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Não é novidade
que o teatro perdeu espaço e público após o surgimento da televisão e do
cinema. Para competir com a comodidade dos novos meios de entretenimento e
arte, é necessário que o teatro possa oferecer algo de que só ele disponha.
E é em busca
dessa constante reafirmação da linguagem teatral que alguns grupos pesquisam
e se superam a cada trabalho. Em Expectantes, a Cia. de Atores
Invisíveis apresenta um espetáculo sobre as expectativas humanas. O
tratamento do tema, no entanto, foge do óbvio; o plano existencial não se
encontra explícito – as ações se efetuam em um plano concreto. O que um
palhaço, uma cigana, uma noiva, um evangélico, um travesti esperam? Para
que esperam? Até quando esperam? De que maneira encaram essa
espera?
Depois, cabe a
nós transformarmos esses símbolos e adentrarmos na atmosfera misteriosa que
a proposta cênica abrange, como se nos perguntasse, também, o que nós
esperamos. Com um cenário intimista e um humor tragicômico, inicia-se o jogo
de sentimentos com a platéia. Um jogo tenso, que ao mesmo tempo estimula e
inibe o espectador. Gargalhadas se confundem com momentos de profunda
melancolia, irreverência e culpa. Somos transformados em cúmplices de
personagens patéticos e perdidos e, num determinado momento, nos sentimos os
próprios, sempre à espera da próxima cena, da próxima piada, do próximo
conflito, a mercê de choques cômicos e dramáticos.
Os
personagens dividem o mesmo ambiente – um circo. A dinâmica da
atuação provém dos ensinamentos de Yoshi Oida – um dos principais atores do
diretor britânico Peter Brook. Baseia-se todo o processo de trabalho no
livro O Ator Invisível. Para Oida, o
público não deve jamais ver o ator e sim sua interpretação, e esta requer
supremo e estudado controle, para que defina e exponha emoções em toda a sua
profundidade.
E, realmente,
a integração do elenco, e a disciplina com que os atores trabalham suas
sombras, sons, vozes, silêncios, ruídos e sentimentos os torna invisíveis.
Invisíveis no sentido de que não vemos o ator ali. Vemos os personagens, nos
envolvendo com sua presença.
A discrição em
cada mudança de cena, o cenário dinâmico e restrito ao necessário
transformam tudo em essência. Tudo nos leva a uma reflexão, não apenas sobre
o que esperamos, mas sobre o que escondemos sob nossas aparências, o que
almejamos, nossas carências, o que cada ato revela, o que cada escuro
condena, o que cada olhar vê, aprova, reprova. O que cada solidão, enfim,
procura.
O espetáculo
não termina; cabe a nós a decisão de ir ou ficar aguardando, na
expectativa de algo a mais, de um aplauso, de um aceno. Com um certo
incômodo, nos percebemos em cena, mais expostos que os próprios personagens,
e decidimos sair.
Serviço: O espetáculo “Expectantes”
está em cartaz até dia 07 de novembro, na Fundição Progresso. Sempre às
quartas-feiras, às 20h30min. Contato do grupo:
www.invisiveis.subtom.com.br.
(Colaborou:
Gustavo Dumas) |