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O teatro é uma arte efêmera
há mais de dois mil anos.
Millôr Fernandes
Durante o mês de novembro de
2009, entre os dias 23 a 26, a cidade de Santiago, no interior do Rio
Grande do Sul, conhecida como a “Terra dos Poetas”, recebeu
visitas ilustres. Algumas vindas do reino da narrativa mitológica e que
habitam a esfera celestial desde a Grécia Antiga e se fazem presentes
até hoje para provocar a nossa reflexão sobre o real sentido e origem
das coisas. E aí? Já descobriu quem são? Estou me referindo as Musas
Tália e Melpômene, Deusa-irmãs, filhas de Zeus e Mnemósine e habitantes
do Museion.
Com seu cajado de pastor e a
máscara cômica em mãos, a “festiva” Tália musa grega da comédia,
transita entre nós distribuindo risos e gargalhadas, mas ao mesmo tempo,
nos faz ver a graça existente nas pequenas coisas do nosso cotidiano,
que nos passam desapercebidas e que ora nos orgulham ora nos
envergonham. Mas mesmo assim achamos graça.
Sem graça nenhuma, Melpômene a
musa grega da tragédia, perambulando com seus coturnos gastos e
carregando em suas mãos uma faca e a máscara trágica, nos mostra a
verdadeira face da tristeza e do desespero humano, nos colocando frente
todas as mazelas da existência. Ou como nos fala Aristóteles, o primeiro
teórico da tragédia, ao apontar os dois conceitos que definem esse
gênero: a mimese – a imitação da palavra e do gesto de
modo a despertar os sentimentos de terror e piedade no público, e a
catarse – que é o alívio desses sentimentos através de um
efeito moral e purificador.
Mas tanto Tália como Melpômene,
fazem com que a nossa humanidade seja questionada frente a indagações
filosóficas contextualizadas com a nossa realidade, os nossos modos de
agir e pensar e até mesmo, com as nossas próprias concepções,
pré-conceitos e interpretações do real e do imaginário. Porém essas
Deusas não costumam andar sozinhas. Elas possuem uma legião de
seguidores, nômades, sem paradeiro e que conseguem romper com as
barreiras temporais, dominando as representações do passado, presente e
até de inúmeros e prováveis futuros, de incalculáveis mundos e galáxias
distantes e inexploradas.
Uma gente que se encontra em
torno de uma idéia, de uma vontade, de um objetivo, de uma boa
história... Em lugares a princípio escuros, incômodos, desafiadores por
vezes, mas que por um momento de magia, se transformam em qualquer
espaço ou coisa cabível à imaginação. Revelando cores, luzes, sombras,
ritmos e por fim universos.
Essa gente capaz de realizar
sonhos e distribuir fantasias, é o Povo do Teatro. Todos eles! Atores,
diretores, iluminadores, sonoplastas, maquiadores, figurinistas...
Enfim, todos construtores de mundos, de personagens e de espetáculos.
São eles que fazem acontecer a festa das Musas, que as mantém vivas
entre os palcos, ao abrir e fechar de cortinas e ao término dos
aplausos.
E assim, conseguem fazer do
teatro a arte mais próxima da vida humana, uma vez que o ser humano é
por natureza um ser teatral. Uso novamente o pensamento de Aristóteles,
que nos explica que desde a infância os homens apresentam em sua
natureza uma tendência para representar e uma tendência para assistir
tais representações.
O que poderíamos dizer que o
próprio teatro existe pela necessidade dos homens extravasarem suas
angústias, medos, paradigmas e ideais. Ou melhor, como nos fala Pierre
Bugard, que mais do que nunca essa arte se faz necessária pois “hoje,
os deuses morreram, estamos sozinhos, o mito esvaziou-se, a tragédia
abandonou a cena da cidade grega e foi habitar para o nosso
inconsciente. (...) Ficou-nos a nevrose para nos preservar dela,
resta-nos o Teatro.”
O encontro da Gente do Teatro
resulta na grande festa das Musas Tália e Melpômene. Na cidade de
Santiago, RS, esse momento há treze anos denomina-se SANTIAGO ENCENA,
que na verdade se trata de um Festival de Teatro Amador.
Desde o ano de 1997 esse
festival faz parte do calendário de eventos do município, atraindo um
público que busca não apenas diversão e lazer, mas também, a
oportunidade de interagir com as mais diferentes manifestações culturais
e novas formas de ver e interpretar o mundo e a realidade a sua volta.
Lembra-se, conforme FUSARI (2001, p. 78), que é importante a prática de
educar nosso modo de ver, para que ocorra a transformação e a
conscientização do nosso papel social, enquanto agentes participativos
no meio ambiente e na realidade cotidiana e sendo o teatro campo nobre
para tais ações e análises.
O primeiro Santiago Encena
teve o objetivo de proporcionar à comunidade local a apreciação da arte
cênica e da dança criativa de grupos teatrais e de instituições
escolares que tinham a necessidade de difundir sua expressão artística.
A partir do ano de 1998 o Santiago Encena, devido ao sucesso e a
repercussão da primeira edição, passa a ser em nível regional contando
com a participação de grupos teatrais de várias cidades do estado do Rio
Grande do Sul.
Desde a décima segunda edição,
no ano de 2008, o Santiago Encena foi um Festival de Teatro Amador e
Dança Coreografada, sendo que na sua trajetória 122 danças coreografadas,
79 peças teatrais infantis e 99 espetáculos adultos foram apresentados a
comunidade, para a alegria das duas Deusas-irmãs.
No ano de 2009, realizou-se,
sob a proteção celeste direto do Monte Parnaso, a décima terceira edição
do Festival, contando somente com a categoria de Teatro Amador, uma vez
que, foi reformulado seu regulamento e suas categorias de premiação.
Estavam na disputa 04 espetáculos na categoria infantil e 05 na
categoria adulta, com grupos de teatro amador, além da cidade de
Santiago, também das cidades gaúchas de Itaqui, São Francisco de Assis e
Uruguaiana.
O Santiago Encena é uma
promoção da Prefeitura Municipal de Santiago, através da Secretaria
Municipal de Educação e Cultura. É um evento que vem fortalecer e
alicerçar ainda mais a identidade cultural da “Terra dos Poetas”,
como é conhecida a cidade de Santiago, RS, pois afinal foram 13 anos de
efetiva existência junto a promoção e difusão artístico-cultural.
Trazendo consigo uma mensagem de amor a arte, sem preconceitos e
valorização da capacidade e criatividade humana, pois como nos fala
MARTINS (1998, p.6):
(...) a
linguagem da arte. Feita para o homem mergulhar dentro de si mesmo
trazendo para fora e para dentro dos outros homens as emoções do próprio
homem. Sabe o homem que as emoções é que são o sal da vida. Por isso é
que quando um homem quer falar ao coração dos outros homens ele o faz
pela linguagem da arte. Quando isso acontece, naquele homem sente e age
o artista.
Por essa razão, alicerçados em
preceitos que valorizam e incentivam as expressões, habilidades e
potencialidades de homens e mulheres, personagens condutores da teia
tecida por Clio, a musa da História e irmã querida de Tália e Melpômene,
é que o teatro se torna um investimento cultural de suma importância.
Não se importando com o número de pessoas ocupando cadeiras em
grandiosos salões, mas sim com sujeitos com a sensibilidade necessária
para estarem abertos à arte e sabendo valorizá-la.
Não só o teatro, como também,
toda a forma de expressão artística-cultural deve ser valorizada e vista
como um investimento. E quem deve investir, incentivar, tomar para si, é
a própria comunidade e não apenas os poderes públicos instituídos.
Deve-se ter a noção que ao
investir em cultura, a colheita será a longo prazo e não imediata. O
“aqui-agora” se têm através do retorno midiático, que deixa extremamente
felizes os gerentes de marketing, mas o que importa realmente, é que as
mentalidades sejam dialogicamente confrontadas, questionadas, que haja
mudanças paradigmáticas... E isso deriva tempo, paciência, construção de
gosto e polimento da sensibilidade humana frente a contemplação das
inúmeras manifestações da arte e de suas Musas .
Portanto, enquanto a cidade de
Santiago, RS, continuar com seus pequenos, mas talentosos, grupos de
Gente do Teatro a serviço da festa de Tália e Melpômene, o movimento do
teatro amador e a própria cultura agradecem e se fazem ainda mais vivos
na “Terra dos Poetas” do Brasil.
Referências Bibliográficas:
FUSARI, Maria e FERRAZ, Maria.
A Arte na Educação Escolar. São Paulo: Cortez, 2001.
MARTINS, Mirian Celeste
Ferreira Dias; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. T. T. Didática do Ensino
da Arte: A Língua do Mundo – Poetizar, Fruir e Conhecer Arte.
São Paulo: FTD, 1998.
NORONHA, Luiz. A
construção do espetáculo. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.
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