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“Melhor
é de risos que de lágrimas escrever
porque o riso é a marca do
homem” .
(François Rabelais – Gargantua)
RESUMO:
Este artigo
discute aspectos do riso e seus vários efeitos como forma de
manifestação comunicativa. A historicidade do riso e suas interdições
na sociedade, numa cosmovisão carnavalizadora em que a cultura do riso
se destingiu por seu radicalismo e sua liberdade excepcionais e por
sua implacável lucidez. O riso medieval foi concedido em praça
pública, durante as festas e na literatura recreativa. Durante o
Renascimento o riso penetrou na sociedade através da criação de obras
mundiais, tornando-se a expressão de uma consciência nova, livre,
crítica e histórica.
Palavras-chave:
Riso, Sociedade, Carnavalização.
ABSTRACT:
This essay discuss about laugh aspect into their several efects like a
way of manifestation. Its morphology in (synthesis) through ages in
some civilizations. The historicity of laugh its closures over
society, in a carnival cosmovision from which he laugh culture
distinguished oneself by its implacable lucidity. The medieval laugh
had been granted in public squares during parties and in recreative
literature. But in Renaissance, the laugh was penetrated into society
indeed through creation of world works, then it became an expression
of a new, free, critique and historic consciousness.
Key
words:
Laugh, Society, Carnival.

Estas
questões são o objeto deste estudo. Interessa-me, desta maneira,
perquirir o riso numa travessia pelas obras de Mikhail Bakhtin,
Vladimir Propp e José Rivair Macedo e Bérgson. Buscarei ancoragem nos
autores supracitados, tendo-se como princípio a linguagem do riso e
suas concepções acerca do que é e do que não é risível, bem como os
aspectos internos e externos sob o ponto de vista psíquico que envolve
o ato de rir. Por que ser ri? O homem é o único ser que ri? Quais são
os tipos de risos? Algumas pessoas riem mais do que outras? Há
diferença entre o rir e o sorrir?
Indagações como essas formam o esboço do que pretendo
perpassar, a saber, as diversas faces significantes do riso.
A carnavalização tornou possível a estrutura aberta do
grande diálogo. Para isso, teve que vencer as interações sociais dos
homens, sobretudo na esfera superior do espírito e do intelecto,
apanágio, durante muito tempo, de uma consciência isolada, monológica,
de um espírito único, indivisível, que só se desenvolve no seu próprio
interior, fechado a qualquer tipo de colóquio. A carnavalização que
penetrou na literatura e, de certa forma, veio determinar a estrutura
de um gênero, pode ser encontrada em todos os movimentos artísticos. A
principal fonte de carnavalização para a literatura, nos séculos XVII
e XIX, se encontra em autores renascentistas como Boccaccio, Rabelais,
Shakespeare e Cervantes.
Em textos carnavalizados rompe-se a lógica do cotidiano,
funde-se o real ao imaginário e aproximam-se elementos contraditórios;
sabedoria e burrice, loucura e razão, vida e morte, o certo e o
errado, o sacro e o profano, o velho e o moço, o gordo e o magro, o
sublime e o grotesco, o sério e o riso. Bakhtin, com A obra de
François Rabelais e a cultura popular na Idade Média e no
Renascimento (1987), realizou o primeiro estudo sério a respeito
da cultura cômica popular, — tão antiga quanto o riso —
reconhecendo-lhe a expressão literária e analisando com bastante
amplitude, seu principal caráter estilístico — o realismo grotesco.
A época de Rabelais, Cervantes e Shakespeare marca uma
mudança capital na história do riso. Em nenhum outro aspecto, a não
ser na atitude em relação ao riso, as fronteiras que separam o século
XVII e seguintes da época do Renascimento, são tão bem marcadas, tão
categóricas e nítidas. A atitude do Renascimento em relação ao riso
pode ser caracterizada, da seguinte maneira: o riso tem um profundo
valor de concepção do mundo, é uma das formas capitais pelas quais se
exprime a verdade sobre o mundo na sua totalidade, na história e na
vida do homem, talvez mais do que o sério. A “grande literatura”, que
coloca por outro lado problemas universais, deve admiti-lo da mesma
forma que ao sério : somente o riso, com os seus vários efeitos, pode
ter acesso a aspectos extremamente importantes na sociedade.
Bakhtin (1996) cita Aristóteles (383 a. C. – 322 a. C.)
na célebre fórmula: “O homem é o único ser vivente que ri”. Daí,
percebe-se que o riso era considerado como o privilégio espiritual
supremo do homem, inacessível às outras criaturas.
Ronsard emprega a fórmula aristotélica dando-lhe um
sentido mais amplo nos versos que se seguem:
Deus, que ao homem submeteu o mundo,
Ao
homem apenas concedeu o riso
Para que se divertisse, e não às bestas
Que
não têm razão nem espírito nas cabeças.
O riso, dom de Deus, unicamente ao homem concedido, é
aproximado ao poder do homem sobre a terra, da razão e do espírito que
apenas ele possui.
Conforme o Laboratório do Riso, na Revista Galileu
(março/2002) rir não é um ato exclusivo dos humanos, ao contrário do
que imaginava Aristóteles. Orangotangos, gorilas, chimpanzés e outros
membros do grupo dos primatas também dão boas risadas, quando estão em
grupo. Mais um ponto a favor da teoria de que o riso estaria
desvinculado de emoções elaboradas e próximas da felicidade, como
constata Robert Provine, pesquisador da Universidade de Maryland, EUA.
Propp (1991) nos lembra que o macaco sendo “o mais
ridículo de todos os animais, ele, mais do que todos, lembra o homem”.
Há algo realmente notório na natureza, que está ligado com o sorrir e
não com o rir. Ninguém ri da flor ao desabrochar ou das árvores de uma
floresta, mas sorri das formas belas da natureza como algo
indubitavelmente superior, divino, algo longe da esfera humana
avaliativa. O animal pode alegrar-se, regozijar-se, mas ele não ri”.
Infere-se dessa afirmação a incapacidade de o animal irracional
realizar alguma operação mental. Para rir é preciso se fazer uma
ligação como o ridículo ou atribuir às ações algum valor moral com
sentido cômico ou não.
Das várias faces do risível levantei uma “morfologia do
riso” partindo dos provérbios de Salomão, 26 ao Livro do Eclesiastes.
Também eu me
rirei
na vossa desventura,
e, em vindo o Vosso terror,
eu zombarei (Salomão : 26)..
Do Eclesiastes: “Disse comigo:vamos! Eu te provarei com
a alegria; goza, pois, a felicidade; mas também isso era vaidade. Do
riso disse: é loucura; e da alegria: de que serve? Resolvi no meu
coração dar-me ao vinho, regendo-me, contudo, pela sabedoria, e
entregar-me à loucura até ver o que melhor seria que fizessem os
filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias da sua vida.”
(Ec. 2,3).
Agora, levarei em conta as várias faces do Riso,
deixando vazios para que se faça, posteriormente, estudos pertinentes
acerca de cada tipo mencionado e em que circunstancias são
manifestados.
Riso zombeteiro
Riso gargalhado
Riso de deleite
Riso de prazer
Riso de bruxaria
Riso de loucura
Riso de dor
Riso amargo
Riso triste
Riso trágico
Riso irônico
Riso hipócrita
Riso disfarçado
Riso sarcástico
Riso sardônico
Riso soberbo
Riso despudorado
Riso bastardo
Riso genuíno
Riso alegre
Riso de saudação
Riso de desprezo
Riso de humor
Riso terapêutico
Riso cômico
Riso virtual
Riso caricatural
Riso cultural
Riso caipira
Riso subversivo
Riso romântico
Riso malicioso
Riso insinuante
Riso erótico
Riso sensual
Riso perverso
Riso de deboche
Riso indignado
Riso sereno
Riso burlesco
Riso ambíguo
Riso doce
Riso mímico
Riso amarelo
Riso escandaloso
Riso espetaculoso
Riso tolo
Riso cordial
Riso indulgente
Riso tímido
Riso amável
Riso amigável
Riso hostil
Riso sincero
Riso terno
Riso triunfante
Riso
justificativo
Riso infantil
Riso embaraçado
Riso festivo
Riso grosseiro
Riso popular
Riso grotesco
Riso carnavalesco
Riso gratuito
Riso infernal
Riso excêntrico
Riso inteligente
Riso
significativo
Riso
sem-vergonha.
A partir desta morfologia, depreendi que o riso é produto de uma dada
cultura, resultando da complexidade do social. Observei que o homem ri,
é verdade, todavia não pelos mesmos motivos e circunstâncias. Conforme
Sodré (1974), nem tudo é motivo de riso para todos os homens e, por
isso, faz-se necessário reconhecer condicionamentos socioculturais em
diferentes grupos humanos, ligados à expressão de formas de poder e de
crítica social.
Bergson (1927) ressalta que o riso é um ato fisiológico, resultante da
contração dos músculos faciais de acordo com a oscilação de emoções ou
de abruptas modificações no estado de espírito dos indivíduos, sendo,
portanto, um ato social. O rir está condicionado a diversos significados
determinados pelos códigos de comunicação aceitos coletivamente, pelas
convenções partilhadas. Logo, segundo Bergson (op. Cit), o homem não é
apenas “um animal que ri”, mas também um “animal que se faz rir”.
Victor Hugo (1802 – 1885) afirma que “O riso é o sol que
leva o inverno do rosto humano”. Concordando com Hugo, é comum acreditar
que a felicidade está ligada ao humor — a capacidade de perceber e
apreciar a diversão e a graça da vida e de rir por causa disso. Mas
como demonstraram Platão (427 a. C. – 347 a. C) ou Freud (1856 – 1939),
isso não é bem verdade. A função do riso pouco tem a ver com a
demonstração do chamado bem-estar subjetivo — que seria uma forma de
definir sentimento efêmero da felicidade.
Robert Provine investiga o significado do humor e do riso
na sociedade e notou que as pessoas riam trinta vezes mais quando
estavam acompanhadas assistindo a um filme ou lendo um livro. Em menos
de 20% dessas situações, as risadas eram provocadas por piadas ou por
outra tentativa de fazer humor.
Provine notou, também, que o riso funciona como ponto a
favor nos jogos de relacionamento entre os sexos. Ou seja, as mulheres
riem mais do que homens, principalmente, quando com eles conversam. Por
sua vez, os homens obtêm mais retorno em risadas do que as mulheres e
constatou, ainda, que a maioria dos homens preferia mulheres risonhas,
confundindo, às vezes, com senso de humor. Da mesma forma, Provine
analisou o riso no ambiente de trabalho e constatou que ele é mais comum
entre os subordinados, quando se dirigem ao chefe, do que o contrário.
Chefes, segundo ele, são mais solenes e sérios e não se preocupam em
“quebrar o gelo” social.
A psicóloga Emma Otta, professora da USP e autora do livro
O Sorriso e Seus Significados,concorda: “Apesar
de funcionar como um indicador de alegria genuína, muitas vezes uma
risada espontânea também pode ser uma expressão de desconforto”. Muitos
pesquisadores são unânimes em afirmar que “rir é o melhor remédio”, como
constam os estudos acerca das atribuições positivas e terapêuticas do
riso, fortalecendo o sistema imunológico no combate às infecções como
também nas propriedades analgésicas.
Assim, muitos pensam que o riso é a forma mais perfeita de
fugir da realidade. Nesta afirmação está inserido o âmago da questão.
Durante toda a história da humanidade o que se vê é sempre o homem
procurando algo diferente da sua realidade para ser mais feliz, alegre,
de bem com a vida. Uma das formas mais eficazes, o homem encontrou no
ato de rir. Rir de qualquer coisa, ainda que desprovida da risibilidade.
Eu diria que há os momentos adequados e os inadequados para fazê-lo.
Na Idade Média, o riso foi tido como vil, subversivo, maligno, proibido.
A riquíssima cultura popular do riso nesta era viveu e desenvolveu-se
fora da esfera oficial da ideologia e da literatura “elevada”, conforme
Bakhtin (1996). E foi graças a essa existência extra-oficial,
carnavalizadora, que a cultura do riso se distinguiu por seu radicalismo
e sua liberdade excepcionais, por sua implacável lucidez.
Conforme Macedo (2000), o riso, mesmo tendo sido resgatado e
transformado em objeto de reflexão, permanecia na condição de sintoma de
pecado: se a faculdade de rir era intrínseca à condição humana, então
era sinônimo de mácula e degeneração.
E o riso medieval beneficiou-se ampla e profundamente concedido em praça
pública, durante as festas e na literatura recreativa. Mas foi durante o
Renascimento que o riso, na sua forma mais radical e alegre, penetrou
decisivamente para a criação de obras de arte mundiais, como o
Decameron, de Boccaccio, o livro de François Rabelais, o romance de
Miguel de Cervantes, os dramas e comédias de William Shakespeare. Com
isso, mil anos de riso popular extra-oficial foram incorporados na
literatura da consciência nova, livre, crítica e histórica da época e
... eclodiu. Como diz o velho ditado: “Rir é o melhor remédio”. Sorria,
portanto!
REFERÊNCIAS
BAKHTIN,
Mikail. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o
contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec/Unb, 1996.
BERGSON,
Henry.
O Riso
. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
BIBLIA
sagrada. A. T. Provérbios. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do
Brasil/ Casa Editora Presbiteriana, 1999. Cap. 1-26, p. 567.
BIBLIA
sagrada. A. T. Eclesiastes. 2. ed. São Paulo: Sociedade Bíblica
do Brasil / Casa Editoria Presbiteriana, 1999. Cap. 2, p. 593.
COLAVITTI,
Fernanda. A diferença entre riso e felicidade. In: Revista Galileu.
São Paulo: Editora Globo, nº 128, março, 2002.
MACEDO,
José Rivair. Riso, Cultura e Sociedade na Idade Média. Porto
Alegre/São Paulo: Ed. UFRGS/Ed. Unesp, 2000.
PIRES,
Orlando. Manual de Teoria e Técnica Literária. Rio de
Janeiro: Presença, 1989.
PROPP,
Vladimir.
Comicidade e Riso.
São Paulo: Ática, 1992.
SODRÉ,
Muniz. O Riso __ imaginário e simbólico:é possível rir
ideologicamente. Revista de Cultura Vozes, v. 68. n.1, p. 31-34,
1974.
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