Antoine Compagnon e Hugo
Friedrich compartilham a idéia de que a poesia não deve significar,
mas ser. Através da obscuridade ela se resguarda do mundo externo
para que o seu interior se pronuncie livre do tumulto e da vida
terrena. A poesia coloca o leitor em contato com o que se pode
identificar como eterno, de dom espiritual, e acima de toda a
realidade concreta.
Segundo Friedrich, a
poesia se apresenta com a linguagem de sofrimento que gira em torno
de si. O enfoque para o “eu” incompreendido é um ato de orgulho que
se manifesta com pretensão à superioridade. Ao recorrer da
anormalidade, a poesia se torna uma defesa contra a vida habitual.
Ela busca aplicar termos comuns da lírica, como a metáfora e a
comparação, de maneira que force a união irreal daquilo que
logicamente é inconciliável. Através da anormalidade, o poeta
encontra a não-conciliação entre o “eu” e o mundo, ou conforme
Diderot, a consciência da inaptidão social e a grandeza espiritual a
quem é permitido “lançar-se aos extremos”.
A imagem poética é
inseparável da visão profética, de modo que é impossível traçar a
fronteira entre a poesia e a prosa. No entanto, ao contrário desta,
a lírica não pretende ser medida em base conivente com a realidade.
Sua função não é a de tratar seus conteúdos descritivamente, mas é a
de torná-los estranhos e deformados, evitando a intimidade
comunicativa.
Cada poema visa à tradução
da realidade decifrada, ou seja, ela volta a cifrar tudo o que já é
desvendado e reconhecido no universo. Segundo Friedrich, a lírica é
uma criação auto-suficiente que, com obscuridade, se torna
pluriforme de significação e entrelaçada de tensões, as quais se
deslocam conforme as manifestações dos mistérios e dos conceitos.
A fantasia ditatorial
nutre o estilo da poesia moderna. Ela veda aos conteúdos o direito a
uma coerência para inseri-los numa dramaticidade insolucionável
dentro da lírica. Na poesia, o homem tornou-se ditador de si mesmo.
Ele aniquila sua naturalidade para exilar-se do mundo e
satisfazer-se com a liberdade da sua escrita. De acordo com
Friedrich, a obscuridade é um princípio estético dominante que impõe
à linguagem a tarefa paradoxal de expressar e encobrir um
significado. O futuro para a lírica moderna não tem imagem nítida,
pois a obscuridade está ao redor de possibilidades não fixáveis.
Observa-se no poema que a
imaginação adquire um espaço amplo na linguagem. De acordo com
Octávio Paz, é uma maneira para que a natureza se olhe e se
comunique consigo e conosco através do olhar do poeta. Segundo
Immanuel Kant, a imaginação é um poder da alma humana que serve à
priori para todo um conhecimento e, conforme Samuel Coleridge, para
transformar as idéias em símbolos e os símbolos em presença.
O objetivo do poetar é a
de chegar ao desconhecido do universo e de si mesmo. O “eu” atuante
no poema se emerge deixando que a lírica se lance às novas
experiências, as quais não são proporcionadas pela realidade, mas
sim por sua própria verdade. Por exemplo, os opostos se anulam na
execução da poesia, tornando-se digressões de estímulos e dinâmicas
de contraste: do feio, o poeta desperta um novo encanto e, através
do grotesco, ele alivia o leitor da beleza monótona.
Seu afastamento, cada vez
mais decidido, da vida natural é um traço fundamental na poesia
moderna. Com o crescente orgulho pelo isolamento, a lírica se baseia
na fantasia para decompor o real. O poeta retalha o universo,
recolhe e articula as partes resultantes para criar um mundo novo,
com palavras ricas e matizes e sem limites à intimidade estendida ao
inconsciente. Logo, ao que diz respeito à função do poeta, este
decide deformar o real e fazer reinar a força do espírito,
resultando o seu produto mais elevado que o decomposto. Sua palavra
poética é uma mediação entre o sagrado e os homens, a comunicação
através do ritmo, a sinceridade da imaginação, a verdade do
acontecimento. Sua leitura é um hoje que se sucede em qualquer
instante e um aqui que está em qualquer parte.
Referências
Bibliográficas:
COLERIDGE, Samuel Taylor.
Biographia Literaria. Princeton: Princeton University Press,
1983.
COMPAGNON, Antoine. O
Demônio da Teoria. Belo Horizonte: Ed. da UFMG, 2003.
FRIEDRICH, Hugo.
Estrutura da Lírica Moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1991.
KANT, Immanuel.
Critique de la faculté de juger. Paris:
Aubier, 1995.
PAZ, Octávio. Os Filhos
do Barro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.