ResumoO trabalho tem por objetivo identificar por meio das
letras de músicas brasileiras a geograficidade, as manifestações
populacionais, o descaso do governo para com seu povo, a cultura do povo e a
época em que os fatos ocorrem. A música a ser trabalhada é “Tropicália” de
Caetano Veloso.
Palavras chave - música, poder, cultura.
Introdução
No inicio da formação da população do Brasil podemos dizer que foi
constituída por dois grandes grupos: os brancos e os não brancos. Nesse
inicio de colonização do Brasil recebemos a influência cultural dos
portugueses e dos africanos.
Nos dias atuais a cultura norte americana é nítida em nosso país. Essa
influência pode ser notada na alimentação, na língua, mas principalmente na
linguagem musical e no ritmo é que está explicita.
Da música ou do ritmo musical pode-se perceber a geografia dos lugares,
as regiões e até mesmo países podem ser identificados por meio da música.
Pode-se considerar “lugar” quando o espaço e o tempo assumem sua identidade
carregando toda paisagem ali existente. (Yázigi,2001,p.189).
Com uma breve interpretação da letra de uma música, consegue-se
identificar lugares, regiões, épocas e até mesmo os fatos ocorridos, ou
seja, as letras das músicas podem dar referências de localização, os lugares
podem identificar as pessoas, e por meio da música pode-se perceber a
cultura de um povo.
O Movimento Tropicalista
Entre 1967 e 1968, surge o “Tropicalismo”. Foi um movimento de ruptura
que balançou o ambiente da música popular e da cultura brasileira.Os
tropicalistas (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal. Costa, entre outros),
procuraram universalizar a linguagem da Música Popular Brasileira (MPB),
incorporando elementos da cultura jovem mundial, como por exemplo, a
guitarra elétrica. As idéias tropicalistas modernizaram a música e a cultura
nacional.
Com as novas informações da época, o tropicalismo renovou a letra da MPB,
mas continuaram a seguir as tradições dos grandes compositores da Bossa
Nova. As canções tropicalistas faziam uma conjunção do Brasil arcaico e suas
tradições, do Brasil moderno e sua cultura de massa, de um Brasil futurista
com astronautas e discos voadores.
Durante o período militar no Brasil (1964-1985), ocorre o rompimento com
a democracia, a repressão à imprensa, a ruptura aos direitos civis da
população e uma ditadura militar onde qualquer tipo de manifestação popular
era proibida, restava a música para protestar e criticar o governo. Muitos
artistas e políticos nesse período foram exilados e muitas músicas foram
proibidas, como “Cálice” que é uma canção escrita e interpretada por Chico
Buarque e Gilberto Gil em 1973, na qual percebe-se um elaborado jogo de
palavras para despistar a censura da ditadura militar. A canção teve sua
execução proibida durante anos no Brasil.
No final dos anos 60, o poeta, compositor Caetano Veloso, lança seu
primeiro elepê solo, e o grande destaque desse disco é a música
“Tropicália”. A música foi dividida em cinco partes de melodias primárias e
iguais, cada uma determinando um par de “vivas”. A composição mostra uma
visão crítica e sintetizada da política brasileira e contrapõe valores dessa
realidade.
“Tropicália” (1967) Caetano Veloso
Quando diz “aponta contra os chapadões”, faz uma referência a Brasília,
capital do Brasil, situada na Região Centro-Oeste., “eu organiza o movimento
eu oriento o carnaval eu inauguro o monumento” “carnaval”, como sinônimo de
festa anárquica. Na segunda estrofe que fala sobre o “monumento” ele se
refere ao Palácio do Planalto, sede do governo federal em Brasília.
“Viva a bossa, sa, sa”, está se referindo a elite carioca.Viva a bossa,
sa, sa, viva a palhoça, ça, ça, ça, ça. Nessa frase nota-se que há uma
associação fonética entre “palhoça” e “palhaço”, simbolizando o povo
brasileiro sendo enganado pelo governo.
Nessa frase: “é de papel crepom e prata”, refere-se às cores e a beleza;
“não tem porta”, por isso ninguém pode entrar ninguém pode protestar; “a
entrada é uma rua estreita e torta”, é difícil chegar até lá, o caminho é
sinuoso, cheio de obstáculos.
“E no joelho uma criança sorridente e morta estende a mão / Viva a mata
ta ta”. O “joelho” pode ser o Nordeste brasileiro, observando-se o mapa do
Brasil, é no Nordeste que percebemos um joelho dobrado, e é nessa Região que
as crianças passam fome, é lá que ficam abandonadas a toda sorte, são feias,
maltratadas, e estendem a mão, pedindo ajuda, são crianças esquecidas pela
sociedade e pelo governo.
E no refrão, “Viva a mata, ta, ta Viva a mulata, ta, ta, ta, ta” pode-se
associar esse fato à morte, que vem no segundo refrão, a repetição da sílaba
“ta” pode estar relacionada ao som das metralhadoras, símbolo da morte por
meio do genocídio.
“No pátio interno há uma piscina com água azul de Amaralina”, é assim
mesmo que se forma o Palácio do Planalto: na Praça dos Três Poderes com uma
imensa piscina, mas não pode tomar banho na água azul e cristalina.
“E no jardim os urubus passeiam” “urubus” é referência aos políticos que
detém o poder nas mãos.
“Viva Maria, ia, ia, viva a Bahia, ia, ia, ia, ia”. Maria e Bahia fazem
referencia ao povo sofrido. Essa repetição oral “ia” se alterarmos a posição
das vogais percebe-se um grito de dor: ai, ai, ai, ai. Se o compositor
tivesse optado por repetir, na escrita, a sílaba “ai”, a censura cortaria
esse trecho, por ficar evidente a crítica ao governo através da dor do povo.
“No pulso esquerdo o bang-bang em suas veias corre muito pouco sangue”, o
bang bang também é símbolo de poder; em suas veias corre muito pouco sangue,
percebe-se uma crítica à falta de sensibilidade do governante, que não se
emociona ao ver a situação em que está seu país.
No final dessa estrofe, “ele põe os olhos grandes sobre mim” aqui há uma
demonstração nítida de perseguição, uma pessoa denuncia ser o alvo das
perseguições, ele se coloca como um perseguido, uma pessoa que deve se
calar, que não tem o direito de criticar, pois estão de olho nele.
“Viva Iracema, ma, ma”. Nessa frase pode-se deduzir dois sentidos para o
adjetivo “ma”, primeiro de um governante tirano, de sua índole, à sua visão
brutal, egocêntrica, de seu poder. Ao mesmo tempo, é possível notar que a
sílaba “ma”, pode ser de mãe, que nos protege, nos acode, nos ajuda quando
precisamos. Na última estrofe, as metáforas referem-se ao povo, suas
alegrias e tristezas.
“Domingo é o fino-da-bossa segunda-feira está na fossa terça-feira vai à
roça”. Depois de uma semana de muita luta, chega o domingo, dia de descanso,
de alegria, de diversão.Segunda percebe-se a cultura do nosso povo, pois é
dia de luta, de trabalho pesado, de labuta para a sobrevivência da família.A
frase também pode indicar oposição entre o governo e o trabalhador que luta
para seu sustento.
“O monumento é bem moderno não disse nada do modelo do meu terno”.
Monumento moderno faz relação com o presidente, com o poder, não disse nada
do modelo do meu terno, não liga para a aparência do trabalhador, para seus
problemas.
“Que tudo mais vá pro inferno, meu bem Viva a banda, da, da Carmem
Miranda, da, da, da, da Viva a banda, da, da Carmem Miranda, da, da, da,
da”. O autor encerra a música com três grandes astros da MPB: Roberto
Carlos, que tudo mais vá pro inferno; Ronnie Von viva a banda e a grande
Carmem Miranda.
Considerações Finais
A música é clara quanto ao rompimento tradicional da política e da
cultura. Nos anos sessenta os músicos tropicalistas buscaram novas idéias,
novos valores, novos estilos de vida e demonstraram isso por meio da música,
das vestes, da aparência física. Os cabelos longos e armados, com roupas
exageradas, eram mensagens de crítica ao tradicional, pois inovaram com a
música, com sua poesia cantada.
Por meio da música também se identifica regiões, lugares, manifestações e
revoltas populares.