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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 14 de fevereiro de 2009 19:04:02                                               

 
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CULTURA

Por um estudo prazero da mitologia

   

Erika Araújo Uhlemann Corrêa [1]
Patrícia Ferreira Bianchini Borges [2]

publicado em 02/02/2009

 

                       

           Entender a importância da mitologia nos dias atuais é um processo que deve ser apoiado no conceito de arquétipo de Carl Gustav Jung. O psiquiatra e analista junguiano Dr. Carlos Byington, explica que, a Consciência Coletiva apoia-se no mito, como por exemplo, nosso país, que “atravessa atualmente uma fase histórica, da maior importância para a busca de uma identidade a partir da sua sociedade multicultural” (1987, p.10). Valorizar, proteger e estudar as reminiscências das culturas indígenas e negras, da recém aquisição dos rituais da cultura japonesa e das raízes ibéricas, são meios de confirmação da identidade nacional; e a cultura Greco-Romana pode ajudar nesse processo permitindo-nos a imitação de símbolos como arquétipos para formar os nossos próprios e empregá-los, como os gregos entre nossa consciência e nossas raízes, e a diferenciação desses símbolos que estimula-nos à busca de uma forma especial e única de viver com símbolos próprios.

            Junito de Souza Brandão em seus estudos sobre a mitologia grega afirma que “os mitos gregos só se conhecem através da forma escrita e das imóveis composições da arte figurada...”. O autor explica que a partir do relato escrito dos mitos sobre a visão de diferentes “autores” aparecem “variantes” nesses mitos e a conseqüência dessas “variantes” é o início de um processo de produção literária.

            O mito além de participar do processo de formação da consciência cultural e do processo de surgimento literário, liga-se também à religião. Brandão fala que a religião pode ser definida como “o conjunto de atividades e atos pelos quais o homem se prende ou se liga ao divino ou manifesta sua dependência em relação a seres invisíveis tidos como sobrenaturais” (1987, p.39). Junito diz, ainda, que mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. O autor mostra que a ritualística dentro da religião faz reviver o mito, ele conclui que o rito é o mito em ação. Observando-se que as explicações mitológicas são sobrenaturais, percebe-se que a base da mitologia é a fé.

            A religião se apóia no mito e o mito tem grande influência no processo de formação da consciência coletiva. O mito de Prometeu, um titã filho de Jápeto e Clímene ou Ásia, pode representar o mito e a religião no processo de formação da consciência cultural.

            Na cidade de Mecone, Prometeu tenta ludibriar o grande Zeus em benefício dos mortais, dividindo um enorme boi em duas porções. Uma primeira porção continha as carnes e entranhas cobertas pelo couro do próprio animal e uma segunda porção continha apenas os ossos, disfarçados com a gordura branca do mesmo. O Senhor do Olimpo escolheria uma das porções e a outra seria ofertada aos homens. O Pai dos Deuses e dos Homens optou pela segunda e sentindo-se burlado, “a cólera encheu sua alma, enquanto o ódio lhe subia ao coração” (1991, p.329).

            O terrível castigo de Zeus foi privar o homem do fogo, que simbolicamente é a inteligência. O Deus Benfeitor entrou em ação novamente. Roubou uma centelha do fogo celeste, privilégio de Zeus, ocultou-a na haste de uma férula e a trouxe à terra, distribuindo entre os homens e reanimando-os. O grande Zeus resolveu punir com mais rigor ainda a humanidade e o seu Benfeitor. Imaginou perder aos homens para sempre por meio de uma mulher, a irresistível Pandora. Prometeu foi acorrentado com grilhões inextricáveis no meio de uma coluna e tinha o fígado roído durante o dia por uma águia, filha de Équidna e Tifão. Para desespero do “acorrentado” o órgão recompunha-se à noite. Zeus então jurou pelas águas do rio Estige que jamais libertaria o primo daquela fatal prisão.

            Um pouco mais tarde Héracles (Hércules) matou a águia e libertou o Deus Filantropo com anuência do próprio Zeus, que desejava que a glória do seu filho (Hércules) se ampliasse por toda a terra e que havia renunciado ao ressentimento contra o primo Prometeu.

            Como o supremo Zeus havia jurado pelo rio Estige, obrigou o primo astuto a carregar para sempre uma argola, confeccionada com os grilhões de aço e preso a ela um fragmento da coluna à qual havia sido acorrentado. Desse modo, Prometeu continuava preso simbolicamente e Zeus reafirmava sua autoridade e libertava-se do perjúrio.

            Este mito de Prometeu em Mecone consta na “Teogonia” de Esíodo. Outro mito sobre o titã Prometeu, que é uma tradição grega, porém não consta na “Teogonia”, é o da criação do homem.

            Prometeu pegou barro no chão e misturou às suas lágrimas fazendo, então, uma estátua que se assemelhasse aos Deuses. Ele ficou tão orgulhoso de sua criação que resolveu fazer uma multidão de estátuas. Quando acabou, ele percebeu que as estátuas estavam imóveis, silenciosas. Não tinham vida. Prometeu decidiu, então, dar às estátuas algumas características de animais: a coragem do leão, a força do touro, a esperteza da raposa, a amizade (afeição) do cão e etc.

            Contudo, algo ainda faltava nessas criaturas e foi Atena, a Deusa da Sabedoria, que auxiliou Prometeu. Ela pegou uma taça do néctar divino e deu às estátuas e foi então que uma nova luz reluziu nos seus olhos. As estátuas tornaram-se aptas a raciocinar.

            As diferenças entre Zeus e Prometeu, o Deus castigador e o Deus filantropo são imagens usadas em várias religiões do mundo, ainda atualmente. Um ser supremo que pode castigar o homem se este deixar de fazer oferendas, rituais ou descumprir suas leis, que em outro momento pode ser benevolente aos sofredores. O Prometeu que cria o homem  a partir do barro assemelhasse ao Deus criador das religiões Cristãs, que teria criado o primeiro homem, de nome Adão, do barro do chão. Deste modo o mito inserido na religião acaba por participar do processo de formação cultural de povos cujas religiões ou crenças usem ou diferenciem como arquétipos o sobrenatural desses mitos.

            Aqueles que têm contato, ainda que mínimo, com a mitologia conseguem entender sobre a formação da consciência cultural coletiva das massas populares e também da consciência individual do homem (através das várias manifestações de mitologia presentes nas rotinas de vivência diária) e aprender que a mitologia é, cum laude, de primordial importância na formação da identidade de todos os homens, seja qual for a época e o lugar onde tenham vivido.    

Com base nesses estudos, podemos afirmar que é importante que a educação destaque o seu papel de forma positiva na vida de cada um dos seres humanos que pretende formar, pois essa formação não é só qualificar a pessoa para a economia. Através da mágica, do encantamento e da filosofia da Mitologia, podemos mostrar como ela age na consciência coletiva e individual da humanidade.

Organização esta que depende do homem para existir. De sua consciência para resgatar o amor-próprio, de não se deixar corromper pela sociedade do ter, e ainda de entender que o “ter” e o “ser” podem conviver de maneira harmoniosa quando respeitamos o consciente coletivo seja ele moral, histórico-cultural ou econômico.

Buscarmos entender a importância de estudarmos este conteúdo, para podermos, enquanto professoras, despertar em nossos alunos o prazer de ler os mitos, valorizando essa leitura além do encanto. Além disso, poderemos levar aos nossos futuros aprendizes a importância de conhecer diferentes mitologias, incluindo as indígenas e africanas, o que poderia auxiliar na compreensão de nossa história, explicando fatores de fé, religião e esclarecendo questões históricas e culturais.

Temos, como educadoras, a caixa de Pandora nas mãos; mas como pesquisadoras, possuímos o poder de não deixar a Esperança presa dentro desta, podendo alicerçar o conhecimento dos nossos alunos sobre a história da humanidade com começo e meio e dando a eles, através do estudo prazeroso da Mitologia a capacidade de promoverem um fim que desejam, pois saberão que podem agir em benefício próprio e comum.

 

 

 

 

 

 

 


 

[1] Graduada em Letras pela Universidade de Uberaba (UNIUBE) e pós-graduanda em Gestão pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente, exerce a função de vice-diretora na Escola Adolfo Bezerra de Menezes além de ser professora de Informática na referida escola.

Endereço Eletrônico: uhlemann@hotmail.com

[2] Graduada em Letras pela Universidade de Uberaba (UNIUBE) e Especialista em Estudos Lingüísticos: Fundamentos para o Ensino e Pesquisa pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Atualmente, é Assistente de  Alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica de Uberaba (CEFET-Uberaba).

Endereço Eletrônico: patybianchini@hotmail.com

 
 
  

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publicado em 01/09/2008

 

 

 

 
 
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