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Conhecendo o processo de adaptação das obras clássicas que visam o
leitor criança, o professor poderá também ter uma noção dos elementos
indispensáveis que deve analisar em uma obra antes de apresentá-la a seu
aluno.
A produção da literatura infantil deve
estar apoiada em princípios que consideram o tipo de leitor a ser
atingido, ou seja, a criança, e por isso exige um afastamento do
narrador da condição de adulto para se aproximar do mundo infantil.
Nessa busca da comunicação com a criança é que se realizam as
adaptações, cujo propósito é diminuir a situação de inferioridade dos
pequenos em relação ao meio circundante.
Este trabalho tem como propósito
demonstrar como a Odisséia de Homero tornou-se uma narrativa de
interesse infantil, que busca o gosto da criança pela leitura e valoriza
o caráter emancipatório, que deve permear a boa literatura destinada a
esse público. O estudo tomará por base a obra clássica adaptada Ruth
Rocha conta a Odisséia, destinada ao público infantil. A análise
será fundamentada pelas teorias de Regina Zilberman.
Na adaptação de uma obra clássica adulta
para um leitor infantil, a maior preocupação deve ser a diminuição da
assimetria. O narrador utiliza-se de diversos meios para suprimir a
distância existente entre o adulto, que produz o livro, e a criança, o
leitor a ser atingido. Zilberman aponta a adaptação de assunto, forma,
estilo e meio.
Quanto ao assunto, Zilberman, a partir de Göte Klimberg,
sugere que se considere: “[...] que a compreensão de mundo do recebedor,
assim como suas vivências, são limitadas, [por isso] o escritor
obriga-se a uma restrição no tratamento de certos temas, idéias ou
problemas.
”(p. 43)
Na odisséia, o assunto é a persistência de
Ulisses que, apesar de todos os contratempos, como perder a embarcação e
todos os companheiros de viagem, nunca desiste de tentar voltar a Ítaca
e rever a esposa Penélope e o filho Telêmaco. A partir dessa
característica identificamos o caráter emancipatório da narrativa, que é
evidenciado no texto de Ruth Rocha com algumas passagens como as que
seguem: a) o reconhecimento de Ulisses por Alcino, no capítulo 8, se dá
quando aedo canta um canção sobre a luta entre o herói e Aquiles, e
Ulisses tenta esconder as lágrimas; b) Ulisses vai sozinho procurar seu
pai Laertes. Assim identificamos no texto que em “a” há a possibilidade
do herói se emocionar, e em “b” assinala a independência de Ulisses.
Sobre a adaptação da forma Zilberman nos diz que “o
enredo deve ter um desenvolvimento linear e personagens que motivem uma
identificação; por sua vez, são prescindíveis os flash-backs ou as
interrupções no andamento para a introdução de conceitos ou ensinamentos
morais”.
Na Odisséia de Rocha notamos que a narrativa se dá linearmente e que a
autora procura não dar ênfase a acontecimentos futuros, evita enredos
secundários que desviem atenção do leitor, bem como procura não repetir
fatos já contados.
Para que a criança se identifique com as
personagens podemos salientar que na obra esse efeito se dá através da
simplificação do caráter, já que personagens boas como Ulisses, Telêmaco
e Penélope possuem sempre os predicativos de boas, justas, corajosas e
leais, enquanto os vilões, ou seja, os pretendentes, as figuras
mitológicas e os deuses Hélio e Poseidon, que atravessam o caminho do
herói, são maus e desleais. Isso ocorre para que a criança, como ser em
formação, compreenda que na vida há sempre essa dualidade, e que ela
precisa acostumar-se a conviver com isso.
Zilberman também aconselha que se evitem “trechos muito
longos com descrições”, e recomenda o uso de “mecanismos de suspense
através da intensificação da ação e da aventura”.
No texto de Rocha as descrições aparecem somente quando são
imprescindíveis para que o leitor compreenda a ação desenvolvida.
Quanto ao suspense, é construído principalmente por
atitudes que desafiam o herói ou seus aliados e pelo discurso direto:
“Circe havia prevenido: / - Ninguém jamais conseguiu passar entre essas
rochas, a não ser Argo, a nau de Jasão, que teve a ajuda de Hera”.
Em relação ao estilo, a linguagem utilizada por Ruth
Rocha preza pela correção lingüística. Por outro lado, nesse tipo de
literatura, devem prevalecer estruturas sintáticas “próprias à expressão
oral, verificando-se na literatura infantil o predomínio da oralidade
sobre a linguagem escrita”.
Assim o texto da autora faz uso da oralidade como forma de aproximação
do leitor. Ex.: “sem experiência e ainda por cima, mortal!
”;
“completamente casa com o rei de Esparta”;
“vocês já perceberam que os gregos gostavam muito de histórias”.
Através dessa última citação, também, é interessante
notar que Rocha situa a criança no tempo em que se passa a narrativa,
caracterizando a sociedade grega através de uma pequena conversa com o
leitor: “naquele tempo os oráculos eram muito respeitados”,
“Era muito comum, antigamente, que as pessoas de várias religiões
sacrificassem animais em honra dos deuses. Era uma espécie de churrasco,
só que tinha regras [...]”.
Outro aspecto a ser observado é o livro com objeto
visualmente atrativo para a criança. É o que constitui a adaptação do
meio. A respeito, Zilberman diz que a “presença de ilustrações e tipos
gráficos graúdos, assim como a escolha de um determinado formato e
tamanho, enfim o aspecto externo do livro, são condições de atração das
obras”.
A Odisséia de Rocha é rica em ilustrações (mas, nessa edição podemos
dizer que há problemas, pois as ilustrações se fossem coloridas, com
certeza, seriam bem mais atraentes para o público infantil) e, estas
refletem a preocupação com o traço grego: as roupas, os costumes, as
armas. Esse aspecto é referência para a criança se situar no tempo e
espaço da narrativa.
O formato do livro é projetado para que
não tenhamos um volume grosso, o que causaria preguiça ao leitor que
ainda não conhece o conteúdo do livro. Portanto, ele tem apenas 96
páginas, com letras grandes. A numeração dos capítulos é dada em
numerais arábicos, esses são divididos em três partes. Também no final
do livro há um glossário muito rico, cheio de ilustrações que tiram as
dúvidas do leitor quanto à mitologia grega, expressões usadas na obra,
sobre Homero e sua Ilíada que deu origem a Odisséia, sobre a autora Ruth
Rocha e, ainda, há um mapa para que o leitor se localize no espaço que
ocorreu as aventuras de Ulisses.
Para Regina Zilberman, a denominação literatura infantil
deve ser usada somente para textos que incorporem as características dos
contos de fadas: “pertencem legitimamente à modalidade literária em
questão preferencialmente aqueles textos que compartilharem as
propriedades do conto de fadas, quais sejam: a) a presença do
maravilhoso; b) a peculiaridade de apresentar um universo em miniatura”.
No texto de Ruth Rocha podemos distinguir algumas características que
provam ser esta obra uma ótima leitura para a criança, tais como, a
presença de divindades e seus poderes mágicos, objetos que conferem
poder às personagens, a transformação maravilhosa destas e também a
presença de seres mitológicos.
Através do levantamento desses processos
que caracterizam a literatura infantil, na obra Odisséia de Ruth Rocha,
podemos afirmar a preocupação da autora com diminuição da assimetria
existente entre o adulto escritor e a criança leitora, já que produz um
texto com uma linguagem acessível, direta, cheia de elementos
maravilhosos, que devido à farta ilustração e o vocabulário auxiliar,
ajuda o leitor a vislumbrar o mundo grego e se identificar com as
personagens.
Este texto pode ser apreciado por crianças
de diversas idades que gostem de narrativas de aventura, já que o bom
trabalho de Rocha contribui para a formação de leitores ativos, que
interajam com o texto e consigam dialogar mais tarde, quem sabe, com a
obra clássica de Homero, que deu origem a esta adaptação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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