Mude
1
O poema Mude nunca foi escrito por Clarice LIspector.
Seu autor é Edson Marques, livro Solidão
a Mil, página 16 e seguintes. Eis o capitulo inicial:
Solidão
a mil
Todas as noites, quando fecho os olhos para dormir,
Deus acende seus belos refletores de vertigem sobre
mim, meu cérebro se acomoda no travesseirinho
de flores, e vejo no verso das pálpebras a última
imagem do glorioso dia de aventuras que acabei de viver.
E uma legenda em letras amarelas: "To Be Continued".
Começar a escrever um livro me parece mais difícil
do que escrever o livro todo. Mas, depois que li o Retrato
do Artista quando jovem e vi como Joyce começou,
criei coragem.
Principalmente porque agora da vida só temos
o resto.
Isso é fatal.
Olho no espelho profundo de mim e me questiono:
- Será que existe outra forma de ser feliz?
Fico pensando e acabo sonhando.
Mas sonho tão alto que o próprio barulho
me acorda.
E todos os dias me desperto já perguntando se
há no mundo coisa mais importante do que ser
feliz. Vejo as estrelinhas coladas no teto do meu quarto
e repito essa oração como fosse uma reza.
Então me espreguiço gaiarsa, felino, gostoso,
sorrindo. Mas só me levanto depois que gargalho.
Enquanto não acho motivos para gargalhar - isso
é sagrado - não os encontro também
para levantar. E me acordo já fazendo ginástica
com o cérebro, pois não quero teias de
aranha nos meus neurônios. Sinapses, só
as brilhantes me excitam, e eu as potencializo com lógica
e amor. Acordo e me levanto, deslumbrado e respirando,
cheio portanto de luz - iluminado de novo e de mim.
Meus dias começam sempre assim.
Fico pensando de novo.
"Não sei o que dói mais: se o eventual
castigo por um desejo forte realizado, satisfeito, puro,
livre - ou se esse mesmo desejo contido, sufocado no
peito, esmagando minha alma. Sinceramente, não
sei o que dói mais".
Só sei que, menino ainda, sentado num cinema
do interior, misturei Pitágoras e Pasolini para
fazer meu primeiro juramento:
"Todas as minhas relações serão
triangulares: eu, o meu amor - e a liberdade."
Em verdade, a relação é um tripé:
se faltar um deles, desaba.
Mas já notou que entre você e a liberdade
quase sempre existe um muro, construído de ciumentos
e tijolos frios?
Salte logo essa barreira: a vida está lá
do outro lado!
- É impossível ser feliz sem liberdade.
Um dia, aos quatorze anos, quando eu estava começando
a entender a vida, escrevi minha melhor definição
de amor.
"Amar é permitir sempre, amar é deixar
que o outro vá - ou que fique, se assim o desejar.
Amar é ter um respeito absoluto pela própria
liberdade e pela liberdade do outro. Amar é compreender
sempre. E isso não significa apenas entendimento
racional, vai além, muito além: Amar é
reconhecer afetuosamente o direito que o outro tem de
fazer suas escolhas."
(Mesmo que essas escolhas eventualmente me excluam.)
Quem não concorda com tal idéia de amor
não merece o meu.
Aliás, recuso terminantemente o eventual amor
de quem não ama a própria liberdade antes
mesmo de me amar.
Porque o amor tem que ser livre - em todos os sentidos.
E toda mudança, você sabe, requer um plano.
Algumas vezes, plano esboçado em folha de papel,
e outras vezes, plano intuído no cérebro
do homem. Mas a mudança mais gostosa é
aquela que requer apenas um plano inclinado, por onde
a gente escorrega em óleo de amêndoas como
se fosse no corpo de um grande amor, desliza até
a borda - e então salta feito Ícaro em
direção ao vazio do belo escuro profundo
da vida.
Quando as coisas resistem às idéias e
o mundo resiste aos sonhos - não devemos mudar
de sonhos, nem mudar de idéias: temos é
que mudar de coisas ou mudar de mundo.
Paritosh
Keval. EdmaLux@hotmail.com
Mude 2
Não
vou nem dizer o nome da Agência. Mas a propaganda
institucional da Fiat, veiculada pela tv (Globo e SBT)
neste Domingo, dia 08/07/2001, estava lindíssima.
Acontece que o texto é um plágio. Sou
eu o autor, e não fui consultado.
Mude.
Mas comece devagar, comece na sua velocidade. Sente-se
em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde,
mude de mesa. Quando sair, procure andar pelo outro
lado da rua. Depois, mude de caminho, ande por outras
ruas, calmamente, observando com atenção
os lugares por onde você passa. Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas. Dê os
teus sapatos velhos. Procure andar descalço alguns
dias. Tire uma tarde inteira para passear livremente
na praia, ou no parque, e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas. Abra e feche as
gavetas e portas com a mão esquerda. Durma no
outro lado da cama. Depois, procure dormir em outras
camas. Assista a outros programas de tv, compre outros
jornais. Leia outros livros, viva outros romances. Não
faça do hábito um estilo de vida. Ame
a novidade. Durma mais tarde. Durma mais cedo. Aprenda
uma palavra nova por dia numa outra língua. Corrija
a postura, coma um pouco menos, escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores, novas delícias.
Tente o novo todo dia. O novo lado, o novo método,
o novo sabor, o novo jeito, o novo prazer, o novo amor.
A nova vida. Tente. Busque novos amigos. Tente novos
amores. Faça novas relações, almoce
em outros locais, vá a outros restaurantes, tome
outro tipo de bebida, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde, ou vice-versa. Escolha
outro mercado. Outra marca de sabonete, outro creme
dental. Tome banho em novos horários. Use canetas
de outras cores. Vá passear em outros lugares.
Ame muito, cada vez mais, de modos diferentes. Troque
de bolsa, de carteira, de malas. Troque de carro. Compre
novos óculos. Escreva outras poesias. Jogue os
velhos relógios, quebre delicadamente esses horrorosos
despertadores. Abra conta em outro banco. Vá
a outros cinemas, outros cabeleireiros, outros teatros.
Visite novos museus. Mude. Lembre-se de que a Vida é
uma só. E pense seriamente em arrumar um outro
emprego, uma nova ocupação, um trabalho
mais light, mais prazeroso, mais digno, mais humano.
Se você não encontrar razões para
ser livre, invente-as.
Seja criativo.
(E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa,
se possível sem destino.)
Experimente coisas novas.
Troque novamente. Mude. Experimente outra vez.
Você conhecerá coisas melhores e coisas
piores.
Mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento.
Só o que está morto não muda
EdsonMarques@clicktoris.com.br
Um
texto já publicado desde 1997 em jornais literários.
Desde outubro de 2000 no: www.geocities.com/salaodepoesia
E também no site: www.clicktoris.com.br desde
julho de 2000.
Feio para a Agência, não?
E um pouco feio também para a Fiat, não?
Mas a propaganda foi muito bem feita.
Só quem salta inteiro no belo escuro profundo
da vida
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