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CULTURA - Literatura
Fragmentos de Roland Barthes: entre l’ovie et l’obtus    

Rodrigo da Costa Araujo (UFF/FAFIMA)[1]

publicado em 01/12/2008

Para Latuf Isaias Mucci

 

UMA BIOGRAFIA PÓS-MODERNA

“É preciso conceber o escritor (ou o leitor: é a mesma coisa) como um homem perdido em uma galeria de espelhos: ali onde a sua imagem está faltando, ali está a saída, ali está o mundo” (BARTHES, Roland. 1982,  p.51).

 

            Ao ler o livro Roland Barthes par Roland Barthes - livro ele mesmo fragmentário, intertextual, autobiográfico, - o leitor se questiona, algumas vezes pedido nesse labirinto, quem é Roland Barthes. O mesmo fez Susan Sontag ao escrever L’éscriture même à propôs de Barthes (1982) e constatar que se tratava de um Proteu, um camaleão, um ser ao avesso, mas, também, um crítico extremamente subversivo e apaixonado pelo mundo dos signos onde ele mesmo, paradoxalmente, se escondia.

            Pensando assim, seguem dez notas para ler esse possível retrato, auto-retrato, essa ficção desfocada, entre as margens do tom ensaístico e romanesco.

            1. Os leitores escrevem como Roland Barthes o texto de Roland Barthes. “Uma frase, um período, a idéia sob exata forma, a união de conceitos e ato, estamos apaixonados - há, na escuta, um corpo se apresentando, tornando-nos também a nós, imediatamente corporais, sensuais” (SANTOS, 1999, p.96).

            2. O corpo plural: “Que corpo? Temos vários.” Tenho um corpo digestivo, tenho um corpo nauseante, um terceiro cefalálgico, e assim por diante: sensual, muscular (a mão do escritor), humoral, e, sobretudo: emotivo: que fica emocionado, agitado, entregue ou exaltado, ou atemorizado, sem que nada transpareça. Por outro lado, sou cativado até o fascínio pelo corpo socializado, o corpo mitológico, o corpo artificial (o dos travestis japoneses) e o corpo prostituído (o do ator)”  (BARTHES, 1977, p. 68).

            3. O Amador: “o amador (aquele que pratica a pintura, a música, o esporte, a ciência, sem espírito de maestria ou de competição), o Amador reconduz seu gozo (amator: que ama e continua amando); não é de modo algum um herói [...] ele se instala graciosamente (por nada) no significante” (BARTHES, 1977, p. 59).

            4. A coincidência: “O fato (biográfico, textual) se abole no significante, porque ele coincide imediatamente com este: escrevendo-me, apenas repito a operação extrema pela qual Balzac, em Sarrasine, fez “coincidir” a castração e a castratura: e ou eu mesmo meu próprio símbolo, sou a história que me acontece [...]” (BARTHES, 1977, p. 64).

            5. “Escrevo um texto e o chamo de R. B.” (BARTHES, 1977, p.64).

            6. A arrogância: “[...] A arrogância circula, como um vinho forte entre os convivas do texto”. O intertexto compreende não apenas textos delicadamente escolhidos, secretamente amados, livres, discretos, generosos, mas também textos comuns, triunfantes. Você mesmo pode ser um texto arrogante de um outro texto” (BARTHES, 1977, p. 53-54).

            7. O círculo dos fragmentos: “Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em migalhas; no centro, o quê?” (BARTHES, 1977, p. 101). [...] “Como? Quando se colocam fragmentos em seqüência, nenhuma organização é possível? Sim: o fragmento é como a idéia musical de um ciclo [...] cada peça se basta, e no entanto ele nunca é mais do que o interstício de suas vizinhas: a obra é feita somente de páginas avulsas” (BARTHES, 1977, p. 102).

            8. A dupla figura: “Esta obra, em sua continuidade, procede por via de dois movimentos: a linha reta (a repetição, a ampliação, a insistência de uma idéia, de uma posição, de um gosto, de uma imagem) e o ziquezague (o contrapelo, a contramarcha, a contrariedade, a energia reativa, a denegação, a volta de uma ida, o movimento do Z, a letra do desvio). (BARTHES, 1977, p. 98).

            9. Quanto a mim, eu: “o sujeito se coloca alhures, e a “subjetividade” pode voltar num outro trecho da espiral: desconstruída, desunida, deportada, sem ancoragem: por que eu falaria de “mim”, já que “mim” não é mais “si”? Pronomes ditos pessoais: tudo se joga aqui, estou fechado para sempre na liça pronominal: o “eu” mobiliza o imaginário, o “você” e o “ele” a paranóia. Mas também, fugitivamente, conforme o leitor, tudo, como os reflexos de um chamalote, pode revirar-se: em “quanto a mim, o “eu” pode não ser o mim, que ele quebra de um modo carnavalesco; posso me chamar de “você”, como Sade o fazia, para destacar em mim o operário, o fabricante, o produtor de escritura, do sujeito da obra ( o Autor); por outro lado, não falar de si pode querer dizer: falo de mim como se estivesse um pouco morto, preso numa leve bruma de ênfase paranóica, ou ainda: falo de mim como o ator brechtiano que deve distanciar sua personagem : “mostrá-lo”, não encarná-lo, dar à sua dicção uma espécie de piparote, cujo efeito é deslocar o pronome de seu nome a imagem de seu suporte, o imaginário de seu espelho (Brecht recomendava ao ator que pensasse todo o seu papel na terceira pessoa). (BARTHES, 1977, p. 179).

10. O jogo, o pastiche: “Dentre as numerosas ilusões que ele cultiva sobre si mesmo, existe esta, tenaz: que ele gosta de jogar, e, portanto, que tem o poder de fazê-lo; ora, ele nunca fez um pastiche (pelo menos voluntariamente), exceto quando estava no liceu [...] embora muitas vezes tivesse tido vontade de o fazer. Pode haver uma razão teórica para isso: quando se trata de desmontar o jogo do sujeito, jogar é um método ilusório, e mesmo de efeito contrário ao que se busca: o sujeito de um jogo é mais consistente do que nunca; o verdadeiro jogo não está em mascarar o sujeito, mas em mascarar o próprio jogo. (BARTHES, 1977, p. 152)

            “Relato interno”, “duplicação interior”, “composição em abismo”, “construção em abismo”, “estrutura em abismo”, “narração em primeiro e segundo graus” - todas essas denominações se referem à uma técnica narrativa, inspirada em procedimentos encontrados nas artes plásticas (pintura) e, que, posteriormente e com as adaptações necessárias e especificidade de cada forma de arte, chegou à literatura e às outras linguagens. Nesse livro de Barthes, a técnica é utilizada como efeito de um retrato que se pretende traçar, um retrato dentro de outro retrato, como em enclave, uma fabricação com diversas linguagens ou uma narração secundária que se desenvolve a partir da ficção original.

            A esses jogos de espelhos, instigando o leitor e o espectador mais atento, Lucien Dallenhach (1991), principal teórico desse conceito, chamou de mise em abyme[1][2], que é “todo fragmento textual que mantém uma relação de semelhança com a obra que o contém”, funcionando, nesse caso, como um reflexo ou espelho da proposta semiológica de Barthes.

            Alguns estudiosos acreditam que essa forma metanarrativa gera uma sensação de maior ficção (como se o leitor fosse ainda mais atraído para o jogo da criação e do pastiche), porém, alguns teóricos pensam que o recurso alerta o público e o leitor para a “irrealidade” da trama. Em Barthes, essa escritura derradeira, em espiral, abismal e especular reforça, além desse olhares, também a duplicação ao infinito, a ficção de si, a reflexão por semelhança ou mesmo por contraste. Sempre num jogo de signos, de linguagem.

 

EU SOU UM OUTRO: INCONCLUSÕES 

“Tudo isso deve ser considerado como se fosse dito por uma personagem de romance”. Esta afirmação sintetiza a direção do fascínio de qualquer leitor que se aproxima do livro Roland Barthes por Roland Barthes; a volta ao objeto de estudo desse recorte/ensaio: o auto-retrato, ao interessante jogo discursivo e sutil dos “eus” que se estabelecem entre o crítico e o escritor, objeto de olhares.

            Se a partir da afirmação anterior é possível entender que a ficção barthesiana é construída a partir de pactos, a partir de diálogos entre autor, crítico e personagem, esta leitura que se volta para a descoberta de retratos é uma partilha entre leitor sagaz e paciente; espécie de inventor de associações imprevistas (obtusas) e divulgador de um escritor/crítico que se revela como se novo fosse a cada associação inesperada.

            Entre os disfarces do artista e do discurso, nessas leituras há um cruzamento irônico de caminhos difíceis de mapear, porém ambos se mascaram para entreolharem-se com curiosidade e é difícil saber onde a enunciação do primeiro foi descoberta/construída pela sagacidade do segundo: nesse cruzamento, o autor é nome guardado no tempo, mas as leituras plurais são possibilidades de revelações do que está guardado para a criação de um valor presente.

            As leituras de Roland Barthes por Roland Barthes desconstroem o autor (como seu próprio autor) para descobrir nele o leitor de outros textos (retratos) que atuam como sementes de sua escritura romanesca. Entre o biografema e o romanesco, entre o ensaio e a autobiografia, entre disfarces e crítica, apenas o afrontamento os desvela ou a fronteira difusa que se coloca para o leitor como desafio instigante a descobrir os limites que os envolvem o que se pensa como obtuso.

            Ver ou ler esses retratos prometem apontar em Barthes, o caminho que o transforma de autor em leitor de ficção, de romancista em semiólogo. Neste livro, o artista-Barthes e o crítico se desafiam para proporcionarem, ao leitor de ambos, uma revisão da literatura a partir da leitura responsável pela descoberta do autor nos textos que lê e pelo crítico na maneira como descobre esse autor/leitor. Entre o artista-camaleônico e o semiólogo há apenas um disfarce de autores, ambos são leitores.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARAUJO, Rodrigo da Costa. O “eu” plural em Roland Barthes por Roland Barthes. In: V Congresso de Letras da UERJ/ SÃO GONÇALO, 2008.

 

BARTHES, Roland. . Sade, Fourier, Loyola. São Paulo. Brasiliense. 1990.

_______. Roland Barthes por Roland Barthes. Paris. Seuil. 1975.

_______. Roland Barthes por Roland Barthes. Lisboa. Edições 70. 1976.

_______. O Prazer do Texto. São Paulo. Perspectiva. 1977.

_______. Roland Barthes por Roland Barthes. São Paulo. Cultrix. 1977.

_______. Sollers Escritor. Rio de Janeiro. Tempo brasileiro. Fortaleza. Universidade Federal do Ceará.1982.

_______. O Óbvio e o Obtuso: ensaios críticos III. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1990.

DALLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto. In: Intertextualidades. Coimbra. Almedina. 1979.

_______. El Relato Especular. Madrid. Visor. Literatura e Debate crítico. 1991.

FOUCAULT, Michel. O que é um autor? Lisboa. Veja Passagens. 1992.

LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico. Belo Horizonte. Ed. UFMG. 2008.

PERRONE-MOISÉS, Leila. Barthes: o saber com sabor. Brasiliense. São Paulo, 1983.

SONTAG, Susan. L’éscriture même à propôs de Barthes. Christian Bourgois Éditeur. Paris. 1982.

 

Notas:


[1] A mise en abyme consiste num processo de reflexividade literária, de duplicação especular.  Tal auto-representação pode ser total ou parcial, mas também pode ser clara ou simbólica, indirecta.  Na sua modalidade mais simples, mantém-se a nível do enunciado:  uma narrativa vê-se sinteticamente representada num determinado ponto do seu curso.  Numa modalidade mais complexa, o nível de enunciação seria projectado no interior dessa representação:  a instância enunciadora configura-se, então, no texto em pleno acto enunciatório.  Mais complexa ainda é a modalidade que abrange ambos os níveis, o do enunciado e o da enunciação, fenómeno que evoca no texto, quer as suas estruturas, quer a instância narrativa em processo.  A mise en abyme favorece, assim, um fenómeno de encaixe na sintaxe narrativa, ou seja, de inscrição de uma micro-narrativa noutra englobante, a qual, normalmente, arrasta consigo o confronto entre níveis narrativos. Em qualquer das suas modalidades, a mise en abyme denuncia uma dimensão reflexiva do discurso, uma consciência estética activa ponderando a ficção, em geral, ou um aspecto dela, em particular, e evidenciando-a através de uma redundância textual que reforça a coerência e, com ela, a previsibilidade ficcionais.

Annabela Rita. In: http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/mise_en_abime.htm .acesso em 20/09/2008.

 

[1] Rodrigo da Costa Araujo é Especialista em Literatura pela FAFIMA, Mestre em Ciência da Arte pela UFF e professor de Literatura e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Macaé. E-mail: rodricoara@uol.com.br

 

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