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Revista Partes - Ano II - janeiro de 2002 - nº 18

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TODA FRANCESA - Todo (o), toda (a)
 Por Maria Teresa Queiroz Piacentini
Durante a Copa do Mundo na França discutiu-se - além de futebol, é claro - que "o torcedor brasileiro imagina que toda francesa é sexy, liberada e dadivosa". Se a opinião é desprezível, a gramática não o é. Nesse contexto ‘toda a francesa’ é que estaria errado, pois significaria ‘a mulher inteira’, e os nossos amigos falavam de ‘todas as francesas’. Veja você a diferença que um artigo faz!

É importante saber distinguir um caso de outro porque a mesma frase ou frases semelhantes adquirem sentido diferente apenas com a inserção do artigo definido:

- Revistavam todo homem que ali passasse. [= todos os homens]

- Revistaram todo o homem. [= o homem por inteiro, de cima abaixo]

Além do plural, todo/toda sem artigo pode ser traduzido como ‘qualquer, cada’:

- Toda casa tem banheiro. Todo ser humano tem alma.

- Toda escola paranaense receberá livros doados pelo MEC.

Compare com:

- Toda a casa queimou. [a casa toda, inteira]
- Disse nosso diretor que toda a escola receberá pintura nova e outras benfeitorias. [ a escola completa, desde a cozinha às salas de aula]

Resumo / esquema:

. todo (sem artigo) = qualquer, cada. Implica totalidade. Igual ao plural: todos os .

. todo o = inteiro. Implica inteireza ou plenitude. Nestes casos é muito comum a posição inversa: o ano todo ( = todo o ano), a casa toda ( = toda a casa), o dia todo etc.


COM TODO O AMOR

Quero enfatizar esse ponto da plenitude. Quando você usar um substantivo abstrato como afeição, carinho, apreço, capricho, humildade, força etc., coloque o artigo para demonstrar como é pleno, completo, esse sentimento ou qualidade. Exemplos:

- Com todo o amor, despeço-me...
- Li sua carta com toda a atenção e devo dizer...
- Você tem todo o direito de não acreditar nessa afirmação.
- Mostra em seu ateliê todo o vigor da sua arte.
- Manuseia os utensílios com todo o zelo, como se fossem de cristal.


ARTIGO FACULTATIVO: todo (o) tempo

É facultativo o uso do artigo nas seguintes expressões, pelo fato de ensejarem dupla interpretação (não há rigorosa distinção, por exemplo, entre ‘a qualquer tempo’ ou ‘o tempo inteiro’):

- Encontramos lixo em toda (a) parte / a toda (a) hora / todo (o) tempo.
- Estaremos lá a todo (o) custo / preço / risco.
- Em todo (o) caso, me submeterei ao teste.


TODO MUNDO

. Sem o artigo, é expressão de uso coloquial, significando ‘a gente, todos nós, as pessoas em geral’:
- Todo mundo ficou perplexo com a bomba no Senado.
- Quase todo mundo perde com a inflação.
- Nem todo mundo aplaudiu o esquema de Wanderley Luxemburgo.

. Com o artigo, quer dizer ‘o mundo inteiro, uma parte do globo terrestre ou a população mundial’:

- Todo o mundo ocidental conhece as histórias dos irmãos Grimm.
- Esperamos que todo o mundo se una pela paz. [= o mundo todo]


Todo o Brasil, toda Santa Catarina

Diante de nomes de cidades, estados e países, o artigo é usado somente quando admissível (São Paulo, Niterói e João Pessoa, por exemplo, não levam artigo, ao contrário de o Paraná e a Espanha). Assim, temos:

- Percorreu toda a Bahia a pé.
- A exoneração do ministro deixou todo o Brasil em suspense.
- Achamos todo Portugal uma fábula.
- O viajante encontra um relevo acidentado em toda Santa Catarina.


*Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br ;



Maria Tereza de Queiroz Piacentini
Autora dos livros "Português para Redação" e "Só Vírgula", diretora do Instituto Euclides da Cunha.



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