“Et ce “langage de
l’art” lui-même est une hiérarchie complexe de langages
mutuelllement corrélés, mias non possibles d’un texte
artistique. A cela aussi, on le voit, est reliée la charge
signifiante de l’art, inaccessible à tout autre langage non
artistique”.
(LOTMAN, Iouri.
La Estructure du texte artistique,1973, p. 55).i
Apontado como
referencial máximo da semiótica soviética, o professor da
Escola de Tartu, Iuri Lotman (1922-1993)
surge num contexto marxista, desenvolvendo as suas
investigações científicas da literatura a partir dos
resultados da linguística estrutural, da semiótica, da
teoria da informação e da cibernética. A partir de um
sistema modelizante primário, realizado prioritariamente
pela língua natural, Lotman desenvolve uma série de
fundamentos que funcionam em sistemas não-verbais da
cultura, denominados sistemas modelizantes secundários. Em
La Structure du texte artistique (1973) Lotman
descreve a arte como sistema semiótico complexo e o fazer
artístico como construção de textos imbricados, possuidores
de estrutura, expressão e limites próprios.
Nessa
obra, Lotman estabelece como objetivo fundamental a
demonstração e explicitação da tese segundo a qual “a arte
pode ser descrita como uma linguagem secundária e a obra de
arte, como um texto nessa linguagem" (1973, p.37), por outro
lado, o seu estudo partirá do pressuposto de que a
necessidade da arte (e do conhecimento) é congênita ao homem
que ao longo da sua história, mesmo em luta pela conservação
da vida, "encontra sempre tempo para a atividade artística,
sente essa necessidade." A arte, tal como para Aristóteles,
corresponderá a uma necessidade vital, assumindo uma
dimensão epistemológica, já que, no seu entender, trata-se
de "uma das formas de conhecimento da vida".
O aspecto central
do livro de Iuri M. Lotman é a abordagem da
modelização na estrutura do texto artístico. Segundo
ele, esse processo define-se como o mecanismo pelo qual o
texto reproduz, através e processos semióticos vários (como
a transcodificação interna e externa), um determinado modelo
da significação do texto: trata-se de explicar o modo como,
através de certos sistemas semióticos, se estabelecem as
relações semânticas como os “fenômenos que lhe são externos”
(LOTMAN, 1973, p.69). Para isso ele postula dois tipos de
modelização que correspondem a uma distribuição hierárquica
dos sistemas semióticos. No caso do texto literário, é a
língua natural que opera a modelização “primária”; por outro
lado, a modelização “secundária” emerge de outros sistemas
semióticos e define a especificidade genérica desse mesmo
texto.
Modelizar para
Iuri Lotman é o mesmo que semiotizar. É, de certa maneira,
conferir estrutura de linguagem a sistemas de signos que não
dispõem de um modo organizado ou de uma codificação precisa
para a transmissão de mensagens. Ele acredita que, quando se
parte para o estudo da obra de arte e sua relação com a
linguagem, encontra-se a natureza mesma da obra, ou seja,
seu caráter codificado. Ao tomar consciência de algum objeto
como texto, estamos supondo com ele que está codificando
alguma maneira. E, nesse sentido, reconstruir tal
codificação é tarefa da investigação semiótica.
Nesse contexto de
transcodificação, a obra (seja ela de qual natureza for:
literária, musical, pictural, teatral, cinematográfica etc)
apresenta também ela uma realidade. Esta, porém, não deve
ser entendida como uma simples cópia do original; é, antes
de mais nada, e segundo esses princípios, o resultado
emoldurado de um trabalho de “tradução”, ou seja, de
“reprodução de uma realidade noutra” (1973, p.301). O real
artístico é, nesse sentido, obrigatoriamente diferente do
que lhe é exterior, sendo que os seus contornos se perfazem
dentro de uma certa moldura configurável por questões
estéticas ou ideológicas. A obra de arte, qualquer que seja
ela, tem entrelaçado no seu complexo tecido semiótico um
sistema modelizante que estabelece regras com que se traçam
esses contornos, quer em termos espaciais, quer em termos
temporais.
O estudioso
postula no Capítulo I (L’art em tant que langage,
p.35) que a arte pode ser entendida como uma forma de
linguagem por utilizar signos e implicar uma interação entre
emissor/receptor (dupla função que pode ser desempenhada por
um único sujeito). Trata-se de um sistema (secundário), um
meio de comunicação, que, como tal, é passível de ser
estudado pela teoria dos sistemas de signos naquilo que ela
tem de geral, aproximando-a de qualquer outra linguagem. Por
outro lado, defende que o estudioso da arte deverá ter
presente a sua especificidade, a consciência de que se trata
de uma estrutura complexa em que a organização particular
dos seus elementos obedece a um princípio que a diferencia
dos outros sistemas de signos.
Toda arte é assim
perspectivada como uma linguagem secundária que submete o
seu material (as estruturas linguísticas e o modelo do mundo
que subjaz à própria estrutura do sistema modelizante
primário) a um processo de transcodificação, uma
reorganização dos seus elementos segundo uma nova ordem
constitutiva, gerando novos modelos do mundo capazes de
permitir ao ser humano aceder a inesperadas reconstruções,
modelizações do mundo e do seu próprio ser segundo
princípios internos que ultrapassam a lógica da linguagem
natural. Por isso, será este o sentido da atribuição de uma
função cognitiva da arte em geral. Ela - a arte -, diz o
semioticista, “possui uma série de traços que a assimilam
aos modelos lúdicos. A percepção ( e a criação) de uma obra
de arte exige um comportamento particular - artístico -, que
possui uma série de traços comuns com o comportamento
lúdico” (LOTMAN, 1973, p.110).
A todo o sistema
semiótico, diz Lotman, preside uma relação de equivalência
entre o grau de complexidade da sua estrutura e o seu volume
de informação: quanto mais complexa a estrutura, maior é o
seu volume de informação. Para além disso, num sistema
semiótico bem construído não pode existir informação
supérflua, sendo que a continuidade da existência de um
sistema mais complexo se justifica pela sua grande
capacidade informativa, caso contrário seria extinguido. O
discurso poético corresponde a uma estrutura
substancialmente mais complexa que a língua natural: não
existe possibilidade de transmitir o conjunto de informação
contida num discurso poético por um discurso corrente (ou
qualquer outro meio). Tal impossibilidade deriva da própria
especificidade do texto artístico em que a indissolubilidade
entre a estrutura (forma) e a informação (conteúdo) se
afirma como a sua condição primeira. E se entendermos que,
tal como referimos, não existe informação supérflua num
sistema semiótico bem construído, significa que não podemos
proceder a uma análise do texto artístico, privilegiando o
estudo isolado dos seus elementos (sejam elementos
"formais", ao nível do código linguístico, ou apenas ao
nível do seu conteúdo, da sua mensagem). Daí que Lotman
condene os métodos de estudo em que "conteúdo" e "forma" são
analisados separadamente. Para ele
“cada detalhe e o texto no seu conjunto são introduzidos em
diferentes sistemas de relação tendo por resultado a
recepção simultânea com mais de uma significação” (LOTMAN,
1973, p. 112).
A relação entre
expressão/estrutura, é exemplificada pela analogia com o
tipo de relação que se dá entre a vida e o tecido vivo, isto
significa que o conteúdo não preexiste à sua estrutura, daí
a sua afirmação de que "o pensamento de um escritor (se)
realiza numa determinada estrutura artística". Se a "ideia"
em arte se define como um modelo do mundo, então não existe
qualquer possibilidade de se atingir essa mesma ideia fora
da estrutura que a suporta (tal como não é possível estudar
a vida fora do organismo vivo, o tecido vivo que a
sustente). De qualquer maneira, o
texto e sua pluralidade de códigos, segundo o estudioso da
semiótica e da cultura “comporta-se como um organismo vivo
que se encontra numa ligação inversa com o leitor e que o
esclarece” (1973: 55).
A interdependência
entre expressão/conteúdo do texto artístico radica, no seu
entender, no caráter icônico e figurativo dos signos em
arte, isto é, trata-se de signos cuja construção se funda
precisamente nessa relação de dependência entre o nível da
expressão e do conteúdo: "o signo modeliza o conteúdo". O
texto artístico, confirma Lotman, corresponde assim a um
signo complexo em que um elemento sintagmático (domínio da
expressão), pode, num outro nível, assumir-se como elemento
semântico (domínio do conteúdo). Nas suas palavras, o texto
artístico apresenta-se como "um signo completo e todos os
signos isolados do texto linguístico geral são elevados ao
nível de elementos do signo." [...] As
diferentes significações de um mesmo elemento não
coexistirem invariavelmente, mas “cintilarem”. Toda
interpretação cria uma forma sincrônica distinta, mas
conserva paralelamente a lembrança das significações
precedentes e a consciência da possibilidade das futuras”
(1973, p.114).
Assim concebido, o
texto artístico impõe-se como um sistema, um todo organizado
(segundo regras internas específicas), em que a
"transgressão" surge, muitas vezes, como mecanismo
privilegiado gerador do dinamismo informativo que o
caracteriza.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
LOTMAN, Youri.
La Structure du texte artistique.
Paris: Gallimard. 1973
i
“A linguagem da arte é, ela mesma, uma hierarquia complexa
de linguagens inter-relacionadas, mas não semelhantes. A
isto está relacionado a pluralidade de princípios de
leituras possíveis de um texto artístico. A isto também,
nota-se, está ligada a carga significante da arte,
inacessível a qualquer outra linguagem não-artística”.
(tradução nossa).