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Resumo: O trabalho
procura abordar questões da relação entre o ouvinte e a música
transmitida pela mídia. Pois, as mudanças nas formas de recepção e
transmissão musical acarretadas pelos avanços tecnológicos contribuiu
para diversas alterações nos hábitos culturais dos sujeitos. A partir da
perspectiva crítica de Adorno sobre o fetichismo na música, esse
trabalho procura analisar os processos de industrialização e
comercialização assim como, as conseqüências da apropriação dos ritmos,
sons e melodias. E para compreender o fenômeno do gosto musical na era
do advento das mídias em sua criação e recepção, empregamos a proposta
de Adorno sobre a tipologia da escuta.
Palavras Chaves:
Mídia,
apropriação e recepção, educação.
1 - Considerações iniciais
Com o surgimento das mídias aconteceram inúmeras mudanças na música, na
audição, na percepção, etc., e suas conseqüências na sociedade foram
analisadas pelo filósofo Adorno. Ele faz uma clara análise dos novos
gostos musicais gerada pela recepção musical através das mídias. Segundo
ele, o gosto musical não só regrediu, mas permaneceu, de forma geral, em
um estado infantil. Adorno ressalta que essa escuta se caracteriza pela
postura do ouvinte frente à música mais cômoda e comum e dessa forma, o
sujeito acaba exigindo sempre a repetição do que já é conhecido. Isso
que Adorno diz, explica de certa forma as “tribos” da cultura musical, o
funk, pagode, samba, rock etc.
Esse tipo de preferência se tornou predominante devido à adesão
entusiasta às músicas de sucesso, o que contribuiu, juntamente com a
forte popularidade do cinema, por exemplo. A tendência preponderante de
uma escuta padronizada, de certa forma contribui para um processo de
liquidação do indivíduo. Esse, por sua vez, se acomodou ao hábito de
escutar sempre e somente o que lhe era oferecido e, conseqüentemente,
acarretou uma perda da sua capacidade de livre escolha consciente da
música. Nesse sentido, me questiono que papel deve ter tido a escola
nesse processo? Uma vez que o ouvinte passou a adotar as mídias como
principal referência para a sua escolha do repertório musical, as
músicas comuns começaram a ser aquelas que ocupavam uma posição na
parada de sucesso. Dessa forma, o ouvinte se dispôs ao domínio do
comum e aceitou sem objeções a renúncia de sua liberdade na procura da
falsa segurança de uma consciência acomodada.
Acredito que dessa maneira a qualidade da transmissão e recepção sonora
causou uma disseminação da música em massa, o hábito de separar um tempo
exclusivo para se escutar música foi gradualmente sendo substituído por
uma audição desconexa e efêmera de estilos. As pessoas foram
desaprendendo a dar atenção e a exercer uma melhor compreensão no que
ouviam. Assim sendo, a recepção passou a ser caracterizada, de um modo
geral, pela distração e pela perda do esforço de uma escuta consciente.
Adorno considera, também, a homogeneização do repertório que se tornou
normalizado e semelhante entre si, exceto algumas particularidades, como
reforço para essa crescente incapacidade de conexão (ADORNO 1938, p.
92).
Entre outras conseqüências trazidas pelo advento das mídias, as pessoas
passaram gradativamente a excluir de suas vidas o interesse pelo
aprendizado musical, substituindo os instrumentos musicais de suas casas
pelos aparelhos reprodutores de som, assim, a prática musical deu lugar
a audição pacífica, esses acontecimentos como um todo colaboraram para
aquilo que Adorno assinalou como regressão na audição. A contraparte da
regressão na audição, ou o seu fenômeno gerador segundo Adorno, é o
fetichismo na música, utilizando-se dos meios de comunicação, esse poder
teria como objetivo gerar necessidades supostamente legítimas para
manter as pessoas carentes e ávidas por novos produtos, o que na verdade
significa apenas um incentivo para exercer o poder de compra. Por meio
dos critérios fetichistas dominantes a Indústria Cultural teria a
capacidade de cercar com exclusividade todas as possibilidades de
escolha do consumidor.
Segundo as observações de Adorno, a essência desse falso encantamento
consistiria em projetar imagens nos meios de comunicação para refletir
nos consumidores algo que eles já percebem em si mesmos e, através do
processo de identificação fazer com que as massas se espelhem em um
produto recomendado como um objeto de sua própria ação, da qual não
conseguem subtrair-se (ADORNO 1938, p. 91). Nesse sentido, Adorno
declara que “deve-se assegurar aos fãs da música de sucesso de que os
seus ídolos não são excessivamente elevados para ele” (idem p. 74).
Desse modo, o fetichismo da música estaria apoiado no princípio
totalitário do sucesso acumulado. Para Adorno, os ouvintes e
consumidores em geral foram acostumados a ansiar e exigir exatamente
aquilo que lhes era imposto obstinadamente pela mídia (idem, p. 91).
Adorno considera tal procedimento como um “círculo vicioso fatal” em que
“o mais conhecido é o mais famoso e tem mais sucesso, conseqüentemente,
é mais gravado e ouvido, e com isso se torna cada vez mais famoso”.
(idem p. 75). Portanto, o fetichismo na música não seria outra coisa se
não, uma estratégia da Indústria Cultural em manejar o consumidor com o
intento de aumentar as oportunidades de venda.
2 - O fetichismo e seu efeito cultural
Uma vez demonstrado o método fetichista e o seu caráter ilusório,
partiremos agora para o estudo das suas implicações na escuta musical.
Uma particularidade que já foi previamente mencionada e demonstrada
refere-se ao caso da improvável figura de alguém que escuta música, pois
na realidade não se trata de uma atividade especificamente direcionada
para a audição musical, mas uma conciliação entre uma determinada
ocupação como distração.
Outra conseqüência da escuta regredida deriva da rápida rotatividade na
substituição das músicas da moda e dos ídolos de sucesso. Esse tipo de
procedimento resultou em uma escuta que se caracteriza pela expectativa
do ouvinte de estar sempre a par da próxima novidade. Isso faz com que
ele não escute mais a música propriamente dita, mas aquilo que ela
promete ser, assim como as novidades que ela aparenta ter. Percebe-se
que a Indústria Cultural é muito estrategista em suas ações.
Outra propriedade da escuta regredida seria o sintoma daquilo que Adorno
denominou como coisificação (ADORNO 1938, p. 84). O conceito
significa a autonomia dos objetos em relação ao homem. Na música
refere-se a uma maior valorização do material do que a experiência
musical. Para explanar esse dado, Adorno lembra a decisiva importância
atribuída a voz. A supervalorização da voz encarada pelo público como
uma dádiva divina que justifica o direito de adoração ao ídolo premiado
com um supremo bem sagrado que o torna digno de todo o seu sucesso.
Nesse sentido, Adorno apresenta uma eficaz revelação dos processos de
industrialização na música. Ligada a mercantilização, e a produção
obedecendo quase que obrigatoriamente as normas rigidamente normalizadas
e padronizadas pelos padrões e modelos que já fizeram ou estão fazendo
sucesso.
Para que aconteça essa apropriação da escuta das massas exige além de
todo um empenho uma minuciosa estratégia de marketing. Assim, essas
músicas exercem um extenso domínio no espaço sonoro acústico ao serem
“inculcadas aos ouvintes através de amplificações e repetições contínuas
sem que a organização do conjunto possa exercer a mínima influência
contrária” (ADORNO, 1938, p. 81). Adorno cita um exemplo típico de uma
dessas estratégias publicitárias que se utilizam, até mesmo, de recursos
comerciais intrínsecos a música.
A música de
sucesso, na penumbra de seu conhecimento subconsciente, permanece
benfazejamente esquecida, para tornar-se por alguns instantes
dolorosamente clara, como na luz repentina de um reflexo. É-se quase
tentando a equiparar o momento desta recordação com aquele em que
ocorrem à vítima o título ou as palavras do início do refrão da música
de sucesso: talvez se identifique recordando-a, e assim incorpore a sua
posse. É possível que essa coação o leve a refletir sobre o título da
música de sucesso. (ADORNO, 1938, p. 92).
Na tática de somente expor ao público aquilo que ele já esteja
familiarizado, seus ouvidos devem ter sido previamente programados para
que reconheçam os códigos, sons e melodias da música de consumo
distribuída pela mídia. Portanto, o que a indústria de mercadorias
realmente quer ao proporcionar prazer momentâneo e diversão é desobrigar
os ouvintes de pensarem e refletirem sobre o que ouvem,
convertendo-os em simples compradores passivos de bens de consumo
imediato.
Mas como identificar os diferentes estereótipos de consumidores da
música? Segundo Adorno, entre tantos existem, por exemplo, o bom
ouvinte, ele não é um profissional da música, seu conhecimento musical
procede da sua intimidade com o próprio costume de ouvir música. Ele tem
autonomia suficiente para não seguir o critério arbitrário de gosto
imposto pelo fetichismo. Para ele, a coerência musical é devido à
natureza experiênciativa apreciativa. Talvez, o bom ouvinte se encontre
naqueles grupos de pessoas que receberam alguma orientação cultural no
processo de sua educação.
O ouvinte consumidor de cultura defende sua posição de apreciador da
música. Porém, sua afinidade com a escuta perpassa pela interferência do
fetichismo. Isso se explica pelo fato dele ser o típico colecionador.
A coleção incondicional das coletâneas e discos produzidos
que ele preserva e conserva como um patrimônio cultural é tido como
verdadeiros troféus em sua estante. Ele gosta de ouvir música, assim
como, a prática da leitura dos encartes de disco que de fato, é o que
mais desperta o seu interesse, pois, o mantém informado sobre os dados
biográficos e a importância dos artistas.
Entre eles, segundo Adorno, está o ouvinte emocional usa a música como
uma espécie de álbum de memória sonora para os momentos de emoções
marcantes da sua vida. Sua experiência na escuta tem primeiramente que
se remeter a algum acontecimento externo a música. É comum ouvir desse
sujeito: “essa é a música, que marcou nosso primeiro beijo, meu amor”,
“essa música lembra minha infância”, etc. E assim o indivíduo vai
significando sua vida com uma trilha sonora característica e particular.
Nesse sentido, a música que mais o agrada é aquela que mais bem revive
as suas emoções. Por conseguinte, quanto mais coisificada for a
música, melhor servirá para comover o seu ouvido romântico.
O ouvinte ressentido é aquele que guarda o seu ouvido no mausoléu da
antiguidade daquilo que estima como resquício musical. Esse sujeito
adoraria ter nascido na época dos grandes mestres da história da música,
no tempo que, segundo ele, as músicas eram regenciadas por valores
legitimamente artísticos. Defende a interpretação musical de acordo com
a história autêntica, desconsiderando outras possibilidades de escutar
diferentes versões que diferencie a sua música. O que se pode aferir
desse sujeito é que ele se utiliza da música como um escudo sonoro para
se blindar contra a possessão do fetichismo na música.
O ouvinte de entretenimento é o indivíduo que foi convertido pelos
valores ideológicos do fetichismo. Ele consome o que a Indústria
Cultural estabelece e, com isso, assegura o gordo lucro da Indústria
Cultural. O seu desejo pela música se adaptou ao alto rodízio da moda,
que na sua essência, se fortalece pelo consumo de massa. Ele faz parte
do grande público alvo do mercado, público que pode ser usual para se
explicar os inúmeros veículos midiáticos usados como estratégias de
marketing. Sua relação com a música é de caráter operacional, ele agrega
o ouvir música com as ocasiões de lazer. Quando afrontado pela música
que exige reflexão, ele se opõe com intensidade buscando argumentos para
justificar a sua atitude fidedigna nos meios de comunicação e no gosto
da maioria como comprobação dessa irrefragável validade. Desse modo, ele
consentiu em aceitar pacificamente o totalitarismo das mídias a favor de
um suposto conforto que se sustenta numa exoneração do pensamento
autocrítico.
Essas são questões hipotéticas levantadas por Adorno para caracterizar
não indivíduos incondicionais, mas determinados comportamentos
reentrante que determinados sujeitos costumam professar em seus hábitos
de apreciação da música.
3 - Considerações finais
A pós ter esclarecido o concludente fetichismo musical provocado pela
industrialização comercialização e apropriação da música pelo sistema
midiático e diagnosticado os sintomas da regressão da audição,
partiremos agora para a fase de realmente ouvir música. Se considerarmos
a perspectiva crítica de Adorno como uma proposta de juízo crítico,
estaremos admitir, mais uma vez, a veracidade de suas idéias sobre a
regressão da audição. Nesse sentido, o ouvinte deve, inicialmente,
desempenhar um posicionamento crítico no que desrespeite ao seu costume
de ouvir. Adorno sugere uma escuta que não espere somente resultados
imediatos em conformidade com os padrões estabelecidos pela Indústria
Cultural. Nesse sentido, o rompimento da dependência dos meios de
comunicação em massa como fonte prioritária para a escolha musical
consiste no ir além do que é naturalmente óbvio e do que não exige
esforço.
Até o presente momento, o estudo da escuta musical na era do advento das
mídias e a sua ideologia na recepção midiática validadas pelas idéias de
Adorno foram, de um modo geral, adequadamente compassivo, apesar de
alguns propósitos ecoarem como ideais. Porém, quando nos defrontamos com
os parâmetros de ajuizamento estético de Adorno para estimar o valor
artístico das músicas recorrentes nos meios de comunicação de massa, o
aproveitamento se torna inexeqüível.
Com este trabalho, acredito ser possível colocar em discussão parâmetros
justos no reconhecimento de uma música de valor artístico na mídia de
massa. De maneira suposta, para se considerar uma música de cunho
artístico e não um bem de consumo ela deveria, por exemplo, conter as
seguintes características: capacidade de suportar o processo vital do
tempo e de encerrar a possibilidade de se tornar um pertence permanente
do mundo (ARENDT, 1972, p. 258). A experiência de fruição pode ser
perpetuada através dos séculos, o prazer que ela transmite ao espírito
se renova a cada audição, ela desperta a crítica, a análise reflexiva e
a sua escuta é mais ativa do que passiva. Poderia ser resumida em uma só
palavra, ela é possuidora daquilo que o grande pensador Walter Benjamin
denominou de aura (BENJAMIN 1955, p. 14), em outras palavras, é
algo vivo, movente e composta de toda uma singularidade única.
Referências
Bibliográficas
ADORNO, T, W. O
Fetichismo na Música e a Regressão da audição. In: BENJAMIN, W.
Textos escolhidos. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1982. p. 173-199.
______________.
Idéias para a Sociologia da Música. In: Os
pensadores. São Paulo: Ed. Abril Cultural, 1983. p. 259-268.
ARENDT, Hannah. A
Quebra entre o Passado e o Futuro. In: Entre o passado e o futuro.
São Paulo: Ed. Perspectiva, 1979. p. 28-42.
BENJAMIN, W. A
obra de arte na era da reprodutibilidade técnica. In: Obras
Escolhidas. v. 1: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Ed.
Brasiliense, 1985. p. 5-25.
FERRARETTO, L. A.
O hábito de escuta: pistas para a compreensão das alterações nas formas
do ouvir radiofônico. Ghrebh. Res., n. 9, p. 1-20, 2007. Disponível em:<http://www.revista.cisc.org.br/ghrebh9/artigo.php?dir=artigo&id=Ferraretto>.
Acesso em 03 abr. 2007.
Vinculação
Institucional: Aluno da Pós-graduação do Curso de Especialização em
Tecnologias da Informação Aplicadas a Educação/EAD/UFSM. Formação:
Graduação Licenciatura Plena em Pedagogia, UFSM/2008 – Pós-graduação
Especialista em Gestão Educacional, UFSM/2010 - E-mail:
professor_valmir_rs@yahoo.com.br
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