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A solidariedade é um dos mais nobres valores do Homem.
Apesar de ser compelido a enfrentar situações
intensamente competitivas em seu cotidiano, vivendo em
um mundo que se apresenta cada vez mais complexo
desafiador, o ser humano dá provas constantes de sua
humanidade. É o caso, por exemplo, do voluntariado, que
se expande em todas as partes do mundo, a demonstrar que
as pessoas, por mais ocupadas que sejam, se dispõem a
dedicar algum tempo para ajudar o próximo. Nos Estados
Unidos, mais de 25 milhões de pessoas doam horas de
trabalho para causas sociais.
No Brasil, os
dados não são tão precisos, mas especula-se que igual
número de voluntários - ou mais - estejam atuando em
todo o país. O trabalho voluntário ainda não está
totalmente consolidado entre nós, mas os brasileiros têm
a seu favor uma grande permeabilidade à solidariedade,
encontrando respostas criativas a muitas deficiências
das ações do Estado, que não tem sido capaz de implantar
políticas sociais eficazes. Dessa forma, o trabalho
voluntário vem permitindo aos brasileiros se tornarem
atores das transformações que desejam para o Brasil. O
voluntário que o Brasil necessita é aquele voltado para
a cidadania responsável, o espaço democrático que
abrigue os 40% de brasileiros que vivem abaixo da linha
de pobreza, os 50 milhões que não conseguem ter uma
alimentação adequada, os marginalizados que superlotam
as periferias dos centros urbanos em condições
miseráveis, servindo, freqüentemente, de massa de
manobra para políticos inescrupulosos.
Embora se
registre um recuo da pobreza no Brasil - com os sopros
concedidos pelos planos econômicos - a desigualdade de
renda continua grave. Pela PNAD/98, os 10% dos mais
ricos dominam 50% da renda, enquanto 50% dos mais pobres
ficam com apenas 10% dela. O fato é que o índice de
conforto social, no país, é muito baixo, o que denota o
fracasso do modelo monetarista que se instalou. A
melhora da qualidade de vida dos contingentes miseráveis
no Brasil vem, em grande parte, sendo patrocinado pelo
trabalho voluntário, que evidencia o papel de cada
cidadão no processo conjunto de transformação da
sociedade e da vida de muitos brasileiros, fadada ao
desabrigo, ao desemprego, à violência , à humilhação.
Milhões vivem privados de necessidades básicas, como
comer, morar, estudar, ter saúde e sonhos, embora sejam
direitos constitucionalmente garantidos, mas
diuturnamente violados por um desenvolvimento
desarmônico e por uma distribuição de renda extremamente
desigual. A ordem constitucional, como se pode
facilmente concluir, é simplesmente aviltada todas as
vezes em que os direitos fundamentais dos cidadãos
deixam de ser atendidos.
Se o Estado não cumpre
seus compromissos, a sociedade solidária busca formas de
cooperação e ajuda. A força motriz do trabalho
voluntário é a resposta que a sociedade civil dá ao
descaso dos Governos, responsável pelos traumas
provocados pela exclusão social. É este idealismo que
leva, anualmente, mais de cinco mil advogados, só em São
Paulo, a prestar todo tipo de assistência jurídica à
população. Eles fazem de tudo um pouco: levam a cartilha
da cidadania para a sala de aula, soletram o alfabeto do
direito na rede pública estadual, lutam com a população
para preservar o meio ambiente, ajudando refugiados e
carentes na obtenção de documentos; promovem ações para
garantir direitos previstos no Código de Defesa do
Consumidor, elaboram cartilhas para combater o abuso
econômico e político nas eleições, prestam apoio e
atendimento às vítimas de violência, entre inúmeras
outras ações.
A OAB-SP tem tradição no trabalho
voluntário e defende, hoje, o conceito de cidadania
responsável, que implica ser socialmente responsável,
contribuindo cada um com suas aptidões pessoais para
resolver pequenos e grandes problemas sociais. Ou seja,
os problemas acabam proporcionando uma oportunidade para
a atividade voluntária e participativa.
O
brasileiro está se dando conta de que a ação voluntária
pode ser desenvolvida localmente, na escola onde os
filhos estudam ou na própria comunidade, promovendo
mutirões de limpeza, formando grupos de auto-ajuda para
a terceira idade ou doando sangue.
O trabalho
voluntário é fundamental na formação de um bom advogado.
Confere um ganho humanístico e profissional. Para ser um
bom operador do Direito, urge conhecer a realidade em
todos os estratos sociais, buscar contato pessoal com
pessoas e conhecer suas rotinas. Mais adiante, esse
esforço poderá ajudar na defesa a ser desenvolvida
dentro da Assistência Judiciária. Ser socialmente
responsável e conhecedor da realidade sócio-política do
econômicos, abrange, também, a vulnerabilidade e a
carência de vez e voz.
A sedimentação da cultura
do trabalho voluntário no Brasil será forte aliada no
combate à pobreza expandida, substituindo a omissão pela
participação e construindo um horizonte de maior
amplitude para o exercício da cidadania plena.
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