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Revista Partes - Ano V - 04/03/2008 01:20:38 

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 Literatura

Museu da língua portuguesa: uma viagem semiológica
Por Rodrigo da Costa Araujo

 

 

A gente escreve com seu próprio desejo, e não se acaba nunca de desejar.

Barthes, 1977

 

            O universo dos signos parece reinar no Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Como na epígrafe acima, do famoso teórico da semiologia, o desejo parece ser a palavra chave das descobertas linguísticas, a força instintiva do homem que transforma seu poder criativo em arte.

            Os jogos, as imagens, as pesquisas, as projeções, ao sintonizarem-se com o imaginário poético da língua, quer, em primeira instância, voar nas asas certeiras da imaginação da linguagem, da palavra que, de acordo com sua função simbolizante, sugere-lhe a magia do inconsciente e acena-lhe com a possível abordagem do desconhecido e com a visão do infinito.

            Projeções, simulacros, imagens, encontros com Guimarães Rosa e seu processo escritural vão formando signos associados ou aglutinados na composição do imaginário lingüístico brasileiro e no processo vivencial. Tudo mergulhado no mundo dos signos e da linguagem.

            Mergulhados, signos e símbolos decifram e subjugam o destino enigmático e linguístico do homem, porque na opinição de Jean Chevalier, “dizer que vivemos num mundo de símbolos é dizer pouco – então, com certeza, pode-se afirmar que um mundo de símbolos vive em nós.”

            Nesse jogo de complexidades, os signos e símbolos são captados sob o ponto de vista semiológico, num sentido mais abrangente, por isso nos interessa as relações com o desejo, o receio e a sedução que dão à vida seu sentido secreto ou, de maneira mais clara, interessa-nos seu mundo latente.

            A língua, a linguagem exploradas em todos os espaços do Museu parecem vivenciar experiências semiológicas do sonho, da construção de um universo poético da língua dos brasileiros. Nesse “devaneio poético”, conforme concepção de G. Bachelard em sua Póetica do devaneio conduzirá o homem ao “seu mundo” que, ficcionalmente, o transcende.

            Este processo pode ser observado na sala de projeção que explora percursos lingüísticos através de imagens e poesias de escritores representativos da língua portuguesa: Drummond, Fernando Pessoa, Monteiro Lobato e outros.

            O ato de fruição, imensamente sentido ao se tentar atingir o processo de apreensão das formas e projeções no teto da sala leva o homem a refletir sobre o estado da linguagem e seu processo de criação. Tudo instiga a tentativa de auto-explorarem sua linguagem e, em consequência, de estenderem essa experiência ao meio e aos outros que as envolvem.

            Nesse percurso pelo museu (ou no espaço romanesco da língua portuguesa?) percebe-se a volta às origens da língua, ou seja, a memória é poeticamente reabilitada. Nota-se, desse modo, que o ser emerge pleno mediante projeções das cores, expressões e marcas do povo brasileiro. Seria o processo de criação ficcional da língua?

            Com essas viagens e devaneios lingüísticos reencontramo-nos ao nos reconhecermos também nas imagens, nos signos, nas cores, nas projeções. Ou ainda, criamos uma supra-realidade – afirma Chevalier – porque “os jogos de imagens e as relações imaginadas constituem uma hermenêutica experimental do desconhecido”.

            Entre a realidade que as palavras não podem expressar e a realidade do homem que só pode se expressar com palavras está o mundo explorado pelo Museu. Nesse jogo dialético os passantes/leitores tentam capturar o mundo interior, oriundo da própria consciência pessoal, e o universo que lhe é imposto e lhe escapa como realidade desconhecida.

            Nessa galáxia de imagens do povo brasileiro adentramos no clima obscuro e enigmático da linguagem. Com tensões dialéticas entre saber e desconhecer aspectos da língua, o leitor e seu olhar pós-moderno recebem a influência desse mundo mágico e labiríntico dos signos. Visto sob este prisma, a língua portuguesa nasce túrgida, prenhe de sentidos que elevam o homem à margem da verdade cambiante, que revela, por meio de sígnos e símbolos sua expressão, uma visão plural das coisas, dos seres e do mundo. Assim, o ser do homem vem à tona pelo viés semiológico do ser da arte e da língua.

            No reino poético do museu e da língua, instauram-se o tempo sem tempo e a ausência de espaço; nele, a fantasia domina soberana, concretizando-se imageticamente nas brincadeiras metalingüísticas. Redimensionando a palavra, o leitor/espectador (ou criador de signos?) torna-se livre e reencontra-se, recria o mundo ao sentir a impossibilidade de permanecer no já feito e consumado.

            Assim,  com a palavra em liberdade, o leitor/espectador consegue transpor o tempo e o espaço; redimensiona o instante presente ao vivificar o passado; torna-se ubíquo, está aqui e lá, identifica opostos, pois o que é a imagem (o mais explorado no museu) senão uma ilusão?

            E o que é a ilusão senão outra realidade, que uma vez visualizada se desfaz, para ser criada de novo num momento fugaz, etéreo, da permanência temporal?

            Assim é o mundo semiológico do Museu da Língua Portuguesa. Fugidio, enigmático, imagético, mas extremamente expressivo – o mundo do próprio desejo, segundo Barthes. 

Imagem:Site: http://pt.wikiquote.org/wiki/Museu_da_L%C3%ADngua_Portuguesa 

 

    Outros artigos do autor:

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Rodrigo da Costa Araujo é professor de Literatura Brasileira da FAFIMA – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé e Mestrando em Ciência da Arte pela UFF Universidade Federal Fluminense/ E-mail: rodricoara@uol.com.br



 

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