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Dia 30 de julho quando se
comemoram 100 anos de nascimento do poeta gaúcho Mário Quintana
(1906-1994) suas palavras-pássaros ressurgem com mais força do
que nunca.
POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!
Mario Quintana
OS POEMAS
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mário Quintana
Seus poemas que falam de poemas, como em Poeminha do contra e Os
poemas - revelam um pouco de uma lírica pautada na metalinguagem
e na filosofia mesma da poesia. Vista no conjunto, sua obra
literária, a partir desses dois textos e outros, Mário Quintana
parece traçar o itinerário labiríntico de uma busca incessante.
Na sua escritura não se pode dizer se irá rasgar novos
horizontes ou se virá o silêncio, o silêncio que a tem rondado
ou mesmo minado, sempre à espreita no seu próprio interior e
feitura.
Apesar de utilizar uma linguagem simples e corriqueira, de
conhecimentos de todos, sua escritura mistura-se com filosofia,
com sua história de escritor, com sua vida – uma espécie de
rasgos de si e do mundo.
Nesse mundo labiríntico e em busca da própria poesia e
existência, tudo desafia a interpretação do leitor, provoca uma
recepção como esta, que pretende arriscar-se no labirinto,
destrinçar a meada, à cata do fio capaz de revelar os princípios
de organização do todo, as leis internas da construção, essa
imagem do mundo que sua lírica transparece.
A poesia que procura a própria poesia, a linguagem à caça da
própria linguagem que já se busca e enrodilha num complexo
traçado. Causando vertigens e instigando viagens - eis um
caminho para penetrar a lírica labiríntica de Mário Quintana.
Tudo indica que se trata de um construtor hábil e perspicaz,
extremamente lúcido e lúdico com relação à própria obra.
Sua escritura joga com todas a possibilidades da linguagem, ao
mesmo tempo que ironiza, levando a crítica a devaneios e buscas
de caminhos. O que se nota nos poemas aqui escolhidos é um
caminho de uma lírica que procura constantemente novas formas de
expressão, de novos códigos e mensagens, observável, num mesmo
nível, na tortuosa inventividade à flor da pele, que rompe as
fronteiras tradicionais, fundando uma poética porosa e aberta.
Tudo beira ao efeito de estranhamento proposto pelo formalista
russo Victor Chklóvski, que o transforma em princípio geral de
toda arte, aparece, a partir dos postulados do próprio Mário
Quintana, como um “passarinho” solto. O pássaro torna-se, nessa
leitura “estranha” - o próprio eixo e metáfora da invenção do
real que se busca. Afinal de contas procurar por um “passarinho”
é voar com ele e permitir-se rodopios no ar.
O lúdico, o estranhamento, a filosofia, a ruptura, seja no plano
da forma, seja nos significados que as imagens remetem,
significam, desta perspectiva, um esforço para vencer o
lugar-comum desgastado, uma constante reorganização das relações
entre significante e significado.
Assim seus poemas são tipos de textos que não comportam mais as
designações convencionais de poesia, pois “faz(em) vacilar as
bases históricas, culturais e psicológicas do leitor, a
consistência de seus gostos, de seus valores e de suas
lembranças, faz(em) entrar em crise sua relação com a
linguagem”. (BARTHES, 2004, p.20-21)
A teoria de Chklóvski, segundo Lucrecia Ferrara em A Estratégias
dos signos, (1981, p. 34) “se apóia na ação de estranhar o
objeto representado procurando transpor o universo para uma
esfera de novas percepções que se opõe ao peso da rotina, do
hábito, do já visto.” Nesse sentido, a tessitura artística ou
poética de Mário Quintana ao extrair o seu objeto do seu
contexto habitual revelaria uma faceta insólita em sua poesia,
“impondo uma complexa percepção sensorial do universo.”
Como se vê, tudo parece que temos uma poesia que se
consubstancializa como parte integrante do próprio fato
artístico – mistura feitura artística com filosófica, ora
recriando-a, ora questionando-a.
Com esses “estranhamentos estilísticos” a lírica de Mário
Quintana se aproximaria nas palavras do crítico Roland Barthes
dos efeitos de justaposições produzidos na linguagem como
resultados de “deflação” (no sentido de uma despotencialização,
ou mesmo rebaixamento do nível retórico de sua lírica): ou seja,
a consistência, a densidade, a potência de sua lírica é
“deflacionada” em várias seqüências do texto poético.
Enfim, sua lírica, como as telas de Cy Tombly, propõe uma
leitura que enfatiza as operações de deflação, o que segundo
Barthes apontou como cruciais para se captar o tom de seus
quadros ou seu estilo. Essa seria uma lírica de evocação
contaminada por gestos, relacionada aos grafites, ou na visão de
Barthes – uma marca subversiva ou mesmo um elemento deslocado.
Poderíamos ainda falar de uma outra razão para a forma de
escritura da lírica de Mário Quintana – efeitos de deflação ou
figurações epifânicas dominantes na sua produção literária.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTHES, Roland. O Prazer do texto. São Paulo: Perspectiva,
2004.
BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso: ensaios críticos III. Trad.
Lea Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
FERRARA, Lucrecia Ferrara. A Estratégia dos signos. Perspectiva.
São Paulo. 1981.
QUINTANA, Mário. Poesias no site: In:http://www.releituras.com/mquintana_bio.asp
CHKLOVSKI, V. A Arte como Procedimento. In: Teoria da
Literatura. Globo, Rio Grande do Sul, |