spacer

 

ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 16 de abril de 2010 22:26:43   

 
  Principal
 Agenda
 Artes e Artesanato
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Mirim
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Terceiro Setor
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Memória Sindical
 Assédio Moral
 Vitrine do Giba
 Nosso Dáimon
 O Grito do Ipiranga
 Mirim
 Feiras e Mercados
 Em RHede
 Econotas
 Ambientais
 Agenda
.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CULTURA - TEATRO

Santiago Encena: A Magia e a Realidade na Festa de Tália e Melpômene

   

Rodrigo Neres de Morais1

publicado em 16/04/2010

 

O teatro é uma arte efêmera

há mais de dois mil anos.

Millôr Fernandes

 

Durante o mês de novembro de 2009, entre os dias 23 a 26, a cidade de Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, conhecida como a “Terra dos Poetas”, recebeu visitas ilustres. Algumas vindas do reino da narrativa mitológica e que habitam a esfera celestial desde a Grécia Antiga e se fazem presentes até hoje para provocar a nossa reflexão sobre o real sentido e origem das coisas. E aí? Já descobriu quem são? Estou me referindo as Musas Tália e Melpômene, Deusa-irmãs, filhas de Zeus e Mnemósine e habitantes do Museion.

Com seu cajado de pastor e a máscara cômica em mãos, a “festiva” Tália musa grega da comédia, transita entre nós distribuindo risos e gargalhadas, mas ao mesmo tempo, nos faz ver a graça existente nas pequenas coisas do nosso cotidiano, que nos passam desapercebidas e que ora nos orgulham ora nos envergonham. Mas mesmo assim achamos graça.

Sem graça nenhuma, Melpômene a musa grega da tragédia, perambulando com seus coturnos gastos e carregando em suas mãos uma faca e a máscara trágica, nos mostra a verdadeira face da tristeza e do desespero humano, nos colocando frente todas as mazelas da existência. Ou como nos fala Aristóteles, o primeiro teórico da tragédia, ao apontar os dois conceitos que definem esse gênero: a mimese – a imitação da palavra e do gesto de modo a despertar os sentimentos de terror e piedade no público, e a catarse – que é o alívio desses sentimentos através de um efeito moral e purificador.

Mas tanto Tália como Melpômene, fazem com que a nossa humanidade seja questionada frente a indagações filosóficas contextualizadas com a nossa realidade, os nossos modos de agir e pensar e até mesmo, com as nossas próprias concepções, pré-conceitos e interpretações do real e do imaginário. Porém essas Deusas não costumam andar sozinhas. Elas possuem uma legião de seguidores, nômades, sem paradeiro e que conseguem romper com as barreiras temporais, dominando as representações do passado, presente e até de inúmeros e prováveis futuros, de incalculáveis mundos e galáxias distantes e inexploradas.

Uma gente que se encontra em torno de uma idéia, de uma vontade, de um objetivo, de uma boa história... Em lugares a princípio escuros, incômodos, desafiadores por vezes, mas que por um momento de magia, se transformam em qualquer espaço ou coisa cabível à imaginação. Revelando cores, luzes, sombras, ritmos e por fim universos.

Essa gente capaz de realizar sonhos e distribuir fantasias, é o Povo do Teatro. Todos eles! Atores, diretores, iluminadores, sonoplastas, maquiadores, figurinistas... Enfim, todos construtores de mundos, de personagens e de espetáculos. São eles que fazem acontecer a festa das Musas, que as mantém vivas entre os palcos, ao abrir e fechar de cortinas e ao término dos aplausos.

E assim, conseguem fazer do teatro a arte mais próxima da vida humana, uma vez que o ser humano é por natureza um ser teatral. Uso novamente o pensamento de Aristóteles, que nos explica que desde a infância os homens apresentam em sua natureza uma tendência para representar e uma tendência para assistir tais representações.

O que poderíamos dizer que o próprio teatro existe pela necessidade dos homens extravasarem suas angústias, medos, paradigmas e ideais. Ou melhor, como nos fala Pierre Bugard, que mais do que nunca essa arte se faz necessária pois “hoje, os deuses morreram, estamos sozinhos, o mito esvaziou-se, a tragédia abandonou a cena da cidade grega e foi habitar para o nosso inconsciente. (...) Ficou-nos a nevrose para nos preservar dela, resta-nos o Teatro.”

O encontro da Gente do Teatro resulta na grande festa das Musas Tália e Melpômene. Na cidade de Santiago, RS, esse momento há treze anos denomina-se SANTIAGO ENCENA, que na verdade se trata de um Festival de Teatro Amador.

Desde o ano de 1997 esse festival faz parte do calendário de eventos do município, atraindo um público que busca não apenas diversão e lazer, mas também, a oportunidade de interagir com as mais diferentes manifestações culturais e novas formas de ver e interpretar o mundo e a realidade a sua volta. Lembra-se, conforme FUSARI (2001, p. 78), que é importante a prática de educar nosso modo de ver, para que ocorra a transformação e a conscientização do nosso papel social, enquanto agentes participativos no meio ambiente e na realidade cotidiana e sendo o teatro campo nobre para tais ações e análises.

O primeiro Santiago Encena teve o objetivo de proporcionar à comunidade local a apreciação da arte cênica e da dança criativa de grupos teatrais e de instituições escolares que tinham a necessidade de difundir sua expressão artística. A partir do ano de 1998 o Santiago Encena, devido ao sucesso e a repercussão da primeira edição, passa a ser em nível regional contando com a participação de grupos teatrais de várias cidades do estado do Rio Grande do Sul.

Desde a décima segunda edição, no ano de 2008, o Santiago Encena foi um Festival de Teatro Amador e Dança Coreografada, sendo que na sua trajetória 122 danças coreografadas, 79 peças teatrais infantis e 99 espetáculos adultos foram apresentados a comunidade, para a alegria das duas Deusas-irmãs.

No ano de 2009, realizou-se, sob a proteção celeste direto do Monte Parnaso, a décima terceira edição do Festival, contando somente com a categoria de Teatro Amador, uma vez que, foi reformulado seu regulamento e suas categorias de premiação. Estavam na disputa 04 espetáculos na categoria infantil e 05 na categoria adulta, com grupos de teatro amador, além da cidade de Santiago, também das cidades gaúchas de Itaqui, São Francisco de Assis e Uruguaiana.

O Santiago Encena é uma promoção da Prefeitura Municipal de Santiago, através da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. É um evento que vem fortalecer e alicerçar ainda mais a identidade cultural da “Terra dos Poetas”, como é conhecida a cidade de Santiago, RS, pois afinal foram 13 anos de efetiva existência junto a promoção e difusão artístico-cultural. Trazendo consigo uma mensagem de amor a arte, sem preconceitos e valorização da capacidade e criatividade humana, pois como nos fala MARTINS (1998, p.6):



 

(...) a linguagem da arte. Feita para o homem mergulhar dentro de si mesmo trazendo para fora e para dentro dos outros homens as emoções do próprio homem. Sabe o homem que as emoções é que são o sal da vida. Por isso é que quando um homem quer falar ao coração dos outros homens ele o faz pela linguagem da arte. Quando isso acontece, naquele homem sente e age o artista.

Por essa razão, alicerçados em preceitos que valorizam e incentivam as expressões, habilidades e potencialidades de homens e mulheres, personagens condutores da teia tecida por Clio, a musa da História e irmã querida de Tália e Melpômene, é que o teatro se torna um investimento cultural de suma importância. Não se importando com o número de pessoas ocupando cadeiras em grandiosos salões, mas sim com sujeitos com a sensibilidade necessária para estarem abertos à arte e sabendo valorizá-la.

Não só o teatro, como também, toda a forma de expressão artística-cultural deve ser valorizada e vista como um investimento. E quem deve investir, incentivar, tomar para si, é a própria comunidade e não apenas os poderes públicos instituídos.

Deve-se ter a noção que ao investir em cultura, a colheita será a longo prazo e não imediata. O “aqui-agora” se têm através do retorno midiático, que deixa extremamente felizes os gerentes de marketing, mas o que importa realmente, é que as mentalidades sejam dialogicamente confrontadas, questionadas, que haja mudanças paradigmáticas... E isso deriva tempo, paciência, construção de gosto e polimento da sensibilidade humana frente a contemplação das inúmeras manifestações da arte e de suas Musas .

Portanto, enquanto a cidade de Santiago, RS, continuar com seus pequenos, mas talentosos, grupos de Gente do Teatro a serviço da festa de Tália e Melpômene, o movimento do teatro amador e a própria cultura agradecem e se fazem ainda mais vivos na “Terra dos Poetas” do Brasil.



 

Referências Bibliográficas:
 

FUSARI, Maria e FERRAZ, Maria. A Arte na Educação Escolar. São Paulo: Cortez, 2001.

MARTINS, Mirian Celeste Ferreira Dias; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. T. T. Didática do Ensino da Arte: A Língua do Mundo – Poetizar, Fruir e Conhecer Arte. São Paulo: FTD, 1998.

NORONHA, Luiz. A construção do espetáculo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.

 

1 Professor Historiador, Pós-graduando em História: Cultura, Memória e Patrimônio. Atualmente é Chefe do Departamento de Cultura do Município de Santiago, RS. E-mail: rodrigoneres1@gmail.com

 

 

 
 
 
  

spacer
::sobre o autor::

Rodrigo Neres de Morais é professor Historiador, Pós-graduando em História: Cultura, Memória e Patrimônio. Atualmente é Chefe do Departamento de Cultura do Município de Santiago, RS. E-mail: rodrigoneres1@gmail.com


 

::contato com o autor::

Fale com o autor clicando aqui.

::anuncie::

Saiba como anunciar no site clicando aqui.

 
   ::participe::
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
 
 

::outros textos do autor::

 

 

 

 
 
::apoiadores::






© copyright Revista P@rtes 2000-2010
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil
spacer