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Qual
tem sido a nossa busca neste mundo? Como tem sido
essa busca? O quê temos conquistado? Qual a perspectiva
que temos pela frente?
Temos buscado alimento físico, mas principalmente
alimento afetivo e social, o que tem causado, ao longo
de toda a história humana, muitos ganhos, é verdade,
mas muitas perdas também.
Ganhamos muito no desenvolvimento cultural e social; no
acúmulo e preservação de valores e conhecimento científico
e tecnológico. Nunca, em tão pouco tempo, por exemplo
nos últimos duzentos anos, a humanidade evolui tanto;
e, parece, este quanto de evolução passou de
uma proporção de décadas para horas!! Acho que
podemos considerar como ganhos as aquisições de toda a
tecnologia biomédica que tem contribuído muito para a
saúde mundial (especialmente para aqueles que têm
acesso a ela). Enfim, toda conforto urbano e doméstico
é fruto deste avanço tecnológico. Os ganhos não estão
só na tecnologia, mas também - com alguma precariedade
– na política e outras ciências sociais. Não há dúvida
que as relações democráticas, nos últimos cinqüenta
anos, consolidaram-se na grande maioria das nações
(existem muitas exceções ainda).
Parece, no entanto, que perdemos um pouco de respeito
por nós mesmos. Acho que este respeito foi perdido
quando a vida numa cidade grande como São Paulo
torna-se selvagem; quando o dia-a-dia nesta cidade é
frenético e as pessoas perdem o olhar – porque olhar
e conversar parece ser muito temeroso. É curioso, ao
mesmo tempo, porque uma cidade grande como São Paulo
também é fantástica e maravilhosa; pulsa, tem
vida...mas também é desumana...não tem rosto. Acho
que isto representa a perda social da evolução;
ganhamos com o conforto material (para alguns, é claro)
mas perdemos com o medo do relacionamento – nas cidade
menores isto talvez seja diferente. Será?
Perda social é perda afetiva, é perda do contato; é
perda da necessidade de contato e relacionamento. Por
outro lado, perder faz parte do crescimento. Acho que
percebemos isto mais nitidamente quando temos filhos;
pois no nosso papel de educadores, dos nossos filhos,
alguns valores especiais surgem como as grandes metas do
nosso desafio (orgulho-me de que tais valores sejam os
praticados e buscados, expressamente, pela escola onde
meus filhos freqüentam): respeito, criatividade,
autonomia, afeto e partilha. Acho que nossa busca tem
sido o exercício, normalmente sem o saber, destas referências
de crescimento.
Parecem haver duas perdas diferentes, não tenho isso
muito claro: a perda do crescimento, aquela que
nos faz encontrar algo novo em nossa vida (quando recebo
um desrespeito de alguém como resposta a uma atitude
minha, originalmente desrespeitosa, tenho uma grande
oportunidade de mudar, de apreciar o meu interior, minha
própria atitude; e apreciar a própria atitude é pelo
menos um caminho, senão, um movimento
de mudança
- e a perda da posse (algo como a dor
muito forte, por exemplo, que sentimos quando nossos
filhos sinalizam que vão embora). A perda da posse
é de uma gravidade muito grande, pois toda posse sugere
egoísmo, e perder algo que faz parte do meu eu
é como se um pedaço deste eu estivesse
morrendo, o que até faz sentido com a perda do
crescimento porque morte implica renascimento (as
raízes não pedem nenhum prêmio para dar flores e
frutos às plantas – Tagore);que sempre estão
morrendo, as plantas e suas raízes, quando são podadas
– aliás elas precisam ser podadas para se
fortalecerem, ou seja, precisam morrer um pouco para
re-viverem.
Mas a morte que me refiro é a morte daquele pedaço de eu
que não queremos dividir com ninguém; que nos
agarramos a ele de forma dramática e
verdadeiramente egoísta, que é um jeito infantil e
impulsivo de ser, pois a criança, enquanto um ser que
ainda não é adulto, tem o direito, sim, de agarrar-se
ferozmente à sua posse; ao que ela conquistou – é a
oralidade e imediatismo de satisfação de suas
necessidades, e a criança precisa garantir esta satisfação,
pois suas conquistas são grandes batalhas, ou seja,
cada novo repertório ou habilidade precisam ser
expressos, reconhecidos e praticados, porque apesar de
buscar garantir sempre a proteção do adulto, ao mesmo
tempo precisa praticar sua autonomia, ou seja, “ tenho
que aprender por mim mesmo, pois sei que não será a
vida toda que farão por mim ”. Acho que é esse o
movimento de busca de autonomia, e mesmo não tendo
consciência deste movimento, seu ego trabalho
fortemente nesta direção.
A perda do crescimento, portanto, é a perda boa, a
morte natural e necessária do cotidiano, são as podas
que precisamos fazer para crescermos fortes e saudáveis.
A perda da posse é quando o adulto não percebe que usa
mecanismos de sua criança, ainda muito presente em sua
ego e fragilizando-o demais na percepção de suas
perdas cotidianos, ou seja, alguma perdas se tornam a
morte total, e não aquela que ajuda a renascer,
travando sua vida e seu crescimento.
Penso que nossa perspectiva é uma perspectiva de
adulto, ou seja, não podemos ser muito impulsivos nas
nossas necessidades e o caminho não pode ser outro, senão
cairmos na real, ou seja, o caminho de adulto é o
caminho em que perder fazer parte do jogo; a poda do
nosso cotidiano é a garantia de que a bioquímica da
nossa psiquê se renove permanentemente e isso significa
crescimento – algo como auto-desenvolvimento sustentável.
Acho que a nossa é aliar e equilibrar, como yin
e yang, nossa impulsividade naturalmente infantil, que
é a nossa criança interior - enquanto satisfação
imediata de nossas necessidades, com o nosso ser adulto
e social, onde precisamos praticar respeito,
criatividade, autonomia, afeto e partilha, e isso não
é fácil.
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