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Introdução
O
presente
artigo tem início
com
a análise dos primórdios
da Internet e as idéias
por trás de
sua
concepção, ligados aos conceitos
de interatividade e hipertexto, a
fim
de estudar a função da
combinação
Internet e Teatro.
Dois
usos comuns da
Internet
por parte de
companhias
de teatro são
analisados, quais sejam o teatro
interativo e a mera
divulgação
de peças em
áudio
ou vídeo.
Defende-se a utilização criativa
e interativa
em benefício da
arte
e no cenário social
atual, combinando os palcos
real
e virtual, sem
desprezar
a oportunidade publicitária
proporcionada pela rede.
Surgimento da Internet
A Internet
surgiu nos anos
60, nos
Estados Unidos, no âmbito
da Advanced Research Projects Agency – ARPA, formada pelo
Departamento
de Defesa daquele país.
Sua missão
era
mobilizar recursos de
pesquisa,
particularmente do mundo
universitário.
Um
dos departamentos da ARPA era
o Information Processing Technique – IPTO, onde
foi criada a rede
ARPANET,
com o objetivo de
estimular
a pesquisa em
computação
interativa.
Os desenvolvedores da tecnologia de
transmissão
de dados por
comutação por pacote
foram Paul Baran e Donald Davies.
Paul
trabalhava para a Rand Corporation, que
ofereceu ao Departamento de Defesa
uma proposta de rede
de comunicação de computadores
entre pontos
estratégicos. A intenção
era descentralizar
informações valiosas de forma
que
não fossem destruídas por
bombardeios se estivessem localizadas
em
um único
servidor.
A ARPANET
era
ligada
por
estruturas
de rede
capazes
de manipular
grandes
volumes
de
informações
que
passavam por
debaixo
da terra,
o que
dificultava
sua
destruição.
O acesso
à rede
era
restrito a
militares e
pesquisadores.
Havia um
certo
temor
de essa nova
tecnologia
passar
a ser
usada para
fins
indevidos
tanto
por
civis quanto
por
países
não-aliados.
Por
isso,
o público
em
geral
não
tinha
acesso
à ARPANET.
No Brasil, a conexão de
computadores
por uma rede
somente
era possível
para
fins estatais.
Em
1991, a comunidade acadêmica
brasileira conseguiu, através
do Ministério da Ciência
e Tecnologia, acesso
a redes de pesquisa
internacionais.
Em maio de 1995, a
rede
foi aberta para
fins
comerciais, ficando a cargo da
iniciativa
privada a exploração dos
serviços.
A função da combinação
Internet e Teatro
Conforme analisado, a rede
ARPANET foi criada com
o objetivo de estimular a
pesquisa
em computação
interativa.
Hoje em
dia, a Internet,
sua
sucessora, possibilita que a interatividade
seja levada
a outras áreas, como
por
exemplo à arte. A arte
interativa, um dos
destaques
da cultura da sociedade
atual, permite com
que o visitante
navegue por hipertextos,
podendo sua participação influenciar
o curso da obra.
Aqui cabe-nos explorar o
significado
de hipertexto do ponto de
vista
de Manuel Castells (2003), que coloca a
arte
como responsável
pela
ponte entre a
Internet
e o eu. Castells defende a
existência
do hipertexto não
como
o vimos pelo computador,
mas
dentro de nós.
Isto
porque a realidade
multimídia
não se converte na visão
do hipertexto. “Se nossas mentes
têm a capacidade material
de acessar a totalidade da
esfera
das expressões culturais – selecioná-las,
recombiná-las – na verdade temos um
hipertexto: o hipertexto
está dentro de nós,
ou
antes, está em
nossa
capacidade interior
de recombinar e atribuir
sentido
dentro de nossas mentes
a todos os componentes
do hipertexto que
estão distribuídos em muitas
diferentes
esferas de expressão
cultural. A Internet nos
permite fazer precisamente
isso.
Não a multimídia,
mas
a interoperabilidade baseada na
Internet
(…)”.
Ainda em
Castells
surge um questionamento:
se a virtualidade é uma linguagem
mediante a qual
construímos significados e o
hipertexto
é personalizado, como podemos
compartilhar
significado na vida
social? A comunicação
depende de protocolos de
significado,
ou seja, “pontes de
comunicação,
independentes da prática
comum,
entre hipertextos
personalizados”. O exemplo mais
importante de ponte
de comunicação é definitivamente
a arte. Assim, a arte
assume função de ligação
entre a Internet e o
eu.
Seguindo este raciocínio
e buscando afunilação pertinente ao
assunto
deste artigo, o teatro
emerge do conceito de arte
como
forma de cultura de
massa.
Carregador de tamanha
responsabilidade comunicativa,
o teatro na Internet
já
tem sido explorado em alguns
projetos na compreensão
da natureza da rede,
enquanto
outros, apesar de
fazerem uso da rede,
falham ao não utilizar
recursos
como interatividade e criatividade.
Segundo
entendimento
de Monika Wunderer, participante do
projeto Oudeis:
“I joined
the team because the concept was more creative and more aware of the nature
of the
internet
than what I had seen so far in other projects. I had the feeling that there
are
people involved who really know what they
are
talking about: experience in theater and experience in the net combined.”
Assim, a genuína
combinação entre
Internet
e teatro é a experiência
de cada um
transformadas em uma só:
aplicação dos conceitos de
interatividade pela navegação
e a comunicação em
massa. Esta é a arte
interativa.
Da interatividade: presença e ausência
Desde sua abertura
comercial, a Internet
tem sido explorada pelo público
em
geral em diversas
formas.
Grupos de teatro
buscam seu lugar
na rede,
muitos sem
usar
da criatividade inerente ao
serviço
de comunicação. É neste ambiente
que o público se
depara com teatro
interativo
e criativo e também
com
a simples divulgação de
peças
em áudio
ou
vídeo, esta desprovida
de interatividade.
Teatro com
interatividade
O teatro interativo
seria o diálogo entre
vários participantes, que
controlam suas próprias imagens,
ocorrendo em palco
real
e em palco
virtual.
No Brasil, temos o exemplo da
peça
“Verdade Relativa”,
que
acontece em teatro
físico
e na Internet. O roteiro
trata de um
encontro
marcado por meio
da Internet,
entre dois homens
e duas mulheres. A peça
é transmitida ao vivo no website <www.verdaderelativa.com.br>,
contando com atores
remotos
atuantes por
meio
de Skype,
bem como
manifestações
de platéias real e
virtual.
Para participar, o espectador
deve responsabilizar-se pelo conteúdo
enviado, bem como
ceder seus direitos
de imagem para
exibição
no website e na peça.
O grupo Síncope
Sociedade
Anônima criou a peça
“5PSA - O Filho” onde
os atores interagem com
o público por
meio
da Internet. A peça
trata
de conflitos religiosos
em que
cada
um dos personagens (Mãe,
Aquele que
Lava,
Aquele que Organiza,
Aquele
que Estuda e
Aquele
que Encanta) defende
uma interpretação do decálogo
em questão. Todos
interagem com o público
em diários online
e por meio de
seus
perfis no Orkut,
expondo sua defesa
sobre
a interpretação do decálogo.
Antes mesmo do
início
da peça, o espectador
escolhe a idéia do personagem
que deseja
seguir,
ou seja, elimina as versões
em que a
argumentação
dos outros personagens
é mais persuasiva.
A intenção do grupo
é explorar a idéia de
interatividade, de hipertexto e da parcialidade
do
espectador, restando a publicidade
apenas como
resultado
do trabalho. Com o
enriquecimento do texto da peça
advindo da comunicação com
o público, a encenação
é diferente a cada
espetáculo.
Também é aberto
espaço
no website do grupo
para que o público
expresse sua opinião
e sugira mudanças no texto.
Quanto à exploração
do hipertexto, essencial
no desenvolvimento da peça,
posto não
haver
roteiro específico,
explica o diretor, Cainan Baladez:
"É
aí
que
a questão
do
hipertexto
ganha
forma.
Existe uma
estrutura
geral,
um
texto
base,
mas
ele
é acessado
pelo
ator,
com
maleabilidade, de
acordo
com
a
necessidade
do
momento.
O ator
tem de
perceber
como
o
público
está e, de
acordo
com
as
interferências
das
pessoas,
ele
acessa
pedaços
desse
texto
base".
Em
outras
palavras, o
autor
pode “saltar”
de uma parte
do texto
para
a outra,
de acordo
com
a
necessidade
do público.
É o que
o hipertexto
faz quando
navegamos
pela
Internet:
possibilita
que
“saltemos” de
um
link
para
outro
link.
Divulgação online do registro
de peças
Em outro extremo quanto ao uso da Internet por companhias de teatro,
encontramos uma ação desprovida de grande interatividade. Trata-se da
simples gravação e inserção das peças ou apenas trechos com o objetivo de
divulgação. Por este recurso é possibilitado aos espectadores que revejam ou
vejam pela primeira vez cenas de espetáculos históricos e atuais, sejam elas
do Brasil ou outros países, bem como assistir a trailers na Internet.
O grupo Satyros, representado por
um de seus
diretores, Rodolfo García Vázquez, expõe:
"A postagem de
vídeos,
para
nós,
tem funcionado
muito
bem
como
meio
de
divulgação.
(…)
Além
do
acesso
espontâneo
do
usuário
da
internet,
a
gente
recomenda a
pesquisa
no YouTube
para
quem
nos
liga
perguntando
como
é
tal
peça,
ou
para
amigos
que
estão
em
outra
cidade
e
não
podem
vir
a
São
Paulo."
De fato, uma boa publicidade
para um público
certeiro. Vejamos.
O acesso a salas
de teatro e também
à Internet
é financeiramente limitado, restando a
dúvida
sobre a existência
ou
não de um
ponto
de convergência entre os
dois
públicos, isto é, a
relação
entre o público
atingido pela Internet
e o público que
aprecia o teatro.
Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2006,
dentre a população brasileira, 33,32% já acessou a Internet, com destaque
para a região Centro-Oeste, seguida da região Sudeste. Dentro deste
percentual, 52,48% tem renda familiar entre R$ 1.001,00 e R$ 1.800,00, e R$
69,92% tem renda familiar maior que R$ 1.801,00.
Agora vejamos os valores cobrados em ingressos
para assistir a peças teatrais em São Paulo e no Rio de Janeiro, em
11/05/2007:
Peça
|
Ingresso
(mínimo)* |
Cidade
/
Estado |
Fonte |
|
Loucura |
R$ 15,00 |
São Paulo/SP |
www.guiadasemana.com.br |
|
Quando
Nietszche Chorou |
R$ 40,00 |
São Paulo/SP |
www.guiadasemana.com.br |
|
O
Abajur
Lilás |
R$ 6,00 |
São Paulo/SP |
www.guiadasemana.com.br |
|
Os
Náufragos
da Rua
Constança: homo capitas no sapiens |
R$ 20,00 |
São Paulo/SP |
www.fabricasaopaulo.com.br |
|
Eu
Te
darei O Céu |
R$ 40,00 |
São Paulo/SP |
www.fabricasaopaulo.com.br |
|
Organicidade |
R$ 30,00 |
São Paulo/SP |
www.fabricasaopaulo.com.br |
|
Piantão |
R$ 20,00 |
São Paulo/SP |
www.fabricasaopaulo.com.br |
|
My Fair Lady |
R$ 50,00 |
São Paulo/SP |
www.teatroalfa.com.br |
|
Os
Homens
são
de Marte...
e é pra
lá
que
eu
vou! |
R$ 40,00 |
São Paulo/SP |
www.teatroprocopioferreira.com.br |
|
Pequenos
Crimes
Conjugais |
R$ 50,00 |
Rio
de Janeiro/RJ |
www.ticketronics.com.br |
|
Terapia do
Riso |
R$ 20,00 |
Rio
de Janeiro/RJ |
www.ticketronics.com.br |
|
Família
Muda-se |
R$ 50,00 |
São Paulo/SP |
www.culturaartistica.com.br |
|
O
Avarento |
R$ 30,00 |
São Paulo/SP |
www.culturaartistica.com.br |
|
O
Continente
Negro |
R$ 40,00 |
São Paulo/SP |
www.faap.br/teatro |
Do quadro depreende-se que
a média do ingresso
mínimo
cobrado é R$ 32,00, valor que
nem todas as famílias
brasileiras podem pagar, a não
ser
as com maior
renda
familiar. Neste diapasão,
as famílias com
maior
renda familiar
são
as que acessam a Internet,
o que faz deste meio
um
excelente campo a ser
explorado pelo teatro, tendo
em
vista o público
ser
potencialmente o mesmo.
Assim, confirma-se a Internet
como ótimo meio
de publicidade para
companhias
teatrais.
Seguindo o grupo Satyros, o
Teatro
Oficina disponibiliza por
meio da TV Uzyna
imagens de peças,
ensaios
e também entrevistas
com
atores e diretores. O
cameraman Gabriel Fernandes apresenta
seu trabalho intitulado
“Câmera-ator”, composto por
imagens
filmadas dentro da cena,
com uma perspectiva
mais
subjetiva.
Outra
vantagem do teatro na
Internet é o alcance
global
da arte e a possibilidade de trocas
de experiências nacional
e internacionalmente. Em
2001, o ator Douglas McFarlane fundou o UK Theatre Network,
um website promocional
de teatro. Douglas é também
o produtor
executivo dos dois
primeiros canais
de televisão inteiramente
dedicados ao teatro: UKTheatre.TV e
USTheater.TV. As televisões são
associadas à Apple ITunes para veicular
peças de teatro
por meio de
um
podcast.
Por sua
vez, o Teatro da
universidade
canadense UBC
disponibiliza os preparativos de
montagem
das peças em
podcast. Graças
à equipe Xpodradio,
o interessado pode ouvir durante
o ano todo
músicas
originais, entrevistas
com diretores,
elencos,
equipes de produção e
partes
do trabalho em
progresso.
O Grupo de Expressão
e Desenvolvimento Artístico
– GEDA utiliza o termo “Interneteatrilidade”
para
definir o teatro na
Internet, disponibilizando em
seu
website
artigos de opinião,
informações
e alguns trechos
de peças
que foram encenadas nos
palcos. Para o Grupo,
a Internet é uma aliada
da cultura, dando oportunidade
àqueles que
não
podem comparecer ao teatro
para
assistir às peças, bem
como incitando visitas
ao local de apresentação aos
que
podem comparecer.
O Portal Oficina
de Teatro
proporciona aos amantes da arte
a possibilidade de ouvirem em podcast
discussões sobre
William Shakespeare em “A Voz
do Teatro”, entre
outros
arquivos multimídia. O
mesmo portal
noticiou o fato da peça
“Terra Insana” ter
suas imagens
disponibilizadas no YouTube, após gravarem um
DVD, questionando-o:
“O
grupo
surgiu há 5
anos
em
São
Paulo (…)
Mas
a
fama
rápida
a
nível
nacional
aconteceu
recentemente,
quando
suas
apresentações
começaram a
ser
vendidas
em
DVD.
Assim,
inevitavelmente, foi
parar
no
YouTube.
Muito
se discute
sobre
essa
forma
de de
divulgação
gratuita
e
por
vezes
até
muito
mais
eficaz
do
que
qualquer
outra
publicidade.
Será
que
por
já
ter
visto
gratuitamente
no YouTube, a
pessoa
não
vai
querer
pagar
30
ou
60
reais
para
assistir
novamente
no
teatro?
No
caso
do
Terça
Insana,
pode-se
perceber
na
platéia
um
enorme
número
de
pessoas
que
estavam
ali
justamente
porque
conheceram o
grupo
pelo
site
de
vídeos
e estavam na
expectativa
de
ver
ao
vivo
aquilo
que
elas
já
haviam
visto |