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Entender a importância da mitologia
nos dias atuais é um processo que deve ser apoiado no conceito de arquétipo
de Carl Gustav Jung. O psiquiatra e analista junguiano Dr. Carlos Byington,
explica que, a Consciência Coletiva apoia-se no mito, como por exemplo,
nosso país, que “atravessa atualmente uma fase histórica, da maior
importância para a busca de uma identidade a partir da sua sociedade
multicultural” (1987, p.10). Valorizar, proteger e estudar as reminiscências
das culturas indígenas e negras, da recém aquisição dos rituais da cultura
japonesa e das raízes ibéricas, são meios de confirmação da identidade
nacional; e a cultura Greco-Romana pode ajudar nesse processo permitindo-nos
a imitação de símbolos como arquétipos para formar os nossos próprios e
empregá-los, como os gregos entre nossa consciência e nossas raízes, e a
diferenciação desses símbolos que estimula-nos à busca de uma forma especial
e única de viver com símbolos próprios.
Junito de Souza Brandão em seus
estudos sobre a mitologia grega afirma que “os mitos gregos só se conhecem
através da forma escrita e das imóveis composições da arte figurada...”. O
autor explica que a partir do relato escrito dos mitos sobre a visão de
diferentes “autores” aparecem “variantes” nesses mitos e a conseqüência
dessas “variantes” é o início de um processo de produção literária.
O mito além de participar do
processo de formação da consciência cultural e do processo de surgimento
literário, liga-se também à religião. Brandão fala que a religião pode ser
definida como “o conjunto de atividades e atos pelos quais o homem se prende
ou se liga ao divino ou manifesta sua dependência em relação a seres
invisíveis tidos como sobrenaturais” (1987, p.39). Junito diz, ainda, que
mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a
intervenção de entes sobrenaturais. O autor mostra que a ritualística dentro
da religião faz reviver o mito, ele conclui que o rito é o mito em ação.
Observando-se que as explicações mitológicas são sobrenaturais, percebe-se
que a base da mitologia é a fé.
A religião se apóia no mito e o
mito tem grande influência no processo de formação da consciência coletiva.
O mito de Prometeu, um titã filho de Jápeto e Clímene ou Ásia, pode
representar o mito e a religião no processo de formação da consciência
cultural.
Na cidade de Mecone, Prometeu
tenta ludibriar o grande Zeus em benefício dos mortais, dividindo um enorme
boi em duas porções. Uma primeira porção continha as carnes e entranhas
cobertas pelo couro do próprio animal e uma segunda porção continha apenas
os ossos, disfarçados com a gordura branca do mesmo. O Senhor do Olimpo
escolheria uma das porções e a outra seria ofertada aos homens. O Pai dos
Deuses e dos Homens optou pela segunda e sentindo-se burlado, “a cólera
encheu sua alma, enquanto o ódio lhe subia ao coração” (1991, p.329).
O terrível castigo de Zeus foi
privar o homem do fogo, que simbolicamente é a inteligência. O Deus
Benfeitor entrou em ação novamente. Roubou uma centelha do fogo celeste,
privilégio de Zeus, ocultou-a na haste de uma férula e a trouxe à terra,
distribuindo entre os homens e reanimando-os. O grande Zeus resolveu punir
com mais rigor ainda a humanidade e o seu Benfeitor. Imaginou perder aos
homens para sempre por meio de uma mulher, a irresistível Pandora. Prometeu
foi acorrentado com grilhões inextricáveis no meio de uma coluna e tinha o
fígado roído durante o dia por uma águia, filha de Équidna e Tifão. Para
desespero do “acorrentado” o órgão recompunha-se à noite. Zeus então jurou
pelas águas do rio Estige que jamais libertaria o primo daquela fatal
prisão.
Um pouco mais tarde Héracles
(Hércules) matou a águia e libertou o Deus Filantropo com anuência do
próprio Zeus, que desejava que a glória do seu filho (Hércules) se ampliasse
por toda a terra e que havia renunciado ao ressentimento contra o primo
Prometeu.
Como o supremo Zeus havia jurado
pelo rio Estige, obrigou o primo astuto a carregar para sempre uma argola,
confeccionada com os grilhões de aço e preso a ela um fragmento da coluna à
qual havia sido acorrentado. Desse modo, Prometeu continuava preso
simbolicamente e Zeus reafirmava sua autoridade e libertava-se do perjúrio.
Este mito de Prometeu em Mecone
consta na “Teogonia” de Esíodo. Outro mito sobre o titã Prometeu, que é uma
tradição grega, porém não consta na “Teogonia”, é o da criação do homem.
Prometeu pegou barro no chão e
misturou às suas lágrimas fazendo, então, uma estátua que se assemelhasse
aos Deuses. Ele ficou tão orgulhoso de sua criação que resolveu fazer uma
multidão de estátuas. Quando acabou, ele percebeu que as estátuas estavam
imóveis, silenciosas. Não tinham vida. Prometeu decidiu, então, dar às
estátuas algumas características de animais: a coragem do leão, a força do
touro, a esperteza da raposa, a amizade (afeição) do cão e etc.
Contudo, algo ainda faltava nessas
criaturas e foi Atena, a Deusa da Sabedoria, que auxiliou Prometeu. Ela
pegou uma taça do néctar divino e deu às estátuas e foi então que uma nova
luz reluziu nos seus olhos. As estátuas tornaram-se aptas a raciocinar.
As diferenças entre Zeus e
Prometeu, o Deus castigador e o Deus filantropo são imagens usadas em várias
religiões do mundo, ainda atualmente. Um ser supremo que pode castigar o
homem se este deixar de fazer oferendas, rituais ou descumprir suas leis,
que em outro momento pode ser benevolente aos sofredores. O Prometeu que
cria o homem a partir do barro assemelhasse ao Deus criador das religiões
Cristãs, que teria criado o primeiro homem, de nome Adão, do barro do chão.
Deste modo o mito inserido na religião acaba por participar do processo de
formação cultural de povos cujas religiões ou crenças usem ou diferenciem
como arquétipos o sobrenatural desses mitos.
Aqueles que têm contato, ainda que
mínimo, com a mitologia conseguem entender sobre a formação da consciência
cultural coletiva das massas populares e também da consciência individual do
homem (através das várias manifestações de mitologia presentes nas rotinas
de vivência diária) e aprender que a mitologia é, cum laude,
de primordial importância na formação da identidade de todos os homens, seja
qual for a época e o lugar onde tenham vivido.
Com base nesses estudos, podemos afirmar que é
importante que a educação destaque o seu papel de forma positiva na vida de
cada um dos seres humanos que pretende formar, pois essa formação não é só
qualificar a pessoa para a economia. Através da mágica, do encantamento e da
filosofia da Mitologia, podemos mostrar como ela age na consciência coletiva
e individual da humanidade.
Organização esta que depende do homem para
existir. De sua consciência para resgatar o amor-próprio, de não se deixar
corromper pela sociedade do ter, e ainda de entender que o “ter” e o “ser”
podem conviver de maneira harmoniosa quando respeitamos o consciente
coletivo seja ele moral, histórico-cultural ou econômico.
Buscarmos entender a importância de estudarmos
este conteúdo, para podermos, enquanto professoras, despertar em nossos
alunos o prazer de ler os mitos, valorizando essa leitura além do encanto.
Além disso, poderemos levar aos nossos futuros aprendizes a importância de
conhecer diferentes mitologias, incluindo as indígenas e africanas, o que
poderia auxiliar na compreensão de nossa história, explicando fatores de fé,
religião e esclarecendo questões históricas e culturais.
Temos, como educadoras, a caixa de Pandora
nas mãos; mas como pesquisadoras, possuímos o poder de não deixar a
Esperança presa dentro desta, podendo alicerçar o conhecimento dos nossos
alunos sobre a história da humanidade com começo e meio e dando a eles,
através do estudo prazeroso da Mitologia a capacidade de promoverem um fim
que desejam, pois saberão que podem agir em benefício próprio e comum.
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