Nelson Rodrigues,
dramaturgo pernambucano, sempre teve audácia ao escrever suas peças.
Considerado por uns como trágico, por outros como sádico, tarado,
provocador e outros adjetivos não elogiáveis, Nelson Rodrigues
abalou o meio cênico ao tematizar em suas obras questões tão fortes
como o cotidiano brasileiro e os problemas enfrentados pela família
brasileira.
O sucesso de Nelson
Rodrigues e seus personagens se deram pela coragem de enfrentar a
censura e pela indiferença do autor perante a crítica. O autor
chegou a ser comparado com outros autores, como o americano, Eugene
O’Neill, e o alemão Wedekind, todavia com um toque brasileiro, como
afirma Aguiar:
Mas
o teatro de Nelson era sempre temperado pelo escracho, o deboche, a
ironia, a invectiva e até mesmo o ataque pessoal, tão
caracteristicamente nacionais. (AGUIAR, 2004, p. 106)
O desgaste da família
patriarcal, contida nas obras desse dramaturgo, sempre parece
acontecer por causa do núcleo de temas tratados, como o incesto, a
virgindade, o ciúme, a traição, a morte trágica. Em um só título se
mesclam todos esses elementos típicos de tragédia na canalhice
humana dos personagens que, conforme Aguiar (2004), estão sempre
situados em um ambiente de farsa, por uma paisagem provida de
paixões por posses financeiras e ascensão social, os quais se buscam
pela venalidade ou pelo preço de todos os sentimentos. Em suma, o
teatro de Nelson Rodrigues:
[...] temperou o exercício do realismo cru com o da fantasia
desabrida, num resultado sempre provocante. Valorizou ao mesmo tempo
o coloquial da linguagem e a liberdade da imaginação cênica.
(AGUIAR, 2004, p. 107)
Em, Os Sete Gatinhos,
a paz inicial da casa do Seu Noronha faz com que o trágico se
instale e anuncie a violência que está para ocorrer. Seu Noronha
parece viver num clima tranqüilo e de ordem com suas filhas e sua
mulher, até que no segundo ato da peça, o patriarca se abala com as
obscenidades escritas no banheiro da casa e esbofeteia a filha
Arlete por ofendê-lo.
A ordem, depois desse
fato, é uma mera aparência, porém todos dessa casa se voltam para um
único objetivo: fazer as bodas da filha caçula, Silene, a única
virgem das irmãs, ou melhor, supostamente virgem.
As irmãs mais velhas,
Aurora, Arlete, Débora e Hilda prostituem-se para oferecer à Silene
enxovais e um bom casamento, porém a atmosfera piora quando esta é
expulsa da escola por matar uma gata prenha de sete gatinhos. O fato
deixa todos atônitos e preocupados com a atitude da garota. Tenta-se
resolver da melhor maneira possível, todavia a calma parece carregar
ainda mais a nuvem negra que paira naquela casa.
Silene ao ficar enferma,
Seu Noronha chama o Dr. Bordalo para examiná-la, e eis o
diagnóstico: grávida de três meses. O mundo daquela família desaba e
logo se tem a reação inesperada do pai, obrigar Silene a se
prostituir com o velho médico que a consultou. Com isso, depois do
ato ocorrido, Dr. Bordalo se mata por não ter coragem de enfrentar a
sua filha, de mesma idade de Silene.
Mais um fato de desordem é
quando o espectador descobre que, na verdade, era o próprio pai quem
aliciava os clientes para as filhas. Para Aguiar (2004) isso é uma
banalização da tragédia, pois o inusitado tornou-se normal por causa
da sucessão de fatos trágicos que estavam ocorrendo até então.
A
peça vai criando uma suspeita em torno da capacidade de reação ética
por parte da platéia e da sociedade que ela faz parte. Para o
pensador moralista Nelson Rodrigues [...] o mal não está na
existência do vício [...] mas sim na aceitação completamente passiva
da sua presença, que ele mesmo é capaz de suscitar e prolongar.
[...] A tragédia tornou-se costumeira, parece ser o pensamento
embutido da peça. Esta é a tragédia: não nos espantamos mais diante
de tragédia alguma. (AGUIAR, 2004, p. 96-97)
Com isso, observa-se que
na peça ocorre aproximação do tradicional com as tendências
vanguardistas, pois as reações dos personagens tornam-se caricatas,
grosseiras e ridículas, as quais segundo Aguiar, colocam-nos como
patéticos e palhaços:
Uma
família inteira entregue à depravação deslavada querer manter a
filha mais nova pura e descobrir que ela engravidou e, mais ainda,
graças ao amante da irmã mais velha, não é só apenas patético: dá
mais é vontade de rir! [...] Talvez por isso é que Nelson Rodrigues
tenha chamado sua peça, tão cheia de mortes e gestos patéticos de
“divina comédia”. (AGUIAR, 2004:97)
Para enfatizar a
decadência do regime patriarcal, Nelson Rodrigues em Álbum de
Família dramatiza a questão do incesto e do homossexualismo
pautados em relações fortes e extremas pelos membros da família.
Eles nutrem entre si sentimentos de raiva e ódio, amor e paixão. Os
laços que unem o pai Jonas, a mãe Senhorinha e sua descendência não
são aqueles esperados pela sociedade, eles escondem segredos que
não, ou, dificilmente seriam aceitos com naturalidade.
Como em Os Sete
Gatinhos, a apresentação da aparente normalidade dos
personagens, que, nos desvios da sociedade deixam emergir os
instintos e cometem uma série de crimes oriundos do comportamento
sexual, fez com Nelson Rodrigues trabalhasse com os impulsos
incontroláveis da sexualidade, valorizando o baixo, o corpo. Os
envolvimentos amorosos, na obra rodrigueana, fogem aos padrões de
“normalidade” estabelecidos pelas regras sociais. Desta forma, em
Álbum de Família a relação lésbica entre Glória e Teresa aparece
logo no início da peça, quase como um prólogo, e tem como finalidade
precipitar os acontecimentos. Ao ser descoberta a relação entre as
duas, ambas são expulsas do internato e Glória volta para casa
impulsionando a revelação dos segredos da família.
Em Álbum de Família,
os problemas ali presentes como, a loucura de Nonô, a autocastração
de Guilherme, as violações praticadas por Jonas, a solidão e o
desprezo que acompanham Rute, a impotência de Edmundo, a humilhação
sofrida por D. Senhorinha e os sentimentos incestuosos da casa fazem
com que a morte seja um meio através do qual, os personagens
expurgam suas culpas pela vingança e penalidade, quase sempre de
forma horrível e grotesca.
Ao considerar o
destronamento simbólico do poder patriarcal, pode-se afirmar que os
filhos homens de Álbum de Família buscam constantemente eliminar a
figura do pai. Assim, Edmundo e Nonô querem eliminar o pai para
receber as atenções da mãe, por quem nutrem um amor incestuoso; e
Guilherme, para obter a atenção da irmã, pela qual é apaixonado. Não
deixa de ser a manifestação do desejo da morte do pai, uma forma de
usurpar o seu lugar.
Na peça, as traições
possuem um toque mais sensual, respondendo aos apelos do corpo e
transcorrendo dentro de um grupo fechado: uma família reduzida aos
seus membros e uma ou outra pessoa de fora. Neste cenário, os
personagens de Álbum de Família cometem traições dentro do
gueto familiar – D. Senhorinha trai o marido Jonas, com o filho Nonô;
Jonas trai sua esposa D. Senhorinha, com Rute, cunhada; Jonas comete
o adultério e pedofilia dentro da própria casa com meninas de 12 a
16 anos, auxiliado por Rute. Segundo Oliveira (2003), o teatro
rodrigueano faz com que os expectadores sintam-se chocados e
agredidos em suas crenças e estereótipos de convivência social, pois
acreditam que o correto é uma relação exogâmica e não endogâmica
como ocorre em Álbum de Família.
Referência
Bibliográfica:
OLIVEIRA, Ana Maria de.
A moralidade como instrumento de censura: Álbum de Família de Nelson
Rodrigues e sua reelaboração da Trilogia Tibetana.
Revista Espaço Acadêmico, nº 28, setembro de 2003.
RODRIGUES, Nelson.
Álbum de Família. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2004.
___________. Os Sete
Gatinhos. Roteiro de leitura de Flávio Aguiar. Editora
Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2004.