Estamos vivendo um período muito difícil,
divisor de momentos, raptor de ideologias, fragmentador. Essa
pode ser uma leitura do mundo. A outra: estamos vivendo um
período muito rico: tantas teorias, tantas práticas
diversificadas em que o indivíduo se reapresenta, muda,
“desfragmenta”, pensa no hoje a cada um segundo. Quantas
leituras podemos fazer de nós mesmos?
A leitura de um texto é um comportamento
quase incompatível com o ritmo que se impõe aos nossos possíveis
leitores. Para se ler uma primeira página, é preciso, no mínimo,
o apelo. Que apelo fazemos para quem não conhece um prazer
subjetivo? O prazer da leitura de um livro é altamente envolto
em subjetividade, desejo, escolha! E vou mais longe um pouco:
quem, hoje, propõe a leitura do mundo? Temos discutido nossas
questões?
Seguindo ainda a ótica do prazer, pergunto:
o prazer que procuramos num livro é o mesmo que somos levados a
comprar diariamente nos supermercados, shoppings centers ...?
Estamos diante de duas realidades distintas: o prazer individual
“consciente” e o prazer que nos é “imposto”(sem que nós
reflitamos) nos produtos de massa. Imagine a seguinte situação:
segunda-feira, oito horas da noite, você em casa e a tv ligada;
no horário de intervalo, é projetada sobre sua telinha, uma bela
jovem, sentada numa confortável poltrona, lendo um livro. Em
seguida ouviremos: experimente você também, leia
“O Apanhador no Campo de Centeio de J.D. Salinger”. Ou ainda, na
mesma situação: “Não percam, vocês viverão muitas
emoções, lendo o novo livro de Rubem Fonseca.” E,
posteriormente, um anúncio de uma peça teatral, de um concerto
de música no Municipal e para fechar, um chamado para uma
palestra com o grande historiador Eric Hobsbawm. Temos ou não
temos problemas para formar um público leitor?
A questão da leitura passa não só pela
questão do livro, passa pela organização social. Temos um plano
de consumo que tem que ser desenvolvido e o público deve ser
convencido a comprar, a comprar e a querer repetir a mesma
compra ou desistir da que comprou para trocar por outro produto
que lhe dê o prazer do uso propriamente dito, ou o prazer do
status...essa é, sem dúvida nenhuma, uma leitura do mundo do
consumo, onde não está previsto o prazer intelectual.
A leitura do livro, seja ele clássico ou
não, traz antes do ato em si barreiras sociais relevantes que
não podemos deixar de analisar. Quem no Brasil pode comprar um
livro de dez reais? Por que no nosso país “não se pode” editar
livro com papel jornal? Nós não temos uma política real de
leitura, de formação de um público leitor. Isso é papel de quem?
Quanto ao debate acerca do texto clássico,
vejo que a cada tempo que passa diariamente temos maior
dificuldade em buscar conceitos sobre as coisas, talvez por medo
acadêmico, talvez pela marca de nosso tempo: a incerteza. Os
estudiosos no assunto definem clássico como aquele texto que
ultrapassa seu tempo, levando consigo suas questões, sendo
provocadores em qualquer atualidade. Um clássico pode nos causar
inquietações assim como um texto que acabou de ser escrito.
Torna-se clássico aquele que se transforma em ponto referência,
motivo de lembrança, saudade daquelas palavras...
O maior problema da leitura do texto
clássico em sala de aula está no âmbito da diferença e da
formação da imagem. A diferença da linguagem, sim, pois é
natural comparar o texto de hoje com o texto de ontem, a
diferença de algumas questões vividas pelos personagens, a
diferença do mundo. Nossos jovens não lidam bem com as
diferenças, aliás, todos lidam muito mal com isso. Fica
trabalhoso também quando se tem que deixar a imagem aparecer
lentamente no imaginário, quando se tem que ter a paciência da
criação de um produto cheio de sensações, mas que não está
pronto: tem que ser composto aos poucos.
O papel do educador mais uma vez será o de
quebrar as resistências, criar ambientes de leitura-acompanhada,
em que o leitor tenha o início da leitura garantido, com
esclarecimentos, incentivo à pesquisa, discussões etc.
Clássicos? É obvio!
Na Literatura, na Música, na Pintura, no
Cinema, nas Artes Plásticas, ...