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RESUMO
Sem
dúvida,
foi
Machado
de Assis
quem
elevou a
prosa
brasileira
ao
nível
das
melhores
escritas
no
mundo
em
sua
época.
O
texto
machadiano,
em
verdade,
antecipa procedimentos modernistas e
descobertas
psicanalíticas, evidenciando as
mazelas
humanas de
forma
ácida
e
irônica.
Este
trabalho,
portanto,
pretende
estudar
as
fraquezas
e
incoerências
do
homem
moderno
à
luz
das
idéias
machadianas.
O
espelho:
um
esboço
Ninguém
melhor
que
o "Bruxo do Cosme
Velho"
para
discorrer
sobre
as
fraquezas
e
incoerências
dos
homens.
O
conto
O
espelho
–
esboço
de uma
nova
teoria
da
alma
humana
(ASSIS, 1998, p.26-43),
que
pertence
originalmente
ao
livro
Papéis
avulsos,
poderia
ser
uma releitura
machadiana
do
Mito
do
Narciso.
É a
tradução
das
questões
do
homem
moderno:
narcisismo,
busca
por
uma
carreira
pessoal
bem
sucedida. Jacobina,
personagem
central
do
conto
demonstra
saber
manipular
pessoas
através
da
sua
moeda
de
troca:
poder
social.
Para
Marcel Mauss, nessa
relação
de
troca
de Jacobina se daria a
dádiva,
pois
para
ele
basta
haver
uma
prestação
unilateral,
um
favorecimento
e uma
aceitação
para
gerar
valor;
isto
é, uma
ética
impõe-se
mesmo
aqueles
que
não
retribuem
ainda
que
isso
ocorra
em
cada
caso
específico
(MAUSS, 2003, p.185-193).
Eis
a
história:
– numa
noite
qualquer,
um
grupo
de
cavalheiros
debatia
sem
maiores
emoções
questões
de
metafísica.
Quando
no
meio
da
noite,
o
conviva
de
nome
Jacobina –
que
até
então
não
se manifestara
por
acreditar
que
a "discussão
é a
forma
polida
do
instinto
batalhador,
que
jaz no
homem,
como
uma
herança
bestial"
(ASSIS, 1998, p.27) – decidiu
falar
sobre
a
natureza
da
alma
humana.
Antes
mesmo
que
alguém
viesse a se
manifestar,
tratou
logo
em
avisar
que
não
discutiria
com
os
demais
oponentes;
se quisessem
ouvir
que
fossem
calados,
pois
contaria
um
episódio
de
sua
vida
sobre
a
matéria
em
questão.
Numa
polidez
exemplar
começou a
narrar:
“–
tinha
vinte e
cinco
anos,
era
pobre,
e acabava de
ser
nomeado
alferes
da
guarda
nacional"(ASSIS,
1998, p.30). Os
festejos
foram
vários:
sua
mãe
era
só
alegria
e
orgulho,
não
se continha e vivia a chamá-lo de "seu
alferes".
Primos
e
tios
igualmente
compartilhavam a
atmosfera
de
felicidade
que
pairava
sobre
a
casa
pobre.
Então,
uma das tias, D. Marcolina,
que
morava
distante
da
vila,
num
sítio
escuso
e
solitário,
desejou vê-lo e pediu
que
fosse ao
seu
encontro
acompanhado
da
farda
de
alferes.
Foi recebido
com
muita
alegria
e
solicitude
pela
sua
tia,
que
fazia de
tudo
para
agradá-lo.
Não
o chamava
mais
de Joãozinho,
como
antes,
agora
era
"senhor
alferes"
para
cá
"senhor
alferes"
para
lá.
Sua
tia
não
poupava
agrados,
chegou ao
ponto
de
mandar
pôr
um
grande
espelho
no
quarto
do
ilustre
hóspede,
que
destoava magnificamente do
resto
da
casa.
Todas estas
atenções
e
carinhos
deixaram
marcas
profundas
em
sua
índole,
de
modo
que
o
título
de
alferes
"eliminou"
durante
alguns
dias
o
próprio
indivíduo.
Nas
palavras
de
Machado:
"Aconteceu
então
que
a
alma
exterior,
que
era
dantes o
sol,
o
ar,
o
campo,
os
olhos
das moças, mudou de
natureza,
e passou a
ser
a
cortesia
e os
rapapés
da
casa,
tudo
o
que
me
falava do
posto,
nada
do
que
me
falava do
homem"(ASSIS,
1998, p.32-3). No
fim
de
três
semanas,
Jacobina
era
outra,
exclusivamente
alferes.
Certo
dia,
D. Marcolina recebeu uma
grave
notícia;
uma das
suas
filhas estava
muito
doente.
Como
morava a
léguas
do
seu
sítio,
decidiu
que
fosse acompanhada
pelo
seu
cunhado,
deixando o
sítio
aos
cuidados
de Jacobina. Num
espaço
de uma
noite,
o
alferes
se
vira
completamente
só,
os
escravos
haviam aproveitado
seu
descuido
e trataram de
fugir.
Sem
mais
ninguém
para
enchê-lo de redobrados
afagos,
Jacobina passou a
sentir
"uma
sensação
como
de
pessoa
que
houvesse perdido
toda
a
ação
nervosa"(ASSIS,
1998, p.35).
Os
dias
pareciam
cada
vez
mais
longos
e
tediosos.
Era,
nas
palavras
de
Machado,
"um
defunto
andando,
um
sonâmbulo,
um
boneco
mecânico"(ASSIS,
1998, p.36). O
alívio
vinha
somente
com
o
sono,
que
lhe
eliminava a
necessidade
de uma
alma
exterior.
Nos
sonhos,
Jacobina
era
novamente
o
alferes,
com
sua
garbosa
farda
a
receber
elogios
e
afagos
de
parentes
e
amigos
próximos.
Mas
quando
acordava, as
aflições
recobravam
seus
efeitos.
Marcel Mauss produziu
um
artigo
chamado “Uma
categoria
do
espírito
humano:
a
noção
de
pessoa,
a
noção
de ‘eu’”,
onde
expõe a
história
do
processo
de
progressiva
individualização
por
que
passou
nossa
civilização
(MAUSS, 2003, p.369-397). Nas
sociedades
ditas “primitivas”, o
máximo
de
individualização
era
representado
pela
atribuição
dada
alguns
de
seus
membros,
de
um
papel
ritual
herdado
por
nascimento. A
idéia
de “pessoa”
surgiu
entre
os
gregos,
inicialmente
com
o
sentido
associado
às
máscaras
utilizadas nas
encenações
rituais
e
teatrais.
Assim,
“pessoa”
era
a
interpretação
de
um
personagem,
cujos
atos
não
eram de autoria de
seu
intérprete.
Per-sonare significa “a
máscara
pela
(per)
qual
ressoa a
voz
(do
ator)”(MAUSS,
2003, p.385).
Somente
na Roma
Antiga,
com
o
desenvolvimento
de
um
sistema
de
trocas
internas e
externas
entre
grupos
e
pessoas,
a
idéia
de persona passou, das
máscaras
que
os
atores
dos
dramas
rituais
usavam,
para
designar
os
próprios
atores.
Surgia a
noção
jurídica
de “pessoa”
que,
entretanto,
não
se aplicava aos
escravos,
estrangeiros
e
mulheres.
Seguindo neste percurso,
por
influência
do
cristianismo
em
Roma, a
responsabilidade
moral
passou a
ser
um
atributo
da
pessoa.
Mas,
até
a modernidade (a
teoria
cartesiana é
emblemática
desta transformação), a
determinação
do
que
era
cada
“pessoa”
dependia de
fatores
externos
(sociais).
Curiosamente,
nos
dias
em
que
ficara
só
Jacobina
não
olhou uma
só
vez
para
o
espelho;
quem
sabe fosse
receio
inconsciente
de achar-se dividido. No
fim
de
oito
dias,
o
receio
tornou-se
verdade:
ao
passar
em
frente
ao
espelho
vira
sua
imagem
difusa,
fragmentada. O
medo
de
enlouquecer
era
cada
vez
mais
forte,
caso
ficasse
mais
tempo
sozinho.
Por
uma
inspiração
inexplicável,
pensou
em
vestir
a
farda
de
alferes;
quando,
para
seu
espanto,
o
vidro
reproduziu
novamente
a
figura
integral,
nenhuma
linha
a
menos.
Sua
imagem
estava
novamente
completa.
Então,
cada
dia,
há
certa
hora,
vestia-se de
alferes,
e parecia
recobrar
a
alma
externa,
ausente
desde
o
momento
que
ficara
só.
Marcel Mauss explica
que
todo
ato
educativo
é
técnica
corporal,
e
que
as
técnicas
corporais
são
sistemas
de
montagens
simbólicas (MAUSS, 2003, p.401-422). Nas
palavras
de Geertz: “o
homem
é
um
animal
simbolizante” (GEERTZ, 1989).
Acessórios,
roupas
são
símbolos
de explicitação do
sucesso
pessoal
dos
indivíduos.
Por
esta
aparência
se
luta,
pois
esta passou a
ser
seu
passaporte
social
e/ou
a
carteira
de
identidade
das
pessoas.
E
porque
não
dizer
o
caminho
de
sua
felicidade.
A
dádiva
sempre
se cumpre
O
descontrole
das
posições
entre
a
face
individual,
problemática
e a
máscara,
farda
vitoriosa,
onde
o
último
se
torna
senhor
do
primeiro,
corrobora a
queixa
de
que
a
máscara
da
vida
social
é o
deus
da
nossa
época.
Por
isso
que
a
ele
são
atribuídos
padrões
de
segurança,
harmonia
e
realização
individual,
onde
a
posse
é
sinônimo
de
status,
e numa
alusão
à singularidade do
indivíduo
estes
têm
necessidade
de refletir-se no
outro.
É na
busca
desse
homem
por
um
sentido,
na
sua
fuga
da
solidão,
onde
ele
vê
no
outro
um
paradigma
de socialização,
que
o
dinheiro,
a
posição
tem
seu
vulto
social
endêmico. A
posição
social
sempre
estabeleceu
fronteiras
entre
os
indivíduos,
sempre
equiparou uns
em
detrimento
de
outros.
A
moral,
a
ética,
a
responsabilidade
social,
o bem-comum, adquiriu
aspectos
relativos
ante
a
necessidade
de
auto-afirmação.
É verdadeiramente a
cultura
do
individualismo.
E Jacobina
abusa
deste
novo
“valor”,
despertando a
ambição
nas
pessoas,
com
as
quais
em
alguns
momentos
se identifica,
pois
se
vê
projetada nelas. Jacobina torna-se
um
exemplo
para
aqueles
que
se acham
inferiores,
demonstrando
isso
todo
o
tempo.
Jacobina representa
bem
a
noção
de
pessoa
de Mauss,
pois
sua
persona é construída
socialmente
através
de
toda
uma
pedagogia
técnica
e simbólica
que
institui o
sentido
do
corpo
e de
sua
individualidade
para
o
sujeito,
é uma das
formas
fundamentais
do
pensamento
e da
ação
dos
indivíduos,
sendo,
portanto,
uma
representação
coletiva,
uma
categoria
do
entendimento;
e,
como
toda
categoria
do
entendimento,
ela
não
é
inata.
Segundo
Louis Dumont
esse
individualismo
expresso
por
Jacobina está intrinsecamente relacionado
com
duas
definições
básicas: a do indivíduo-no-mundo e a do indivíduo-fora-do-mundo.
Sua
defesa
do
individualismo
se
fundamenta
na
concepção
de
um
homem
que
superou o
holismo
e obteve
um
caráter
empírico
“que
fala,
pensa
e crê,
ou
seja, a
amostra
individual
da
espécie
humana,
tal
como
a encontramos
em
todas as
sociedades”
(DUMONT, 1985, p.37). Seja nas
entranhas
do
cristianismo,
na
ambição
do
homem
renascentista
ou
na
auto-afirmação
do
homem
moderno,
o
individualismo
traz
em
si
uma
posição
particular
diante
do
sistema
em
que
o
mesmo
está inserido.
Dumont faz uma
volta
ao
passado
e
busca
nos
primórdios
cristãos
o
que
viria a
ser
o
individualismo
moderno.
Entretanto,
Dumont explica: “(...)
algo
do
individualismo
moderno
está
presente
nos
primeiros
cristãos
e no
mundo
que
os
cerca,
mas
não
se
trata
do
individualismo
que
nos
é
familiar”
(DUMONT, 1985, p.36).
O
discurso
do
consumo
(dentro
do
capitalismo)
gira
em
torno
da auto-responsabilidade, no
último
momento.
Serei
indivíduo
auto-responsável se
usar
da
minha
liberdade
para
melhor
gerenciar
minha
vida,
com
o
fim
primeiro
de
acumular
o
tanto
de
dinheiro
possível
quanto
possa
garantir
a
minha
singularidade.
São
comuns
na
cultura
moderna
os
homens
se distinguirem
pela
quantidade
de
dinheiro
que
os
mesmos
possuem. Se o
que
caracteriza o
individualismo
é a
liberdade,
a
distinção
e a auto-responsabilidade,
ou
seja, a
satisfação
dos
desejos
pessoais,
o
individualismo
na
cultura
moderna
não
passa
de
um
conceito.
Ou,
no
máximo,
de
um
conceito
para
poucos.
Para
aqueles
que
buscam
ser
livres
de
todos
e de
tudo,
tanto
interior
quanto
exteriormente,
poderiam
ser
vistos
como
os “renunciantes”
do
sistema;
os “indivíduos-no-mundo”
não
sociais,
mas
naturais;
os “seres
morais”,
portadores
dos
valores
supremos
da
natureza.
Porém,
no
mundo
moderno,
estes
individualistas
são
tidos
como
loucos.
Vê-se
que
assim
como
Jacobina às
vezes
essa
liberdade
de
ascensão
social
segue
juntamente
com
a
perda
de
algo.
Ele
era
extremamente
bem
sucedido no
trabalho,
porém
sua
alma
interna
estava
partida.
Ora,
o
que
se pode
extrair
deste
magnífico
conto
é o
descompasso
entre
a
alma
externa
e a
alma
interna.
Ele
adquiriu o
sucesso
social,
porém
sua
vida
afetiva
estava
em
frangalho.
A
dádiva
sempre
se cumpre, percebe-se
isso
na
experiência
radical
vivida
em
O
espelho,
cujo
personagem
central
só
permite a
fixação
segura
da
máscara,
da
farda
vitoriosa,
do
papel
que
absorveu
perfeitamente
o
homem;
isto
é, o
tipo,
em
que
o
homem
é
um
ator
social.
A
outra
face,
a
que
se partira, permanece uma interrogação: a
face
individual,
problemática,
que
coexiste e se opõe à
máscara
da
vida
social.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ASSIS,
Machado
de.
Contos.
Porto
Alegre:
L&PM Pocket, 1998.
DUMONT, Louis. O
individualismo:
uma
perspectiva
antropológica da
ideologia
moderna.
Rio
de
Janeiro:
Rocco, 1985.
GEERTZ, Clifford. A
interpretação
das
culturas.
Rio
de
Janeiro:
LTC, 1989.
MAUSS, Marcel.
Sociologia
e
antropologia.
São
Paulo: COSAC NAIFY, 2003.
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