Resumo
Trata-se de
procurar à compreensão
do por que, do
como, do onde
alguns monumentos
públicos são
enxergados, enquanto outros
se perdem no ostracismo. Na
Praça
XV de Novembro (que
poderia
ser quaisquer praças 15
brasileiras), neste caso, em
Florianópolis, conhecida mais
por Praça da
Figueira,
alguns monumentos
públicos
são engolidos na vegetação
e, mesmo os que
aparecem, não são
identificados como desejaram os
criadores
do busto de Cruz
e Sousa, por exemplo,
o
maior Simbolista brasileiro. Neste
aspecto, outras artes
públicas no Brasil são
visíveis
e outras “invisíveis”. Outros
monumentos públicos,
tanto
na capital dos catarinenses
quanto em Blumenau, no
Vale do Itajaí, a reação dos
transeuntes
se assemelha. No entanto, a “feiura” das
artes
modernas e sua interagibilidade falam
mais
se comparada aos monumentos
clássicos
e “mortos” do homem-montado-a-cavalo
ou
do herói-de-guerra. E a transitoriedade dos monumentos
vivos – as populares
estátuas
vivas – onde
um
ator e/ou atriz,
ou atores
anônimos
pintam-se de personagens e ficam
imóveis
nos espaços
públicos
para ganharem a vida,
como
uma das facetas das culturas
urbanas desde os anos
1980.
Palavras-chave:
Monumentos Públicos;
Arte
Moderna; Memória da
Cidade.
CITIES WITH PUBLIC
FORGOTTEN MONUMENTS:
the visible thing
and the invisible of the public art in the gardens and squares,
and the modern art
Abstract
It’s a matter understanding the reason from where
some public monuments are
seen, while others are
lost in the ostracism. On the of November XV Square (that might be any
Brazilian 15 squares), in this case, in Florianópolis, better known by
Square of the Fig tree, some public monuments
are
swallowed in the vegetation and, even those that appear,
are not
identified as the creators of the bust of
Cruz e
Sousa wanted, for example, the biggest Brazilian Symbolist. In this
aspect, other public arts in Brazil
are visible
and different “invisible”. Other public monuments, either in
Florianópolis or in Blumenau, in Valley of the Itajaí, the reaction of
the passers-by are
alike. However, the modern “ugliness” of the arts and it’s interaction
standsout if compared to the classical and “died” monuments of a man
riding a horse or of the hero of war. And the ephemeral in lively
monuments – the popular
lively statues – where an actor and or actress, or anonymous actors make
up themselves as characters and
are motionless in the public
spaces to make a living,
as one of the facets of the urbane cultures since 1980 years.
Key Word:
Public Monuments; Modern Art; Memory of the City.
O
monumento e o não-monumento
Cidade se
constrói para ser
autodevorada, quão a natureza
de alguns animais
(lagartixa, v.g.), e alimenta-se da
própria cauda, destrói
lugares, os reconstrói, mudam-se os espaços;
onde havia uma fábrica
agora é uma praça (Praça
dos Músicos, em
Blumenau, no lugar da Fábrica
de Gaitas Hering); ruas
abrem-se para avenidas;
cortiços
são transferidos; favelas
aparecem onde não
existia; na pressa da cidade,
as lojas comerciais
em
mutações; os monumentos
públicos são
inaugurados na mesma velocidade
na qual são
esquecidos. Disputas
políticas,
disputas filosóficas. A cidade
e os seus típicos
fenômenos
culturais. O que existe agora,
talvez não chegue
até
amanhã. Se a História
preenche suas lacunas
com invencionices, a
memória
da cidade tem falhas
leves, moderadas, graves. A
cidade
que não para,
integrada à natureza, como
todas as coisas.
Este
pequeno animal
conhecido por
lagartixa,
com fome, devora a
própria
cauda; além de ter
habilidades mutantes
para
se livrar de predadores.
Cidade, se comparada à lagartixa,
é cidade-lagartixa. Com
seu quadro
pictórico
a cidade tem pinturas
justapostas, camada após
camada
até o pintor se
desfazer
do que começou a fazer. A
primeira
pintura para a qual
o artista plástico
foi contratado fazê-la e não recebeu;
pintou outro
quadro sobre a
pintura
original; e, quando
não
tinha mais
tela,
outra vez usou a
mesma
para figurar suas
impressões de um
monumento
que ocupa o velho
centro
no mercado público.
A
cidade nunca
para
de ser construída, reconstruída, de devorar
sua
própria cauda, de
hoje
ser uma, amanhã ser
outra, de prédios
engolirem prédios, pontes
devorarem pontes, é sempre
inacabada a cidade. E
se a cidade para de se
devorar, morre por
inanição, vira
cidade apagada.
São
os sentimentos da cidade,
assim também da
arte
pictórica. A cidade
com
seus monumentos
públicos. Os olhos das
pessoas
têm o poder do diálogo
com
monumentos públicos,
descobrirem o pitoresco na arte
pública. Se alguns
monumentos são
calados, alguns
monumentos
falam mais se comparados a 1000
palavras.
Existem o monumento
e o não-monumento ou
a “invisibilidade” dos monumentos
públicos
na cidade. O não-monumento,
porque
ele existe e não
existe; existe porque ocupa
um
espaço público (uma
praça,
por exemplo),
porém,
não existe, pois não
faz parte do lugar,
não
aparece no tempo presente,
nem
a cidade o reconhece,
tampouco
se traduz aos seus moradores. Existem
velhos
monumentos e novos;
aqueles
são estatais,
onde
o artista é ou
foi contratado com dinheiro
do erário
municipal, estadual ou
federal
e a peça artística
passa
a ser integralmente
incorporada ao poder público
e ao domínio
público, são
monumentos
representados por figuras
“importantes” a cavalo
ou a pé,
que
apontam para a vitória
em
pose de herói
ou
de grande pensador
e defensor
do povo, em
nome
da ciência, da história,
da política etc., além
de peças e figuras
com
outros motivos,
religiosas inclusive, construídas,
geralmente,
em bronze, ocupam
pedestal
de granito no centro
da praça; muito
abundante
até o século XX. Os
novos
monumentos, semipúblicos, porque
parte do investimento
na obra de arte é
financiada com
dinheiro particular, da
sociedade
civil, são
mais
visíveis na urbe se
comparados aos monumentos
clássicos
que perderam a identificação
com os moradores da cidade
e tornaram-se “invisíveis”,
sem
interagibilidade, os novos
monumentos,
com interagibilidade, são
representados por peças
típicas do conceito moderno
de arte.
O
passado
é
sempre
conflituoso. A
ele
se referem,
em
concorrência,
a
memória
e a
história,
porque
nem
sempre
a
história
consegue
acreditar
na
memória,
e a
memória
desconfia de uma
reconstituição
que
não
coloque
em
seu
centro
os
direitos
da
lembrança
(direitos
de
vida,
de
justiça,
de subjetividade).
Pensar
que
poderia
existir
um
entendimento
fácil
entre
essas
perspectivas
sobre
o
passado
é
um
desejo
ou
um
lugar-comum.
(SARLO, 2007, p. 9).
No monumento
clássico
da figura equestre o passado
se faz presente (interpreta-se como
tempo passado). O
monumento
não é só
história
da cidade, mas,
principalmente, a memória.
Enquanto a
história tenta
reconstruir
o inexistente, porque
existiu e não existe mais,
a memória é um
vaivém
de ondas do que
alguém
se lembra e se esquece. Quando o
poder
público inaugura um
novo
monumento na cidade,
espera
que seu
ato
de governo reconstrua a
história
e preserve a memória da urbe.
Nenhum governante
imagina nem deseja
que
aquele monumento na
praça
venha a ser motivo de
chacota
do povo ou o
nome
da figura trocada
por
outra personagem –
Gen. Osório por Tiradentes,
como
ocorre em uma das praças
centrais no Rio de
Janeiro1 –, ou
ainda, esquecida completamente
sua
história ou a
memória
da cidade sofrer
amnésia.
A
“invisibilidade” dos monumentos
públicos
O que
falta para
os monumentos serem visíveis
e não se transformem em
não-monumentos? A vegetação
comum, aos olhos do
povo, difere à compreensão
do botânico; e as cores
vistas por
uma pessoa não têm as
mesmas forças
se enxergadas por um
artista
plástico – ou deveria
ser assim.
Monumentos
públicos ou a
arte
pública desses monumentos
que ocupam os pulmões
das cidades (para se
usar
uma metáfora dos primeiros
arquitetos e urbanistas),
que são as
praças,
não se identificam ao que
o povo conhece ou
está acostumado a reconhecer nos
programas
de televisão, por
exemplo; é mais
fácil identificar
a imagem de um
refrigerante
famoso, o logotipo de
uma lanchonete da moda
onde
se come pão com
carne
moída e umas folhas de alface
murchas, condimentos, batatas
fritas, muito açúcar,
gordura e sal (o que
agrada a muitos), a
dizer
quem é a figura
esculpida em bronze
que
ocupa o centro da praça
principal da cidade.
E se as
relações
entre
memória
e
esquecimento
estiverem
realmente
sendo transformadas,
sob
pressões
nas
quais
as
novas
tecnologias
da
informação
as
políticas
midiáticas e o
consumismo
desenfreado estiverem começando a
cobrar
o
seu
preço?
(HUYSSEN, 2000, p. 18).
Balas de
canhões, fabricadas para se usar
na Guerra
do Paraguai, ou uma montagem
teatral, amontoadas em
uma praça da cidade
pode
ser, facilmente, confundidas por
estranhas bolas de boliche
em
tempos de paz. Na
praça
XV de Novembro, a praça
mais famosa do
Estado
de Santa Catarina, localizada no
centro
da capital, onde
se abrigam velhas figueiras, daí,
identificada por
Praça da Figueira, e
não
Praça XV, há bustos
de figuras ilustres
da História Catarinense, a
exemplo
de Cruz e Sousa, cuja
produção poética identificava-se à
criação de Baudelaire, pai
do Simbolismo. Cruz
e Sousa, o maior simbolista
brasileiro, e mal se percebe o
seu
busto entre
folhagens.
Além do poeta Cruz
e Sousa, mais três
bustos
sobre pedestal ladeiam o
acampamento/obelisco
– cuja copa é
coberta
por balas de
canhões,
alusão ao fim
ou
início de uma batalha
– memorial ao Cel. Fernando
Machado
e aos voluntários
catarinenses
na Guerra do Paraguai, como
homenagem do 5o. BC de São
Paulo.
Este
monumento,
em Florianópolis, cercado
por anônimas personagens,
que compõem a arquitetura
social da segregação. Os outros
bustos na Praça XV
são
de José Boiteux, patrono do
ensino
superior em
Santa
Catarina, e o representante das artes
plásticas, Victor Meirelles, e Jerônimo
Coelho, fundador
da imprensa catarinense.
José Boiteux (em meio
à folhagem), Victor Meirelles (o
único visível
até a data deste
artigo
sobre “História e
Culturas
Urbanas”), Cruz e Sousa (sob
uma palmeira e folhagens)
e Jerônimo Coelho (em
meio aos arbustos). É
o monumento à guerra
ladeado por quatro
ilustres
figuras que
representam a política, a
pintura, a poesia e a
imprensa. Na famosa
praça da figueira
cansada, com hastes
de ferro que
seguram seus
galhos e o peso
centenário. Aos visitantes da praça
cabe apenas
lembrar de contornar a velha
e frondosa figueira
com
o propósito de um
dia
retornar a capital do
Estado
catarinense e também,
ou
quem sabe, garantir
um
futuro matrimônio. Aos
homenageados nos monumentos
não se atentam os visitantes da praça,
mesmo que
em
sua memória saibam
que
tais figuras
são
importantes à história
da cidade, do Estado
e do país.
Descendo a Praça
XV, ou
da Figueira, em
direção
ao terminal urbano
Cidade
de Florianópolis, há outro
monumento,
agora, uma estátua do
próprio Cel. Fernando Machado. “Invisível”
aos olhos do homem
comum. Turistas confundem-no com
Presidente
Floriano Peixoto, afinal, estão
em
Florianópolis: cidade de Floriano.
Embaixo
do monumento público
escultórico do coronel há
placas
nos quatro
extremos
do pedestal; no primeiro, à
esquerda: 1823; no segundo,
à direita: 1868; nas costas:
nomes
e datas; à frente:
uma placa em
alto
relevo, esculpida em
bronze, representa um
quadro
da guerra onde
um
oficial demonstra ter sido
atingido e tomba de seu
cavalo. É um
campo
de batalha; tudo
está
em movimento e há
restos
de guerra espalhados, quepes
etc. Esta arte pública,
erguida em
enorme pedestal na
praça
que leva o
nome
do coronel, Fernando Machado
– cujo olhar aponta ao
aterro
da baía Sul – é sucumbida na
grandiosidade
da Praça da Figueira,
parecendo ambas uma, pois só
pequena
rua as divide.
Subindo estas praças
(XV e Fernando Machado),
depois da catedral
metropolitana e do teatro Álvaro de
Carvalho, há outra
praça conhecida
por Praça dos
Bombeiros. Na verdade, é
praça Getúlio Vargas. Como
há o Corpo
de Bombeiros defronte
à praça, vizinho
a UDESC/FAED, a praça ganhou do
povo
homenagem aos bombeiros. Nela
também
foram erguidos alguns
monumentos
públicos, hoje, “invisíveis”
apesar de tamanho
colossal.
Principal monumento é a Bulcão
Vianna; os moradores da cidade poderiam
dizer
que aquela era a
praça
Bulcão Vianna, mas é mais
conhecida como
Praça
dos Bombeiros; uma placa
narra: “Ao Gen. Dr. Antonio Vicente Bulcão Vianna – perene
gratidão do povo de
Santa
Catarina”. Adiante, próximo
a um
parque infantil
cercado,
ainda na mesma
praça,
um busto
sobre
pedestal de Carl Hoepcke sob a
narrativa
de “o povo de SC a Carl Hoepcke 1925”. No
centro
do parque infantil,
cercado
por muro de
tijolo
com reboco
pintado
de branco e tela
de arame
sobre o muro,
tudo
com, aproximadamente, 2m de altura,
um monumento à Annita
Garibaldi com inscrições:
“Anna de Jesus Ribeiro (a heroína
dos dois mundos) o
seu
Estado natal – 1919”;
a senhora representada por
um
busto em
bronze
com lenço maragato,
além
de outra escultura
do
mesmo metal
que
simboliza um pano
esvoaçante
a protegê-la; circulado por
gramas
e ladeado por bancos
de praça, este
é o terceiro
monumento na “Praça
dos Bombeiros”.
Espaços vazios
Se inquirir aos
passantes,
ou frequentadores das referidas
praças, dificilmente se reconhecerá Bulcão Vianna, Carl
Hoepcke, Annita Garibaldi, Victor Meirelles, José Boiteux, Jerônimo
Coelho, Cel. Fernando Machado
ou
o busto do poeta
Cruz
e Sousa – orgulho dos
catarinenses
(iniciados). E passam-se
rápidos
os anos e com
eles
as gerações. E esta invisibilidade dos
monumentos
não é um
fato
isolado à Praça XV de
Novembro,
em Florianópolis, se preferir,
Praça
da Figueira. Se deixar o
litoral
em direção ao Vale
do Itajaí, em Blumenau não
é diferente em
se tratando dos monumentos
públicos. Aos blumenauenses, ou
aos que
vivem no município, há maior
identificação aos monumentos
genéricos, a exemplo
da Praça do Estudante,
no bairro Victor Konder, ou
Praça do Vidreiro, no
bairro Itoupava Norte,
onde
um trabalhador
anônimo
da fundição de cristais
em utilitários
ou
peças ornamentais
ocupa o centro da praça.
São figuras
atemporais
e genéricas. Nestas praças, a arte
pública, figurada no
estudante
ou no trabalhador,
pode representar qualquer
um
na cidade, e transformam-se
esses
espaços em
lugares.
Estas
figuras
– do estudante
e do trabalhador
fabril
em
Blumenau – ocupam
lugares
históricos,
cheios
de tempo,
no dizer
de Richard Sennett (1991); difere da Pça. Fritz Müller, no
mesmo
município,
com
monumento
em
sua
homenagem,
na praça
defronte
a maior
igreja
evangélica
blumenauense,
próxima a FURB.
A estátua
do naturalista alemão
reverenciado em
Blumenau, não
ocupa lugar
cheio
de tempo.
Quem
ocupa lugar
cheio
de tempo
é a igreja.
Os carros
e o povo
não
param de passar
na rua
São
Paulo. Artéria
(para
repetir
uma metáfora
orgânica
ao gosto
de teóricos
clássicos)
onde,
diariamente, trafegam
centenas
de pessoas,
o monumento
ao professor
com
sua
estátua
tão
diferente
de sua
fotografia
– a imagem
tão
longe
da escultura
em
bronze;
da figura
de Fritz Müller para
o monumento
há uma lacuna
a ser
preenchida por
outro
artigo
que
fale sobre
o alemão
nos
trópicos
que
se correspondia
com
Charles
Darwin.
Por
quê? O registro
iconográfico de Fritz Müller e a sua
escultura
são conflituosos; se a fotografia
revela um homem
em
trajes de camponês
pobre, o monumento demonstra
um
aristocrata em
seu
apogeu que ocupa a
cadeira
de um filósofo rico.
Idêntica
análise não se
aproxima de Cruz e Sousa, uma
vez
se comparada a sua imagem
em papel e seu
busto na Praça XV,
em
Florianópolis, percebe-se verossimilhança.
O que
não há semelhança é a
foto
de Fritz Müller com o
monumento
erguido em sua
homenagem. Se
considerar tipos
de monumentos expressados por
Riegl, um historiador da arte,
austríaco, o monumento a Fritz Müller,
em
Blumenau, e o monumento a
Cruz
e Sousa, em Florianópolis, ocupam o
tipo
intencional. Pois a “obra
à qual é conferida a função
expressa de fazer lembrar
um momento
preciso
do passado (ou
um
conjunto de tais
momentos)”,
segundo Annateresa Fabris, in: “A
cidade
e a arte moderna:
conflito
e integração”.
Platão
já
havia lançado o
anátema
sobre
a
escrita,
por
enfraquecer
a
memória,
alojando-a ‘fora
do
homem’.
A
crítica
de Platão (principalmente
no Fedro, 274-5)
era
conservadora,
pois
a
memória
assim
objetivada, e
que
ele
rejeita, reduz a
autoridade
de
quem
fala
e garante
condições
para
o
exercício
da
crítica
e da
abstração,
desatrelando
sujeito
e
objeto.
(MENEZES, 1999, p. 15).
Muitos
monumentos
transformaram-se em espaços
vazios. Talvez,
porque
“a História deve ser
um
discurso de contestação
à memória dos poderosos,
deve injetar rebeldia nas
palavras, deve desconstruir
seus monumentos
a marteladas” (Albuquerque
Júnior, 2007, p. 88). A ironia
parece esvaziar
ainda mais
alguns
monumentos públicos,
como
se tudo o que
foi voltará, pois se “és pó,
em
pó te haverás de
converter” (Vieira, 1977, p. 6). Se os monumentos
de grandes
figuras, entretanto,
povoam a cidade, eles
povoam a cidade pra
quê? Para serem
incógnitos
aos olhos dos passantes?
Pierre Nora, citado por
Menezes (1999, p. 16) adverte que “os
lugares
de memória são,
antes
de mais nada,
restos
(...) signos de
reconhecimento
e de pertença de grupo
numa sociedade que tende a
reconhecer
tão-somente indivíduos iguais
e idênticos”. Mas,
frequentemente, os monumentos
públicos surgem para dar
significado a quê? E o
que caracteriza a sua
simbologia?
Tramas da “feiura”
Artistas
modernos
criaram novos
monumentos,
no falar
de muitos,
à “feiura”. Uma
espécie de
oposição
às obras
de mármore
e bronze
imóveis
e centrais.
O novo
monumento
se desloca e não
ocupa o ponto
central
do local
que
ocupa. Se o
velho
monumento
é imóvel,
o novo
monumento
se desloca, pois
a cada
ângulo
em
que
se encontra
o pedestre
é um
novo
ângulo
da cidade
– dentro,
fora
ou
emoldurada na
mobilidade da
peça
de arte
pública
moderna.
Os monumentos
na era
da arte
moderna
estão longe
dos monumentos
da era
renascentista.
O passado
é preenchido pelo
presente.
Portanto,
a arte
escultórica que
predomina é a
peça
ou
imagem
moderna,
apesar
da condição
de valorização do “feio”
– pelos
comentários
recorrentes
na cidade.
Diferem dos
monumentos
clássicos
os monumentos
de arte
pública
moderna.
Em
Blumenau, por
exemplo,
o poder
público
municipal inaugurou no
ano
de 2008 a Praça
dos Músicos,
na bifurcação
entre
as ruas
São
Paulo e Bahia,
onde há
um
desses
monumentos de
arte
pública
moderna
que
foge do centro
da praça
para
ocupar
uma de suas
extremidades,
quando
a arte
pública
tradicional ocupa o
centro
da praça
(v.g., Fritz Müller).
Estas fontes
de pesquisa
– os velhos monumentos,
que são
cheios
em oposição aos
novos
monumentos através
dos quais se pode ver
por
seus espaços
ocos
– preenchem a atual, célere,
fragmentária cidade.
Nesses novos monumentos,
monumentos tributos à
arte moderna, alguns
são a própria
valorização do “feio” (sem
forma definida se comparadas às
esculturas
pretéritas ao modernismo). O novo
monumento público é
um
monumento como se
quisesse ficar distante da
realidade. A cidade observa o
monumento
moderno antes de
olhar
a generalidade do mundo.
Mesmo
beleza e feiura juntas
até a morte, a
representação
da “fealdade” que
o artista
moderno faz do mundo
choca
o próprio mundo; o
artista
moderno é criador de
estranho
e novo objeto de
arte, objeto-arte/arte-objeto difícil
de ser
imediatamente aceito. Cada
época contextualiza com
sua
arte, pois de cada
mundo o artista sofre
influências. Se o belo
é dialético (para se usar a
mais
gasta das palavras
marxistas), o feio
não poderá ser
diferente – o que é
feio
hoje poderá não
ser
feio amanhã. O
monumento
– seja ele do velho
modelo
público de arte ou
moderno – é documento
que colabora com as
perspectivas
historiográficas sobre a
cidade
e a sua história
do tempo
presente.
Le Goff, citado por
Fabris, assinala que
“o documento é monumento.
Resulta do esforço das
sociedades
históricas para impor ao
futuro
– voluntária ou
involuntariamente – determinada
imagem
de si próprias”. O transeunte
não se reconhece no viés
de sua curiosidade
e estranha
o novo monumento
público,
quando desconhece, por
ignorância, todas as linguagens
presentes
no velho monumento
público, no monumento
clássico
em bronze,
granito
e pedestal sob a
imagem
de um herói da
pátria
registrado nos livros
de História que
ocupam as mesas escolares.
O novo monumento
público
é o monumento das
interjeições, do espanto, e
ganha
da cidade pilhérias,
apelidos
jocosos; quando o
velho
monumento público
torna-se peça “invisível”,
sendo colosso ou
de padrões
de um adulto
de estrutura
comum, ganha o
status
de não-monumento (se está ali, existe;
mas,
não aos quais deveria
existir). A cidade
não
percebe se a estátua é abrigo
de pombos
ou de mendigos.
Monumentos públicos
que interagem
Novos
monumentos
públicos foram inaugurados em
várias partes do mundo.
São os monumentos
públicos
da modernização com figuras
de animais, de gente
e de outras criações artísticas. Na
última
década do século XX,
numa arte pública,
sentados em
um banco de
praça, numa estação
ferroviária,
em Londres, o primeiro
ministro
britânico, Winston Churchill, e o presidente
dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt,
representados em bronze.
Passantes, turistas e monumento
público interagem, tiram-se fotos,
abraçam-se as estátuas, beijam os
estadistas, fazem chistes.
Não é diferente, no
Rio de Janeiro,
quando
pedestres, turistas e o monumento
público a Drummond se interagem; a
mesma
arte pública do poeta
em bronze num
banco
de praça. Em
São
Carlos, SP, a Prefeitura prestou
homenagem
ao humorista Ronald de Golias
com
um monumento
em
um banco de
praça
no qual está o artista
esculpido em bronze.
Estes
novos monumentos
dialogam com monumentos
públicos clássicos,
cuja
exceção é a exclusão
do pedestal, pois os homenageados
foram esculpidos em bancos
de praça, desceram do pedestal,
tornaram-se quase homens
comuns, são
estátuas
ao alcance do curioso, do
engraçado, do que
quer ser
fotografado com seu
ídolo.
Esses
monumentos
em bancos de
praça
são monumentos
públicos
que melhor interagem
com
a pressa da cidade,
em
ambientes amplos,
visitados, abertos. Os
transeuntes
registram-se em máquinas
digitais ao lado da
figura
homenageada. Outros lhe
furtam lembrança, como
os óculos de Carlos Drummond de Andrade,
defronte
à praia de Copacabana, RJ.
Estes
novos monumentos
parecem ter nascidos para serem
fotografados, interagindo com a
cidade,
com os passantes.
Mário de Andrade, em 1929, mencionado
por
Fabris, questionava o caráter
educativo
dos monumentos. Entretanto,
comparado a esses novos
monumentos públicos
construídos a Churchill, Roosevelt, Golias, Drummond, quem
se registra ao lado
da imagem em
bronze
sentado no banco de praça,
leva consigo
um
pouco da história do
homem
público lembrado no monumento.
E aqueles monumentos
a Golias, Churchill, a Drummond ou a
Roosevelt, dificilmente, atrapalhará “o ritmo
‘de trabalho
e de vida viva’
da rua” (Fabris, 2000, p. 139).
Este é o
novo fenômeno
da arte pública.
Mencionado por
Fabris, Pierre Nora assinala
que
“o lugar de memória
não
é imune à história:
se seu objetivo
fundamental
é deter o tempo,
imobilizar
a morte, materializar o
imaterial
para encerrar o máximo
sentido num mínimo de
signos” (Fabris, 2000, p. 146). Diferem dos
monumentos públicos
onde os homenageados sentam-se em
bancos de praça,
arte
que interage com
qualquer
um nas ruas,
são
os monumentos públicos
ao Cristo Redentor,
RJ, e ao Padre Cícero,
Juazeiro do Norte, CE. Se o
monumento
público símbolo do
Rio
de Janeiro foi projetado no
princípio
do século XX por
causa
da “campanha de recristianização da
sociedade
brasileira” (Fabris, 2000), a estátua
do padre Cícero
erguida ao final do mesmo
século, preenche a religiosidade dos
romeiros
cuja devoção
católica
os faz caminharem no que lembra os
peregrinos
no Caminho de Santiago de Compostela.
O
monumento vivo
No
interesse
da historiografia,
um
dos fenômenos
do tempo
presente
é a arte
contemporânea,
que
permite entender
o ator/estátua/monumento
– monumento
vivo/estátua
viva.
Houve mudança
econômica
que
fez o ator
se vestir
de estátua
para
ganhar
a vida.
O mito
dos monumentos
públicos,
que
não
é original,
existe desde
os antigos;
com
outras roupagens,
adotaram os
monumentos nas
mais
diferentes
figuras
e/ou
peças
artísticas. Hoje
se interpretam as
imagens,
estátuas,
monumentos
públicos,
na história
do tempo
presente,
segundo
suas
narrativas.
As
imagens
pertencem ao
universo
dos
vestígios
mais
antigos
da
vida
humana
que
chegaram
até
nossos
dias.
O
mundo
da
Pré-História
é
conhecido
pelas
inscrições
rupestres;
o
mundo
da
Antiguidade,
pelas
suas
imagens
inscritas
em
paredes
ou
em
diferentes
suportes
como
os
vasos.
Mas,
além
das
imagens
bidimensionais,
são
conhecidas
ainda
as
imagens
tridimensionais,
como
dolmens,
menires,
obeliscos
ou
ainda
os
relevos,
esculturas
e
estátuas,
que
frequentemente identificam a
grandeza
das
civilizações
antigas da Mesopotâmia, Egito, Pérsia, Grécia e Roma –
para
nos
restringirmos às
menções
recorrentes
do
senso
comum.
Isso
significa
dizer
que,
diante
dos
usos
públicos
da
História,
a
imagem
é
um
componente
de
grande
destaque,
mesmo
que
nem
sempre
seja valorizado
como
fonte
de
pesquisa
pelos
próprios
profissionais
de
História.
(KNAUSS, 2006, p. 98).
O
monumento
vivo,
que
é a estátua
viva
encontrada na
cidade,
adapta-se até
mesmo
na cidade
sem
monumento
público
oficial.
Surge o
monumento
vivo,
o monumento
sem
concreto,
sem
mármore,
sem
bronze.
Não
é o monumento
prosaico
da arte
moderna,
é o monumento
de carne
e osso,
o monumento
que
conversa,
literalmente,
se quiser, mas
não
conversa,
o ator
caracterizado
em
monumento
vivo.
Não
é o monumento
de aço
fundido, não
é o monumento
de chapas
de ferro
que
enferrujam, não
é uma peça
inoxidável,
é a figura
sem
pedestal.
A cidade
gosta
e respeita
a estátua
viva
que
é um
novo
monumento,
o monumento
vivo.
O
que
tem a cidade
de não
notar
o monumento
público
tradicional, e o
que
tem a cidade
de estranhar
o monumento
público
moderno,
o monumento
da arte
pública
que
sofre a crise
da representação
e se atravessa na
cidade
com
sua
“feiura” e leva
os transeuntes
a crerem que
aquele
monumento
público
não
representa nada,
a cidade
aproxima-se do
monumento
vivo
sem
estranhamento,
sem
perguntas.
E o monumento
vivo
integra-se, facilmente, à
cidade.
O monumento
vivo
pode ser
encontrado em
qualquer
parte
na cidade.
O monumento
vivo
pode ser
qualquer
personagem,
transformar
o local
em
que
se encontra
em
uma Mozartplatz, de
manhã,
e, após
o almoço,
ser
o monumento
vivo
uma lavadeira
com
um
fardo
de roupas
sujas sobre
a cabeça.
A
cidade
não
estranha,
não
ignora essa
modalidade de
arte
pública
que
agora
existe e depois
já
se acabou. O
monumento
vivo
é espontâneo,
ele
aparece e depois
não
ocupará mais
o determinado
local
na cidade.
A imperenidade do
monumento
vivo,
sem
se opor
aos monumentos
públicos
tradicionais,
sem
disputar
espaço,
sem
intenções
de fazer
aquele
local
em
que
está em
um
lugar
cheio
de histórias,
sem
o objetivo
de preencher
a área
pública
em
branco
como
se fosse a
criação de
um
urbanista.
Estátua
como
rememoração do
que se tenciona
rememorar.
Esse
monumento
vivo
transitório
e apressado
quanto
a cidade.
O monumento
vivo
em
contraste
com
o monumento
“morto”
das imagens
em
bronze,
das peças
em
mármore.
Ver
um
rosto
totalmente
prata,
um
turbante
da mesma
cor,
as luvas
nas mãos
em
um
gesto
teatralmente
interrompido,
um
gesto
congelado, um
rosto
congelado, um
corpo
congelado em
trajes
prateados
em
meio
aos passantes,
quer
na cidade
de Florianópolis, seja no
interior
catarinense
(em
Blumenau), ou
no Rio
ou
em
São
Paulo, em
São
Carlos, Copacabana
ou
em
Londres, onde
transeuntes
tem pressa,
onde
o relógio
fustiga a vida
das pessoas;
ali,
está o monumento
vivo
congelando um
instante
da cidade,
integrado à
cultura
urbana.
O barulho
de uma moeda
no prato
do monumento
vivo
e a imagem
congelada se descongela
por
alguns
segundos,
um
gesto
lento,
quebra-se a
imagem, move-se
de maneira
sutil,
com
meticulosos
gestos,
move-se a
estátua
viva/monumento
vivo
como
os monumentos
nos
filmes
“Entrevista
com
o vampiro”
e “A excêntrica
família
de Antônia”;
porém,
interrompe o
movimento
em
seguida;
logo
estará congelado
novamente.
Tudo
desaparece numa
fração de
segundo
ao gosto
veloz
que
a cidade
impõe aos tempos
modernos.
Um
ou
outro
passante
conversa
essa estátua
viva/monumento
vivo
em
um
monólogo
frustrado, pois
da boca
do monumento
vivo
não
escapa
nenhuma
expressão, as
expressões
são
tão-somente de
suas
pantomimas.
Sua
mímica
parece prenunciar
fim
dos monumentos
públicos,
de sua
inutilidade,
de sua
morte;
todavia,
a efemeridade é da
estátua
viva,
do monumento
vivo,
este
é só
mais
um
rosto
pintado
na multidão
que,
na cidade
ávida
e fugaz
e sempre
com
pressa
para
fazer
tudo,
logo
não
será mais
visto
pelos
transeuntes
na ilha
de Florianópolis, no
calçadão
de Copacabana,
em uma das
estações
ferroviárias londrinas, nas
ruas
de São
Paulo ou
em
Blumenau (aliás,
o monumento
público
em
Blumenau é tão
levado
a sério,
havendo inclusive
um
monumento
fúnebre,
ao lado
do antigo
prédio
da Prefeitura,
onde
está sua
Fundação
de Cultura:
Mausoléu
Dr. Blumenau).
O
que
seria da cidade
sem
monumentos
públicos?
Mesmo
a modernidade, para
alguns,
possuir
o condão
de desfigurar
a cidade
com
monumentos
à “feiura”. Se
perguntar o
que
é monumento
público,
qual
sua
história?
É o que
pontua a cidade.
O monumento
vivo
é arquétipo
ao monumento
público
“morto”
ou
“invisível”,
não
raras vezes
ignorado na
cidade
que
não
vive sem
monumentos
desde
as mais
antigas
civilizações
mesopotâmicas, egípcias etc. O
monumento
vivo
é o espelho
das ruas.
Sobreposto em
um
ponto
estratégico,
o ator
anônimo
se monumentaliza
dentro
de alguns
instantes
(na pressa
incansável
– até
para
envelhecer
há pressa
– da cidade
moderna,
que
primeiro
sofreu a influência
da indústria,
depois
do cinema;
e a cidade
tem pressa
como
se fosse uma
indústria
que
quer
produzir,
e a cidade
fica a cada
dia
mais
rápida
e fragmentada
como se propõe
o cinema;
e o cinema,
como
tardio
Manifesto
Marinetti, está
cada
vez
mais
rápido,
tem cada
vez
mais
pressa)
para
depois
se desmonumentalizar.
O
monumento
vivo
é o monumento
clássico
em
estado
puro,
aquele
possível
monumento
original
que
se sobrepõe ao modelo
de onde
o escultor
copia a sua
arte.
Nos
anos
1960 foi o bodyart (o
corpo
pintado
servia de tela
exposição
efêmera
do artista
– alusão
ao corpo
tatuado); na
década de 1980
os monumentos
vivos
em
forma
de estátuas
vivas
em
espaços
públicos.
A cidade
se obriga a olhar
o monumento
vivo,
e, dificilmente, obriga-se a
olhar
o monumento
“morto”,
o monumento
público
que
está “invisível”
– este,
comumente, é ignorado. O
olhar
da cidade
ao monumento
vivo
é um
olhar
que
vai além,
é um
ver
para
enxergar.
Os
tempos
da cidade
são
inúmeros. Se a vida
citadina
se inscreve em
primeiro
lugar
nas temporalidades curtas – os
ritmos
quotidianos ou
semanais
que
cadenciam as
práticas
ordinárias –, a
cidade é
também
o lugar
onde
essas temporalidades curtas se ligam a temporalidades
muito
mais
amplas: tempo
da memória
histórica
e/ou
mítica, tempo
dos objetos
e dos sistemas
materiais
cuja
duração
ultrapassa a dos
atores,
tempo
longo
de demarcação
social
dos espaços
(VELTZ, 2001, p. 139). Numa
época
em
que
a noção
de memória
se transferiu para
o domínio
dos chips
de silício,
dos computadores
e das histórias
de ficção
científica
sobre
cyborgs, os
críticos lamentam
rotineiramente
a entropia
da memória
histórica,
definindo a amnésia
como
perigoso
vírus
cultural criado
pelas novas
tecnologias
de mídia.
Quanto
maior
é a memória
armazenada em
bancos
de dados
e acervos
de imagens,
menor
é a disponibilidade
e a habilidade
da nossa
cultura
para
se engajar
na rememoração
ativa,
pelo
menos
ao que
parece (HUYSSEN, 2000, p. 67).
Um
dos poetas
da Semana
de 1922, Mário de Andrade, dizia
que
“a função
mais
primária
e permanente
da estátua
não
é conservar
a memória
de ninguém,
mas
divertir
o olhar
da gente”
(Fabris, 2000, p. 139). E o
monumento
da figura
viva
continua a divertir
o olhar
das ruas.
Na análise
de um
dos artigos
de Andrade sobre
o culto
das estátuas,
Fabris sublinha
que,
entre
a curiosidade
e o esquecimento
à estátua
do homenageado, se estabelece
um
“hiato
temporal”.
Tudo
parece crer,
na inauguração
de um
novo
monumento
público,
é apenas
a inauguração
a um
novo
monumento
público
e nisto não
há diversão
nenhuma senão
à vaidade
de quem
o inaugura. Para
Fabris, que
menciona Pierre
Nora:
A
memória
é a
vida
em
evolução
permanente,
aberta
à
dialética
da recordação e da
amnésia,
suscetível
de longas latências e de súbitas revitalizações. A
história
é a
reconstrução
problemática
e
incompleta
do
que
não
existe
mais,
é uma
representação
do
passado.
Se a
primeira
tem raízes no
concreto,
no
espaço,
no
gesto,
na
imagem
e no
objeto,
a
segunda
só
tem
relações
com
as continuidades
temporais.
(FABRIS: 2000, p. 146).
A
função
do monumento
público
é evocar
o que
se foi? O
monumento
público
obedece a muitas
tipologias,
inclusive
aquela
descoberta
nos
derradeiros
anos
do século
anterior
que
foi o tipo
estátua
viva
ou
monumento
vivo.
A arte
do escultor
personificada em
uma atriz
que
olha
a rua,
que
se mantém sem
piscar
durante
sua
arte
pública
– aos olhos
dos descuidados,
aquela atriz
ou
ator
é uma estátua,
é um
novo
monumento
na cidade
e que
foi inaugurado
sem o
seu
conhecimento
a despeito
de outras
novidades
cujo
morador da
cidade
não
chega
a conhecer
por
motivo
da rapidez
das informações
fragmentadas as
quais acontecem
em
progressão
geométrica.
A arte,
na tipologia
do monumento
vivo,
não
é mais
só
de quem
esculpe, mas
também
de quem
representa
personagem
em
monumento
vivo
e transitório.
E a partir
do monumento
vivo,
todos
podem se transformar
em
estátuas
nos
espaços
públicos,
desde
que
se caracterizem e tenham
disponibilidade
e um
grande
desejo
em
ficar
imóvel,
pintado,
debaixo
do tempo,
aguardando o
vaivém
ininterrupto
da cidade.
O monumento
vivo
é o monumento
livre
e nisto há
política (se
visto
no modo
de agir)
e filosofia
(se visto
no modo
de pensar).
Ocupando o
espaço
arquitetônico da
cidade,
da mesma
cidade
que
desejou e se demonstra viciada
em
consumismo,
onde
os sentimentos
afloram, difícil
um
monumento
vivo
sem
narrativa
nem
presente
nele o que
há de mais
subjetivo.
A
metamorfose
dos desejos
de presencialidade é representada nessas
esculturas
que
ocupam espaço
com
narrativas
peculiares.
A cada
época
com
novas
formas
escultóricas.
Qual
emoção
desperta um
monumento
público
à antiga
ou
dos monumentos
públicos
que
recebem muito
dos signos
da modernidade? As
justaposições
socioculturais transformam, continuamente, a
cidade
como
à preparação
de uma massa
que
sofre mutações,
na cidade-lagartixa
que
se destrói e se reconstrói, ao
receber
ingredientes
necessários
à feitura
de um
alimento
característico.
É a cidade
de massa,
a sociedade
massificada de
que
fala
Romero (2004).
Não
que
desejem
estátuas
vivas/monumentos
vivos
mera
e
banal
teatralização
que
estimule
memória
ou
supere
amnésia
coletiva
da
cidade.
São
atores
que
se caracterizam
em
personagens,
pintam-se, ficam
imóveis
onde
transeuntes
interagem
com
as
apresentações
desses
atores
estátuas
vivas/monumentos
vivos.
“Porque
não
mais
existiria a
memória
‘espontânea’
é
que
seria
preciso
criar,
fora
das
práticas,
a
memória
vicária
e
seus
‘artificialismos’
como
os
arquivos,
museus,
monumentos”.
(Menezes, 1999, p. 16).
Mesmo
parecendo
paradoxal,
porque
os
monumentos
públicos
não
surgiram nas
sociedades
massificadas.
Em
nossa
sociedade
de
consumo,
Menezes, numa
citação
a Gilles (1994), lembra o “movimento
antimonumento
que
se tem
desenvolvido
na Europa e
nos
Estados
Unidos
desde
a
década
de 1970.
Como
se propõe museificar o ‘patrimônio
cultural’
em
‘museus
vivos’
–
que
procurem
atrair
visitantes
pela
encenação
e
dramatização
da ‘memória’”
(Menezes, 2004, p. 18).
Este
fenômeno,
na
história
urbana,
dos
monumentos
vivos
preenche
espaços
na
cidade
desde
os
anos
de 1980;
sem
interferência
do
Estado
nem
da
iniciativa
privada,
são
atores
anônimos,
são
personagens
imóveis,
com
gestos
singelos
em
agradecimento.
Só
move-se o
monumento
vivo
ao
receber
dinheiro
dos
passantes
numa
evocação
ao
monumento
público
de
imagem
na urbanização
horizontal.
Esses
monumentos
vivos,
que
também
são
culturas
urbanas, representam
monumentos
modernos,
inconscientemente,
opostos
aos
monumentos
públicos
tradicionais e “invisíveis”.
Esses
monumentos
vivos/atores
que
preenchem a
cidade
abrem
novas
janelas
ao
subjetivo
e suscitam outras
interpretações
sobre
a
cidade
e os
seus
monumentos
“mortos”
e os
vivos:
“invisibilidade” da
arte
pública
clássica
e a
estranheza
ao “feio”.
NOTAS
1A
palestra do
professor Paulo Knauss, do
Departamento
de História
da UFF, na UDESC/FAED, aos alunos
de Mestrado/História,
disciplina
“História
e Culturas
Urbanas”, em
26/08/2008, segundo
o qual:
“o monumento
ao Gen. Osório, no Rio
de Janeiro,
é confundido com
Tiradentes”. Knauss projetou imagens,
no data-show, à época
da inauguração
do monumento
ao Gen. Osório – um
fato
social
comparado ao último
capítulo
de uma novela
da Globo.
A cidade
do Rio de
Janeiro
estava presente
à homenagem.
2ALBUQUERQUE
JÚNIOR, Durval Muniz
de. História:
a arte de
inventar o
passado.
Ensaios
de teorias
da História.
Bauru,
São
Paulo: EDUSC, 2007, p. 88.
3ANDRADE, Mário de. O
culto
das estátuas,
“O culto
das estátuas
II”, in Táxi
e crônicas
no Diário
Nacional.
São
Paulo, Duas cidades/Secretaria
de Cultura,
Ciência
e Tecnologia,
1976, p. 147-150.
4BRESCIANI,
Maria Stella (org.) Palavras
da cidade.
Porto
Alegre:
UFRGS, 2001.
5CORNELISSE,
Gerard; COUNIHAN, Judy; WEERS, Hans De; WOLF, Hans De; HELSEN, Christel;
LOMBARDO,
Antonino;
MATHESON, Margaret; NIJDAM, Bert; ODÉ, Wim. GOSSCHALK, Job; KEMNA, Hans.
A
Excêntrica
Família
de Antonia [Filme
– DVD]. Produção
de CORNELISSE, Gerard; COUNIHAN, Judy; WEERS, Hans De; WOLF, Hans De;
HELSEN, Christel; LOMBARDO,
Antonino;
MATHESON, Margaret; NIJDAM, Bert; ODÉ, Wim.
Direção de GOSSCHALK, Job;
KEMNA, Hans. Bélgica, Holanda, Inglaterra.
Acesso
Weekend, 1995. DVD, 102
minutos.
Drama.
Ilona Secakz.
6CHALHOUB,
Sidney. Cidade
Febril:
cortiços
e epidemias
na Corte
imperial. São
Paulo: Companhia
das Letras,
1996.
7DAVIS,
Mike. Cidade
de quartzo:
escavando o futuro
em
Los Angeles.São
Paulo: Scritta Editorial,
1993.
8DAVIS,
Mike. Planeta
favela;
tradução
de Beatriz Medina. São
Paulo: Boitempo, 2006.
9FABRIS, Annateresa.
Fragmentos
urbanos:
representações
culturais. São
Paulo: Studio Nobel, 2000.
10GEFFEN,
David; WOOLEY, Stephen; JORDAN, Niel. Interview with the Vampire: The
Vampire Chronicles [Filme- DVD].
Produção de GEFFEN, David; WOOLEY,
Stephen. Direção
de JORDAN, Niel. EUA, Warner
Bros., 1994. DVD, 122
minutos.
Suspense. Elliot
Goldenthal.
11GUNN, P. As démarches
da ciência
num ‘século
da biologia
– notas
sobre
a construção
das nações
de etnicidade no Brasil do século
XIX. Trabalho
apresentado na sessão
livre
CIEC “A cidade,
a moradia
e as intervenções
no espaço”.
VII Anpur,
Recife,
1997.
12HUYSSEN,
Andreas. Seduzidos
pela
memória:
arquitetura,
monumentos,
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Tradução
Sérgio Alcides. Rio
de Janeiro:
Aeroplano,
2000, p. 67.
13JAMESON, Fredric.
Pós-modernismo: a lógica
cultural do capitalismo
tardio.
São
Paulo: Ática, 2007.
14KNAUSS, Paulo.
O desafio
de fazer
História
com
imagens:
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visual.
ArtCultura, Uberlândia, v. 8, n. 12, p. 97-115, jan.-jun. 2006, p. 98.
15LE GOFF, Jacques.
Por
amor
às cidades:
conversações
com
Jean Lebrun. São
Paulo: Editora
da Unesp, 1998.
16MENEZES, Ulpiano
Toledo Bezerra
de. A
crise da
memória,
história
e documento:
reflexões
para
um
tempo de
transformações. In: SILVA, Zélia Lopes da (org.).
Arquivos,
Patrimônio e
Memória:
trajetórias e
perspectivas,
São Paulo: Ed. Da
UNESP, 1999, p.11-29.
17MORSE, Richard.
As cidades
“periféricas” como
arenas
culturais: Rússia, Áustria, América
Latina. In
Estudos
Históricos, v. 16,
jul.-dez., 1995.
18PAMPLONA,
Marco Antônio
Villela. Revoltas,
repúblicas
e cidadania:
Nova
York e Rio
de Janeiro
na consolidação
da ordem
republicana. Rio
de Janeiro:
Record, 2003.
19ROMERO, José Luís.
América
Latina: as
cidades
e as idéias.
Rio de
Janeiro:
UFRJ, 2004.
20SARLO, Beatriz.
Tempo
passado:
cultura
da memória
guinada
subjetiva.
Trad. Rosa
Freire d’Aguiar. São
Paulo: Companhia
das Letras;
Belo
Horizonte:
UFMG, 2007.
21SENNETT,
Richard. La conciencia del ojo. Barcelona:
Versal,
1991.
22SEVCENKO,
Nicolau. Futebol,
metrópoles
e desatinos.
In Revista
USP: Dossiê
Futebol.
São
Paulo: USP, n. 22, jun.-ago., 1994, p. 30-7.
23VALLADARES,
Licia do Prado.
A
invenção da
favela: do
mito de
origem a
favela.com. Rio de
Janeiro:
Editora
FGV, 2005.
24VELTZ, Pierre.
Tempos da
economia,
tempos
da cidade:
as dinânicas. ACSELRAD, Henri (org.) A
duração
das cidades:
sustentabilidade e risco
nas políticas
urbanas. Rio
de Janeiro:
DP&A, 2001, p. 139.
25VIEIRA,
Padre
Antonio. Sermões
de quarta-feira
de cinzas.
Rio de
Janeiro:
Ediouro, 1997, p. 6.
26ZYGMUNT,
Bauman. Em
busca
da política;
tradução
Marcus Penchel. Rio
de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 2000.
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