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No dia em que ele morreu, notava-se entre os
amigos, vizinhos e parentes que lhe velavam o magro
corpo, um sujeito que não era dalí. Mais ou menos bem
vestido, cheio de modos, cara de burocrata da velha República.
Era apenas um curioso que subira o morro. Subira por
nada. Só para observar se o que se passava lá em cima
era igual ao que a TV mostrava.
O
homenzinho correu os olhos pelos aposentos do barraco
(apenas dois),
onde se realizava o velório. Na sala, um divã
recoberto por um veludo encardido, com um grande buraco
no lado esquerdo do assento, deixando o estofamento à
mostra; uma pequena mesa de
fórmica, azul
“caixão-de-anjo”, formava conjunto com
quatro cadeiras, sendo que uma delas tinha as pernas
moles, cai não cai. Sempre que um eventual
ocupante se aproximava, uma criança da casa, de
olhos tristes e ventre intumescido gritava: “sente não
que tá quebrada;” um TV em preto e branco ali parecia
coisa mágica. À noite a família esquecia
a fome e o cansaço do dia, na delícia da novela
das oito; uma geladeira semi-nova contrastava com móveis
tão velhos. No minúsculo quarto um beliche, cujos colchões
mil vezes urinados, exalavam aquele cheiro nauseabundo e
inconfundível; alguns colchonetes espalhados pelo piso
de azulejo feito pedacinhos multicoloridos. Parece até
que o pedreiro quisera fazer arte bizantina; um guarda
roupa Luiz XV, velho mas resistente ao desgaste, coisa
boa que uma caridosa senhora do asfalto, dera à dona da
casa.
A
salinha apertada mal comportava os presentes,com suas
preces, lamentos e sussurros. Duas folhas arrancadas de
uma coloridíssima revista nacional, eram a única
decoração das paredes. Numa delas, o
mestre-sala e a porta-bandeira da escola de samba
predileta do defunto sorriam, indiferentes ao espetáculo
que alí se desenrolava. A foto era do último e
glorioso ano em que fora campeã; na outra, o plantel do
timão, naquele arranjo clássico em que os jogadores
de futebol posam para fotografias. Um círculo
feito com
esferográfica
destacava o craque
a quem a fiel torcida chamava carinhosamente de
CORDERINHO. Aquele que tantas alegrias dera ao
falecido, nas escaldantes tardes de domingo, quando ele
levava para o estádio todos os seus conflitos, desejos
e frustrações, apertados na garganta, para soltá-los
no orgasmo de um grito chamado gol.
Depois
da inspeção, o curioso se aproximou do caixão. Coisa
fina, madeira de primeira, adornos de luxo. Os castiçais,
nada deixavam a desejar. Tudo presente do traficante
Orlandinho Camisa de Seda, o rei daquela favela. O
infeliz
defunto, de rosto chupado e barba por fazer,
inspirava simpatia a quem o contemplasse. Prestando-lhe,
certamente, a derradeira homenagem, um mulato grandalhão
postara-se ao pé do esquife. Trajava-se a rigor: terno
branco, camisa vermelha, gravata azul marinho com
bolinhas brancas, sapato bicolor, chapéu palheta.
Parecia uma figura de outros tempos. Tempos em que os
malandros
ainda se prezavam. Deve ser amigo do extinto,
pensou o nosso homenzinho e resolveu abordá-lo.
_ Como foi que ele morreu? _ perguntou.
_
Crucificado _ respondeu o outro.
_
Crucificado? _ espantou-se o curioso _ como cristo,
entre dois ladrões?
_
Não _ Quase gritou o malandro _ o ladrão era ele mesmo
, parece. Morreu crucificado entre dois bêbados.
O
homem não entendeu o que o cara quis dizer com aquilo,
mas não pediu maiores explicações. Aquele tipo se
impacientava facilmente. Melhor não insistir, não
provocar. Passou assim à outra indagação.
_
Quantos anos tinha?
_
Sei lá, meu chapa_ respondeu o outro de má vontade _
eu não era amigo dele, só conhecido, mas pensando
melhor, bicho... O crioulo
foi desmanchando a cara feia e mostrando
um sorriso
desdentado.
_
Pensando melhor_ balbuciou o forasteiro que àquela
altura sentia um frio de medo percorrer-lhe a espinha.
Estava arrependido de ter puxado conversa com indivíduo
tão mal encarado.
_
É meu chapinha_ prosseguiu o gigante como se falasse
sozinho. Nem olhava para o baixote _ele viveu trinta e
três carnavais, exatinhos. Sei disso porque vi ele
comentando com os outros no botequim. Foi na copa do
mundo, na última, na que o Brasil fez aquela vergonha.
_
Vergonha? Mas não ficamos em segundo lugar? _ disse o
janota admirado.
_
Em futebol não existe segundo lugar. Ou é campeão ou
não é. Pois como eu ia dizendo , o morro todo tava
comemorando a vitória do Brasil contra a Holanda e o
coitadinho falava: nasci 3 anos antes da copa de 70. Só
me lembro da de 78. Dá raiva , nem posso falar , 86,
90, porcaria. Mas em 94... Brasil...sil...sil. Tetra
campeão!!!!!! E essa tu vai ver meu irmão, nós vamo
ganhar da França. O favelado baixou a cabeça e
murmurou.
_
O pobrezinho viveu oito copas.
O
penetra queria se ver livre do sujeito, mas como
iniciara o bate papo, teve que escutar a salada cronológica
até o fim. Terminada, afastou-se com um cumprimento rápido.
Foi se sentar no sofá, justamente no lugar do rombo,
pois o restante acabava de ser ocupado por duas
mulheres. Uma era gorda, idosa e falava com sotaque
mineiro; a outra, bem
jovem, mas de aparência decadente. Seus cabelos
sem vida, emaranhados, agitavam-se ao vento da noite que
penetrava pela janelinha. Vestia uma malha desbotada, tão
curta que mal lhe cobria as ancas. Era uma moça magra,
de aspecto doentio, que calçava sandálias japonesas.
Nas unhas maltratadas, pedacinhos remotos de esmalte.
Do
lado de fora, muita gente se espalhava pela ruela
enladeirada e clara como o dia, graças a gambiarras
postas em zig-zag, até o fim da arteríola. Jogavam
porrinha, bebiam pinga e comiam churrasquinhos, pastéis
e enlatados. Tudo presente de Orlandinho, que também
bancou o clarão. Falavam baixo. Ninguém chorava. Do
lado de dentro também não se chorava. Parecia que só
a noite sem lua e sem estrelas se cobrira de luto pelo o
morto.
O
curioso aguçou bem os ouvidos para ouvir as duas
senhoras. Afinal estava alí por curiosidade e àquela
altura pouco sabia sobre o personagem principal da cena.
_
Pois é, Delfina_ dizia a mais velha_ cheguei hoje e fui
logo sabendo da desgraceira. Tou de corpo quebrado da
viagem de ônibus, mas não podia te faltar nesta hora.
Fui tão amiga da tua mãe (que Deus a tenha), tu sabe
disso. Te vi nascer e crescer. Tempo bão aquele, depois
ocês vieram morar aqui...
_
Obrigada, madrinha Niná_ dizia a outra _ magina se não
fosse a senhora, quem vinha me consolar, agora que tou só
no mundo.
_
Sozinha não, filha, ocê tem as criança, seus filho.
_
É mesmo, madrinha. Não posso me acabrunhar . Eu
preciso cuidar deles. Vou ter que arranjar trabalho
Delfina
de vez em quando enxugava o nariz avermelhado num lenço.
Era esse o seu pranto, os olhos estavam secos.
_
Mas me conta, menina, como foi tua vida com ele?_
perguntou D. Niná.
_
Não digo que tenha sido boa_ o tom da jovem era quase
resignado_ porque vida boa com pobreza não existe, mas
até que não foi tão ruim, sabe como é, eu gostava
dele.
_
E ele te merecia?
_
Ele era bom, madrinha Niná, até demais.
A
velha fez uma cara de dúvida mas Delfina nem percebeu.
Apontando para o caixão com o queixo, a mineira quis
saber:
_
E esse caixão de rico, quem deu?
_
Doutor Orlando. A gente nem conhecia
ele, mas mandou de tudo. Sabe madrinha, nesse
morro ele nunca deixou de socorrer quem passa privação.
_
Quem é esse Doutor, uai?
_
Sei direito não. Esmola eu recebo de onde vier.
_
Voltando pro finado teu marido, a família era daqui?
_
Daqui mesmo, da favela. A mãe, tadinha, era lavadeira.
Hoje vive toda inchada, sofrendo do coração; o pai era
pedreiro, esse teve mais sorte. Tá aposentado pelo
INSS, perdeu uma perna no trabalho.Tavam aqui mas
já foram, passados de tanto sofrimento.
Delfina
ia desfiando sua cantilena entremeada por fungados, sob
o olhar atento de D. Niná.
_
Ele era tão vivo, madrinha, tão trabalhador. Desde
pequeno ajudava o pai. Foi pra escola já com doze anos.
Mas num instante aprendeu tudo.
_
Escola?_ espantou-se a outra_ ele teve na escola?
_
Pôxa! Era o mais inteligente da turma. Sabia mais que a
professora, me falaram. Mas sabe como é, com uns tempos
teve que sair pra trabalhar. Nunca teve sorte
trabalhando. Não conseguia nada. Levou a maior parte da
vida sendo pedreiro , como o pai dele.
_
Mas não é só ele não, Delfina. Meus filho também lá,
é tudo da construção. No Brasil é assim mesmo, pra
ganhar bem tem que ter diploma.
Nisso,
o malandro de branco se aproximou. O curioso desviou os
olhos pensando que ele queria continuar a conversa, mas
não. Queria velas para o defunto. As que se encontravam
nos castiçais haviam queimado completamente.
_
Vai na casa de Zefinha Porta-Bandeira. Tá tudo lá, o
que o Doutor mandou_ disse a viúva.
_
Então deixa comigo, companheira_ falou o cara rodando
nos calcanhares e saindo. Enquanto isso, D. Niná se
encontrava ao lado do caixão, ajeitando umas flores que
uma vizinha trouxera.
_
Parece que tá dormindo, tadinho_ disse ao se sentar de
novo junto à afilhada.
_
Tá com a cara de
bondade que sempre teve.Ele era bom, até demais,
pra mim, pros filho, pros outro. Quando pegava numa
graninha a mais, socorria um amigo necessitado ou um
vizinho desempregado. Ele não se conformava com as
injustiça desse mundo, madrinha. Não que fosse um
revoltado, mas achava que todo mundo devia ser igual. Não
é tudo filho do mesmo Deus? Dizia que todo mundo devia
ter o que comer, o que vestir, poder estudar, ir no médico.
Foi por essas coisas que só conseguiu trabalho em fábrica
duas vezes. Da última foi despedido. Fez greve com os
colega. Foi preso e apanhou que nem bicho. Ficou
conhecido como baderneiro.
D.Niná
tinha um assunto a esclarecer com Delfina. Não que
houvesse acreditado naquilo. Só poderia ser invenção
de embusteiros desocupados. Ora, desses tipos a cidade
anda cheia. Estava acanhada mas o melhor mesmo era
falar. Começou:
_
Me desculpe, Delfina, eu nem devia falar nisso numa hora
dessas. Tem muita gente ruim no mundo, minha afilhada.
Pois não é que me contaram que teu marido era....
_
Ladrão_ completou a outra_ não foi isso? Era não. Foi
um falso testemunho que levantaram, mas Deus haverá de
castigar o infeliz que inventou essa estória.
“Então
era um ladrão”, pensou o homenzinho despertando. O diálogo
entre as duas estava tão monótono que ele cochilara.
Agora precisava colher mais detalhes. Impertigou-se e
bem atento às falas, pensou: “pena de morte! Só isso
acabará com os marginais do Brasil. Pena de morte!”
Delfina
se magoara, evidentemente. Olhou para a madrinha e sua
cara era de mártir. Tentou imprimir autoridade à sua
frágil figura. Em vão.
Assim
mesmo falou:
_
Então a senhora acreditou nessas língua de aço? Não
disse que era tão amiga da minha mãe, amiga minha? _
ficou a olhar a velha de um modo que pensava ser
desafiante. Ao lado delas, o forasteiro fitando o nada,
persistia em seu pensar: “ainda defende o bandido,
mulherzinha ordinária! Foi bom mesmo que ele tenha
morrido. A sociedade se livra de mais um.”
_
Delfina, pelo o amor de Deus_ choramingou D. Niná
arrependida do que falara_ ocê acha que eu ia crer numa
coisa dessas? Falei porque não tenho segredos pra ocê.
Ora, se eu tivesse dado crédito eu ia tocar no assunto,
ia, me diga? Só tô querendo ajudar.
_
Vai, me desculpa madrinha, tô nervosa. Sei que a
senhora não deu mesmo crença aos boatos. Tudo mentira.
A estória correu mesmo. Foi um sujeito sem vergonha
quem criou. Se fazia de amigo dele. Um dia foi preso por
assalto e aí enrolou meu marido na desgraça.
_
Delfina foi até o corpo inerte do esposo. Pôs-se a olhá-lo
cheia de pena. Continuava sem botar uma lágrima, mas a
face descarnada denunciava o que lhe ia no íntimo.
Nisso o malandro voltou trazendo as velas. Ela o ajudou
a colocá-las no lugar. Olhou mais uma vez para dentro
do esquife e voltou ao sofá. D. Niná não queria
tornar ao tema constrangedor, mas a viúva fez a questão.
_
Meu marido foi preso, madrinha Niná, foi preso e
apanhou pra confessar o que não tinha feito. Sofreu sem
dever nada. Soltaram ele logo, não tinham provas, mas
ficou fichado. Me diga o que adianta ser honesto neste
mundo. Olha aí um homem que só fez o bem, que procurou
ser alguém na vida, que gostava das pessoa. Olha aí no
que deu.
_
Eu sinto tanto, minha filha_ D.Niná finalmente chorava
_
seu marido realmente não teve sorte. Estudioso,
trabalhador, inteligente. Podia ter tido uma vida
melhor, podia ter sido até um Operário Padrão.
O
menino de barriga proeminente, veio segredar à mãe que
estava com fome.
_
Vai na casa da porta-bandeira_ ela disse_ tem do bom e
do melhor, que o Doutor mandou.
O
curioso resolveu ir embora. Aliás nunca deveria ter
estado alí, pensou. Tomar parte No velório de um ladrão!
Supunha que isso jamais
fosse lhe acontecer. Mexeu-se para se levantar
mas a curiosidade foi de novo estimulada. Viu que
Delfina narrava a parte principal do drama.
_
A gente vivia de orelha em pé, madrinha, mesmo sem ele
ter
culpa
no cartório. Sabe como é, pobre e negro é suspeito de
tudo quanto é
ruim. Ontem a gente ouviu pelo o rádio a notícia
do assalto no banco. Diziam que os cara tavam escondido
aqui no morro. Ele sabia que corria perigo, era fichado,
mas ficou. Não tinha nada a ver com o roubo não era?
Mas depois teve medo, correu. Foi o erro dele, madrinha.
Os homens correram atrás atirando. Ele caiu logo ali
adiante entre o Capela e o Chico, dois trastes ruins da
vizinhança. Só vivem bêbados e tavam dormindo
estirados no chão. A primeira bala pegou meu marido
mesmo no meio da testa. Quando eu cheguei
ele tava de barriga pra cima, as perna esticada,
uma cruzada na outra. Parecia que tavam pregada por uma
bala que entrou na canela. Na queda, os braços dele se
abriram em cruz e
em cada mão os caras meteram um balaço. Pra que
tanta maldade, madrinha? Bastava a da cabeça pra ele
morrer.
O
curioso agora sabia tudo. Sentia-se enojado da
mulherzinha
sem classe, do ambiente fétido,
do morto de cara simpática. Levantou-se e fez menção
de sair mas precisava cumprimentar a viúva. Afinal era
um homem educado, um cristão. Deveria passar por cima
dos seus escrúpulos.
_ Meus pêsames, minha senhora_ disse sem lhe
estirar a mão.
_
Obrigada, mas quem é o senhor? _ parecia que só agora
ela se dava conta da presença do desconhecido.
_
Ninguém... Quer dizer, um cidadão que ia passando e
entrou para rezar pelo morto.
Deu
alguns passos e já se encontrava na porta quando se
lembrou. Não sabia o nome do falecido. Ora, onde já se
viu? Passar
tanto tempo num velório sem saber de quem.
Voltou ao lugar onde as duas continuavam silenciosas.
Pareciam não Ter mais nada a dizer uma à outra. O
homenzinho tossiu e falou:
_
Não conhecia o seu inditoso marido, minha cara senhora,
mas gostaria de saber: como era o nome dele?
_
Jesus_ respondeu a mulher.
N.A.
Nos diálogos entre os personagens são encontrados
alguns erros de português. Foram colocados de propósito,
uma vez que se trata do linguajar do povo. Se houver
outros, correm por minha conta.
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