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Sempre
que ia almoçar na casa de sua mãe, Nelson Rodrigues tomava o ônibus da linha
115 (atual 184), trajeto Laranjeiras – Estrada de Ferro. Um dos choferes, um
pernambucano chamado Rubem Francisco da Silva, gostava de exibir-se: tinha
27 dentes na boca, mas eram todos de ouro. Abria a boca no ponto final da
rua General Glicério e dizia: “Olha só! Pode contar, um por um. E não é
coroa, é maciço! Ouro 24!”
Aqueles
dentes dourados misturaram-se no imaginário de Nelson com outro personagem
real do submundo carioca, o bicheiro Arlindo Pimenta, e pronto! Surgia o
personagem Boca de Ouro, protagonista da peça homônima.
Boca de Ouro
é bicheiro do subúrbio, típico malandro carioca, e tem esse nome porque, ao
subir na vida, trocou os dentes perfeitos por uma dentadura de ouro. Quando
Boca é assassinado, o repórter de um jornal sensacionalista, incumbido de
investigar o seu passado, tem uma idéia brilhante – investigar Dona Guigui,
a volúvel e passional ex-amante do contraventor, uma mulher que, dependendo
de seus humores, conta a cada vez uma nova versão para as mesmas histórias.
A Companhia
Teatro Arte Dramática (CTAD), sob direção de Marcelo de Barros, traz esse
enredo novamente para o palco do Sesi. A CTAD tem como base teórica os
estudos do ator e diretor russo Constantin Stanislavski, desenvolvidas e
aperfeiçoadas de acordo com a montagem e a potencialidade de cada ator.
– O método
conhecido como “ação física” parte da premissa de que toda a emoção flui
independente da vontade, a menos que o ator possa sobre ela exercer total
controle, assim como tem sobre o corpo.
Nesse sentido, praticamos exercícios em que a memória
emocional é evocada até que seja atingido um controle total do corpo.
Partimos então para a ação psicofísica, que é a ação propositada,
intencional e não intuitiva, que conduz à exteriorização das emoções do
personagem – explica Marcelo. A técnica utilizada pelo diretor se baseia na
afirmação da verdade cênica do ator, para fazer o espectador acreditar
fielmente nos sentimentos de cada personagem.
Na montagem
de “Boca de Ouro”, Marcelo de Barros aposta não só no trabalho desenvolvido
por seus atores mas também, como não poderia deixar de ser, no caráter
sempre polêmico e atual do teatro de Nelson Rodrigues.
– Nelson
retratava a vida como ela era. Queria que todos os moralistas se vissem sem
roupas diante de todos os leitores – complementa Marcelo, cuja companhia
sagrou-se vencedora de diversos prêmios de atuação, figurino e tem algumas
montagens traduzidas na França-Nice, Faculdade de Letras de Nice.
Para quem
quiser conferir o trabalho desenvolvido pela CTAD, os ingressos já estão à
venda. O Teatro Sesi fica na rua Graça Aranha, nº 1, Centro. Mais
informações pelo telefone (21) 2563-4546 (Sesi) ou (21) 8603-8660 (CTAD) e
pelo sítio da Companhia:
www.ctad.com.br. A temporada começa no dia 14 de outubro e vai até o dia
26 de novembro, sempre às terças e quintas-feiras, às 19h30min. Ingressos a
R$ 20,00 (R$ 10,00 com filipeta ou meia entrada). |