livrinho da
história de Carlos Magno e dos Doze Pares da França. Comecei a ler e
fui me esquentando, me esquentando, me esquentando, até que não pude
mais. Minha cabeça virou – ficou assim como a de Dom Quixote.
Convenci-me de que eu era o próprio Roldão. E fui lá no quarto dos
badulaques e tirei aquela espada que pertenceu ao velho Tio
Encerrabodes, e amolei-a no rebolo, bem amoladinha. E quando a senhora
saiu com Tia Nastácia e Narizinho para visitar o compadre Teodorico,
ah, que regalo! Corri ao milharal e não vi nenhum pé de milho na minha
frente. Só mouros! Eram trezentos mil mouros! Ah! Caí em cima deles de
espada que foi uma beleza. Destrocei-os completamente. Não ficou um
só! Que coisa gostosa...[7]
Vivendo em ambiente
rural, os habitantes do sítio poderiam isolar-se do resto do mundo,
sem conhecimento do que passa fora do seu habitat, mas é através dos
livros que eles conseguem viajar pelo mundo todo, com o herói dom
Quixote as crianças podem visualizar uma Espanha da época em que os
mais lidos livros eram os de novelas de cavalarias e quando Cervantes
através de seu cavaleiro ridiculariza os padrões aceitos na época.
As leituras no Sítio se estendiam por
muitos serões, quando todos se reuniam ao redor de dona Benta para
ouvir as histórias contadas por ela, sempre regados em seus intervalos
por muitas gulodices “[...] um dia batata-doce assada. Outro dia,
pinhão cozido. Outro dia, pipoca. Outro dia, amendoim torrado. Outro
dia, cará, inhame ou mandioca. E sempre um café coado na hora que era
“da hora”, como Narizinho dizia.”[8]
O lugar do livro na
vida das personagens das duas obras é destacado, é fornecedor de
fantasia, cultura, entretenimento, faz o desenrolar das ações,
acompanha-os até mesmo em seus sonhos. E esse destaque só é possível
pela transmissão do amor ao livro pelo adulto, que em Lobato, é
representado por Dona Benta, e em Cervantes, por Dom Quixote.
2. A função do
adulto na iniciação das crianças na leitura de clássicos
Ana Maria Machado salienta que é muito
importante que os adultos coloquem os pequenos desde cedo em contato
com a literatura “o primeiro contato com um clássico, na infância e
adolescência, não precisa ser com o original. O ideal mesmo é uma
adaptação bem feita e atraente.”
[9]
Principalmente com os clássicos universais, para ela “o que interessa
mesmo a esses jovens leitores que se aproximam da grande tradição
literária é ficar conhecendo as histórias empolgantes de que somos
feitos”. Ainda acrescenta que
[...] Também não é necessário que essa
primeira leitura seja um mergulho nos textos originais. Talvez seja
até desejável que não o seja, dependendo da idade e da maturidade do
leitor. Mas creio que o que se deve procurar propiciar é a
oportunidade de um primeiro encontro. Na esperança de que possa ser
sedutor, atraente, tentador. E que possa redundar na construção de uma
lembrança (mesmo vaga) que fique por toda a vida. Mais ainda: na
torcida para que, dessa forma, possa equivaler a convite para a
posterior exploração de um território muito rico, já então na fase das
leituras por conta própria.”
[10]
Para a autora, o “clássico não é livro
antigo e fora de moda. É livro eterno que não sai de moda.”
[11]
Lajolo[12]
reforça que, em
Lobato não falta a idéia de que “[...]ouvir a história de Dom Quixote
não é a mesma coisa que lê-la, e lê-la na íntegra, cabendo também a
Dona Benta chamar a atenção das crianças para a diferença entre
originais e suas adaptações.” Para a avó é uma pena que as crianças
ainda não consigam ler o original por completo:
- É uma lástima – disse Dona Benta – eu
estar contando Sá a parte aventuresca da história do cavaleiro da
Mancha. Um dia, quando vocês crescerem e tiverem inteligência mais
aberta pela cultura, havemos de ler a obra inteira nesta tradução dos
dois viscondes, que é ótima.[13]
Parece evidente para
Dona Benta que a narrativa adaptada só terá sentido, se ela salientar
a importância da literatura clássica e a preservação da fonte:
- Mas você devia respeitar essa edição,
que é rara e preciosa. Tenha lá as idéias que quiser, mas acate a
propriedade alheia. Esta edição foi feita em Portugal há muitos anos.
Nela aparece a obra de Cervantes traduzida pelo famoso Visconde de
Castilho e pelo Visconde de Azevedo.[14]
Segundo Lajolo, a relação de Dona Benta
com a cultura é “mais complexa, mais aprofundada, mais antiga, e que
assim se proclama sem falsos escrúpulos de um igualitarismo enganoso”,
ainda para ela esse aspecto cultural da avó das crianças “[...] parece
sugerir que entre um iniciador de leitura e seus iniciandos (ou entre
professor e seus alunos) não se deve estabelecer nenhum nivelamento
por baixo.”
[15]
A autora destaca o
fato de dona Benta transitar do estilo de Castilho da tradução
portuguesa da obra contada por ela para o estilo coloquial de sua
platéia, sendo assim uma poliglota dentro da língua portuguesa e tem
consciência de seu papel como condutora das crianças à leitura:
Dona Benta, como todo e qualquer leitor
competente da língua escrita e oral, é poliglota, isto é, transita com
facilidade do estilo clássico de Castilho para o estilo coloquial de
sua platéia. Mas tem plena consciência de que ambas as modalidades são
diferentes, e que sua responsabilidade, como iniciadora dos jovens na
prática de leitura, é levá-los até o classicismo de Castilho.[16]
Quando Narizinho comenta que é uma pena
que Dom Quixote não vença sempre suas batalhas e critica Cervantes por
tratar tão mal seus personagens. A narradora Dona Benta explica que
isso é para equilibrar outras histórias de cavaleiros andantes, nas
quais os heróis venciam sempre. Como leitora consciente em relação ao
mundo real, a avó sabe que é preciso mostrar aos pequenos que a vida
não é só feita de vitórias. Bettelheim salienta que muitos pais
discordam dessa posição defendida por Dona Benta, eles “[...]
acreditam que só a realidade consciente ou imagens agradáveis e
otimistas deveriam ser apresentadas à criança – que ela só deveria se
expor ao lado agradável das coisas.” Para o psicanalista “essa visão
unilateral nutre a mente apenas de modo unilateral, e a vida real não
é só agradável.”
[17]
A função de Dona Benta não se resume,
apenas, em levar o clássico de Cervantes para os pequenos de uma forma
mais acessível, ela também cita outras obras, outros personagens,
outros autores para que as crianças sempre tenham curiosidade de
conhecer outros livros, e Emília já conhece e está muito curiosa
“[...]. Eu poderei admirar muito os escritores clássicos; mas, para
ler, quero os modernos, como esse tal Machado de Assis que a senhora
tanto gaba.”[18]
A avó tem
consciência de seu papel como condutora das crianças na iniciação da
leitura, por isso nunca se cansa de contar histórias todos os dias,
para Fanny Abramovich, é muito importante na formação dos pequenos
ouvirem histórias:
Ah, como é importante para a formação de
qualquer criança ouvir muitas, muitas histórias... Escutá-las é o
início da aprendizagem para ser um leitor, e ser leitor é ter um
caminho absolutamente infinito de descoberta e de compreensão de
mundo...
[19]
Em razão de a
criança estar em um processo de formação, muitas vezes em um primeiro
contato com um clássico, ela pode se apavorar com a leitura, já que
esta pode ser cansativa e sem nenhuma significação. Por isso cabe ao
adulto, como condutor da criança no caminho pelo gosta da leitura,
levá-la a um contato com uma obra adaptada à sua visão de mundo, ao
seu conhecimento, à sua fase de vida, para que ela venha quando
adulto, se interessar pela leitura dos originais que conheceu como
forma adaptada, não ficando constrangido com esse tipo de leitura.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura
infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scipione, 1989.
BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos
contos de fadas. 11.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote de
la Mancha.. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para
a leitura do mundo. São Paulo:Ática, 1993.
LOBATO, Monteiro. Dom Quixote das
crianças. São Paulo: Linoart, 1992.
MACHADO, Ana Maria. Como e por que ler
os clássicos universais desde cedo.Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.
RODARI, Gianni. Gramática da
fantasia.7. ed. São Paulo: Summus, 1982.
[1]
Professora de Literatura, Língua Portuguesa e Língua Española do
Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves, Licenciada em
Letras/Espanhol pela UNISC, Mestre em Letras- Leitura e cognição
pela UNISC.
[19]
ABRAMOVCH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices.
São Paulo: Scipione, 1989, p. 16.