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O sonho é o remate de
uma idéia em desenvolvimento.
Os indigentes não poderiam conceber melhor riqueza.
O Sonho é o anti-qualquer coisa em que me sento.
Uma cadeira, um branco. O emprego que me amarra.
O que ameaça o sonho é a realidade. Que deixa de ser o aceitável
e não tem graça. Às vezes, e não poucas, amedronta.
Nada como as coisas que esperam, encravadas em seus lugares, como símbolos
da realidade irremovível. Pelo menos não são ambíguas.
São simplesmente o que são, como os mortos no seus sono perene à
espera da vida eterna .
Ah, a insipidez das coisas relembradas por imposição de cultos!
O mundo dos mitos está acima das crenças
estabelecidas e dos seus respectivos códigos litúrgicos.
A moralidade da lenda
reside na sua espontaneidade. É como a música e a
poesia, elevação do mundo, comunhão das criaturas,
transfiguração de almas.
Ouvir é virtualmente
um predicado da inteligência.
Ver uma virtude do instinto: a terra onde se está vivo, por
exemplo .
A verdade é a soma de todos os pressupostos imolados.
Vencer as dificuldades; superar as condições do sofrimentos;
resistir às servidões; desprezar o temor ou o medo:
eis o que significa viver.
A ilusão é um estado
poético. É mais que
uma simples metáfora.
A ilusão parte do que
está próximo e se cristaliza numa espécie de
horizonte metafísico.
A ilusão é o sonho. E o seu inimigo, a realidade.
Em arte, até o grotesco pode levar ao sublime.
Sentimento. Verso. Memória. Depois .... estilo.
Três situações semelhantes e um só resultado verdadeiro: a arte
literária.
O alvo e o fundo de todo contentamento
é a confiança.
De profeta a humorista a distância é o que conta.
O humorista joga no imediato. O profeta no futuro.
Mas, na essência, cumprem um papel idêntico que é o de servirem
à moralidade dos séculos.
As melhores coisas da vida são aquelas que fazemos por amizade.
Amar o que se faz por obrigação é, em certos casos, o mais
penoso dos jugos.
Uma vocação não se escolhe. É ela que se aproxima de nós como
o sofrimento E como o sofrimento, .nos agarra e nos
domina até o fim nossos dias.
Tudo o que é exceção é sempre triste.
Não viver de resíduos
nem de simples zelos. Não ceder às aparências mas não
fugir às simpatias.
Dispor do sentimento, não para afetá-lo mas para cultivá-lo.
Nada se criará sem obediência a essas singelas normas de ação.
O amor próprio deve ser furtivo, sutil, intuitivo. Do contrário,
não passará de uma das muitas formas intoleráveis do
personalismo.
O solo moral da morte será sempre a eternidade.
Outorgada por Deus, a morte é a nobreza da vida. Seu máximo
louvor e sua justificação.
Não fora antes a porta aberta pela qual se visualiza a Eternidade.
O desespero é o lucro do diabo.
A alternativa habitual de quem se descreve: nada dizer ou dizer
tudo.
Aliar na obra literária a consciência e o prazer: não sei de
melhor proposição para se construir um estilo.
É o sentimento que nos compensa dos prejuízos da ignorância.
Saber e não sentir é o mesmo que ignorar.
Sentir, pode-se; e até mesmo sem preparação.
Nunca procurar nas nuvens o que já está no espírito: com teu trabalho e teu fervor
íntimo tu imitarás as nuvens e em pouco te
acharás dentro delas.
Antes de dormir, pensar nos arquipélagos da alma.
Estão eles cercados pela maré dos sentimentos; mas não lhes
falta, por vezes , a ameaça da tormenta.
Nesta, quem comanda e ordena os movimentos é a paixão. Contém,
portanto, os impulsos do
teu cração.
Não se queixe o homem de nunca
poder ver Deus em pessoa. Eu O vejo todos os dias
na sua mais sublimada semelhança: nas crianças
resistentes ao genocídio infantil nas mais diversas
ruas da
cidade.
Escrever: fruto de uma certa maldição interior que vai além
da sua limitação;a procura de sinais fixos, depois que
se partiu para a aventura.
Quem não escreve está meio morto.
Ò, Senhor! Bem sei que ninguém vive sem servidão.
Mas quanto a mim, rogo:
sustentai-me no
meu ofício, na minha profissão
Daí- me paciência para suportar
o primeiro. Daí- me vigor para
realizar a segunda. E assim, posto em relação
com ambos, armai-me de suficiente modéstia para não
querer ser maior que Vossa longanimidade.
O crime é não ser
pobre.
Se os ricos soubessem disso veriam que é uma verdade tão dolorosa
quanto a tristeza de não ser santo.
Uma constatação
ao cabo de mil confrontos: não
raro se verifica
uma singular abundância de méritos na criatura menos
vivida.
O ignorante mesmo é o que vive fora de sua época. É o que
sai à rua com
os fatos rotos do passado.
O consolo de quem não tem memória é que tudo lhe parece
novo, inédito, nunca
visto. Nunca ouvido, nunca lido.
Acaba- se fora do mérito, da referência, da consideração, no degredo. |