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 Como era o nome dele?
Tamar Levi

                    No dia em que ele morreu, notava-se entre os amigos, vizinhos e parentes que lhe velavam o magro corpo, um sujeito que não era dalí. Mais ou menos bem vestido, cheio de modos, cara de burocrata da velha República. Era apenas um curioso que subira o morro. Subira por nada. Só para observar se o que se passava lá em cima era igual ao que a TV mostrava.

                   O homenzinho correu os olhos pelos aposentos do barraco (apenas dois),  onde se realizava o velório. Na sala, um divã recoberto por um veludo encardido, com um grande buraco no lado esquerdo do assento, deixando o estofamento à mostra; uma pequena mesa de  fórmica, azul  “caixão-de-anjo”, formava conjunto com quatro cadeiras, sendo que uma delas tinha as pernas moles, cai não cai. Sempre que um eventual  ocupante se aproximava, uma criança da casa, de olhos tristes e ventre intumescido gritava: “sente não que tá quebrada;” um TV em preto e branco ali parecia  coisa mágica. À noite a família esquecia  a fome e o cansaço do dia, na delícia da novela das oito; uma geladeira semi-nova contrastava com móveis tão velhos. No minúsculo quarto um beliche, cujos colchões mil vezes urinados, exalavam aquele cheiro nauseabundo e inconfundível; alguns colchonetes espalhados pelo piso de azulejo feito pedacinhos multicoloridos. Parece até que o pedreiro quisera fazer arte bizantina; um guarda roupa Luiz XV, velho mas resistente ao desgaste, coisa boa que uma caridosa senhora do asfalto, dera à dona da casa.

                    A salinha apertada mal comportava os presentes,com suas preces, lamentos e sussurros. Duas folhas arrancadas de uma coloridíssima revista nacional, eram a única  decoração das paredes. Numa delas, o mestre-sala e a porta-bandeira da escola de samba predileta do defunto sorriam, indiferentes ao espetáculo que alí se desenrolava. A foto era do último e glorioso ano em que fora campeã; na outra, o plantel do timão, naquele arranjo clássico em que os jogadores  de futebol posam para fotografias. Um círculo feito com  esferográfica  destacava o craque  a quem a fiel torcida chamava carinhosamente de CORDERINHO. Aquele que tantas alegrias dera ao falecido, nas escaldantes tardes de domingo, quando ele levava para o estádio todos os seus conflitos, desejos e frustrações, apertados na garganta, para soltá-los no orgasmo de um grito chamado gol.

                   Depois da inspeção, o curioso se aproximou do caixão. Coisa fina, madeira de primeira, adornos de luxo. Os castiçais, nada deixavam a desejar. Tudo presente do traficante Orlandinho Camisa de Seda, o rei daquela favela. O infeliz  defunto, de rosto chupado e barba por fazer, inspirava simpatia a quem o contemplasse. Prestando-lhe, certamente, a derradeira homenagem, um mulato grandalhão postara-se ao pé do esquife. Trajava-se a rigor: terno branco, camisa vermelha, gravata azul marinho com bolinhas brancas, sapato bicolor, chapéu palheta. Parecia uma figura de outros tempos. Tempos em que os malandros  ainda se prezavam. Deve ser amigo do extinto, pensou o nosso homenzinho e resolveu abordá-lo.  

                  _ Como foi que ele morreu? _ perguntou.

                  _ Crucificado _ respondeu o outro.

                  _ Crucificado? _ espantou-se o curioso _ como cristo, entre dois ladrões?

                  _ Não _ Quase gritou o malandro _ o ladrão era ele mesmo , parece. Morreu crucificado entre dois bêbados.

                  O homem não entendeu o que o cara quis dizer com aquilo, mas não pediu maiores explicações. Aquele tipo se impacientava facilmente. Melhor não insistir, não provocar. Passou assim à outra indagação.

                  _ Quantos anos tinha?

                  _ Sei lá, meu chapa_ respondeu o outro de má vontade _ eu não era amigo dele, só conhecido, mas pensando melhor, bicho... O crioulo  foi desmanchando a cara feia e mostrando  um sorriso  desdentado.

                  _ Pensando melhor_ balbuciou o forasteiro que àquela altura sentia um frio de medo percorrer-lhe a espinha. Estava arrependido de ter puxado conversa com indivíduo tão mal encarado.

                  _ É meu chapinha_ prosseguiu o gigante como se falasse sozinho. Nem olhava para o baixote _ele viveu trinta e três carnavais, exatinhos. Sei disso porque vi ele comentando com os outros no botequim. Foi na copa do mundo, na última, na que o Brasil fez aquela vergonha.

                  _ Vergonha? Mas não ficamos em segundo lugar? _ disse o janota admirado.

                  _ Em futebol não existe segundo lugar. Ou é campeão ou não é. Pois como eu ia dizendo , o morro todo tava comemorando a vitória do Brasil contra a Holanda e o coitadinho falava: nasci 3 anos antes da copa de 70. Só me lembro da de 78. Dá raiva , nem posso falar , 86, 90, porcaria. Mas em 94... Brasil...sil...sil. Tetra campeão!!!!!! E essa tu vai ver meu irmão, nós vamo ganhar da França. O favelado baixou a cabeça e murmurou.

                 _ O pobrezinho viveu oito copas.

                 O penetra queria se ver livre do sujeito, mas como iniciara o bate papo, teve que escutar a salada cronológica até o fim. Terminada, afastou-se com um cumprimento rápido. Foi se sentar no sofá, justamente no lugar do rombo, pois o restante acabava de ser ocupado por duas mulheres. Uma era gorda, idosa e falava com sotaque mineiro; a outra, bem  jovem, mas de aparência decadente. Seus cabelos sem vida, emaranhados, agitavam-se ao vento da noite que penetrava pela janelinha. Vestia uma malha desbotada, tão curta que mal lhe cobria as ancas. Era uma moça magra, de aspecto doentio, que calçava sandálias japonesas. Nas unhas maltratadas, pedacinhos remotos de esmalte.

                  Do lado de fora, muita gente se espalhava pela ruela enladeirada e clara como o dia, graças a gambiarras postas em zig-zag, até o fim da arteríola. Jogavam porrinha, bebiam pinga e comiam churrasquinhos, pastéis e enlatados. Tudo presente de Orlandinho, que também bancou o clarão. Falavam baixo. Ninguém chorava. Do lado de dentro também não se chorava. Parecia que só a noite sem lua e sem estrelas se cobrira de luto pelo o morto.

                  O curioso aguçou bem os ouvidos para ouvir as duas senhoras. Afinal estava alí por curiosidade e àquela altura pouco sabia sobre o personagem principal da cena.

                   _ Pois é, Delfina_ dizia a mais velha_ cheguei hoje e fui logo sabendo da desgraceira. Tou de corpo quebrado da viagem de ônibus, mas não podia te faltar nesta hora. Fui tão amiga da tua mãe (que Deus a tenha), tu sabe disso. Te vi nascer e crescer. Tempo bão aquele, depois ocês vieram morar aqui...

                   _ Obrigada, madrinha Niná_ dizia a outra _ magina se não fosse a senhora, quem vinha me consolar, agora que tou só no mundo.

                   _ Sozinha não, filha, ocê tem as criança, seus filho.

                   _ É mesmo, madrinha. Não posso me acabrunhar . Eu preciso cuidar deles. Vou ter que arranjar trabalho

                  Delfina de vez em quando enxugava o nariz avermelhado num lenço. Era esse o seu pranto, os olhos estavam secos.

                   _ Mas me conta, menina, como foi tua vida com ele?_ perguntou D. Niná.

                   _ Não digo que tenha sido boa_ o tom da jovem era quase resignado_ porque vida boa com pobreza não existe, mas até que não foi tão ruim, sabe como é, eu gostava dele.

                    _ E ele te merecia?

                    _ Ele era bom, madrinha Niná, até demais.

                    A velha fez uma cara de dúvida mas Delfina nem percebeu. Apontando para o caixão com o queixo, a mineira quis saber:

                    _ E esse caixão de rico, quem deu?

                    _ Doutor Orlando. A gente nem conhecia  ele, mas mandou de tudo. Sabe madrinha, nesse morro ele nunca deixou de socorrer quem passa privação.

                    _ Quem é esse Doutor, uai?

                    _ Sei direito não. Esmola eu recebo de onde vier.

                    _ Voltando pro finado teu marido, a família era daqui?

                    _ Daqui mesmo, da favela. A mãe, tadinha, era lavadeira. Hoje vive toda inchada, sofrendo do coração; o pai era pedreiro, esse teve mais sorte. Tá aposentado pelo  INSS, perdeu uma perna no trabalho.Tavam aqui mas já foram, passados de tanto sofrimento.

                    Delfina ia desfiando sua cantilena entremeada por fungados, sob o olhar atento de D. Niná.

                    _ Ele era tão vivo, madrinha, tão trabalhador. Desde pequeno ajudava o pai. Foi pra escola já com doze anos. Mas num instante aprendeu tudo.

                    _ Escola?_ espantou-se a outra_ ele teve na escola?

                    _ Pôxa! Era o mais inteligente da turma. Sabia mais que a professora, me falaram. Mas sabe como é, com uns tempos teve que sair pra trabalhar. Nunca teve sorte trabalhando. Não conseguia nada. Levou a maior parte da vida sendo pedreiro , como o pai dele.

                    _ Mas não é só ele não, Delfina. Meus filho também lá, é tudo da construção. No Brasil é assim mesmo, pra ganhar bem tem que ter diploma.

                    Nisso, o malandro de branco se aproximou. O curioso desviou os olhos pensando que ele queria continuar a conversa, mas não. Queria velas para o defunto. As que se encontravam  nos castiçais haviam queimado completamente.

                     _ Vai na casa de Zefinha Porta-Bandeira. Tá tudo lá, o que o Doutor mandou_ disse a viúva.

                     _ Então deixa comigo, companheira_ falou o cara rodando nos calcanhares e saindo. Enquanto isso, D. Niná se encontrava ao lado do caixão, ajeitando umas flores que uma vizinha trouxera.

                     _ Parece que tá dormindo, tadinho_ disse ao se sentar de novo junto à afilhada.

                     _ Tá com a cara de  bondade que sempre teve.Ele era bom, até demais, pra mim, pros filho, pros outro. Quando pegava numa graninha a mais, socorria um amigo necessitado ou um vizinho desempregado. Ele não se conformava com as injustiça desse mundo, madrinha. Não que fosse um revoltado, mas achava que todo mundo devia ser igual. Não é tudo filho do mesmo Deus? Dizia que todo mundo devia ter o que comer, o que vestir, poder estudar, ir no médico. Foi por essas coisas que só conseguiu trabalho em fábrica duas vezes. Da última foi despedido. Fez greve com os colega. Foi preso e apanhou que nem bicho. Ficou conhecido como baderneiro.

                     D.Niná tinha um assunto a esclarecer com Delfina. Não que houvesse acreditado naquilo. Só poderia ser invenção de embusteiros desocupados. Ora, desses tipos a cidade anda cheia. Estava acanhada mas o melhor mesmo era falar. Começou:

                      _ Me desculpe, Delfina, eu nem devia falar nisso numa hora dessas. Tem muita gente ruim no mundo, minha afilhada. Pois não é que me contaram que teu marido era....

                      _ Ladrão_ completou a outra_ não foi isso? Era não. Foi um falso testemunho que levantaram, mas Deus haverá de castigar o infeliz que inventou essa estória.

                       “Então era um ladrão”, pensou o homenzinho despertando. O diálogo entre as duas estava tão monótono que ele cochilara. Agora precisava colher mais detalhes. Impertigou-se e bem atento às falas, pensou: “pena de morte! Só isso acabará com os marginais do Brasil. Pena de morte!”

                         Delfina se magoara, evidentemente. Olhou para a madrinha e sua cara era de mártir. Tentou imprimir autoridade à sua frágil figura. Em vão.

Assim mesmo falou:

                        _ Então a senhora acreditou nessas língua de aço? Não disse que era tão amiga da minha mãe, amiga minha? _ ficou a olhar a velha de um modo que pensava ser desafiante. Ao lado delas, o forasteiro fitando o nada, persistia em seu pensar: “ainda defende o bandido, mulherzinha ordinária! Foi bom mesmo que ele tenha morrido. A sociedade se livra de mais um.”

                       _ Delfina, pelo o amor de Deus_ choramingou D. Niná arrependida do que falara_ ocê acha que eu ia crer numa coisa dessas? Falei porque não tenho segredos pra ocê. Ora, se eu tivesse dado crédito eu ia tocar no assunto, ia, me diga? Só tô querendo ajudar.

                        _ Vai, me desculpa madrinha, tô nervosa. Sei que a senhora não deu mesmo crença aos boatos. Tudo mentira. A estória correu mesmo. Foi um sujeito sem vergonha quem criou. Se fazia de amigo dele. Um dia foi preso por assalto e aí enrolou meu marido na desgraça.

                        _ Delfina foi até o corpo inerte do esposo. Pôs-se a olhá-lo cheia de pena. Continuava sem botar uma lágrima, mas a face descarnada denunciava o que lhe ia no íntimo. Nisso o malandro voltou trazendo as velas. Ela o ajudou a colocá-las no lugar. Olhou mais uma vez para dentro do esquife e voltou ao sofá. D. Niná não queria tornar ao tema constrangedor, mas a viúva fez a questão.

                         _ Meu marido foi preso, madrinha Niná, foi preso e apanhou pra confessar o que não tinha feito. Sofreu sem dever nada. Soltaram ele logo, não tinham provas, mas ficou fichado. Me diga o que adianta ser honesto neste mundo. Olha aí um homem que só fez o bem, que procurou ser alguém na vida, que gostava das pessoa. Olha aí no que deu.

                         _ Eu sinto tanto, minha filha_ D.Niná finalmente chorava

_ seu marido realmente não teve sorte. Estudioso, trabalhador, inteligente. Podia ter tido uma vida melhor, podia ter sido até um Operário Padrão.

                         O menino de barriga proeminente, veio segredar à mãe que estava com fome.

                         _ Vai na casa da porta-bandeira_ ela disse_ tem do bom e do melhor, que o Doutor mandou.

                         O curioso resolveu ir embora. Aliás nunca deveria ter estado alí, pensou. Tomar parte No velório de um ladrão! Supunha que isso jamais  fosse lhe acontecer. Mexeu-se para se levantar mas a curiosidade foi de novo estimulada. Viu que Delfina narrava a parte principal do drama.

                         _ A gente vivia de orelha em pé, madrinha, mesmo sem ele ter

culpa no cartório. Sabe como é, pobre e negro é suspeito de tudo quanto é  ruim. Ontem a gente ouviu pelo o rádio a notícia do assalto no banco. Diziam que os cara tavam escondido aqui no morro. Ele sabia que corria perigo, era fichado, mas ficou. Não tinha nada a ver com o roubo não era? Mas depois teve medo, correu. Foi o erro dele, madrinha. Os homens correram atrás atirando. Ele caiu logo ali adiante entre o Capela e o Chico, dois trastes ruins da vizinhança. Só vivem bêbados e tavam dormindo estirados no chão. A primeira bala pegou meu marido mesmo no meio da testa. Quando eu cheguei  ele tava de barriga pra cima, as perna esticada, uma cruzada na outra. Parecia que tavam pregada por uma bala que entrou na canela. Na queda, os braços dele se abriram em cruz e  em cada mão os caras meteram um balaço. Pra que tanta maldade, madrinha? Bastava a da cabeça pra ele morrer.

                         O curioso agora sabia tudo. Sentia-se enojado da mulherzinha  sem classe, do ambiente  fétido, do morto de cara simpática. Levantou-se e fez menção de sair mas precisava cumprimentar a viúva. Afinal era um homem educado, um cristão. Deveria passar por cima dos seus escrúpulos.        

                          _ Meus pêsames, minha senhora_ disse sem lhe estirar a mão.

                          _ Obrigada, mas quem é o senhor? _ parecia que só agora ela se dava conta da presença do desconhecido.

                          _ Ninguém... Quer dizer, um cidadão que ia passando e entrou para rezar pelo morto.

                          Deu alguns passos e já se encontrava na porta quando se lembrou. Não sabia o nome do falecido. Ora, onde já se viu? Passar  tanto tempo num velório sem saber de quem. Voltou ao lugar onde as duas continuavam silenciosas. Pareciam não Ter mais nada a dizer uma à outra. O homenzinho tossiu e falou:

                          _ Não conhecia o seu inditoso marido, minha cara senhora, mas gostaria de saber: como era o nome dele?

                          _ Jesus_ respondeu a mulher.  

N.A. Nos diálogos entre os personagens são encontrados alguns erros de português. Foram colocados de propósito, uma vez que se trata do linguajar do povo. Se houver outros, correm por minha conta.

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Tamar Levi

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