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Do
tanto que se poderia polemizar acerca da mudança
de perfil na produção de música popular
brasileira nas duas últimas décadas, longe
deveria estar a demarcação de uma suposta crise
de criatividade – porém é justo o que
consagrados emepebistas mais enxergam em muitas
leituras superficiais de cenário. A música
brasileira vai bem, obrigado. Os conceitos de
popular e de produção é que merecem revisão, mas
não, em si, a qualidade da composição que tem
sido feita. Esta é indubitável; porém, deve ser
procurada, visitada entre ruas reais e virtuais,
pesquisada, enfim. É ou não um problema da
produção, que não faz aparecer tamanha
produtividade? É ou não um problema conceitual,
se encontra-se alvejado logo o “P” da MPB, que
se tornou “impopular” ou outra coisa ou mesmo se
fragmentou em subgêneros filiais nem sempre tão
fáceis de encontrar dando sopa por aí?
Hipóteses, a se pensar.
Em meio a
tudo, o digno “ressurgimento” do samba, a sua
inserção junto a novos públicos antes alheios ao
samba como parte integrante fundadora da MPB
lato sensu. O cantor e compositor niteroiense
Daniel Scisinio insere-se num contexto já de
pós-revalorização. Conquistado o prestígio, o
samba carece ir além dos olhos do mercado, que
não teve opção senão abdicar do pagodismo meloso
e imbricar demagogicamente, constrangido, pela
via do autêntico. Componente do grupo “Unha de
Gato”, Scisinio pertence à vanguarda de uma
geração que já se acostumou com a publicidade
alcançada pelo nosso ritmo e daí segue, com um
certo otimismo, rumo a um futuro, a uma
renovação. Não mais se contentando com o
propalado “resgate”, entende que deste faça
parte o engenho, o esforço para a inovação, se
bem que dentro dos alicerces constituídos,
claro, e embora salvaguarde, em uma árdua rotina
de bares e trabalhos nas noites, os (bons)
princípios que fizeram o samba recuperar o
espaço antes perdido para a onda de
pseudomodernidade importada ou ainda imposta
pelo mercado, que acusara de decadente um gênero
que agoniza mas não morre. É isso o disco “Nova
Poesia”, de Scisinio: reverência ao passado,
flerte com um novo.
A bem da
verdade, este namoro, em que pese seja declarado
pelo título do CD – lançado pelo selo Niterói
Discos, braço da iniciativa cultural da
Prefeitura da ex-capital fluminense –, é tímido,
reservado, respeitoso demais para com o “velho”,
aqui entendido em todo o seu aspecto positivo. O
novo é velho, e assim o velho se renova. Com
esta solução, Scisinio constrói sua estréia:
apostando em inéditas que preconizam uma fórmula
que se encontra em ótima forma, como anuncia a
faixa inicial, “O bom remador”, do mestre Wilson
Moreira. Outras faixas se destacam,
principalmente as que se sustentam no duo
simplicidade/alegria bem tupiniquim, como “Bons
tempos vividos” (do Trio Calafrio formado por
Barbeirinho, Marcos Diniz e Luiz Grande, em
participação mais que especial deste último e
também da dupla Silvério Pontes e Zé da Velha),
“Cadê Manel” (Scisinio com Bispo Helder), “Dona
Neném” (parceria com Ilton do Candongueiro),
“Festão” e “Terra da roça” (ambas de Scisinio).
Algumas letras mereciam um tratamento mais à
altura do título “Nova Poesia”, e aí o que se vê
é uma certa repetição de imagens de gosto algo
duvidoso. Nada, no entanto, que comprometa o
espírito da proposta.
Ao operar em meio à revisão
histórica por que passa nossa música, Daniel
Scisinio vem se apresentar como artista com
afinada voz própria, afirmando a necessidade
de que se aceite procurar, para achar,
característica que a música brasileira
jamais deixou de possuir: criatividade. Cabe
agora aos músicos, principalmente nas
noites, nas rodas mais movimentadas, se
incumbirem desta necessidade, e mostrarem as
suas e as composições inéditas da montoeira
de arteiros que nosso solo não cansa de ver
nascer, entre lembranças que voltam sempre e
provocam em muitos a vontade de tomar parte
em memória musical tão rica.
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