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I. ALGUNS
FRAGMENTOS DE JOSÉ DATRINO
José
Datrino ou Gentileza nasceu em 11 de abril de 1917, em Cafelândia-SP. Era
empresário, dono de uma transportadora de carga no Rio de Janeiro. Mas em
virtude de um trágico acidente com um circo em Niterói-RJ assume, a partir desse
acontecimento, uma outra identidade: “Gentileza”.
O
episódio do circo, segundo Leonardo Guelman, “ tem uma importância fundamental
na mitopoética e na linguagem nascente de Gentileza” (2000, p. 28). Tal fato,
nesse contexto, assume uma alegoria como base para um novo recomeço do mundo,
como também surgimento e intervenção do profeta.
Sua
aparência colorida e exótica, de certa forma, inspira-se na cultura circense,
construindo assim, suas características fundamentais. O estantarde, as flores, a
verborragia, o tom colorido, assumem, a esse estilo, os signos de um profeta que
exalta a vida, a solidariedade, a liberdade, o amor e a paz.
Para
a semiologia barthesiana essas mensagens não-verbais se constituem enquanto
sentido em sistemas lingüísticos. Por isso o semiólogo postula que a semiologia
é a ciência da significação: “ objetos, imagens, comporamentos podem significar
[...] mas nunca de maneira autônoma; qualquer sistema semiológico repassa-se de
linguagem” (BARTHES, 2003, p.12). Nesse sentido, os traços, as marcas e as telas
de Gentileza são pois, operações de leitura, segundo esse olhar. Assim, como
leitor que ao passar pelos viadutos e olhar as telas, assume-se como um dos
horizontes do texto, assim também, Gentileza, a obra, os traços.
Talvez se possa dizer, principalmente ao livro aberto de Gentileza, o mesmo que
observava o filósofo Merleau-Ponty (1989) na pintura de Cézame: “Cézame
(-Gentileza) não acha que deve escolher entre sensação e o pensamento, assim
como entre o caos e a ordem. Não quer separar as coisas fixas que nos aparecem
ao olhar de sua maneira fugaz de aparecer, quer pintar a matéria ao tomar forma,
a ordem nascendo por uma organização espontânea”.
Com
isso as telas de Gentileza parecem conceber a vida como um único ininterrupto
livro aberto a qualquer passante pós-moderno. Tudo parece questionar os olhos, o
conhecimento, desconsiderando sua matéria de cimento, seus interesses e suas
forças. Semiologicamente, como Barthes postulava, as telas interpretadas como
livro visual se reescrevem indefinidamente à medida que são sucessivamente lidas
e, ainda mais que elas só se escrevem no momento em que são lidas, já que a
leitura é a condição da escrita e não o inverso.“ Sua grafia e seus signos já
presentes em seu estandarte e em placas que realizava, se inscrevem agora na
própria cidade, tranformando pilastras em tábuas de seus ensinamentos”. (GUELMAN,
2000, p.37).
Atos
de Gentileza como amor, a conscientização, a sensibilidade, a evangelização para
“a gentileza” poderiam ser direções para a compreensão de sua história. Afinal
o que é um autor? Respondendo a essa pergunta, Gentileza é como vemos, um texto
também. Se seguirmos Merleau-Ponty, tudo que se faz numa vida serve de resposta
(e de pergunta) à exigência de uma obra. A obra constrói sua personagem, o
PROFETA.
O
Profeta Urbano e andarilho (José Datrino) faleceu no dia 29 de maio de 1996,
aos 79 anos, mas as pilastras do Viaduto do Caju, próximas a Rodoviária Novo Rio
ainda instigam várias leituras e reflexões.
II. UM
OLHAR SEMIOLÓGICO
Gentileza(1917-1996) faz de suas telas um convite semiológico para quem chega ou
sai do Rio de Janeiro. Confundidas com a agitação urbana e com aqueles que saem
ou chegam na cidade encantadora, as manobras visuais e o estilo livro em 56
páginas, passam despercebidas ou como simples rabiscos de uma certa pichação.
Contudo, na contracena pós-moderna de uma urbe avassaladora como o Rio de
Janeiro, percebemos as pegadas ou traços de um circence-amador, de um cultuador
da escrita e da imagem e do jogo operado por elas. “Todo jogo é capaz, a
qualquer momento, de absorver inteiramente o jogador”. (HUIZINGA, 1990, p.11).
A
poética de Gentileza reforça o que o russo Chkloski (1971) já dizia a respeito
da arte e do efeito de estranhamento que ela provoca em face da realidade. É
como se nós nos “desautomatizássemos” e passássemos a ver as coisas com outros
olhos.
Muitas vezes, além do deslocamento do olhar, o livro aberto de Gentileza, propõe
um processo epifânico. (O termo epifania tem sentido religioso significando
“revelação”.). Esse processo pode ser irrompido a partir de fatos banais do
cotidiano: uma “parada” diante do ponto de ônibus próximo à rodoviária Novo Rio
ou diante das telas pintadas nas pilastras dos viadutos.
Como
espelhos diante de nós, o leitor se percebe mergulhado num mundo de signos e
significações ou como num fluxo de consciência, passa a ver o mundo e a si mesmo
de outro modo, esquecendo a urbe e o furacão do olho contemporâneo.É como se
tivesse tido, de fato, e a partir das telas, uma visão desautomatizada e mais
aprofundada da vida, das pessoas, das relações humanas. De um modo geral, esses
momentos epifânicos causados pela poética de Gentileza são dilacerantes e dão
origem a rupturas de valores, a questinamentos filosóficos e existenciais,
permitindo a aproximação de realidades opostas, tais como nascimento e morte,
bem e mal, amor e desamor, matar ou morrer.
III.
PALAVRAS FINAIS
Marisa Monte ao exaltar Gentileza utiliza metáforas para resgatar sua história,
seus traços, sua missão enquanto profeta andarilho. De modo, ora serena, ora
revoltada, a melodia instiga reflexões e fragmentos do Profeta que deixou marcas
significativas pelas ruas da cidade. “ Apagaram tudo/ Pintaram tudo de cinza/ A
palavra no muro/ Ficou coberta de tinta”. Por outro lado, sempre em estado de
“paixão pela paz”, a música parece redistribuir sua luz: um espetáculo, às
vezes, tão ofuscante como a rapidez dos olhos em direção as pilastras, outras
vezes, tão excessivamente imaginário quanto a realidade - este coletivo e diário
invento a nos tornar, a todos, “seres de paz”. “ Nós que passamos apressados/
Merecemos ler as letras/ E as palavras de Gentileza”.
A
música, como as telas narrativas, inscreve uma essência, reforça uma mensagem,
relembra as páginas de concreto do livro com 56 páginas escrito nas pilastras
do Viaduto do Caju, no Rio de Janeiro. O livro aberto do Profeta tencionava ser
uma interferência visual, mas articulam-se, entre os pilares, como um discurso
verbal que escreve parte de uma narrativa. É necessário, pois, ler cada painel.
Nessas leituras cambiantes, o leitor perceberá os fragmentos em dispersão.
Marcas de imagens que se multiplicam, intensificam, aumentam, assumem um olhar à
deriva, procuram, instigam. Pequeníssimas filigramas finissimamente tecidas e
pintadas para nossos olhos. Pequenos gestos de Gentileza. Representações do
amor.
Enfim, tudo confirma, pela semiologia que “a cidade é uma escrita, quem se
desloca nela (o seu usuário) é uma espécie de leitor, que, conforme as suas
obrigações e os seus deslocamentos, faz um levantamento antecipado de fragmentos
do enunciado para atualizá-los em segredo”. (BARTHES, 1987, p.187)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARTHES, Roland. Le Plaisir du Texte.
Paris: Seuil,
1973.
_________.
Fragments d’un discours amoureaux.
Paris: Seiul, 1977.
_________. “Semiologia e urbanismo”.In: A
Aventura Semiológica. Trad. Maria de Santa Cruz. Lisboa: Edições 70, 1987.
______.
Elementos de Semiologia. 15ª Edição. São Paulo: Cultrix, 2003.
CHKLÓVSKI,
Victor. A Arte como Procedimento. In: Teoria da Literatura :
Formalistas Russos. Trad. Ana Maria Ribeiro et al. Porto Alegre: Editora
Globo, 1971.
GULEMAN, Leonardo C. Brasil: Tempo de gentileza.
Niterói-RJ, EDUFF, 2000.
HUIZINGA, Johan.
Homo Ludens: o jogo como elemento da
cultura.
Trad. João Paulo Monteiro. São Paulo: Perspectiva, 1990.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Textos Selecionados.
Trad. e notas de Marilena Chauí. São Paulo: Nova Cultural. 1989.
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