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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 01 de agosto de 2009 22:23:33                                               

 
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EDUCAÇÃO

Tópicos sobre o movimento concreto: a crise do verso e a reinvenção da tradição

Larissa D. Pujol Corsino dos Santos1

publicado em 01/08/2009

 

        

 

Resumo

A natureza da poesia se associa à escrita de versos metrificados, ao ritmo regular da declamação e às imagens poéticas traduzidas em palavras. A crise do verso, anunciada por Mallarmé abre uma nova etapa na literatura ocidental e logo na brasileira, cujos versos livres manifestados pelas vanguardas chegam à sua fragmentação com a poesia concreta. Em suma, de lá para cá, houve uma forte tentativa para se (re) definir a natureza da poesia, seja ela rimada ou imagística como ocorre no concretismo.

Palavras-Chave: concretismo, imagem, signos, reinvenção poética.

Resumé

La nature de la poésie est associée à l'écriture de versets metrician, le rythme régulier de récitation et de traduire en images poétiques et des mots. La crise à l'inverse, a annoncé par Mallarmé, une nouvelle étape dans la littérature occidentale, puis au Brésil, dont le vers libre a exprimé l'avant-garde arrivée a la fragmentation avec la poésie concrète. En bref, à partir de là, il y avait une forte tentative de (re) définir la nature de la poésie, si rimada ou imagística comme cela se produit dans le concretism.

Mots-Clés: Concretism, l'image, les signes, les réinvention poétique.



 

A Natureza Concreta: rompimento ou reinvenção?

Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num pedaço de papel” (Brás Cubas)

O Concretismo, movimento literário poético, surgiu nas literaturas ocidentais após 1950. Seus precursores como Mallarmé e Apollinaire, além de outros artistas, buscavam, entre outros ideais, reduzir a expressão verbal a signos concretos, representações visuais e gráficas da mensagem. A poesia espacial reage contra a discursiva evitando o verso e valorizando os elementos visuais como o espaço em branco, letras, tipos de formas, etc. De acordo com Celso Luft, a poesia concreta é uma montagem vocabular, pois as palavras são isoladas e seccionadas em grupos, sílabas ou letras. Para o crítico, os artistas concretos “apregoavam uma matemática (geometria) da composição do poema e tentam uma ortografia poética para figurar o sentido das palavras” (LUFT, 1973, p. 92).

Observa-se na afirmação de Luft, que a arte concreta e seus fragmentos léxicos e semânticos mostram uma tendência às vanguardas cubistas, dadaístas e em parte, surrealistas. Esse movimento poético explora a natureza imaginária e a invenção do fazer poético, segundo Alfredo Bosi:


 

São processos que visam atingir e a explorar as camadas materiais do significante e, por isso, levam a rejeitar toda concepção que esgote nos temas ou na realidade psíquica do emissor o interesse e a valia da obra. (BOSI, 2006, p. 476)


 

Assim sendo, o poema para o concretista torna-se um objeto de linguagem e isso faz com que a arte se defina como atividade produtora que se assume abertamente como anti-expressionista, pois “o poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre” (Gomringer apud BOSI, 2006, p. 476).

Na Literatura Brasileira, a poesia concreta fixou-se contrária à corrente intimista e propôs temas, formas e até algumas atitudes da Semana de Arte Moderna, de 1922. Em suma, o concretismo brasileiro teve o aproveitamento poético da palavra em si, como o signo concreto. O poeta João Cabral de Melo Neto, da geração 45, é um precursor a ser citado. Em seu poema O Engenheiro pode-se observar traços da arte concreta:


 

O lápis, o esquadro, o papel;

O desenho, o projeto, o número;

O engenheiro pensa o mundo justo,

Mundo que nenhum véu encobre.

Em certas tardes nós subíamos

Ao edifício. A cidade diária

Como um jornal que todos liam

Ganhava um pulmão de cimento e vidro

A água, o vento, a claridade;

De um lado o rio, no alto as nuvens;

Situavam na natureza o edifício,

Crescendo de suas forças simples.


 

Em 1954, Ferreira Gullar aparece lançando um poema espacial no livro A Luta Corporal. Logo, em 1956, ocorre a I Exposição Nacional de Arte Concreta, na qual se encontraram adeptos dessa arte, como Décio Pignatari, Mario Faustini, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Reinaldo Jardim, Oliveira Bastos, entre outros que ousavam em seus processos compositivos, substituindo as estruturas frásicas por estruturas nominais, relacionando-as tanto na direção horizontal como na vertical, como se observa nos poemas abaixo:


 

VVVVVVVVVV durassolado solumano

VVVVVVVVVE petrifincado corpumano

VVVVVVVVEL amargamado fardumano

VVVVVVVELO agrusurado servumano

VVVVVVELOC capitalienado gadumano

VVVVVELOCI massamorfado desumano

VVVVELOCID

VVVELOCIDA (José Lino Grünewald)

VVELOCIDAD

VELOCIDADE


 

Luft (1973) considera válido o experimentalismo do movimento concreto, entretanto ao invés de propor uma nova forma de fazer poema, aniquila-a:


 

Parece claro que o mero grafismo e a abolição simples e pura da semântica e do metaforismo (da imagística) só podem levar à ausência e a morte da Poesia. (LUFT, 1973, p. 92).


 

Outra regra comum à natureza concreta é a paronomásia, ou seja, a exploração das semelhanças sonoras como a aliteração e a assonância, que segundo Bosi (2006), parte do pressuposto de que há relações não-arbitrárias entre o significante e o significado. No poema Beba Coca-cola, pode-se ter um exemplo desse fenômeno:


 

Beba coca cola

Babe cola

Beba coca

Babe cola caco

Caco

Cola

C l o a c a (Décio Pignatari)


 

De acordo com Bosi (2006), ao ponto de vista estético, a natureza da poesia concreta parte da insistência do uso das formas futuristas e cubistas, as quais se pretendem superar radicalmente a poética metafórica-musical do Simbolismo. Logo, as vanguardas concretistas têm mais razão no que afirmam do que naquilo que eles negam:


 

[...] a sintaxe espacial e o emprego da palavra ilhada, cuja forma-sentido se quer assim potenciar, parecem caminhos promissores enquanto rompem as barreiras tradicionais entre as artes sonoras e as artes plásticas, e convergem para uma percepção mais rica do todo espaciotemporal em que está imersa a nossa sensibilidade. [...] O Simbolismo europeu acertou, dissolvendo os preconceitos fixistas ao Parnaso e dando os primeiros exemplos de verso livre e de poema em prosa que exploravam desenvoltamente novas trilhas fonéticas. (BOSI, 2006, p. 481-482).


 

Com isso, observa-se que a natureza concreta procura revolucionar o padrão de poesia, rompendo definitivamente com um passado que contribuiu para a invenção de um fazer poético. Renegar seus antecessores seria rechaçar suas técnicas e seus avanços para chegar a poesia concreta. Contudo, conforme Bosi (2006), o que não se pode negar é que, como toda a linguagem, a poesia construtiva defende um modo de relacionar-se com as coisas e com os homens, logo a recusa do tema não tem a ver com a carência de conteúdo psíquico e ideológico. A própria idéia do nonsense na composição, significa que o poeta não vê sentido em seu mundo:


 

[...] não é difícil reconhecer nos poemas concretos o universo referencial que a sua estrutura propõe comunicar: aspectos da sociedade contemporânea, assentada no regime capitalista e na burocracia, e saturada de objetos mercáveis, de imagens de propaganda, de erotismo e sentimentalismo comerciais, de lugares-comuns díspares que entravam a linguagem amenizando-lhe o tônus crítico e criador. (BOSI, 2006, p. 482).


 

Conclui-se, então, que a natureza da poesia concreta vem da fragmentação do verso. Por ser anti-expressionista e passar a idéia do nonsense, o concretismo defende uma “matemática de composição”, expulsando a emotividade e o sentimentalismo dos versos e propondo uma poesia que mesclasse as letras e as formas geométricas. O Concretismo ampliou os recursos da comunicação visual, sem desvalorizar a palavra. O apelo à comunicação não é unicamente verbal e a página passa a ser tomada como elemento físico existente na estrutura do poema, propiciando o uso construtivo dos espaços em branco para construções vocabulares, visto que as semelhanças sonoras passam a ser exploradas estruturalmente.


 


 

REFERÊNCIAS CONSULTADAS:
 

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 43ª ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
 

LUFT, Celso. Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira. Porto Alegre: Globo, 1973.

1 Professora, poeta e crítica literária. Pós-Graduada em Literatura Brasileira PPGL/UFRGS. Mais informações: http://lattes.cnpq.br/2860001847642918

E-mail: pujol.larissa@gmail.com Site pessoal: http://www.larissapujol.blogspot.com

                                               

Como citar este artigo:

SANTOS, Larissa Daiane Pujol C. dos. Tópicos sobre o movimento concreto: a crise do verso e a reinvenção da tradição. P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Agosto de 2009. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/movimentoconcreto.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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