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Milton Gerais Nascimento
Wandir M.
Gonçalves
"Antes de ser
ligado a qualquer coisa, Milton é ligado a terra, como Caymmi , de outro
lado foi ligado ao mar. Os sons de Milton, antes de serem voz e música,
são coisas, jogada cara a cara, sem pudor e sem violência, antes
tranqüilamente. Mas com a angústia de quem tem os pés plantados em dois
tempos, como raízes, os olhos vazados de paisagens de amanhã e na garganta
o silêncio das multidões de agora"
(texto do cineasta Ruy Guerra).
Milton apareceu para o Brasil em 1967,
em 1968 o "Bituca" já estava nos Estados Unidos gravando com o pessoal
do Jazz, que na época era o pessoal mais aberto a coisas novas. Teve a
experiência fantástica de gravar com a Sarah Vaughan dois discos, um
praticamente foi dividido com ela.
Sempre cantou na noite. Na noite canta
de tudo. Para Milton esta é a maior escola que existe para o músico e para
o cantor, "a gente canta qualquer coisa". E aí as influências, Beatles,
por exemplo.
O Clube da Esquina, garotos usando
guitarra elétrica. O tropicalismo estava na mídia e os mineiros não.
E o tempo passando.... Milton ficou no topo da lista de world music da revista
Billboard, com o disco Txai, em 1990, ganhou duas vezes o título de "World
Beat Artist of the Year" da revista de jazz Down Beat.
A partir dos discos "Minas" e
"Geraes" Milton conseguiu se
popularizar. A música
"Milagre dos peixes", a censura quase cortou toda.
Mas ele continua realizando com seu
coração de estudante a sua travessia...
Nesta edição uma linda poesia a canção:
San
Vicente
De Milton Nascimento e Fernando Brant,
feita em 1972
Coração americano
Acordei de um sonho estranho Um gosto vidro e
corte. Com sabor de chocolate No corpo e na
cidade Um sabor de vida e morte Coração
americano Um sabor de vidro e corte
A espera na fila imensa
E, o corpo negro se esqueceu Estava em San
Vicente A cidade e suas Luzes
Estava em
San Vicente As mulheres e os homens Coração
americano Em sabor de vidro e corte
As horas não se contavam E o que era
negro anoiteceu Enquanto se esperava Eu
estava em San Vicente Coração americano Um
sabor de vidro e corte
Curiosidade:
Dá para acreditar que Milton
Nascimento, Fernando Brant e Wagner Tiso tocavam em quermesses? Pois sim,
isso aconteceu no ano de 1967.
Até a próxima
amigo leitor e Boa Viagem.
Wandir Marques
Gonçalves é artista
plástico
O olhar pela
morte de Kubrick
Rodrigo
Contrera
Alguns dos trechos em que Aristóteles usa, na sua
obra, o adjetivo "lógico" (logikós) encontram-se na Ética a Eudemo,
Metafísica e Física. Em todos os trechos subsiste a discussão entre os
especialistas quanto a se Aristóteles queria mesmo dizer que lógico, ou
seja, relativo ao discurso, assumia para ele um sentido pejorativo como
que desencarnado da ação.
Rousseau, por outro lado, ao retomar a célebre querela
das máscaras usadas pelos indivíduos na sociedade e ao exigir de si mesmo
que os atos e as palavras concordem entre si faz assim, no entender de
alguns, um salto ilógico ou em oposição ao bom-senso por tentar unir o
saber objetivo à experiência subjetiva. O desenvolvimento desta
argumentação está em Starobinski, A Transparência e o Obstáculo, pág.
49.
Kubrick, em seu último filme, assume para si o desafio
de dizer mais do que o saber ocidental já conseguiu desenvolver a
respeito, ou seja, sobre o jogo aparência-realidade. Se consegue ou não,
isso é com os especialistas. Já se revela caminhos novos de
desenvolvimento, isso talvez possa ser inferido da própria obra.
Renoir, em "A Regra do Jogo", revela a vacuidade da
burguesia européia entre guerras sem sequer dar margem a uma frase ou cena
nesse sentido. Tudo em Renoir é muito claro, muito nítido ao olhar. A
primeira construção cênica a revelar o jogo sonho-realidade acontece, em
Kubrick, em um baile - que, note-se, não é de máscaras, e que se passa de
modo muito natural. Tudo é também claro demais, e a luz, quase sempre
vinda de baixo, revela o sentido dessa naturalidade, a opressão. Mas o
jogo não é de sedução muda, é de discurso. Seja as garotas que querem
dividir Cruise, seja o húngaro que quer desfrutar de Kidman, pasme-se, em
meio a quadros do Renascimento - ou seja, o trunfo do homem -, todos os
três personagens querem conquistar pela via da fala.
O próximo embate sonho-realidade ocorre ao Kidman
revelar seu sonho ao marido. O sonho, em muitas tradições, é tido como a
morte em vida - talvez seja decorrente disso que os conflitos posteriores
tenham se originado de um deles. O embate, entre Cruise e Kidman, é
silogístico, a questão é saber se os argumentos de Cruise fazem sentido;
não fazem, e por isso surge a provocação de Kidman, que parece dele depois
se esquecer. Repare-se, porém, em um detalhe: o oficial da marinha
conquista a esposa de Cruise com o olhar, somente o olhar. E ela nada faz,
ao contrário, quase "perde a vida", ou seja, quase desmaia. É bom reparar
que é também o olhar de Kidman no espelho o fator que trai o embate nela
existente.
As exéquias, ou seja, a morte do paciente de Cruise,
liberam o caminho para a filha do finado revelar o seu amor por Cruise e o
seu desejo para que ele "não a despreze". Infere-se que ela, com uma certa
idade, tenha passado a vida a depender do finado e que, com casamento
marcado, isso possa impedi-la de jogar seu futuro fora, mas, mesmo não
rompendo com nada - seja com o passado ou com o futuro -, ela revela uma
verdade inútil a Cruise. Novamente pela via do discurso. Já o desprezo de
Cruise mostra-se - é o que o filme dá a entender - somente pela via do
olhar - pois o olhar da filha do finado revela o seu horror. Ao que
parece, ele não mais a olha, nesse sentido ela não mais aparenta nada a
Cruise, ele não a reconhece.
O programa com a prostituta - que por não acontecer
não necessariamente nada revela - assume seu verdadeiro sentido no dia
seguinte, ao Cruise saber que ela é HIV-positivo, dizer que sentir muito,
a colega aparentar uma certa dúvida quanto a ele sentir tanto por si mesmo
ou por ela, e enfim ao se reparar a vacuidade que o discurso de Cruise
passou a assumir. Ele e a colega quase transam pela via do olhar ou pelo
menos do não-discurso, mas ambos param pela revelação verbal de um fato
que não tem resposta possível pelo discurso - já que este nada pode fazer
e por isso é em si falso. O discurso revela a desconfiança.
O mesmo esquema pode ser aplicado à cena com o dono da
loja de fantasias - que encontra furioso dois clientes transando com a
filha. O sentido interno à relação pai-filha só se revela mesmo depois -
ou enquanto a filha foge do pai, ao ter sido flagrada - pelos seus olhos,
que de tão claros e límpidos parecem os de uma boneca morta - claro que
não existem bonecas vivas, mas existem, sim, prostitutas vivas, que por
definição pretendem a si mesmas apenas bonecas prontas para tudo, e assim
mortas, sem vontade própria.
Que Nightingale, o pianista ex-colega de Cruise,
precise tocar com os olhos vendados é só uma ironia de Kubrick, dado que
os acordes tocados na cena do desvelamento de Cruise são o que mais
revelam do sentido do filme. Que a mulher da festa salve Cruise - de quê?
de ser estuprado? de perder a razão? - só se pode conceber pela via do
olhar, já que nada do rosto se vê exceto o olhar. Mas isso ninguém pode
saber. Só pode ser inferido depois, pela certeza de Cruise, ao encontrar o
corpo de Amanda Curran no necrotério, ao aproximar seus olhos dos dela.
Note-se também que ele tem interesse pelo rosto dela enquanto ele algo
pode fazer, mas depois que está tudo decidido - em função de uma vontade
dela, ou seja, de ela "revelar o seu rosto" -, Cruise não mais se importa
com nada.
Que o paciente de Cruise lhe revele o sentido de tudo,
que apele para o recurso da farsa, que enfim assuma o tom da festa mas se
recuse a assumir a culpa pela morte de Curran - e também, em momento
anterior, pela da garota na festa que, note-se, volta à tona pela via de
"abrir os olhos" -, revela que nada que diga respeito a motivos interiores
pode dizer respeito àquilo que acontece nas festas dos bacanais. Vale
apenas o que se vê, pouco importam se "a garota é meio maluca, fora de si,
a um passo da overdose".
Como tudo se resolve? Cruise, defrontado com a máscara
na cama, chora e conta tudo a Kidman, que já havia revelado seu novo sonho
com o oficial da marinha. E, na loja de brinquedos, enquanto enganam a
filha, ao Cruise assumir como "nosso" (dele e da esposa) o problema com o
destino de Curran na festa do bacanal. Há, já de cara, uma grande
hipocrisia na postura de Cruise: ele, que nenhuma satisfação deu à esposa
e filha por sair à noite - nem poderia ser diferente, mas esse detalhe
assume alguma importância -, assume como "dela (da esposa) e dele" um
problema - a morte de quem o salvou - por um motivo que ele mesmo pode
desconhecer - qual seja, o olhar.
Não à toa, tal apelo não convence - nem a ele, nem a
ela - e a saída quanto "a aproveitar enquanto se está acordado" é
sintomática do fato de que, diante dos olhares, Cruise sempre traiu e foi
traído, e pelo fato de que, pela via do discurso, nada jamais foi feito.
Assumir a possibilidade de "abrir a boca", ou seja, usar o discurso para
trazer o lixo à tona, está fadada já de cara ao fracasso.
Kubrick, na sua última obra, mostra-se afinado com os
intelectos que, a meu ver, melhor pensaram a oposição aparência-realidade
ou discurso-ação, para chegar à mesma conclusão deles: eles não têm
ligação entre si, e levá-los a sério quanto à possibilidade de ação é
optar pela morte em praça pública - a morte de Curran. A opção de Kubrick
foi outra: revelar a verdade pela via dos seus olhos - mas deixando que os
intelectos a assistir os seus filmes tivessem tempo para verem o que
querem. Se eles não vêem, ah, isso é com eles. Certo.
Rodrigo Contrera é jornalista
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