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A gente escreve com seu próprio
desejo, e não se acaba nunca de desejar.
Barthes, 1977
O universo dos signos
parece reinar no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Como
na epígrafe acima, do famoso teórico da semiologia, o desejo
parece ser a palavra chave das descobertas linguísticas, a força
instintiva do homem que transforma seu poder criativo em arte.
Os jogos,
as imagens, as
pesquisas, as projeções,
ao sintonizarem-se com
o imaginário poético da
língua,
quer, em
primeira
instância, voar nas
asas
certeiras da imaginação da
linguagem, da palavra
que, de acordo
com sua
função
simbolizante, sugere-lhe a magia do
inconsciente
e acena-lhe com a
possível
abordagem do desconhecido
e com a visão
do infinito.
Projeções, simulacros,
imagens, encontros com Guimarães Rosa e seu processo escritural
vão formando signos associados ou aglutinados na composição do
imaginário lingüístico brasileiro e no processo vivencial. Tudo
mergulhado no mundo dos signos e da linguagem.
Mergulhados, signos e
símbolos decifram e subjugam o destino enigmático e linguístico
do homem, porque na opinição de Jean Chevalier, “dizer que
vivemos num mundo de símbolos é dizer pouco – então, com
certeza, pode-se afirmar que um mundo de símbolos vive em nós.”
Nesse jogo de
complexidades, os signos e símbolos são captados sob o ponto de
vista semiológico, num sentido mais abrangente, por isso nos
interessa as relações com o desejo, o receio e a sedução que dão
à vida seu sentido secreto ou, de maneira mais clara,
interessa-nos seu mundo latente.
A língua, a linguagem
exploradas em todos os espaços do Museu parecem vivenciar
experiências semiológicas do sonho, da construção de um universo
poético da língua dos brasileiros. Nesse “devaneio poético”,
conforme concepção de G. Bachelard em sua Póetica do devaneio
conduzirá o homem ao “seu mundo” que, ficcionalmente, o
transcende.
Este processo pode ser
observado na sala de projeção que explora percursos lingüísticos
através de imagens e poesias de escritores representativos da
língua portuguesa: Drummond, Fernando Pessoa, Monteiro Lobato e
outros.
O ato de fruição,
imensamente sentido ao se tentar atingir o processo de apreensão
das formas e projeções no teto da sala leva o homem a refletir
sobre o estado da linguagem e seu processo de criação. Tudo
instiga a tentativa de auto-explorarem sua linguagem e, em
consequência, de estenderem essa experiência ao meio e aos
outros que as envolvem.
Nesse percurso pelo
museu (ou no espaço romanesco da língua portuguesa?) percebe-se
a volta às origens da língua, ou seja, a memória é poeticamente
reabilitada. Nota-se, desse modo, que o ser emerge pleno
mediante projeções das cores, expressões e marcas do povo
brasileiro. Seria o processo de criação ficcional da língua?
Com essas viagens e
devaneios lingüísticos reencontramo-nos ao nos reconhecermos
também nas imagens, nos signos, nas cores, nas projeções. Ou
ainda, criamos uma supra-realidade – afirma Chevalier – porque
“os jogos de imagens e as relações imaginadas constituem uma
hermenêutica experimental do desconhecido”.
Entre a realidade que
as palavras não podem expressar e a realidade do homem que só
pode se expressar com palavras está o mundo explorado pelo
Museu. Nesse jogo dialético os passantes/leitores tentam
capturar o mundo interior, oriundo da própria consciência
pessoal, e o universo que lhe é imposto e lhe escapa como
realidade desconhecida.
Nessa galáxia de
imagens do povo brasileiro adentramos no clima obscuro e
enigmático da linguagem. Com tensões dialéticas entre saber e
desconhecer aspectos da língua, o leitor e seu olhar pós-moderno
recebem a influência desse mundo mágico e labiríntico dos
signos. Visto sob este prisma, a língua portuguesa nasce
túrgida, prenhe de sentidos que elevam o homem à margem da
verdade cambiante, que revela, por meio de sígnos e símbolos sua
expressão, uma visão plural das coisas, dos seres e do mundo.
Assim, o ser do homem vem à tona pelo viés semiológico do ser da
arte e da língua.
No reino poético do
museu e da língua, instauram-se o tempo sem tempo e a ausência
de espaço; nele, a fantasia domina soberana, concretizando-se
imageticamente nas brincadeiras metalingüísticas.
Redimensionando a palavra, o leitor/espectador (ou criador de
signos?) torna-se livre e reencontra-se, recria o mundo ao
sentir a impossibilidade de permanecer no já feito e consumado.
Assim, com a palavra
em liberdade, o leitor/espectador consegue transpor o tempo e o
espaço; redimensiona o instante presente ao vivificar o passado;
torna-se ubíquo, está aqui e lá, identifica opostos, pois o que
é a imagem (o mais explorado no museu) senão uma ilusão?
E o que é a ilusão
senão outra realidade, que uma vez visualizada se desfaz, para
ser criada de novo num momento fugaz, etéreo, da permanência
temporal?
Assim é o mundo
semiológico do Museu da Língua Portuguesa. Fugidio, enigmático,
imagético, mas extremamente expressivo – o mundo do próprio
desejo, segundo Barthes.
Imagem:Site:
http://pt.wikiquote.org/wiki/Museu_da_L%C3%ADngua_Portuguesa
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