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Para Latuf Isaias Mucci
UMA BIOGRAFIA
PÓS-MODERNA
“É
preciso
conceber
o
escritor
(ou
o
leitor:
é a
mesma
coisa)
como
um
homem
perdido
em
uma
galeria
de
espelhos:
ali
onde
a sua
imagem
está faltando,
ali
está a
saída,
ali
está o
mundo”
(BARTHES, Roland. 1982, p.51).
Ao
ler o livro Roland Barthes par Roland Barthes - livro ele mesmo
fragmentário, intertextual, autobiográfico, - o leitor se questiona,
algumas vezes pedido nesse labirinto, quem é Roland Barthes. O mesmo fez
Susan Sontag ao escrever L’éscriture même à propôs de Barthes
(1982) e constatar que se tratava de um Proteu, um camaleão, um ser ao
avesso, mas, também, um crítico extremamente subversivo e apaixonado
pelo mundo dos signos onde ele mesmo, paradoxalmente, se escondia.
Pensando assim, seguem dez notas
para ler esse possível retrato, auto-retrato, essa ficção desfocada,
entre as margens do tom ensaístico e romanesco.
1. Os leitores escrevem como
Roland Barthes o texto de Roland Barthes. “Uma frase, um período, a
idéia sob exata forma, a união de conceitos e ato, estamos apaixonados -
há, na escuta, um corpo se apresentando, tornando-nos também a nós,
imediatamente corporais, sensuais” (SANTOS, 1999, p.96).
2. O corpo plural: “Que corpo?
Temos vários.” Tenho um corpo digestivo, tenho um corpo nauseante, um
terceiro cefalálgico, e assim por diante: sensual, muscular (a mão do
escritor), humoral, e, sobretudo: emotivo: que fica emocionado, agitado,
entregue ou exaltado, ou atemorizado, sem que nada transpareça. Por
outro lado, sou cativado até o fascínio pelo corpo socializado, o corpo
mitológico, o corpo artificial (o dos travestis japoneses) e o corpo
prostituído (o do ator)” (BARTHES, 1977, p. 68).
3. O Amador: “o amador (aquele
que pratica a pintura, a música, o esporte, a ciência, sem espírito de
maestria ou de competição), o Amador reconduz seu gozo (amator:
que ama e continua amando); não é de modo algum um herói [...] ele se
instala graciosamente (por nada) no significante” (BARTHES, 1977,
p. 59).
4. A coincidência: “O fato
(biográfico, textual) se abole no significante, porque ele coincide
imediatamente com este: escrevendo-me, apenas repito a operação extrema
pela qual Balzac, em Sarrasine, fez “coincidir” a castração e a
castratura: e ou eu mesmo meu próprio símbolo, sou a história que me
acontece [...]” (BARTHES, 1977, p. 64).
5. “Escrevo um texto e o chamo de
R. B.” (BARTHES, 1977, p.64).
6. A arrogância: “[...] A
arrogância circula, como um vinho forte entre os convivas do texto”. O
intertexto compreende não apenas textos delicadamente escolhidos,
secretamente amados, livres, discretos, generosos, mas também textos
comuns, triunfantes. Você mesmo pode ser um texto arrogante de um outro
texto” (BARTHES, 1977, p. 53-54).
7. O círculo dos fragmentos:
“Escrever por fragmentos: os fragmentos são então pedras sobre o
contorno do círculo: espalho-me à roda: todo o meu pequeno universo em
migalhas; no centro, o quê?” (BARTHES, 1977, p. 101). [...] “Como?
Quando se colocam fragmentos em seqüência, nenhuma organização é
possível? Sim: o fragmento é como a idéia musical de um ciclo [...] cada
peça se basta, e no entanto ele nunca é mais do que o interstício de
suas vizinhas: a obra é feita somente de páginas avulsas” (BARTHES,
1977, p. 102).
8. A dupla figura: “Esta obra, em
sua continuidade, procede por via de dois movimentos: a linha reta
(a repetição, a ampliação, a insistência de uma idéia, de uma posição,
de um gosto, de uma imagem) e o ziquezague (o contrapelo, a
contramarcha, a contrariedade, a energia reativa, a denegação, a volta
de uma ida, o movimento do Z, a letra do desvio). (BARTHES, 1977, p.
98).
9. Quanto a mim, eu: “o sujeito
se coloca alhures, e a “subjetividade” pode voltar num outro trecho da
espiral: desconstruída, desunida, deportada, sem ancoragem: por que eu
falaria de “mim”, já que “mim” não é mais “si”? Pronomes ditos pessoais:
tudo se joga aqui, estou fechado para sempre na liça pronominal: o “eu”
mobiliza o imaginário, o “você” e o “ele” a paranóia. Mas também,
fugitivamente, conforme o leitor, tudo, como os reflexos de um
chamalote, pode revirar-se: em “quanto a mim, o “eu” pode não ser o mim,
que ele quebra de um modo carnavalesco; posso me chamar de “você”, como
Sade o fazia, para destacar em mim o operário, o fabricante, o produtor
de escritura, do sujeito da obra ( o Autor); por outro lado, não falar
de si pode querer dizer: falo de mim como se estivesse um pouco morto,
preso numa leve bruma de ênfase paranóica, ou ainda: falo de mim como o
ator brechtiano que deve distanciar sua personagem : “mostrá-lo”, não
encarná-lo, dar à sua dicção uma espécie de piparote, cujo efeito é
deslocar o pronome de seu nome a imagem de seu suporte, o imaginário de
seu espelho (Brecht recomendava ao ator que pensasse todo o seu papel na
terceira pessoa). (BARTHES, 1977, p. 179).
10. O jogo, o pastiche: “Dentre as numerosas
ilusões que ele cultiva sobre si mesmo, existe esta, tenaz: que ele
gosta de jogar, e, portanto, que tem o poder de fazê-lo; ora, ele nunca
fez um pastiche (pelo menos voluntariamente), exceto quando estava no
liceu [...] embora muitas vezes tivesse tido vontade de o fazer. Pode
haver uma razão teórica para isso: quando se trata de desmontar o jogo
do sujeito, jogar é um método ilusório, e mesmo de efeito contrário ao
que se busca: o sujeito de um jogo é mais consistente do que nunca; o
verdadeiro jogo não está em mascarar o sujeito, mas em mascarar o
próprio jogo. (BARTHES, 1977, p. 152)
“Relato interno”, “duplicação
interior”, “composição em abismo”, “construção em abismo”, “estrutura em
abismo”, “narração em primeiro e segundo graus” - todas essas
denominações se referem à uma técnica narrativa, inspirada em
procedimentos encontrados nas artes plásticas (pintura) e, que,
posteriormente e com as adaptações necessárias e especificidade de cada
forma de arte, chegou à literatura e às outras linguagens. Nesse livro
de Barthes, a técnica é utilizada como efeito de um retrato que se
pretende traçar, um retrato dentro de outro retrato, como em enclave,
uma fabricação com diversas linguagens ou uma narração secundária que se
desenvolve a partir da ficção original.
A esses jogos de espelhos,
instigando o leitor e o espectador mais atento, Lucien Dallenhach
(1991), principal teórico desse conceito, chamou de mise em abyme[1][2],
que é “todo fragmento textual que mantém uma relação de semelhança com a
obra que o contém”, funcionando, nesse caso, como um reflexo ou espelho
da proposta semiológica de Barthes.
Alguns estudiosos acreditam que
essa forma metanarrativa gera uma sensação de maior ficção (como se o
leitor fosse ainda mais atraído para o jogo da criação e do pastiche),
porém, alguns teóricos pensam que o recurso alerta o público e o leitor
para a “irrealidade” da trama. Em Barthes, essa escritura derradeira, em
espiral, abismal e especular reforça, além desse olhares, também a
duplicação ao infinito, a ficção de si, a reflexão por semelhança ou
mesmo por contraste. Sempre num jogo de signos, de linguagem.
EU SOU UM OUTRO: INCONCLUSÕES
“Tudo isso deve ser considerado como se fosse
dito por uma personagem de romance”. Esta afirmação sintetiza a direção
do fascínio de qualquer leitor que se aproxima do livro Roland
Barthes por Roland Barthes; a volta ao objeto de estudo desse
recorte/ensaio: o auto-retrato, ao interessante jogo discursivo e sutil
dos “eus” que se estabelecem entre o crítico e o escritor, objeto de
olhares.
Se a partir da afirmação anterior
é possível entender que a ficção barthesiana é construída a partir de
pactos, a partir de diálogos entre autor, crítico e personagem, esta
leitura que se volta para a descoberta de retratos é uma partilha entre
leitor sagaz e paciente; espécie de inventor de associações imprevistas
(obtusas) e divulgador de um escritor/crítico que se revela como
se novo fosse a cada associação inesperada.
Entre os disfarces do artista e
do discurso, nessas leituras há um cruzamento irônico de caminhos
difíceis de mapear, porém ambos se mascaram para entreolharem-se com
curiosidade e é difícil saber onde a enunciação do primeiro foi
descoberta/construída pela sagacidade do segundo: nesse cruzamento, o
autor é nome guardado no tempo, mas as leituras plurais são
possibilidades de revelações do que está guardado para a criação de um
valor presente.
As leituras de Roland Barthes
por Roland Barthes desconstroem o autor (como seu próprio autor)
para descobrir nele o leitor de outros textos (retratos) que atuam como
sementes de sua escritura romanesca. Entre o biografema e o romanesco,
entre o ensaio e a autobiografia, entre disfarces e crítica, apenas o
afrontamento os desvela ou a fronteira difusa que se coloca para o
leitor como desafio instigante a descobrir os limites que os envolvem o
que se pensa como obtuso.
Ver ou ler esses retratos
prometem apontar em Barthes, o caminho que o transforma de autor em
leitor de ficção, de romancista em semiólogo. Neste livro, o
artista-Barthes e o crítico se desafiam para proporcionarem, ao leitor
de ambos, uma revisão da literatura a partir da leitura responsável pela
descoberta do autor nos textos que lê e pelo crítico na maneira como
descobre esse autor/leitor. Entre o artista-camaleônico e o semiólogo há
apenas um disfarce de autores, ambos são leitores.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARAUJO, Rodrigo da
Costa. O “eu” plural em Roland Barthes
por Roland Barthes. In: V
Congresso de Letras da UERJ/ SÃO GONÇALO, 2008.
BARTHES, Roland. . Sade, Fourier, Loyola.
São Paulo. Brasiliense. 1990.
_______. Roland Barthes por Roland Barthes.
Paris. Seuil. 1975.
_______. Roland Barthes por
Roland Barthes. Lisboa. Edições
70. 1976.
_______. O Prazer do Texto. São Paulo.
Perspectiva. 1977.
_______. Roland Barthes por Roland
Barthes. São Paulo. Cultrix. 1977.
_______. Sollers Escritor. Rio de
Janeiro. Tempo brasileiro. Fortaleza. Universidade Federal do
Ceará.1982.
_______. O Óbvio e o Obtuso: ensaios
críticos III. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1990.
DALLENBACH, Lucien. Intertexto e autotexto.
In: Intertextualidades. Coimbra. Almedina. 1979.
_______. El Relato Especular.
Madrid. Visor. Literatura e Debate crítico. 1991.
FOUCAULT, Michel. O que é um autor?
Lisboa. Veja Passagens. 1992.
LEJEUNE, Philippe. O pacto autobiográfico.
Belo Horizonte. Ed. UFMG. 2008.
PERRONE-MOISÉS, Leila. Barthes: o saber
com sabor. Brasiliense. São Paulo, 1983.
SONTAG, Susan. L’éscriture même à propôs
de Barthes. Christian
Bourgois Éditeur. Paris. 1982.
Notas:
[1] A mise en
abyme consiste num processo de reflexividade literária, de
duplicação especular. Tal auto-representação pode ser total ou
parcial, mas também pode ser clara ou simbólica, indirecta. Na
sua modalidade mais simples, mantém-se a nível do enunciado:
uma narrativa vê-se sinteticamente representada num determinado
ponto do seu curso. Numa modalidade mais complexa, o nível de
enunciação seria projectado no interior dessa representação: a
instância enunciadora configura-se, então, no texto em pleno
acto enunciatório. Mais complexa ainda é a modalidade que
abrange ambos os níveis, o do enunciado e o da enunciação,
fenómeno que evoca no texto, quer as suas estruturas, quer a
instância narrativa em processo. A mise en abyme favorece,
assim, um fenómeno de encaixe na sintaxe narrativa, ou seja, de
inscrição de uma micro-narrativa noutra englobante, a qual,
normalmente, arrasta consigo o confronto entre níveis
narrativos. Em qualquer das suas modalidades, a mise en abyme
denuncia uma dimensão reflexiva do discurso, uma consciência
estética activa ponderando a ficção, em geral, ou um aspecto
dela, em particular, e evidenciando-a através de uma redundância
textual que reforça a coerência e, com ela, a previsibilidade
ficcionais.
Annabela Rita. In:
http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/M/mise_en_abime.htm
.acesso em 20/09/2008.
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