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Todos
sabemos que o trágico, o exótico, o inusitado
é o grande "gancho" das matérias
jornalísticas.
São os temperos que transformam o corriqueiro
em atração aos olhos do leitor, o banal
em interessante para o telespectador. Mas é lamentável
que isso seja exigência básica no processo
de veiculação. E constatar que há
pouco espaço nos jornais locais ou nacionais,
no Webjornalismo, nas emissoras de rádio e televisão
para as notícias menos grotescas ou que fogem
ao fantástico e ao sinistro é, para dizer
o mínimo, desestimulante.
E quando a Amazônia faz parte do cenário
a necessidade de que os fatos sejam exóticos
ou trágicos toma uma dimensão que se aproxima
de sua enorme área geográfica. Raros são
os jornalistas, da Amazônia e principalmente de
fora dela, que conseguem acatar sugestões de
pauta se não houver a presença dos índios,
escândalos políticos, rombos da Sudam,
índices alarmantes de desmatamento, relação
com a folclórica chuva das duas horas da tarde
ou as comidas típicas totalmente agredidas e
alteradas, que causam engulhos aos estômagos amazônicos
mais sensíveis.
Os mais atentos que lêem os grandes jornais ou
assistem as principais emissoras de TV nacionais e que
conhecem pouco da região, devem achar que a Amazônia
realmente é só isso. Uma região
onde se derrubam árvores seculares sem nenhuma
culpa, animais belos e exóticos sendo contrabandeados
e maltratados, empresário e político unindo-se
para aprimorar as falcatruas contra os cofres públicos
ou apenas o "pulmão do mundo", um patrimônio
que deve ser preservado, intocável, sem que o
amazônida tenha direito a opinar. A Amazônia
é de fato tudo isso, mas também é
mais, muito mais.
Mas como convencer os jornalistas que há uma
outra Amazônia além das catástrofes
e do exótico ? As universidades, instituições
de pesquisa (governamentais e não-governamentais),
empresas públicas e privadas, assim como em outras
regiões, também vêm tentando acertar
e grandes investimentos comprovam a assertiva. Inúmeras
experiências (muitas bem sucedidas, por sinal)
têm sido feitas em busca de alternativas de um
desenvolvimento que seja de fato sustentável.
Mas se não houver o gancho do extravagante, do
fantástico ou sinistro há grande probabilidade
da notícia não emplacar.
Poucos são os veículos (locais, regionais
ou nacionais), da mídia tradicional ou eletrônica
que têm uma percepção mais ampla
do que se faz na Ciência, com a Ciência
ou entre os muros das academias. O que acontece com
a floresta que não é derrubada, mas que
vem sendo explorada racionalmente ? E aquelas áreas
em fase de reflorestamento? As culturas que começam
a ser domesticadas como o cupuaçu, pupunha e
açaí a maioria sabe das dificuldades e
longo tempo para se chegar a pelo menos uma espécie
que sirva de sombreamento ? A Amazônia agora começa
a ser desvendada. Seus mistérios após
(parcos) investimentos em Ciência e Tecnologia
começam a de fato aparecer. Mas a simplificação
(ou será banalização ?) da informação
que acaba deixando-a incompleta, incorreta e às
vezes deturpada, é o resultado mais freqüente.
Isso para desespero dos entrevistados e constrangimento
do jornalista posteriormente retificado. 
O que se presencia são as matérias que
nascem nos laboratórios, nas pesquisas científicas
sendo tratadas como um acidente de trânsito ou
uma greve, sem que haja a preocupação
de entender a sua complexidade e ela passa também
a ser apenas factual, quando o caso quase sempre não
o é.
Recentemente tive oportunidade de mais uma vez viver
uma experiência que traz à tona a necessidade
de se repensar a forma como a Amazônia vem sendo
divulgada. Uma reflexão que talvez interesse
pouco para os que já estão na estrada
há mais tempo, mas que pode ser útil aos
colegas mais jovens que têm se dedicado a divulgar
as questões amazônicas e se interessam,
cada vez mais, pelo jornalismo científico, jornalismo
ambiental ou mesmo pelo jornalismo factual mais profundo.
Afastada da Embrapa onde há 17 anos atuo como
jornalista, aceitei o desafio de divulgar para o Brasil
um dos acontecimentos mais importantes na história
recente da região: a certificação
florestal de mais de 140.000 hectares de floresta nativa
amazônica. Durante semanas li tudo o que encontrei
sobre o assunto a fim de repassá-lo o mais digerido
possível àqueles que tinham pouca (ou
nenhuma) intimidade com o tema. Conversei com pesquisadores,
técnicos, empresários em busca de detalhes
que pudessem tornar a informação mais
completa, mais atraente. Escrevi versões e mais
versões do texto-base (ou release como preferem
alguns). Tudo em tempo hábil contrastando com
o corre-corre típico das atividades inerentes
à divulgação via mídia.
Usei todos os meios possíveis: telefone, Internet,
fax, contatos pessoais. Além do texto-base, foram
disponibilizados endereços de fontes que poderiam
dar mais detalhes e referendar o material sobre uma
questão que há tanto é cantada
em verso e prosa na região, fora dela e, principalmente
no exterior: a Amazônia tem como servir ao homem
e mesmo assim sobreviver.
E a empresa Cikel Brasil Verde S .A após sete
anos de investimentos, que incluíram capacitação
de sua mão-de-obra, maquinário e consultorias,
acabava de multiplicar a área certificada da
Amazônia. O Brasil passava então a ser
o País com a maior área de floresta nativa
amazônica certificada roubando o título
até então ostentado pela Bolívia.
Mas isso ainda não eraIPAM o bastante para merecer
um destaque. Havia grandes concorrentes: o escândalo
do ranário e a invasão da Funai em Belém
pelos índios insatisfeitos eram mais importantes.
De pouco adiantava explicar que a certificação
verde significa que esta empresa está assumindo
um compromisso de explorar a floresta de forma ecologicamente
correta, socialmente justa e economicamente viável.
Um chavão que muitos repetem talvez sem saber
exatamente o que significa.
E o mais impactante de tudo : reunindo em torno desse
objetivo instituições públicas
federais de grande crediblidade como a Embrapa e Faculdade
de Ciências Agrárias do Pará (Fcap);
estaduais como a Secretaria de Ciência, Tecnologia
e Meio Ambiente do Pará (Sectam), municipal como
a Prefeitura de Paragominas e (pasmem!!) duas ONGs:
a Fundação Floresta Tropical (FFT) e o
(Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).
Havia mais ganchos: a área da Cikel está
localizada justamente no município paraense de
Paragominas, tristemente famoso pelas serrarias, grande
poluição urbana, exploração
de mão-de-obra infantil, grandes fazendas que
transformaram em pasto as florestas etc e etc.
Tínhamos ainda mais munição e sem
desistir continuamos a relacionar fatos numa tentativa
quase desesperada de convencer que a informação
era segura, não era um marketing mentiroso. Uma
propaganda enganosa. A certificação outorgada
pela ONG internacional FSC (Conselho de Manejo Florestal),
é um documento respeitadíssimo no mundo
inteiro e chegara ais uma vez à Amazônia,
ao Pará, agora com uma área que duplicava
a que existia até então.
O selo verde representa, ainda, a abertura a mercados
internacionais em países que já conscientes
da importância de preservar o patrimônio
genético amazônico, só adquirem
madeiras e produtos dela derivados se tiverem o cobiçado
selo, sinônimo de que a floresta, mesmo sendo
explorada e dando lucro, está sendo respeitada.
Todos sabemos que os empresários que estão
apostando nesse caminho não o fazem apenas porque
respeitam a floresta. Junto com a consciência
um pouco diferente do madeireiro tradicional, há
uma preocupação com o mercado externo,
com o retorno certo do investimento em produtos que
têm garantia que a natureza é um ponto
também relevante do processo. É a floresta
unindo-se à serraria. Um amplo processo onde
todos saem ganhando. Inclusive (ou principalmente) aqueles
que enxergaram primeiro que é preciso mudar.

Foram dias e noites passando e-mail, conversando, tentando
persuadir os colegas de Belém e do Centro-Sul
que a informação poderia render inserções
nacionais, uma página, meia página ou
mesmo só uma nota. O importante era levar ao
conhecimento da população brasileira que
alguém estava fazendo a sua parte com seriedade
e profissionalismo.
A cerimônia de entrega do certificado, na pomposa
Estação das Docas ( o point do momento
em Belém) trouxe a Belém o Ministro do
Meio Ambiente, José Sarney Filho, que não
poupou elogios à decisão da Cikel. O governador
do Pará, Almir Gabriel, deputados, prefeitos,
secretários de Estados, representantes de ONGs
referendaram o ato.
Mas a informação não tinha nada
de exótico, trágico, extravagante, sinistro
ou inusitado e era boa demais para ser notícia.
Se o saldo ao final foi positivo (mais de 50 inserções
em diferentes mídias jornalísticas), de
outro o esforço também foi demasiado.
E certamente poderia ter sido melhor aproveitada, mais
amplamente veiculada se não houvesse uma certa
prevenção ao que é positivo. Se
as notícias boas não fossem relegadas
à "cesta" página.
Alguns podem simplificar afirmando: mas notícia
boa não vende jornal. Pode até não
vender, mas é fundamental que todos tenham conhecimento
do empenho de profissionais que com seriedade e muitas
vezes anônimos, estão buscando acertar.
Há muito ainda por divulgar sobre a Amazônia
e não só o exótico, trágico,
fantástico, inusitado ou sinistro. E as notícias
boas (como a da certificação florestal)
bem que poderiam merecer o mesmo destaque que o trágico,
o exótico, o fantástico, o sinistro A
sociedade certamente gostará de saber que além
das tragédias e do fantástico também
produzimos notícias boas.
(*) Jornalista (ruthrend@amazon.com.br)
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