Resumo
A natureza da poesia se
associa à escrita de versos metrificados, ao ritmo regular da
declamação e às imagens poéticas traduzidas em palavras. A crise do
verso, anunciada por Mallarmé abre uma nova etapa na literatura
ocidental e logo na brasileira, cujos versos livres manifestados
pelas vanguardas chegam à sua fragmentação com a poesia concreta. Em
suma, de lá para cá, houve uma forte tentativa para se (re) definir
a natureza da poesia, seja ela rimada ou imagística como ocorre no
concretismo.
Palavras-Chave:
concretismo, imagem, signos, reinvenção poética.
Resumé
La nature de la poésie est associée à
l'écriture de versets metrician, le rythme régulier de récitation et
de traduire en images poétiques et des mots. La crise à l'inverse, a
annoncé par Mallarmé, une nouvelle étape dans la littérature
occidentale, puis au Brésil, dont le vers libre a exprimé
l'avant-garde arrivée a la fragmentation avec la poésie concrète. En
bref, à partir de là, il y avait une forte tentative de (re) définir
la nature de la poésie, si rimada ou imagística comme cela se
produit dans le concretism.
Mots-Clés: Concretism, l'image, les signes,
les réinvention poétique.
A
Natureza Concreta: rompimento ou reinvenção?
“Eu deixava-me estar ao
canto da mesa, a escrever desvairadamente num pedaço de papel”
(Brás Cubas)
O Concretismo, movimento
literário poético, surgiu nas literaturas ocidentais após 1950. Seus
precursores como Mallarmé e Apollinaire, além de outros artistas,
buscavam, entre outros ideais, reduzir a expressão verbal a signos
concretos, representações visuais e gráficas da mensagem. A poesia
espacial reage contra a discursiva evitando o verso e valorizando os
elementos visuais como o espaço em branco, letras, tipos de formas,
etc. De acordo com Celso Luft, a poesia concreta é uma montagem
vocabular, pois as palavras são isoladas e seccionadas em grupos,
sílabas ou letras. Para o crítico, os artistas concretos “apregoavam
uma matemática (geometria) da composição do poema e tentam uma
ortografia poética para figurar o sentido das palavras” (LUFT, 1973,
p. 92).
Observa-se na afirmação de
Luft, que a arte concreta e seus fragmentos léxicos e semânticos
mostram uma tendência às vanguardas cubistas, dadaístas e em parte,
surrealistas. Esse movimento poético explora a natureza imaginária e
a invenção do fazer poético, segundo Alfredo Bosi:
São
processos que visam atingir e a explorar as camadas materiais do
significante e, por isso, levam a rejeitar toda concepção que esgote
nos temas ou na realidade psíquica do emissor o interesse e a valia
da obra. (BOSI, 2006, p. 476)
Assim sendo, o poema para
o concretista torna-se um objeto de linguagem e isso faz com que a
arte se defina como atividade produtora que se assume abertamente
como anti-expressionista, pois “o poema concreto é uma realidade em
si, não um poema sobre” (Gomringer apud BOSI, 2006, p. 476).
Na Literatura Brasileira,
a poesia concreta fixou-se contrária à corrente intimista e propôs
temas, formas e até algumas atitudes da Semana de Arte Moderna, de
1922. Em suma, o concretismo brasileiro teve o aproveitamento
poético da palavra em si, como o signo concreto. O poeta João Cabral
de Melo Neto, da geração 45, é um precursor a ser citado. Em seu
poema O Engenheiro pode-se observar traços da arte concreta:
O
lápis, o esquadro, o papel;
O
desenho, o projeto, o número;
O
engenheiro pensa o mundo justo,
Mundo que nenhum véu encobre.
Em
certas tardes nós subíamos
Ao
edifício. A cidade diária
Como um jornal que todos liam
Ganhava um pulmão de cimento e vidro
A
água, o vento, a claridade;
De
um lado o rio, no alto as nuvens;
Situavam na natureza o edifício,
Crescendo de suas forças simples.
Em 1954, Ferreira Gullar
aparece lançando um poema espacial no livro A Luta Corporal.
Logo, em 1956, ocorre a I Exposição Nacional de Arte Concreta, na
qual se encontraram adeptos dessa arte, como Décio Pignatari, Mario
Faustini, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Reinaldo Jardim,
Oliveira Bastos, entre outros que ousavam em seus processos
compositivos, substituindo as estruturas frásicas por estruturas
nominais, relacionando-as tanto na direção horizontal como na
vertical, como se observa nos poemas abaixo:
VVVVVVVVVV durassolado
solumano
VVVVVVVVVE petrifincado
corpumano
VVVVVVVVEL amargamado
fardumano
VVVVVVVELO agrusurado
servumano
VVVVVVELOC capitalienado
gadumano
VVVVVELOCI massamorfado
desumano
VVVVELOCID
VVVELOCIDA (José Lino
Grünewald)
VVELOCIDAD
VELOCIDADE
Luft (1973) considera
válido o experimentalismo do movimento concreto, entretanto ao invés
de propor uma nova forma de fazer poema, aniquila-a:
Parece claro que o mero grafismo e a abolição simples e pura da
semântica e do metaforismo (da imagística) só podem levar à ausência
e a morte da Poesia. (LUFT, 1973, p. 92).
Outra regra comum à
natureza concreta é a paronomásia, ou seja, a exploração das
semelhanças sonoras como a aliteração e a assonância, que segundo
Bosi (2006), parte do pressuposto de que há relações não-arbitrárias
entre o significante e o significado. No poema Beba Coca-cola,
pode-se ter um exemplo desse fenômeno:
Beba coca cola
Babe cola
Beba coca
Babe cola caco
Caco
Cola
C l
o a c a (Décio Pignatari)
De acordo com Bosi (2006),
ao ponto de vista estético, a natureza da poesia concreta parte da
insistência do uso das formas futuristas e cubistas, as quais se
pretendem superar radicalmente a poética metafórica-musical do
Simbolismo. Logo, as vanguardas concretistas têm mais razão no que
afirmam do que naquilo que eles negam:
[...] a sintaxe espacial e o emprego da palavra ilhada, cuja
forma-sentido se quer assim potenciar, parecem caminhos promissores
enquanto rompem as barreiras tradicionais entre as artes sonoras e
as artes plásticas, e convergem para uma percepção mais rica do todo
espaciotemporal em que está imersa a nossa sensibilidade. [...] O
Simbolismo europeu acertou, dissolvendo os preconceitos fixistas ao
Parnaso e dando os primeiros exemplos de verso livre e de poema em
prosa que exploravam desenvoltamente novas trilhas fonéticas. (BOSI,
2006, p. 481-482).
Com isso, observa-se que a
natureza concreta procura revolucionar o padrão de poesia, rompendo
definitivamente com um passado que contribuiu para a invenção de um
fazer poético. Renegar seus antecessores seria rechaçar suas
técnicas e seus avanços para chegar a poesia concreta. Contudo,
conforme Bosi (2006), o que não se pode negar é que, como toda a
linguagem, a poesia construtiva defende um modo de relacionar-se com
as coisas e com os homens, logo a recusa do tema não tem a ver com a
carência de conteúdo psíquico e ideológico. A própria idéia do
nonsense na composição, significa que o poeta não vê sentido em
seu mundo:
[...] não é difícil reconhecer nos poemas concretos o universo
referencial que a sua estrutura propõe comunicar: aspectos da
sociedade contemporânea, assentada no regime capitalista e na
burocracia, e saturada de objetos mercáveis, de imagens de
propaganda, de erotismo e sentimentalismo comerciais, de
lugares-comuns díspares que entravam a linguagem amenizando-lhe o
tônus crítico e criador. (BOSI, 2006, p. 482).
Conclui-se, então, que a
natureza da poesia concreta vem da fragmentação do verso. Por ser
anti-expressionista e passar a idéia do nonsense, o
concretismo defende uma “matemática de composição”, expulsando a
emotividade e o sentimentalismo dos versos e propondo uma poesia que
mesclasse as letras e as formas geométricas. O Concretismo ampliou
os recursos da comunicação visual, sem desvalorizar a palavra. O
apelo à comunicação não é unicamente verbal e a página passa a ser
tomada como elemento físico existente na estrutura do poema,
propiciando o uso construtivo dos espaços em branco para construções
vocabulares, visto que as semelhanças sonoras passam a ser
exploradas estruturalmente.
REFERÊNCIAS CONSULTADAS:
BOSI, Alfredo. História
Concisa da Literatura Brasileira. 43ª ed. São Paulo: Cultrix,
2006.
LUFT, Celso. Dicionário
de Literatura Portuguesa e Brasileira. Porto Alegre: Globo,
1973.