Cultura

Ano I - Nº 2 - Maio de 2000



Milton Gerais Nascimento

Wandir M. Gonçalves

"Antes de ser ligado a qualquer coisa, Milton é ligado a terra, como Caymmi , de outro lado foi ligado ao mar. Os sons de Milton, antes de serem voz e música, são coisas, jogada cara a cara, sem pudor e sem violência, antes tranqüilamente. Mas com a angústia de quem tem os pés plantados em dois tempos, como raízes, os olhos vazados de paisagens de amanhã e na garganta o silêncio das multidões de agora"  (texto do cineasta Ruy Guerra).


Milton apareceu para o Brasil em 1967, em 1968 o "Bituca" já estava nos Estados Unidos gravando com o pessoal do Jazz, que na época era o pessoal mais aberto a coisas novas. Teve a experiência fantástica de gravar com a Sarah Vaughan dois discos, um praticamente foi dividido com ela.

Sempre cantou na noite. Na noite canta de tudo. Para Milton esta é a maior escola que existe para o músico e para o cantor, "a gente canta qualquer coisa". E aí as influências, Beatles, por exemplo.

O Clube da Esquina, garotos usando guitarra elétrica. O tropicalismo estava na mídia e os mineiros não. 

E o tempo passando.... Milton ficou no topo da lista de world music da revista Billboard, com o disco Txai, em 1990, ganhou duas vezes o título de "World Beat Artist of the Year" da revista de jazz Down Beat.

A partir dos discos "Minas" e "Geraes"  Milton conseguiu se popularizar.  A música "Milagre dos peixes", a censura quase cortou toda.

Mas ele continua realizando com seu coração de estudante a sua travessia...

Nesta edição uma linda poesia  a canção:

San Vicente

De Milton Nascimento e Fernando Brant, feita em 1972

 

Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto vidro e corte.
Com sabor de chocolate
No corpo e na cidade
Um sabor de vida e morte
Coração americano
Um sabor de vidro e corte

A espera na fila imensa
E, o corpo negro se esqueceu
Estava em San Vicente
A cidade e suas Luzes

Estava em San Vicente
As mulheres e os homens
Coração americano
Em sabor de vidro e corte

As horas não se contavam
E o que era negro anoiteceu
Enquanto se esperava
Eu estava em San Vicente
Coração americano
Um sabor de vidro e corte

Curiosidade:

Dá para acreditar que Milton Nascimento, Fernando Brant e Wagner Tiso tocavam em quermesses? Pois sim, isso aconteceu no ano de 1967.

Até a próxima amigo leitor e Boa Viagem.

Wandir Marques Gonçalves é artista plástico


O olhar pela morte de Kubrick

Rodrigo Contrera

Alguns dos trechos em que Aristóteles usa, na sua obra, o adjetivo "lógico" (logikós) encontram-se na Ética a Eudemo, Metafísica e Física. Em todos os trechos subsiste a discussão entre os especialistas quanto a se Aristóteles queria mesmo dizer que lógico, ou seja, relativo ao discurso, assumia para ele um sentido pejorativo como que desencarnado da ação.

Rousseau, por outro lado, ao retomar a célebre querela das máscaras usadas pelos indivíduos na sociedade e ao exigir de si mesmo que os atos e as palavras concordem entre si faz assim, no entender de alguns, um salto ilógico ou em oposição ao bom-senso por tentar unir o saber objetivo à experiência subjetiva. O desenvolvimento desta argumentação está em Starobinski, A Transparência e o Obstáculo, pág. 49.

Kubrick, em seu último filme, assume para si o desafio de dizer mais do que o saber ocidental já conseguiu desenvolver a respeito, ou seja, sobre o jogo aparência-realidade. Se consegue ou não, isso é com os especialistas. Já se revela caminhos novos de desenvolvimento, isso talvez possa ser inferido da própria obra.

Renoir, em "A Regra do Jogo", revela a vacuidade da burguesia européia entre guerras sem sequer dar margem a uma frase ou cena nesse sentido. Tudo em Renoir é muito claro, muito nítido ao olhar. A primeira construção cênica a revelar o jogo sonho-realidade acontece, em Kubrick, em um baile - que, note-se, não é de máscaras, e que se passa de modo muito natural. Tudo é também claro demais, e a luz, quase sempre vinda de baixo, revela o sentido dessa naturalidade, a opressão. Mas o jogo não é de sedução muda, é de discurso. Seja as garotas que querem dividir Cruise, seja o húngaro que quer desfrutar de Kidman, pasme-se, em meio a quadros do Renascimento - ou seja, o trunfo do homem -, todos os três personagens querem conquistar pela via da fala.

O próximo embate sonho-realidade ocorre ao Kidman revelar seu sonho ao marido. O sonho, em muitas tradições, é tido como a morte em vida - talvez seja decorrente disso que os conflitos posteriores tenham se originado de um deles. O embate, entre Cruise e Kidman, é silogístico, a questão é saber se os argumentos de Cruise fazem sentido; não fazem, e por isso surge a provocação de Kidman, que parece dele depois se esquecer. Repare-se, porém, em um detalhe: o oficial da marinha conquista a esposa de Cruise com o olhar, somente o olhar. E ela nada faz, ao contrário, quase "perde a vida", ou seja, quase desmaia. É bom reparar que é também o olhar de Kidman no espelho o fator que trai o embate nela existente.

As exéquias, ou seja, a morte do paciente de Cruise, liberam o caminho para a filha do finado revelar o seu amor por Cruise e o seu desejo para que ele "não a despreze". Infere-se que ela, com uma certa idade, tenha passado a vida a depender do finado e que, com casamento marcado, isso possa impedi-la de jogar seu futuro fora, mas, mesmo não rompendo com nada - seja com o passado ou com o futuro -, ela revela uma verdade inútil a Cruise. Novamente pela via do discurso. Já o desprezo de Cruise mostra-se - é o que o filme dá a entender - somente pela via do olhar - pois o olhar da filha do finado revela o seu horror. Ao que parece, ele não mais a olha, nesse sentido ela não mais aparenta nada a Cruise, ele não a reconhece.

O programa com a prostituta - que por não acontecer não necessariamente nada revela - assume seu verdadeiro sentido no dia seguinte, ao Cruise saber que ela é HIV-positivo, dizer que sentir muito, a colega aparentar uma certa dúvida quanto a ele sentir tanto por si mesmo ou por ela, e enfim ao se reparar a vacuidade que o discurso de Cruise passou a assumir. Ele e a colega quase transam pela via do olhar ou pelo menos do não-discurso, mas ambos param pela revelação verbal de um fato que não tem resposta possível pelo discurso - já que este nada pode fazer e por isso é em si falso. O discurso revela a desconfiança.

O mesmo esquema pode ser aplicado à cena com o dono da loja de fantasias - que encontra furioso dois clientes transando com a filha. O sentido interno à relação pai-filha só se revela mesmo depois - ou enquanto a filha foge do pai, ao ter sido flagrada - pelos seus olhos, que de tão claros e límpidos parecem os de uma boneca morta - claro que não existem bonecas vivas, mas existem, sim, prostitutas vivas, que por definição pretendem a si mesmas apenas bonecas prontas para tudo, e assim mortas, sem vontade própria.

Que Nightingale, o pianista ex-colega de Cruise, precise tocar com os olhos vendados é só uma ironia de Kubrick, dado que os acordes tocados na cena do desvelamento de Cruise são o que mais revelam do sentido do filme. Que a mulher da festa salve Cruise - de quê? de ser estuprado? de perder a razão? - só se pode conceber pela via do olhar, já que nada do rosto se vê exceto o olhar. Mas isso ninguém pode saber. Só pode ser inferido depois, pela certeza de Cruise, ao encontrar o corpo de Amanda Curran no necrotério, ao aproximar seus olhos dos dela. Note-se também que ele tem interesse pelo rosto dela enquanto ele algo pode fazer, mas depois que está tudo decidido - em função de uma vontade dela, ou seja, de ela "revelar o seu rosto" -, Cruise não mais se importa com nada.

Que o paciente de Cruise lhe revele o sentido de tudo, que apele para o recurso da farsa, que enfim assuma o tom da festa mas se recuse a assumir a culpa pela morte de Curran - e também, em momento anterior, pela da garota na festa que, note-se, volta à tona pela via de "abrir os olhos" -, revela que nada que diga respeito a motivos interiores pode dizer respeito àquilo que acontece nas festas dos bacanais. Vale apenas o que se vê, pouco importam se "a garota é meio maluca, fora de si, a um passo da overdose".

Como tudo se resolve? Cruise, defrontado com a máscara na cama, chora e conta tudo a Kidman, que já havia revelado seu novo sonho com o oficial da marinha. E, na loja de brinquedos, enquanto enganam a filha, ao Cruise assumir como "nosso" (dele e da esposa) o problema com o destino de Curran na festa do bacanal. Há, já de cara, uma grande hipocrisia na postura de Cruise: ele, que nenhuma satisfação deu à esposa e filha por sair à noite - nem poderia ser diferente, mas esse detalhe assume alguma importância -, assume como "dela (da esposa) e dele" um problema - a morte de quem o salvou - por um motivo que ele mesmo pode desconhecer - qual seja, o olhar.

Não à toa, tal apelo não convence - nem a ele, nem a ela - e a saída quanto "a aproveitar enquanto se está acordado" é sintomática do fato de que, diante dos olhares, Cruise sempre traiu e foi traído, e pelo fato de que, pela via do discurso, nada jamais foi feito. Assumir a possibilidade de "abrir a boca", ou seja, usar o discurso para trazer o lixo à tona, está fadada já de cara ao fracasso.

Kubrick, na sua última obra, mostra-se afinado com os intelectos que, a meu ver, melhor pensaram a oposição aparência-realidade ou discurso-ação, para chegar à mesma conclusão deles: eles não têm ligação entre si, e levá-los a sério quanto à possibilidade de ação é optar pela morte em praça pública - a morte de Curran. A opção de Kubrick foi outra: revelar a verdade pela via dos seus olhos - mas deixando que os intelectos a assistir os seus filmes tivessem tempo para verem o que querem. Se eles não vêem, ah, isso é com eles. Certo.

Rodrigo Contrera é jornalista

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