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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 07 de maio de 2008 21:54:28   

 
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CULTURA - TEATRO

Uma sutil metáfora – Não sobre amor

   

Por Ana Cecilia

publicado em 07/05/2008


“É preciso buscar outras formas não familiares para mostrar o comum. Porque o processo de percepção deve ser prolongado. É a maneira de experimentar o artístico numa coisa vulgar” - Brecht

 

O espetáculo Não sobre o amor, da Sutil Companhia de Teatro, em cartaz no CCBB, vai além da reflexão sobre exílio, relações epistolares, solidão, paixão. É antes de tudo uma aula de imagens e efeitos, de sensibilidade e ousadia.

A situação de desencaixe do solitário escritor Victor Shklovsky, apaixonado platonicamente pela fria e misteriosa Alya, é reforçada pelo cenário em que tudo está fora do seu lugar: uma cama, uma estante, um telefone, uma mesa, cadeira e máquina de escrever grudadas à parede, uma janela no teto, uma porta em um nível acima do chão. Além disso, a direção mescla a tecnologia dos slides com teatralidade na medida certa, conseguindo, como poucos, uma harmonia entre linguagem contemporânea cinematográfica e  essência clássica teatral.

Os atores Leonardo Medeiros e Arieta Corrêa, competentes e disciplinados, trabalham fragmentos de grandes escritores como Leminski, Maiakóvski, Khlebnikov, Laurence Sterne etc. O diretor Felipe Hirsch compõe seu jogo cênico com personagens herméticos e objetivos. Dentro de cada frase existe uma série de complexidades e metáforas, que devem ser percebidas atentamente e relacionadas em um contexto maior, principalmente quando há a brusca revelação de que na verdade a femme fatale Alya, que proíbe o personagem de lhe escrever cartas sobre o amor, não existe; o que existe é a verdadeira, profunda e potente paixão de um escritor exilado pelo seu país de origem: a Rússia.

 

“É fascinante reconhecer melancolias semelhantes vindas de um lugar tão distante, há tanto tempo” – comenta Felipe.

 

Há quem possa dizer que o espetáculo segue um ritmo lento, muitas vezes cansativo ou arrastado, e que a disposição dos assentos é desconfortável. Essas afirmações estão corretas. Mas é nítida a intenção para que seja assim. Todo esse desconforto serve para nos colocar no clima de uma paixão não correspondida, sofrida, tensa, fazendo com que esse sentimento de inadequação, de incômodo, seja sentido por completo; nas cenas, nas palavras, nos silêncios, nas luzes e nos nossos próprios corpos.

 

 
 
  

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Ana Cecília é membro da Troupe do Covil Imaginário, atriz e assistente de direção.
 

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