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O “texto” das fezes, a agressão dos sentidos, efeitos impactantes. Estas
podem ser as sensações do leitor, nada inocente, que opta por ler o
conto “Copromancia”, primeiro do livro Secreções, excreções e
desatinos (2001), do escritor contemporâneo Rubem Fonseca.
“Copromancia” é um neologismo criado pelo autor, mas também pode ser um
encaminhamento para ler o livro como um todo.
Pensando
assim, o estranhamento é a palavra chave que norteia a leitura
semiológica das fezes, e, conseqüentemente, a postura do leitor.
Contrariamente a capa do livro, não se falará do corpo estetizado,
codificado em sua exterioridade ou aparência como a Vênus, de
Botticelli - signo significativo realçado na capa preta. Pelo contrário,
procura-se falar (entender) o que ninguém gostaria de perceber, muito
menos examinar-“os excrementos”.
Estranhando tudo isso, o leitor se pergunta: como pode ser?
O que isso sugere? Isso seria um tema literário? Parece um absurdo, mas
pelo viés da ironia- figura de linguagem freqüente que perpassa toda a
sua poética - o autor traça as relações do indivíduo com o seu corpo e
com o corpo do outro, diante do que ocultamos, escondemos, nos
afastamos. A semiologia dos olfatos é enaltecida com o objetivo de
ressaltar o insólito, a sinestesia, o “não-dito”, o “não-percebido”, o
discurso que revela e desvela muito mais do que está registrado,
escrito. Mas o narrador, dissimulado, cruel, fingindo não entender o
asco ou as rejeições do leitor, deixa claro a que veio: apresentar o ser
humano pelo discurso da crueldade, reforçando sua condição e distancia
de Deus. E por isso mesmo, indaga, ironicamente:
“Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo,
ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do nada, destinou-o a
defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de
transformar em merda tudo o que comemos, revelado sua incapacidade de
criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos?
Ergo, a merda?” (FONSECA, 2001, p.7).
Como neste fragmento, o narrador audacioso, logo de início,
não pretende tapar o nariz diante de si mesmo, muito menos poupar o
olfato do leitor disso. Ao contrário, e independentemente, do mal estar,
vai procurar ler os seus excrementos buscando pistas semióticas e
proféticas: quer, com esse gesto, recuperar os sentidos, encontrar Deus,
no “texto” das fezes. A narrativa é construída escondendo-se num
palimpsesto, estabelecendo-se, pela voz do narrador, que nas entrelinhas
deixa claro duas leituras para o vocábulo escatologia: scato:
tema do vocábulo grego skói, skatós, “excremento” e o
sentido teológico: éschatos (em grego, destino final do homem e
do mundo).
Assim, espera-se, ironicamente, a leitura das fezes como
“texto”, como semiótica do excremento e, para entender a vida como a
leitura que se faz dos astros, da mão, das cartas. O narrador,
acreditando nessas leituras, nessas copromancias, supõe que, através
desse gesto, construirá um método para decifrar o texto oculto nos
excrementos e conseguirá atingir alguma verdade científica sobre si. Por
que:
“Toda leitura exige um vocabulário e evidentemente uma
semiótica, sem isso o intérprete, por mais capaz e motivado que seja,
não consegue trabalhar. Talvez o meu Álbum de fezes já fosse uma espécie
de léxico, que eu criaria inconscientemente para servir de base às
interpretações que agora pretendia fazer” (FONSECA, 2001, p.13).
Segundo a leitura de Vera Lucia F. de Figueiredo, a pesquisa
do narrador “desfaz a dicotomia alto/baixo, já que procura ler no “texto
fezes”, a letra sagrada, a palavra divina. E esta vai anunciar a morte –
o que nos remete para o próprio sentido de “obsceno”, que, em latim,
significa o que é mau agouro, fatal, e passa, por extensão, a significar
as partes sensuais do homem, o que é imundo, excremento” (2003, p.120).
Alegoricamente, segundo esta leitura, desliza-se da idéia de morte para
a de sujeita e daí para o baixo corporal: “tudo abarcado pelo campo do
“obsceno”, para onde foi expulso aquilo que a cultura quer esconder no
afã de espiritualizar o homem, de ocultar as limitações que lhe são
impostas” (FIGUEIREDO, 2003, p.120).
Copromancia problematiza-se com muito humor e ironia
corrosiva, a morte nas relações do homem com a escatologia, os
excrementos, o corpo a corpo consigo mesmo. E, nessas decifrações do
corpo, instiga-se uma leitura feroz, construída pelos instintos, pelo
“neo-naturalismo”. O “desatino”, presente no título do livro fica por
conta do leitor, apavorado com tanta ironia.
Essa herança naturalista presente na poética de Rubem
Fonseca reforça, querendo ou não, retomadas intertextuais de uma
“poética do feio”, do nojento, asqueroso, do anti-herói, de temáticas
discutidas no século XIX. Na verdade, os temas repulsivos, não passam
de uma estratégia da narrativa fonsequiana que enaltece o efeito
desconcertante, produzindo por seu texto um jogo entre frieza do
narrador e a força feroz do que se narra. O absurdo, o desatino, o
bizarro, apesar de causarem alguma repulsa, por parte dos leitores
inocentes, podem, também, causar extremas risadas no leitor mais atento,
perspicaz.
Esses extremos, na verdade, funcionam como recurso
estilístico e transversal, algo que retalha um discurso por outro - seja
no plano da linguagem, sejam nos das personagens e acontecimentos - é
característica da linguagem fonsequiana embaralhar referências
literárias com o mesmo sentido.O feio, o engraçado, o grotesco assumem
provocações pós-modernas que desmontam a postura do leitor que não
aceita a errância, a transgressão, a ousadia dos acontecimentos
inesperados.
O estilo neo-naturalista, mais que real, perverso e
transgressor de Rubem Fonseca vem reafirmar a tendência urbana que a
literatura brasileira contemporânea adquiriu após a ditadura militar.
Saem de cena as narrativas regionais e entram em cena as narrativas
ditas pós-modernas: aquelas que narram a crueldade, a violência verbal e
social, a morte, o sofrimento, a AIDS, o trânsito e o caos que acomete
as cidades após a década de 1950.
E por isso mesmo, olhando com outros olhos, podem-se ler
alguns contos de Secreções, excreções e desatinos como um deboche
da pretensão do ser humano de escapar da causalidade, de criar métodos
que lhe permitam entender o passado e controlar o futuro. Ou seja,
ironizam-se algumas crenças como forma de enfrentamento da vida, como
recurso para justificar os atos humanos.
O naturalismo, retomado na prosa feroz de Rubem Fonseca,
utiliza as fezes como significante concreto e elemento de pesquisa de
entendimento do homem e do seu destino. Pelas fezes, instauram-se
mecanismos mentais para entendimentos de uma interpretação totalizante.
Por isso mesmo, ironicamente o narrador explora a função metalingüística
na etimologia do significante “escatologia”, espécie de pesquisa
excrementícia ou teológica.
Na agonia de entender o que se inscreve além das aparências
das fezes, o narrador vive o esforço de depreender do contínuo do bolo
fecal as unidades que lhe permite decifrar o código enigmático,
apontando as incertezas do discurso científico e do conhecimento
ilusório dos fenômenos que aconteceram nesse ato. De certa forma, com
esse gesto, Rubem Fonseca desconstrói o cientificismo proposto na
estética naturalista.
Feito fotografia instantânea, a escritura fonsequiana parece
captar o ângulo insólito das cenas para quebrar os automatismos do
leitor ou da visão inocente, e liberar o olho do espectador/leitor da
subserviência ao sujeito da enunciação. Nesse caso, sua poética pode ser
associada ao conceito de estranhamento que lhe serviria de base para uma
virada radical na prática da escritura/fotoescritura habitual. Chklóski
defendia um conjunto de técnicas de construção, cuja função seria
perturbar as nossas percepções rotineiras e forçar a sensibilidade a
“estranhar” o arranjo simbólico que lhe é apresentado: o discurso
difícil e tortuoso, o ponto de vista não familiar deveriam impedir o
envolvimento inocente e exigir o empenho do leitor/espectador para
decodificar o “texto”.
“O exame das fezes é muito importante nos diagnósticos
definidores dos estados mórbidos, é um destacado instrumento da
semiótica médica. Se somos o que comemos,como disse o filósofo, somos
também o que defecamos.Deus fez a merda por alguma razão”(FONSECA, 2001,
p.10).
Novamente, nesse fragmento, confirma-se que o personagem não
consegue entender o real, que a linguagem é incapaz de descrever esses
fenômenos, algo que ele não consegue explicar. O discurso da estética
naturalista, então, é desconstruído pelo viés das incertezas, da ironia
e do humor.
Utilizando frases prontas, discursos pautados no senso
comum, Rubem Fonseca reconstrói a retórica do realismo-naturalismo, -
muitas vezes preconceituosa e limitadora-, para oferecer situações
bizarras que exploram o cômico, o corpo e os seus descontroles. Seguindo
esta linha, sua ficção permite uma dupla leitura, como se houvesse
virtualmente dois discursos presos à narrativa maior - o leitor pode
prender-se apenas ao desenvolvimento do enredo, deixando-se guiar e
seduzir pelos princípios do neo-naturalismo ou optar por perder-se no
jogo intertextual do cômico, das bizarrices que podem surgir com
qualquer um.
Mas não pode fugir da inquietude, do mal estar
contemporâneo, do estranhamento, do “efeito de real”[i],
dos constrangimentos, da filosofia fonsequiana que joga com a linguagem
científica e lúdica, do imaginário que exige, evidentemente, uma
semiótica para significantes que dão sentido à morte, independente das
situações embaraçosas que podem surgir.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTHES,
Roland. Literatura e Realidade. (O que é realismo). Lisboa.
Publicações Dom Quixote. 1984.
FIGUEIREDO, Vera Lucia F. de. Os Crimes do Texto: Rubem Fonseca e a
ficção contemporânea. Belo Horizonte, Ed. UFMG. 2003.
FONSECA,
Rubem. Copromancia. In: Secreções, excreções e desatinos.
São Paulo. Companhia das Letras, 2001.pp.7-18.
CHKLOVSKI, Vítor (1976). A arte como procedimento. In: Teoria
da literatura: formalistas russos. Dionísio de Oliveira Toledo
(org.). Porto Alegre: Globo, pp.39-56.
[i] BARTHES, Roland. O efeito de real. In:
Literatura e Realidade. (O que é realismo?). pp. 87-98 O
realismo, segundo TODOROV na apresentação desse livro diz: “ O
realismo [...] tem como função dissimular qualquer regras
dar-nos a impressão de que o discurso é em si mesmo
perfeitamente transparente (quase seria possível dizer-se
inexistente) e de que estamos perante o vivido - um fragmento de
vida. O realismo é um tipo de discurso que pretende fazer-se
passar por outro; um discurso em que o ser e o parecer não
coincidem” (1984, p.11).
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