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A expressão “surgir do nada”
parece ser a tônica dos fenômenos musicais
fabricados pela indústria do entretenimento, que
muitas das vezes não se deixa nortear por
qualquer preocupação artística ou cultural. Arte
e cultura são conceitos secundários ante à
necessidade de pronto atendimento ao lucro
imediato que as majors que controlam o
combalido setor fonográfico procuram para os
seus (ainda) grandes negócios. Nessa lógica de
um capitalismo concentrador de muitos recursos
na mão de poucos trabalhadores, vendem-se os
“artistas” como um mero produto oriundo de uma
linha de montagem – no caso um nome, a marca com
que esse produto será posto no mercado. A
qualidade, decerto, fica comprometida, a
pasteurização impera e a previsibilidade é quase
que total.
Para não
generalizar por demais, cabe dizer que há bons
profissionais, também, alçados à fama
instantânea por um investimento forte numa marca
preexistente. A cantora e compositora Maria
Rita, com um trabalho sólido no cenário da
música e, particularmente, do canto, fundou um
novo nome artístico após o achado mercadológico
intitulado Maria Rita (a Mariano). A homonímia
com a filha de Elis Regina fez surgir outro tipo
de fenômeno: se não vende como a outra – e aqui
não se pretende comparar as respectivas
qualidades, e sim destacar o trabalho de uma
delas –, Rita Maria emociona demais, pela
sensibilidade que suas letras e melodias
transmitem. Traz, ainda, um suspiro de
renovação.
Genérico de
cantora – como ela mesma, com muito humor, se
autodefine, invocando seu dia-a-dia de muita
luta por espaços num meio concorridíssimo –,
Rita Maria lança agora seu primeiro CD,
independente na melhor acepção do termo. O álbum
compreende 13 faixas, sendo 11 de autoria da
própria Rita, sem parcerias – as duas restantes
são músicas pouco conhecidas de Djavan e Edu
Lobo/Chico Buarque –, e não nega, em sua
concepção, doses de um bom amadorismo, que
parece ter se perdido na excessiva
“profissionalização” (tecnologização, ou mesmo
tecnocracismo, eu diria, pelo fato de aspectos
circundantes se sobreporem em importância à
qualidade da música, letra e melodia, em si) que
dominou o mercado da música a partir, sobretudo,
da década de 90. Explicando: “Fora de Órbita” é
um disco feito com cuidado extremo, construído
ao longo de cinco anos, fruto do esmero, do
talento e da tenacidade de uma
cantora-compositora de grande sensibilidade
artística, apoiada por uma pequena trupe de
(ótimos) músicos capitaneada pelas cordas (e
pela voz, na melhor faixa, “gotas de sereno”) de
Zeca Loureiro. O amadorismo se explicita (e
cessa) aí, nessa atenção, no carinho dispensado
por todos ao projeto, num trabalho quase de
artesanato musical.
Já o
profissionalismo de Rita Maria é ímpar. O
repertório se equilibra entre canções que, no
todo, atingem um nível difícil de alcançar num
primeiro trabalho. A simplicidade aparece como
resultado de um processo que não se furta a
pesquisa de linguagem, labuta intelectual e
ousadia estética, seguindo um estilo que vai se
consolidando no nosso cenário artístico,
situando-se num contraponto à agressividade de
outros discursos musicais em voga, como funk,
hip hop, rap e quejandos.
“Fora de
Órbita”, portanto, vem situar Rita Maria à
margem das propostas hegemônicas: tanto a de se
fazer música por fazer, para entreter, com uma
única preocupação, que é comercial; quanto a de
se fazer mensagens, expor conteúdos no formato
música sem se ater ao principal, que é o suporte
lingüístico chamado música. Ambas, a meu ver,
opções para um fogo rapidamente consumível. A
música de Rita Maria, ao contrário, faz por
ficar em cada alma, sussurrando arte. Alheia
aos berros dos sensos e lugares-comuns, fora da
órbita facínora do mercado e da arte (?)
demagoga, mas no centro nervoso de um itinerário
que não permite mais volta, feito de noites que
não preenchem, borboletas pretas escritas em
code-switching (mistura de línguas num mesmo
texto), estradas de névoas e gotas de sereno
semeando sonhos e muita vida. Rita é esse todo e
quase de imagens, sons, movimentos e silêncios –
um misto de pedra rara com nega maluca, enfim.
Sem medo de fazer bolhas nos pés tão calejados.
Serviço:
Fora de Órbita
- Rita Maria, independente, distribuição da
Trattore, R$ 22 (média).
Mais informações:
www.ritamaria.com.br.
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