De acordo com Ian Watt,
com o crescimento do capitalismo no século XIX, aumentaram-se as
buscas pela liberdade e individualismo pessoal. Isso levou a
sociedade a valorizar cada aspecto do indivíduo e a mostrar a
variedade de caráter entre as pessoas, as quais interessariam às
outras pessoas, logo, aos leitores. O avanço do individualismo
focalizou na vida cotidiana algo interessante para se enquadrar na
literatura, e o romance, nesse sentido, torna-se a peça-chave fiel à
experiência comum, criando um público interessado no processo
psíquico humano e no desenvolvimento econômico para a formação da
sociedade moderna.
A autonomia do indivíduo,
segundo Watt, acarreta na ausência de laços sociais convencionais. O
mundo dos interesses e da ascensão pessoal levou o homem a se
empenhar para manter o estilo de vida individualista. No romance, a
auto-suficiência oferece ao personagem a possibilidade de enfrentar
seus problemas com preocupação espiritual. A introspecção é um modo
para que o indivíduo, através da solidão, realize seu auto-exame e
analise suas atitudes passadas e atuais, proporcionando a evolução
da sua personalidade.
A transcrição exata dos
processos psicológicos e a descrição da consciência humana estimulam
uma produção literária adequada às abordagens dos problemas pessoais
com maior rigor. O leitor de um romance percebe sua mimese, ou seja,
segundo Eric Auerbach, o relato completo da experiência individual,
suas divisões e seus conflitos, em contraste com a experiência
comum.
De acordo com Octávio Paz,
o romance tem de ser poesia e prosa ao mesmo tempo. A primeira
transforma-o e poema e mostra a prodigiosa realidade do mundo e suas
possibilidades. Ela transmite a visão profética daquilo que é
documentado, analisado e raciocinado pela prosa. Através da poesia,
o romance assume a fantasia e a satisfação do leitor ao registrar
sentimentos e uma vida imaginária que se assemelha a verdade literal
– o que, segundo Watt, não passa de uma gratificação irreal dos
desejos do leitor. No entanto, conforme Roland Barthes, o que é
irreal na teoria do texto realista, é um código de representação das
ações humanas através da linguagem – É o que Searle identifica como
“asserção fingida”: um caráter de pastiche da língua literária que
imita a língua real, causando a ilusão entre o mundo real “possível”
e o mundo real “concreto”. Dentro da ficção, conforme Antoine
Compagnon, o leitor encarna o “possível”, e enquanto durar,
considera-o verdadeiro, aplicando o que lê à sua situação.
Portanto, de acordo com
Watt, ao que concerne à missão do escritor de tornar visível na cena
humana o funcionamento da ordem universal, a obra é um instrumento
ótico que o leitor permite discernir aquilo que sem a mesma, talvez,
não visse em si próprio. A leitura, segundo Compagnon, oferece ao
indivíduo auto-conhecimento e auto-compreensão para que seus valores
sejam aperfeiçoados com as experiências e expectativas
proporcionadas pelo enredo.
Referências
Bibliográficas:
AUERBACH, Eric. Mimèsis. La Représentation de la Réalité dans la
Littérature Occidentale. Trad. fr. Paris: Gallimard, 1968.
BARTHES, Roland.
Critique et Vérité. Paris: Éd. Du Senil, 1966.
COMPAGNON, Antoine. O
Demônio da Teoria. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2003.
PAZ, Octávio. Os Filhos
do Barro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.
SEARLE,
John R. Les Actes de Langage. Trad. fr. Paris:
Hermann, 1972.
WATT, Ian. A Ascensão
do Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.