Da realidade à verdade. É assim que se resume o título e a trama
Viver a Vida, de Manuel Carlos. A extinção do personagem
principal e do seu antagonista mostra uma face da teledramaturgia
voltada à exibição da verdade.
Manuel Carlos, conhecido Maneco, é autor de inúmeras
telenovelas movidas pelo bem viver, e claro, o bem apaixonar. O
poder feminil enfatizado
em Mulheres Apaixonadas,
por exemplo, insere força ao livre arbítrio feminino em face ao
enraizado poder masculino. Também, em Páginas da Vida, Maneco
relaciona o viver perante os olhos matéria e a idéia do mesmo após o
encerramento desta visão, a morte. O contato espiritual e a
instigante comparação entre o lado matéria e o lado divino
apresentam-nos um encontro com um desconhecido mundo, na pretensão
ao culto da espiritualidade enquanto vivemos. Os enredos de Maneco
estão inseridos no contexto do verdadeiro. Sem intenção de
personificação e de exaltação do santo e do herege, o autor dá a luz
da bondade e da maldade a todos os seus personagens: todos têm a sua
“parcela de culpa” no enredo, pois, como é observado, o ser humano
já está predisposto a atuar em diversas faces na vida, e cabe a
Manuel Carlos desvendá-las aos espectadores.
Viver a Vida incorpora um contato mais próximo com
as ações do espectador, levando este a se assemelhar facilmente com
os personagens e seus enredos. O fato de não haver estereótipos e o
cotidiano comum chamam a atenção daqueles que, na ficção,
testemunham a necessidade de sugestões e soluções para enfrentar
problemas, e assim, bem viver no seu dia a dia. A marca da
personagem Luciana, tetraplégica após um acidente, bem como os
depoimentos de pessoas reais no fim de cada capítulo, geram a
comoção inicial e, no entanto, seu foco se transfere ao respeito e a
aceitação do homem como ilimitável e de profunda arquitetura
espiritual.
Na página eletrônica da telenovela Viver a Vida
deparamo-nos com o blog da personagem Luciana, o qual nos parecia
que sua execução somente havia ocorrido nas cenas. Sem mais, esse
fato interessou muito essa interação personagem-recepção. No blog
“Sonhos de Luciana” é chocante ver como o público reagiu e aceitou
essa ficção como uma verdade absoluta, sem espaço para palavras que
tem a ver com as cenas ou com críticas especializadas em roteiros e
atores. Nada de Alinne Moraes, nem Lilia Cabral, nem Mateus Solano,
nem Maneco, enfim, o assunto é o cotidiano dos personagens - a sua
realidade, a nossa realidade - aceitos. Em verdade, é interessante
essa inovação. Diferente das demais telenovelas, as quais priorizam
o triângulo autor-obra-recepção, a equipe de Viver a Vida
resolve focalizar o aumento dessa conexão entre o mundo-real da
telenovela e o mundo-real do seu público, em que a abertura do
espaço visa, para o espectador, a conversa direta com o personagem e
não com seu intérprete. Isso confirma a afirmação do filósofo
Demócrito: "O universo tem vários mundos". Pois é, basta
conhecê-los.
Os destaques múltiplos da natureza humana se incorporam nas
variadas transições de temperamento ali construídas. Entre
fidelidades e traições, rispidez e brincadeiras, observamos o
fantástico “mundo redondo” criado por Maneco, assim, em meio às
muitas personalidades, comuns à verdade do público, a telenovela
Viver a Vida demonstra inúmeras reações do ser humano frente ao
tema principal, a vida.
A abordagem da traição familiar – entre casais e entre
irmãos – coloca em questão a trivialidade desse acontecimento na
vida do espectador. Tratada com desprezo pelos que assistem, o
objetivo desta apresentação é de olhar a si e enojar-se de si por
tal instinto. Assim como o preconceito incisivo – destaco, aqui, a
personagem Ingrid, cuja preocupação se dá ao fato do seu filho
casar-se com uma mulher tetraplégica – que realça os olhares entre o
ser humano e o seu espelho representante na televisão, comutando a
repulsa do espectador sobre a personagem e inconscientemente sobre
si mesmo. O enredo trata, pois, da compilação de inúmeras facetas do
homem e da mulher – costumes tradicionais e tendenciosas
metamorfoses – Maneco elabora seu universo com espaço para todos,
onde não há como esquecer as delicadas situações do espírito e do
caráter.
No repertório da teledramaturgia, Viver a Vida se
encaixa perfeitamente na representação maior da verdade. Semanas
após o término da telenovela, demonstro meu prazer intelectual em
escrever um parecer pessoal sobre esse enredo realmente artístico,
sábio e digno de muitas salvas de palmas. Tal verdade que se
confirma em Viver a Vida rende ao publico uma convivência
íntima com o corpus figurante de todo um universo que se convive e
se atua. Completamente ímpar aos atos dos seus personagens, Manuel
Carlos não teve receio em colocar no enredo, por exemplo, o incesto
ocorrido entre os irmãos Luciana e Bruno. Como o próprio autor
afirmou, os dois são belos e desimpedidos para investirem num
romance de viagem (como aconteceu), ademais de desconhecerem o laço
sanguíneo entre ambos.
A obra de Manuel Carlos é dedicada em apresentar aspectos
peculiares do ser humano e suas mais diversas formas de se enquadrar
no bem viver. É indispensável conhecer os personagens criados pelo
referido autor e juntá-los com vistas a “nos” apresentar
particularmente, como em um divã psiquiátrico. Nesse material todo
que nos é oferecido, as fichas caem e as ligações entre as pessoas
se completam numa forma jamais imaginada. Aquela dramaturgia
ilusionista e estereotipada, cujas aparições de Deus e do Diabo são
justificadas, cede terreno aos enredos de Manuel Carlos e a um
investimento em diferenciar a apresentação da verdade e da realidade
nas cenas da telenovela brasileira. É trivial encontrarmos no
folhetim de Manuel Carlos sua enorme bagagem cultural a qual rende
ao crítico (no meu caso cabe o parecer literário) uma rica fonte de
estudo e inúmeras análises comparativas com escritores brasileiros.
Um enfático parentesco sem disfarces. Tudo em nome da verdade.