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Resumo: O objetivo deste trabalho é fazer uma reflexão sobre a contribuição
do saber geográfico na construção da identidade brasileira com base na
linguagem expressada na música caipira da dupla Cascatinha e Inhana, do
interior de São Paulo, no período de 1945 a1981. A idéia é realizar uma
análise de sua obra de modo geral e especificamente das músicas “Guarujá” e
“Alvorecer do Sertão” a partir de elementos como, contexto histórico e os
conceitos geográficos de Região e Lugar.
Palavras-chave: Música. Região. Lugar.
Introdução
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a construção da identidade
brasileira e o pensamento geográfico no Brasil. Entendemos que essa análise
poderia ser feita a partir de várias linguagens como a cartografia, a
literatura, a pintura, porém a nossa reflexão será por meio da linguagem
musical.
Isso posto, analisaremos a obra musical de Cascatinha e Inhana (1945/1981)
sob um prisma geral para, posteriormente, analisar as músicas “Guarujá” e
“Alvorecer do Sertão”visando compreender como a discografia dessa dupla do
interior de São Paulo expressava a realidade de toda uma época, demonstrando
dessa forma como foi sendo construída a identidade brasileira a partir de
dois conceitos geográficos: Região e Lugar contidos na musicalidade dessa
dupla e que expressavam geograficidade e contexto histórico.
Segundo Santos (2004) podemos dizer de forma sintetizada que Região trata-se
de um tipo de recorte onde cada atividades ou áreas de interesse possui sua
própria territorialidade e o consideramos como Lugar , um fenômeno qualquer
que tenha forma e posição que possam ser identificados e que, tal forma
possuam uma identidade relacionada a algum processo especifico que lhe de
significado.
Com essas considerações iniciamos o trabalho com um breve histórico da
música caipira brasileira com o intuito de compreender como esse estilo
musical foi se tornando parte da identidade brasileira ao longo da história
do país. Posteriormente analisaremos a musicalidade de Cascatinha e Inhana
de forma geral e das músicas citadas acima. Optamos pela obra, pois ao
analisar a discografia da dupla percebemos forte traço de regionalização,
característica de um momento histórico no qual as músicas traduzem a
expressão máxima de exaltação das belezas físicas brasileiras. A escolha da
dupla se deu por nos chamar a atenção a sua forte característica
regionalista, como já acentuamos anteriormente, mas se deveu ainda à forma
da expressar do “Lugar”. Assim, entendemos e nesse sentido direcionamos o
trabalho ciente de que a análise da obra da dupla Cascatinha e Inhana nos
possibilitaria a compreensão de um contexto histórico e deixaria claro quais
os aspectos que também contribuíram para a construção do pensamento
geográfico brasileiro.
A música caipira de Cascatinha e o Inhana e a construção da brasilidade
Os cantos religiosos dos jesuítas e as cantigas trazidas pelos portugueses
colonizadores misturam-se à música e à dança dos índios, surgindo esse
gênero musical que ficou conhecido como “musica caipira, ”que se popularizou
especialmente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste do país”, nessa ordem.
A música caipira era o nome genérico que designava a melodia produzida a
partir das primeiras décadas do século XX e que posteriormente passou a ser
chamada de música sertaneja. Integrando esse gênero musical encontramos as
catiras, cururus e as modas de viola.
O cururu nasceu dos cantos religiosos marcados pelas batidas de pé e fazia
parte dos acontecimentos sociais das fazendas e vilas, uma espécie de
desafio improvisado entre violeiros cantadores. A Catira surgiu de uma dança
indígena, o cateretê, que também fazia parte dos cultos católicos dos
primórdios da colonização, com solos de viola e coro, acompanhados de
sapateados e palmas. É a dança da Folia de Reis, popular nos interiores
mineiro e paulista, ritmo, por sinal, que era exclusivamente masculino.
Entre tantos sons e estilos formados a partir das toadas e cantigas, a moda
de viola se transformou na melhor expressão da música caipira, com uma
estrutura que permite solos de viola e longos versos intercalados por
refrões, com letras extensas, contando fatos históricos e acontecimentos
marcantes da vida das comunidades, cujo conteúdo evocava a beleza da
paisagem assim como o modo de vida romântico do homem do interior em
oposição ao homem da cidade com uma temática bastante ligada ao cotidiano.
Com o passar do tempo, ocorreram as modificações temáticas anteriormente
rurais, passando para o urbano mediante a estruturação e a utilização de
outros instrumentos que consolidaram o lado moderno da música caipira.
Segundo Ulhôa, esse gênero musical pode ser dividido em três partes: de 1929
até 1944, música caipira através da qual os cantadores interpretavam modas
de viola e toadas, canções estróficas que após uma introdução da viola
(repique) falavam do universo sertanejo numa linguagem essencialmente épica,
muitas vezes satírico-moralista e menos freqüentemente amorosa. Os duetos em
vozes paralelas eram acompanhados pela viola caipira. A segunda fase, do
pós-guerra aos anos 60, foi entendida como período de transição. Após 1945,
introduziram-se na música caipira instrumentos como a harpa e o acordeom,
além de novos estilos e gêneros, e a temática foi ficando cada vez mais
amorosa, mas conservando um caráter autobiográfico. A fase moderna da música
sertaneja iniciou-se no final dos anos 60 e vem até a atualidade, com a
introdução da guitarra elétrica e o chamado "ritmo jovem".
Assim, ao analisar como foi construída ou como se desenvolveu a música
caipira podemos compreender como de fato esse gênero musical expressa a
brasilidade, fazendo parte da identidade popular do país, gênero musical que
se formou pela canção e pela síntese da cultura musical de povos europeus,
africanos e indígenas.
O apogeu dos caipiras foi nos anos 50, quando muitas duplas, especialmente
do interior de São Paulo, tiveram espaço nas gravadoras e emissoras de
rádio. A música da dupla Cascatinha e Inhana faz parte desse período, ou
seja, da segunda fase, que foi a de transição entre a moda de viola de raiz
e a música sertaneja. Foram 39 anos de trabalho do primeiro disco gravado em
1942 até a morte de Cascatinha, em 1981. Com mais de 100.000 discos vendidos
suas músicas apresentavam características marcados pelo cotidiano, pela
beleza das paisagens, o modo de vida romântico do interior e passando para
fase mais amorosa, além da temática urbana, uma vez que o processo de
urbanização avançava de modo acelerado no país.
Para melhor compreender a reflexão sobre músicas com abordagens
regionalistas há que se valer do mapa Tipos e Aspectos do Brasil, que
demonstra o trabalho em cada região do Brasil.
Tipo e aspectos do Brasil

Figura 1: Tipos e aspectos do Brasil. Fonte: SILVA (2006)
Ao relacionarmos a música de Cascatinha e Inhana com esse mapa denominado
Tipos e Aspectos do Brasil, publicado em 1939 pela Revista Brasileira de
Geografia que, segundo Jorge Luiz Barcellos da Silva “`tornou-se aos poucos
uma referência sobre a realidade geográfica do país”, podemos inferir que as
músicas sob análise da dupla expressavam exatamente o contexto histórico em
prol da unidade nacional garantida, convém sempre repetir, nas diferenças
culturais. Para Silva, ``Ao apresentar homens que retratam gêneros de vida
localizados e, portanto, reconhecidos dentro de uma escala de significados,
dá valor a um conjunto de atividades que fazem parte da construção
nacional.´´ Mais adiante afirma que``De Sul ao Norte os tipos brasileiros
são vistos, assim como as paisagens, de forma estereotipada´´.
O uso desse recurso permite entender melhor essa regionalização e constatar
que o fenômeno fazia parte de um contexto histórico nacionalista de
exaltação à pátria, uma maneira de induzir a população a vincular a
ocorrência de eventuais problemas localizados em qualquer parte do Brasil as
diferenças culturais, uma política implícita do governo para evitar a
possibilidade da ocorrência de conflitos sociais. Dessa forma, ao observar o
mapa abaixo, com o qual fizemos a relação com as músicas, podemos
compreender que tais canções regionalistas faziam parte de um contexto
histórico.
Em função disso, selecionamos trechos de algumas músicas que nos remetem à
questão colocada:
Bombachudo
Bombachudo de tradição
Passa pra cá a cúia
Que eu também quero tomar o chimarão.
Seriema
Oh!
Seriema de Mato-Grosso,
Teu canto triste me faz lembrar,
Flor do Cafezal
Meu cafezal em flor, quanta flor meu cafezal,
Ai menina, meu amor, minha flor do cafezal
Mas além dessa visão regionalista, as músicas do par sertanejo apresentavam
uma outra faceta, que consistia na abordagem detalhada dos lugares,
características que a vinculam com a temática do cotidiano própria da moda
de viola, essa forma de transformar lugares em canções que encantavam os
ouvintes do próprio lugar, os que haviam partido desses lugares e os que
conheciam esses lugares apenas pelas letras das músicas.
Para analisar os locais aproveitados como temas das canções de Cascatinha e
Inhana partimos da afirmação de Santos (1995), de que o lugar é mental e
social, lugar é identidade e diferença, lugar marcado (logo destacado) e
nomeado (logo dito), logo ligado e religado. Dessa forma podemos, ao
analisar a letra da melodia, perceber que o lugar cantado é mais do que mera
descrição e perpassam os estereótipos.
Alvorecer do Sertão
Como é bonito,
No sertão raiar o dia,
Ver o sol aparecendo,
Por de trás da serrania
Beijando quente,
A campina vermejante
E o orvalhando refletindo,
Como pedras de brilhante
Guarujá
Praias de brancas areias,
Céu de tão raro explendor
Mar onde lindas sereias,
São todo um poema de amor
Lindas manhãs de verão,
Noites de quente luar,
Brisas que são beijos perdidos no ar,
Notas plangentes ao mar
As músicas que retratam o lugar o fazem partindo da percepção da identidade
destes. Em forma de música percorrem outros lugares onde podem ser
comparados com outros e outras identidade. É assim que as formas do lugar
desconhecido, cantado e imaginado entram em contradição com as formas do
próprio lugar construindo identidades a partir de outras identidades e,
desse modo, tal fenômeno não pode ser confundido com o lugar comum do
estereótipo. Para Santos, um``lugar possui identidade a partir do momento em
que é possível comparar um fenômeno com um conjunto de outros e, assim,
identificar sua posição em relação aos demais. Um dos aspectos fundamentais
para a construção dessas identidades é, justamente, a forma que cada
fenômeno possui e é isso justamente o que chamamos de espaço”.
Considerações finais
A música caipira de Cascatinha e Inhana retrata dois conceitos importantes
da Geografia: a região e o lugar. Por meio da linguagem musical podemos
perceber que a construção de uma identidade nacional está ligada à
construção do espaço e dessa forma entendemos que a construção da
brasilidade está diretamente ligada à geograficidade. A identidade de um
povo se constrói em um momento, (tempo) e em um lugar (espaço). Isso fica
evidente na abordagem regionalista e estereotipada que representa um
contexto histórico cujo objetivo era o de manter a unidade nacional baseado
nas diferenças culturais e na abordagem dos lugares que o vão tirando do
anonimato, gerando contradições e criando novas identidades.
Referências
ULHÔA, Marta. A música sertaneja em Uberlândia na década de1990. Disponível
em: site www.artcultura.ufu.br. Acesso em: 08/08/2008.
SANTOS, Douglas. Conteúdo e objetivo pedagógico no ensino de Geografia.
Caderno Prudentino de Geografia, Presidente Prudente, n. 17, p. 20-61, jul.
1995
SILVA, Jorge Luiz Barcellos da. Atlas Geográfico do Brasil: leituras da
territorialidade e a construção da brasilidade. 2006. Tese (Doutorado em
Ciências Sociais) - Pontifícia Universidade Católica, São Paulo.
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