|
“[...] pois o atrevimento do pequeno
verme humano é o que há
de mais jocoso e de mais hilariante
sobre o palco
terrestre;[....]”.(NIETZSCHE, 1978, p.
286).
Resumo: No presente trabalho, abordaremos a
questão da cultura nos escritos de Nietzsche, observando em especial que
para o filósofo a Alemanha do século XIX vivia uma grande contradição.
De um lado, uma miséria cultural e, de outro, a idéia amplamente
difundida de que existia uma cultura autêntica. Esse fato reflete em
suas obras não apenas na busca por um gênio para modelar a cultura
alemã, mas também na profunda intenção de que ele mesmo, Nietzsche,
modelasse essa sociedade filistéia.
Palavras-chave: Nietzsche, Cultura, Alemanha do
século XIX, História Intelectual
Resumo: In this work, we will
discuss the question of culture in Nietzsche’s work, paying special
attention that for the philosopher, the 1800´s Germany was living a
great contradiction. By one side, the cultural misery, and in the other,
the widespread idea in the existence of an authentic culture. This fact
is reflected in his works not only in the search of a genius to model
the German culture, but also in the deep intention that he, Nietzsche,
modeled this philistine society
Key words: Nietzsche, Culture,
1800`s Germany, Intellectual history.
Nietzsche acredita existir na Alemanha do século XIX uma
grande contradição: de um lado uma miséria cultural e de outro a idéia
completamente difundida de que existe uma cultura autêntica.
Os primeiros escritos de Nietzsche abordam a questão da
educação. Neles, o filósofo critica as instituições de ensino de seu
tempo, apontando duas tendências em relação à cultura: a inclinação à
universalização e a inclinação à especialização. Influenciado pelos seus
estudos rigorosos de filologia clássica, Nietzsche tomava a Grécia como
modelo ideal de cultura, própria para a formação dos grandes homens.
Nietzsche desenvolveu uma das primeiras críticas
filosóficas sobre a cultura de massas, que mais tarde serviram de
inspiração tanto para os pensadores de direita, como Heidegger, quanto
para os de esquerda, como os membros da Escola de Frankfurt e
Foucault. Suas “Considerações Intempestivas” ou “Extemporâneas”
são críticas profundas contra a educação de seu tempo e
conseqüentemente, contra a educação da modernidade em geral. Dessa
forma, o filósofo torna-se grande fonte de posteriores críticas da
sociedade e das culturas de massas.
O filósofo via na cultura um elemento central da vida
humana. Através dela poderiam criar indivíduos mais fortes, criativos e
distintos. No entanto, o modelo de educação da época era o de
memorização, no qual o ato de decorar era a forma predominante de se
aprender.
A filosofia nietzschiana encontra-se inserida em um tempo
e espaço específicos, ela está num contexto histórico preciso, ou seja,
ele procura responder às questões do seu tempo e, desse modo, seu
pensamento reflete aspectos da conjuntura histórica, cultural e social
em que vive. Dessa forma, suas críticas à cultura estão intimamente
ligadas à Prússia, que foi a última das potências européias a implantar
a indústria, mas essa implantação não ocorreu de modo lento. Foi o
primeiro Estado a propagar um sistema geral de educação e até o final do
século XIX já havia erradicado o analfabetismo. A derrota militar para o
exército napoleônico ajudou a criar a consciência de que era necessário
unificar a nação e a forma que o Estado encontrou para isso foi a
educação. Educar torna-se um ideal.
Para Nietzsche, essa é uma visão utilitária da educação,
pois visa uma formação quantitativa para o mercado. Com a massificação e
universalização da cultura, criam-se também uma quantidade excessiva de
estabelecimentos de ensino superior, nos quais o principal objetivo era
a formação das massas. Essa cultura massificada contrapõe-se à cultura
priorizada por Nietzsche, voltada para o surgimento dos gênios. O
Estado, entretanto, percebe que investindo na cultura poderia utilizá-la
para os seus fins. Nietzsche acredita ser necessária a educação para a
sobrevivência, não nas instituições superiores, mas em escolas técnicas.
O filósofo acredita que os homens superiores devem
enriquecer-se reciprocamente, servindo de professores uns aos outros.
Denuncia o fato de a Prússia atribuir-se o papel de guia, supervisor e
vigilante da cultura, assegurando com isso o devotamento e a obediência
por parte dos cidadãos. Encarando a cultura como empresa individual,
critica o que chama de ‘cultura de Estado uniformizada’. (Marton; 1993,
p.19)
Segundo Nietzsche, aquele que estivesse disposto a lutar
pela cultura autêntica deveria preparar-se para a crítica de seus
contemporâneos. Por considerar a cultura como orientação desinteressada
de qualquer intenção utilitária, critica a venalização da cultura.
Mas onde buscar uma cultura autêntica? Nietzsche vê no
filósofo Arthur Schopenhauer e no compositor Richard Wagner as imagens
exemplares para modelar a cultura alemã. Schopenhauer e Wagner são
homens que poderiam levar às pessoas uma cultura acima de sua época.
Para Nietzsche, Schopenhauer seria o modelo ideal de
educador, já que a função do filósofo enquanto educador é promover a
ascensão do gênio.
Schopenhauer foi para Nietzsche o modelo de filósofo a romper com o seu
tempo por ter sido o avesso da cultura alemã.
A educação moderna, para Nietzsche, havia
substituído o autêntico ideal de educadores por uma abstração
científica. As instituições superiores haviam feito da ciência algo
desvinculado da própria vida, fazendo com que os eruditos, ou “filisteus
da cultura”,
tornassem-se mais interessados na ciência do que na humanidade,
esquecendo que sua autêntica tarefa era de educar o homem.
Diante das questões das humanidades, a ciência se cala
perdida em abstrações, transformando toda a complexidade da existência
num problema conceitual de lei ou de investigação. O cientista, segundo
Nietzsche, não revitaliza a vida, mas a reduz em generalizações. Esses
são alguns elementos que segundo o filósofo inibem o aparecimento do
gênio. “O que há de ser, em geral, a ciência, se não tem tempo
para a civilização? Respondei-nos, pelo menos aqui: de onde, pra onde,
para que toda a ciência, se não for para elevar à civilização? Ora,
talvez então à barbárie! E nessa direção vemos já a comunidade erudita
pavorosamente avançada...” (NIETZSCHE; 2004, p.193)
Nietzsche almeja criar, por
si próprio, os pilares filosóficos para uma nova
cultura que revitalizaria a Alemanha e, realizando estudos sobre
filologia grega, acredita que forneceria os elementos essenciais para
uma cultura afirmadora, da qual surgiria o indivíduo superior. O que
ocorre, porém, é que para a maioria da sociedade
a cultura não existe para preconizar o
indivíduo superior, mas para atender aos interesses de determinados
grupos.
Ele se afastou da busca por uma
nova cultura alemã embasada nos dramas musicais de Wagner, na medida em
que esse visava à cultura de massas em suas músicas e publicou uma série
de textos que buscavam ao esclarecimento intelectual e uma crítica
social, começando por Humano, Demasiado Humano (1878).
Nietzsche observou a supremacia da cultura de massas como
fonte de degradação do pensamento e da educação européia de seu tempo. A
cultura era direcionada para o consumo. Deveria ser rápida, para formar
o mais rápido possível pessoas para produzirem e consumirem, pois no
consumo está à própria felicidade, “não se atribui ao homem senão
justamente o que é preciso de cultura no interesse do lucro geral e do
comércio mundial” (Nietzsche; 2004, 186).
A crítica de Nietzsche ao Estado está ligada a sua
crítica à cultura e à sociedade de massas, que ele vê como
homogeneizadoras e inibidoras do gênio criativo. Para Nietzsche, o
Estado e a cultura de massa eram inimigos da educação. Dessa forma, o
Estado incentiva a difusão da cultura unicamente para servir-se dela.
As instituições aparentemente motivadoras da cultura, em
sua essência, nada entendem de cultura, agindo apenas por interesse. O
filisteu da cultura com sua ação não permite o surgimento do gênio, já
que para ele a cultura é apenas utilitária e grandes homens
atrapalhariam sua mediocridade.
Nietzsche entende que os ‘filisteus da
cultura’ representam o contrário dos homens verdadeiramente cultos.
Incapazes de criar, limitam-se à imitação e ao consumo. Mas, em toda
parte, deixam sua marca; organizam as instituições artísticas e os
estabelecimentos de ensino. Por obra deles, a cultura torna-se venal.
Objeto de possíveis relações comerciais, submetem-se às leis que regem a
compra e a venda. Produto a ser consumido, deve ter uma etiqueta e um
preço. Transformada em mercadoria, converte-se em máscara, engodo. (Marton,
1993, p. 18)
Para Nietzsche, a cultura respondia a uma
hierarquia (Rankordnung), que estabelecia valores altos e baixos.
O filósofo clama por uma reavaliação dos valores, pois se revisando os
ideais promover-se-ia o surgimento de indivíduos mais fortes. Seu
super-homem (Übermensch) é, portanto, um indivíduo distinto que
ultrapassa os valores decadentes da cultura.
A verdadeira arte foi valorizada por Nietzsche
principalmente porque ela cultivava a imaginação e outros elementos da
mente e do corpo, admitindo aos indivíduos entrarem em um controle que
transcendia a moralidade tradicional e as regras sociais.
Nietzsche defendia que a arte era a mais poderosa
rival do ideal ascético e a última alternativa da vitalidade cultural. A
crise da cultura moderna está relacionada parcialmente com o fato de que
as sensibilidades estéticas têm sido inibidas pelo uso excessivo da
racionalidade instrumental. Assim, a arte tem sido relegada às margens
da sociedade. Espíritos livres seriam importantes àqueles que quisessem
experimentar a arte e a vida e também àqueles que pretendessem
transvalorar os valores e criar uma cultura superior apta a produzir
homens mais evoluídos.
As instituições de seu tempo tinham
o dever de formar o funcionário do Estado, o “filisteu da cultura”,
esquecendo-se de preparar o surgimento do gênio. Mas qual instituição de
ensino poderia promover a vinda do gênio? O filósofo não esclarece de
maneira objetiva esta questão, e após dez
anos lecionando, deixa sua cátedra e passa a ser um filósofo errante.
Referências Bibliográficas
NIETZSCHE, F. W.. Escritos sobre Educação;
Tradução de Neoli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Ed. PUC-
Rio;São Paulo: Loyola, 2004
__________________. Obras incompletas. Seleção de
textos de Gérard Lebrun; tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres
Filho; posfácio de Antônio Cândido de Mello e Souza. 2ª ed. São Paulo:
Abril Cultural, 1978 (Os Pensadores).
__________________. Crepúsculos dos Ídolos ou como
filosofar a marteladas. Tradução de Carlos Antônio Braga; São Paulo:
Escala, 2005
MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvaloração dos
valores; São Paulo: Moderna, 1993
|