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Enviai,
Senhor, o vosso Espírito e renovai a face da terra.
Parece ser tão árdua e, às vezes, impossível tal tarefa
– especialmente em tempos de terrorismo, que a oração
passa a ser uma expressão necessária (pelo menos para
aqueles que crêem em algo que ultrapassa as relações de
produção e mercado). O que enfim seria necessário para
renovar a face da terra? Mudanças políticas...econômicas...educacionais...éticas...
espirituais...individuais...? Com certeza estes aspectos estão
envolvidos nas mudanças necessárias. Duas frases do Dalai
Lama me chamam a atenção e me orientam para uma reflexão
acerca do tema mudança, um tema que não é só
individual mas também coletivo, isto é, social. Afora o apreço
natural e sincero que muitos nutrem pela figura especialmente
piedosa e simpática que é Tenzin Gyatso, com certeza ele
representa um jeito diferente e muito especial mesmo de
observar e compreender nossa vida e o ser humano. Diferente
deste nosso jeito ocidental – tão onipotente e presunçoso.
E não há dúvida que sua contribuição é inestimável e de
um esforço muito grande na tentativa de mudar e reconstruir
este nosso mundo.
“Se você quer transformar o mundo, mexa primeiro
em seu interior”
Não
estamos muito acostumados a dar ouvidos aos nossos movimentos
internos, aos nossos processos internos. É muito mais cômodo
encontrar causas e razões externas do que olharmos para o
nosso próprio interior e encontrarmos aquilo que não
queremos. Mudar o nosso interior parece ser a tarefa mais árdua
que existe. Partindo do princípio de que ao nascermos, nossa
estrutura de personalidade carrega traços comportamentais básicos
que nos acompanhará para o resto da vida e que, ao mesmo
tempo, esta mesma estrutura divide espaço com um sistema dinâmico
que será responsável em gerenciar processos de adaptação e
mudanças na nossa vida, organizando os sistemas de
conhecimento, sentimentos e socialização, não é difícil
imaginar realmente
o quanto é doloroso e complexo o processo de mudança. Porque
mudança é perda, no sentido de ajuste da posição confortável
em que eu me encontrava, embora, sempre estamos nos ajustando
na cadeira ou poltrona ou nos diversos tipos de relações e
valores que mantemos. Mas é incômodo e indesejável, quando
este ajuste acontece em função do outro. Mexer no interior,
portanto, é mexer nos ajustes e posições que já estamos
acostumados e acomodados. E nós, ocidentais, como bons
materialistas somos muito apegados, e como diz o Dalai Lama em
outra frase interessante: O apego é cheio de parcialidade.
O amor e a compaixão são imparciais.
“A responsabilidade de
todos é o único caminho para a sobrevivência humana ”
O
terrorismo patrocinado por qualquer instituição (árabe,
irlandesa, latina, não importa) é execrável. É execrável
também a condição de partilha e dominação que o mundo
sempre esteve sujeito – nações mais pobres nas mãos de nações
mais ricas. Valeria a pena uma análise histórica e geopolítica
para entendermos o tabuleiro do jogo de dominação entre as
nações do mundo inteiro nos últimos duzentos anos. Não me
sinto autorizado a fazê-lo. De qualquer modo, uma pergunta
que fica é a seguinte: O que é mais execrável, ações
terroristas chocantes e assustadoras ou ações políticas e
conscientes de grandes nações que construíram suas vidas
baseadas em relações de exploração? As conseqüências
da globalização, ou mesmo seus interesses, não parecem,
efetivamente, direcionados para que as relações entre as nações
e as condições de vida das mesmas sejam melhoradas e, com
certeza, a divisão de riquezas deve acontecer para isso. Não
o que parece que tem acontecido com a evolução do que se
chama de globalização. Os diversos mercados regionais
(atuais ou em processo de formação) como Comunidade Européia,
Nafta, ALCA, etc. não parecem ter uma preocupação real com
mudanças concretas nas relações de consumo da maioria da
população – especialmente excluídas. De certo modo até
está, quando se diz nos meios produtivos que a massa de
população de baixa renda é muito importante para a
economia, pois ela representa muito capital ativo para o
consumo, e isto é importante para a indústria. Mas é só
isso. A indústria e a economia estão preocupadas apenas com
o crescimento econômico. Com o crescimento da riqueza. No
fundo a grande questão é: e para quem ficará esta riqueza?
Este é o grande problema. E é como diz o Dalai: a sobrevivência
humana é responsabilidade de todos; e não apenas de líderes.
Vale a pena lembrar uma observação a respeito do livro O
despertar da Águia, de Leonardo Boff que, penso, encaixa
e clareia bem a questão que está sendo abordada: “...a
transição do homem para a humanidade, do local para o
global, do bem comum humano para o bem comum planetário, se
faz primordialmente pelo mercado. E este é competitivo e não
cooperativo .” Eu realmente não sei se o mercado deve
ser apenas cooperativo ou só competitivo. No fundo ele
deveria ser os dois. Pois é próprio da natureza humana
brigar, o movimento de conquista. O problema é que a maneira
como esta briga tem sido travada nos últimos séculos parece
ser muito injusta, ou seja, algumas nações têm se
aproveitado de vantagens e condições que outras não têm
(geografia, organização política, econômica, cultural,
etc.). Uma vez ouvi que quando Deus criou o Universo não
havia deixado nenhuma partilha ou espólio para povo algum.
Por que uns se acham mais no direito que outros? A questão é
muito complicada, mas vale o alerta do Dalai de que a solução
deve ser compartilhada. |