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A decadência do Império Romano...as violentas invasões bárbaras...Idade das
Trevas? Nem tanto. Para alguns autores, desde Carlos Magno (Século VIII e
IX) e mesmo em XII e XIII a época é de muito progresso, fundamentos da
civilização moderna, doutrinas sociais e econômicas no terreno das idéias.
Preserva a tradição cultural helênica e o direito romano. Conserva e
transmite a tradição cultural latina. Glorifica-se o espírito guerreiro...
Criam-se as universidades, redescobre-se Aristóteles, processa-se a
revolução social. Todo esse preâmbulo assim, jogado no ventilador das
idéias, porque o tempo precioso da história atrai, cativa, fazendo o curioso
literato e pesquisador viçado surtar mesmo, por assim dizer.
Sorte nossa?
A corrupção no império romano, a estagnação; as ruínas das classes
aristocráticas, o feudo por si só não era muito provido no campo das
saturações; guerra entre senhores feudais, energias libertárias perdidas de
uns e outros se matando a torto e a direito, hordas e bandoleiros, a força
bélica conspurcada e, sim, era preciso inventar alguma coisa para que fossem
beligerar longe dali, de entre eles, por algum motivo ou razão que não
destruíssem patrimônios, que tudo poderia literalmente sumir do mapa; que a
igreja ficasse sempre ao centro, que as riquezas fossem de alguma maneira
(que importasse o que fosse) aumentadas custasse o que custasse. Ah Deus,
quantos milhões morrerem em Teu santo nome; quantos Te usaram para matar,
pilhar, destruir, profanar crenças. E a arraia miúda sendo a bucha de
canhão, os incautos, os néscios. A igreja cristã que, depois do cisma grego
(a verdadeira igreja cristã hoje é a ortodoxa desta linha) virou um antro
que depois se revelaria na igreja "caostólica" (Deus fechou os lhos para
terra durante a idade média, diz o atual papa pseudo-pensador de origem
germânico-fascista), e vai por ai o esconderijo da história, os subterrâneos
amorais - do que realmente está por trás de tudo mesmo - e Drumond, o poeta
de Itabira já nos alertava sob vezo de uma rica ótica pós-moderna:
a história é remorso. Santo Deus, então pecamos contra o Teu Santo Nome!
Mas, Maomé foi o culpado, que Alá o proteja! Os vitoriosos escrevem a
"história".
Os
derrocados amargam panurgismos. A nobreza, a igreja, a cavalaria e os
servis. Os papas, pecadores, com ilusões dantescas. Autoridades-blefes.
Pré-nascimento da burguesia assustando antros de escorpiões. A igreja
decrépita perdia terreno, corria riscos, sangria desatada e não era de ceias
santas, mas de interesses escusos. Era preciso unir os desgraçados de toda a
sorte, fazer com que tivessem um ideal-qualquer-coisa em comum, não entre si
com as decadências sazonais, de meio, destruindo terras, posses, matando-se
entre si, papado na linha de tiro e caminho de reconhecimento pouco ético.
Tinha que haver uma saída. Os primeiros cruzados, os problemas que tiveram,
o santo sepulcro - o mote na mão dos infiéis - e, eureka (ou devo dizer
aleluia Judas?) descobriu-se a pólvora: tava ali a saída, saltando aos olhos
dos nobres, do clero. Iriam usar Jesus (Deus? - Santo Deus!) em nome (santo
nome em vão) de uma guerra escusa, todos por todos, invenções de milagres,
aparições, idolatrias-(disfarçadas de veneração), desespelhos, caça às
bruxas, e lá se foi o povo gado marcado alienado (crendices, intempéries,
superstições nodais) lutar orienta a fora, saquear, pilhar, bandeiras ao
vento. Bem, por ora basta. Cessemos as purgações dialéticas e analíticas. Ai
do sal da terra, ai de ti Jerusalém!.
Quando um escritor se propõe a escrever um livro, merece respeito o projeto,
claro. Quando o escritor passa cinco anos macetando suas idéias-lustres no
papel, êpa, aí tem coisa, pinta uma idéia-livro portentosa. Livrai-nos
Senhor de todo mal. E viçam causos. E belas conseqüências num entendimento
açodado de quem pega um livraço mesmo, um tijolão pesado de quase 500
páginas e lá entra na história nua e crua. Vassallu, em latim, o nome da
obra brasileira, riquíssima. Por que não Vassalo mesmo? Bem, o subtítulo "A
Saga De Um Cavaleiro Medieval poderia ser outra, melhorada para vender o
peixe letral, a idéia-obra, o baita romance de cardumes. Sim, porque quando
peguei o livro pensei: autor novo em romance sistematizado. Perdão,
leitores. Entrei de mala e cuia e devorei como um canibal de brochuras.
Nesses últimos tempos, de tão escassos trabalhos bons na área de
romance/novela/(ficções), posso dizer que foi o melhor livro que li, da
estirpe de O Físico, O Perfume, ou mesmo os cl!
ássicos do Itavo Calvino. O autor, médico Doutor Segio Mudado é muito bom e
valeu a pena pelo gabarito que tem e pelo quilate da obra. Sabem de uma
coisa?: eu me vi dentro de um filme sobre a Idade Média. Já pensou? Livro
bom faz bem pra gente, pra mente, pra cultura, pra civilização
principalmente contemporânea nesses tenebrosos tempos neoliberais de muito
ouro e pouco pão (e pouca cultura literária até).
O livro, claro, aqui e ali tem seus pequenos errinhos naturais de revisão
(pecado certamente perdoado pelo volume da obra extremamente feliz de
concepção) de estupendo e grosso calibre literal, alguns muito bem
observados pela mestra e Maria Ilsen de Curitiba, Pr (que mo emprestou o
livro), teria que ter tido sim, um necessário e belo investimento financeiro
na midiática divulgação ampla da obra, se eu fosse um diretor da Globo faria
uma mini-série internacional e seria um sucesso de se vender no mundo
inteiro, como Escrava Isaura. Será o impossível? Vassalo madurado. A
montagem narrativa, a arquitetura cênica da narrativa, o depoente (bem
sacado) historiando tudo, as cruzadas, os escândalos, as paisagens, o
personagem principal Ybert de Troyes muito bem sacado, verossímil e bem
quase visível (vivível) no encantário literário de qualidade e de
profundidade histórica, amores e sofrimentos, mentiras, histórias dentro da
história, lendas, invencionices bem calçudas e bem encaixadas, um ótimo
escritor, bem inteligente e criativo, pode se dizer que escreveu o livro de
sua vida. Tem mais? Sinceramente, um livro que eu gostaria de ter escrito.
Adorei de já agendar para reler, para emprestar também para amigos que
adoram uma ficção de excelente qualidade. Batalhas, cenários, traições,
enfeites poéticos, imagens bem trabalhadas. Gente, um livro e tanto. Fui
cativado. Embarquei na viagem dos Cruzados, como um cético, um crítico, um
sandeu do terceiro milênio, mas acabei abduzido pela linha de montagem da
obra enquanto construção técnico-literária, querendo ler mais, ir adiante,
querendo saber o que ocorreria no devir, querendo chegar logo ao final, e,
ponto pro autor Sergio Mudado. Ele conseguiu por excelência o seu objetivo.
Saí da leitura com a alma lavada, com sabor de quero-mais, sabendo que, sim,
li um clássico da literatura brasileira contemporânea mesmo em entalhes e
nuances exóticos, de emboabas.
O narrador central, o linguarudo Ruivo, um senhor personagem, entre médico,
astrólogo, filósofo - e o procurei fruir (desfrutar) em suas sandices e
criames, comparando entre outros personagens de outros livros. Sem igual. A
idade média dos românticos e também das bestas humanas - de lado a lado
(quem é infiel pra quem?), ora o bárbaro sendo de um lado, ora sendo de
outro, a santa madre igreja católica por trás berrando horrores nos
descalabros (acho até que na verdade foi bem pior, o autor pegou leve,
moderou a mágica mão/mente numa boa), as paródias sobre as cavalarias, o
lado espiritual, o lado loucura braba, o homem atrás de alguma coisa que nem
era a bendita santificação mesmo, mas a loucura da viagem resgatadora, muito
além da fé o bem material, uma horda atrás de outra horda. O santo sepulcro?
Um mero detalhe. E um final que, sim, bem ao estilo que gosto, a la William
Shakespeare, arrebatador num sentido. Li-vi (vivi) a cena final. Encorpada.
Digna de um final em cinemascope de Hollywood. Já pensou?,
O livro é tão bom, tão obra-prima, tão importante que, falando sério,
Vassalo ficou pequeno para o título, Vassallu ainda piorou, e, o sub-titulo
não ajudou em nada, Só lendo a obra de fio a pavio, evoluindo, é que você
prendido pela lógica seqüencial dos arames narrativos, fica preso ao livro,
gosta, se deleita, e vai babando como um ledor voraz até acabar e dizer que
o autor merece respeito e admiração. O bem e o mal? Um mero detalhe quando
interesses escusos, político-religiosos (do mal) estão por trás, nos sujos
porões dos podres poderes, dos nefandos bastidores. Dizem que, quem muito
bem estuda a história, vira ateu, comunista de carteirinha. Aleluia Karl
Marx, esse Vassalo não terrifica assim a igreja como deveria (poderia),
ficou mais pro lado de uma ótica do Ruivo que narra contentezas e
prazeiranças do arco da velha, mas, conta muito bem, comendo pelas beiradas
os fatos centrais, um olhar também estarrecido para a miséria, a impunidade,
as sandices de tantos sandeus do lado peregrinador com endosso de fanático
núcleo papal. Sergio Mudado não é fraco não. Carece ser muito bem
reconhecido. Espero ler outros livros dele. Ele escreverá outro como esse,
seu "número um"? Espero que a editora faça uma bela revisão da próxima
edição. E invista muito cacau numa outra impressão, propagação, divulgação
séria, competente. Sergio Mudado merece respeito dessa investidura. Vassalo,
a saga de um cavaleiro medieval é tudo isso e muito mais. Quer saber? Compre
o livro. Leia o livro. Gaste o livro de tanto bem o ler. Adore o livro. O
que me foi emprestado eu não cedo e nem empresto pra ninguém. E vou ter dó
de ter que devolver, se preciso for. Sou vassalo de livros de boa qualidade,
tenho minha própria saga pra curtir, para apreender e contar.
Conheço
sangue, suor, lágrima, cobro humanismo de resultados... "O tempo é a mão de
Deus", diz o autor, e "o homem a sua peçonha", conclui. O meu pai dizia que
o melhor juiz é o tempo, que dá a cada um segundo o seu merecimento. O autor
foi premiado e escreveu o livro de sua vida, ao nos dar um grande livro para
as nossas precárias vidas errantes (e em erranças). O homem é o fracasso de
Deus? Com "Ecce Homo" Sergio Mudado, podemos dizer que o homem é o sucesso
de Deus. A história é remorso sim, mas tem seus letrados artistas
excepcionais para descolorir (em preto e pranto), colorir quando soam a
trombetas, colocar pingos em is, pingos em dáblios, revelar a face das
memórias inventadas, capitulações de idéias incendiárias, registros letrais
que dignificam a raça humana, a espécie humana. O anjo caído às vezes tem
lampejos divinais (no letral também) e voa na imaginação que nos seduz,
cativa, empolga. Sergio Mudado é dessa estirpe, mergulhou no passado e
resgatou essa ópera bufa que foi a idade média trevosa, com um discurso
enriquecido de nervuras, dando-nos proveito de sua determinação fora de
série. Saberemos aprender as lições? A história é um enorme ponto de
interrogação à beira do abismo, quando os piores abismos foram a própria
Idade Média e depois o nazismo e sua guerra louca, tudo com o manto ocre da
santa igreja fazendo tipo e fútil pompa, e ainda (blasfêmia!) em nome de
Deus, de um deus, quê deus? Há um Deus. A história é uma pedra na
consciência da civilização. Van Tieghem diz que a categoria social e a
importância do escritor crescem em forma notória. Deve ser isso. Os
privilégios dos caminhos da literatura contra os sandeus do absurdo que
ainda impunemente viçam e mandam. Milton Hatoum diz que o escritor passa a
vida inteira tentando dizer uma verdade profunda através de uma invenção
literária. Sergio Mudaro acertou e brilha na sua obra. Aliás, o próprio dia
de brilhar (ilha de edição?) vive dentro dele, espelha ele, está no romance
dele, Vassalo. Carne e coragem. Idade Média destilada como sangria letral.
Por fim, como muito bem observou a amiga Maria Ilsen na apresentação do
livro no site da Livraria Cultura, só a consciência da finitude explicaria a
busca da continuidade muito além da vida, além dos sentidos. Alguns se
tornam vassalos desta busca. Outros, plantam árvores,
criam filhos, deixam obras importantes como Vassallu, A Saga de um Cavaleiro
Medieval.
BOX:
Livro: VASSALLU - A Saga de um Cavaleiro Medieval
Editora Altana Ltda, São Paulo, 2006, Primeira Edição
Rua Cel José Eusébio, 95, Casa 100-3 - CEP 013239-030, Consolação, São
Paulo-SP - Fone-fax 11...3214-3516 E-mail:
editoraaltana@uol.com.br
Site:
www.altanalivros.com.br
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