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O presidente Fernando Henrique Cardoso,
recentemente, participou de um jantar com seleto grupo
de grandes empresários, organizado por Olavo Setúbal. No
cardápio, a discussão sobre o potencial de crise de
ingovernabilidade no caso de vitória de um candidato da
oposição nas eleições presidenciais de 2002. Tomou-se
como base para a discussão o texto do professor Fábio
Wanderley Reis Brasil ao quadrado? Democracia, subversão
e reforma.
O presidente Fernando Henrique tem o
direito de se reunir ou de participar de eventos sociais
quantas vezes quiser e com quem quiser. Tem também toda
a liberdade para participar do processo sucessório e
apoiar seu candidato, desde que o faça nos parâmetros da
democracia. Da mesma forma, empresários podem apoiar
qualquer candidato. Mas o jantar realizado em São Paulo
reveste-se de caráter problemático pela finalidade do
encontro - discutir a ingovernabilidade no caso da
vitória da oposição. Fernando Henrique não se pode
esquecer de que é o principal magistrado do País e que
um encontro, reservado e com aquela finalidade, com um
pequeno grupo de grandes empresários suscita suspeitas e
inquietações.
Quando se insinua ou se afirma que
a vitória de um candidato da oposição pode levar o País
à ingovernabilidade, começam-se a estabelecer
condicionamentos antidemocráticos sobre a opinião
pública. Procura-se desqualificar a priori os
adversários, impingindo-lhes a pecha de "perigosos",
criando um ambiente favorável à afirmação da idéia de
que o único candidato que pode garantir a
governabilidade e a estabilidade política é o candidato
governista. Essa retórica conservadora e intransigente
não passa de uma tentativa de veto, que visa a impedir
mudanças e a criar obstáculos à alternância democrática
do poder.
O texto do professor Fábio Wanderley
Reis traz uma análise lúcida e instigante quando discute
as causas da crise de ingovernabilidade implicadas na
situação brasileira. As profundas desigualdades sociais,
com todas as suas conseqüências negativas, uma
institucionalidade incapaz de absorver as enormes
demandas sociais represadas, o enfraquecimento das
funções normativas e de autoridade e a deterioração dos
direitos e das condições de cidadania suscitadas pela
globalização e pela preeminência das relações privadas
de mercado sobre a regulação pública, em síntese, são as
bases reais que enfraquecem a ação de coordenação,
direção e orientação do Estado sobre a
sociedade.
Se a análise teórica do professor
Fábio Wanderley Reis, no fundamental, é aceitável e
correta, o que não se pode aceitar é a projeção que faz
dessa análise sobre as perspectivas de governabilidade
do Brasil no caso de vitória de um candidato de
oposição. Para o professor, no caso de uma vitória de
Lula, haveria um risco residual ou potencial de
subversão; no caso de uma vitória de Itamar Franco, o
risco seria de imprevisibilidade por conta dos traços de
instabilidade da personalidade do governador mineiro; e,
no caso da vitória de Ciro Gomes, haveria um risco de
"cesarismo", ou seja, uma espécie de autoritarismo
disfarçado, semelhante ao governo de Hugo Chávez da
Venezuela.
Talvez de forma involuntária, essas
projeções políticas terminam por reforçar o discurso
governista que o próprio professor critica: o de que "no
Brasil de FHC houve uma acomodação à idéia de que só há
uma política econômica adequada". Ou mais: o de que o
único candidato que não oferece riscos potenciais à
estabilidade democrática seria o candidato
governista.
Esse tipo de projeção, em véspera de
eleições, sem dúvida cria condicionamentos preventivos e
negativos na opinião pública contra os candidatos de
oposição. As conclusões do professor Fábio deixam de ser
um exercício acadêmico e se transformam em fundamento
para uma militância política, se não em favor do
candidato do governo, contra os candidatos de
oposição.
No que toca ao PT, tudo indica que o
professor não acompanhou a evolução do partido. Desde
sua origem, o PT recusou qualquer filiação às teses do
socialismo autoritário e afirmou sua vocação democrática
e pluralista. No seu primeiro congresso, realizado no
início dos anos 1990, rejeitou de forma explícita as
tese marxista-leninista de ditadura do proletariado. Ao
longo dos anos, definiu que as transformações
democráticas são meio e fim da ação do partido, negando
a validade dos métodos violentos para alcançar o
poder.
Assim, sugerir um suposto potencial de
subversão que estaria implícito numa vitória de Lula e
do PT não passa de um equívoco analítico que pode
prejudicar a ambos, Lula e o PT,
eleitoralmente.
Se as causas de crises potenciais
de ingovernabilidade apontadas pelo texto do professor
Wanderley Reis estão corretas, o PT é hoje, no Brasil, o
partido que mais oferece condições de superá-las. O que
permite fazer essa afirmação é a prática do PT atestada
em prefeituras e em governos de Estados e os
compromissos programáticos do partido. Além disso, o PT
é a mais sólida instituição partidária do País,
nacionalmente implantada, que cultiva relações políticas
com os mais diversos setores sociais, que abrangem todo
o leque de trabalhadores e empresários. E, por ser um
partido que representa programaticamente os interesses
sociais daqueles setores carentes de cidadania, de
direitos e de inclusão, uma vitória eleitoral do PT
estabelecerá as condição para uma repactuação econômica,
social e política visando a superar as causas da crise
de ingovernabilidade e colocar o Brasil nos trilhos do
desenvolvimento com distribuição de renda e
riqueza.
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