Alguns meses atrás, mais exatamente em agosto do ano passado, a Folha de
São Paulo, em alusão ao Dia dos Pais, publicou uma reportagem onde abordava diversos
tipos de pais. Chamou-me a atenção a diversidade desta tipologia pois apresentou pais
adotivos, ricos, pobres, etc., ou seja, tipos muito diferentes entre si e o quanto estes
tipos e jeitos diferentes de atitudes e comportamentos são, no fundo, ricos em
sentimentos e força de paternidade na relação pais-e-filhos (é claro que esta
relação pais-e-filhos, não se restringe à figura paterna; tais sentimentos e
significação são profundamente vividos na relação mãe-e-filhos, com modelo e
referência diferentes, nem melhores nem piores).
Vale a pena lembrar alguns casos apresentados na reportagem.
o pai sociólogo que adotou a filha já adolescente
ex-interna da Febem, que cultiva e vive um relacionamento de muita felicidade e
significação
o pai homem de negócios que, mesmo em viagem internacional que cubra o
fim de semana, com certeza volta para casa na 6ª feira para ver os filhos, retornando ao
país estrangeiro na 2ª feira seguinte para continuidade de suas atividades profissionais
o pai catador de papel, que até pouco tempo morava na rua com a esposa
e 3 ou 4 filhos, sendo que o mais velho de 7 anos- que dormia numa caixa velha de
geladeira tem uma profunda e forte admiração pelo pai, a ponto de aspirar ser
como ele quando crescer: um catador de papel, idéia reprovada imediatamente pelo pai
Quem são estes pais? E o que eles representam para os filhos?
São pessoas que construíram modelos e interesses para tocar a vida.
Pessoas que lutam para sobreviver, de modos diferentes (e que diferenças!), para garantir
segurança e conforto para a família. Não é demais lembrar e notar a distância entre
condições e características que cada um destes pais vivem e buscam seu caminho. Buscas
muito diferentes em condições muito diferentes. Isto nos faz refletir sobre a forma e a
qualidade dos itens de segurança e conforto oferecidos por
estes pais a seus filhos. Vale lembrar que como itens de segurança e conforto podemos
pensar em moradia, saúde, alimentação, educação, vestuário, transporte, enfim, todos
aqueles itens básicos na vida de qualquer pessoa, em qualquer sociedade, por mais ou
menos urbana ou civilizada que seja - ou qualquer outra categoria sociológica de
referência (a sociedade afegã, hoje, aparece diariamente na mídia nos mostrando que,
ela também, com todos os traços culturais diferentes da sociedade ocidental, necessita a
garantia de atendimento de todos estes itens de conforto e segurança; inclusive a
sociedade palestina - se é que na prática a podemos chamá-la assim pela condição de
precariedade de nação que Israel tem imposto à Autoridade Palestina também
necessita a garantia de atendimento de todos estes itens de conforto e segurança).
Voltando à questão dos pais, a reportagem, portanto, ajuda a mostrar e lembrar
até porque todos nós já sabemos as diferenças marcantes que distanciam as
pessoas.
Mas há uma coisa
muito legal e importante que a reportagem lembra: que, apesar das diferenças marcantes
(muita riqueza, muita pobreza, muita espiritualidade, muito materialismo, etc.) os pais
são referências fundamentais ao desenvolvimento afetivo e emocional dos filhos (sejam
crianças ou adultos, é claro!). Novamente, reforço que a figura da mãe é fundamental
e peculiar neste desenvolvimento, mas destaco - como também a própria matéria a cumplicidade
masculina; com filhos e filhas. Esse destaque aparece com uma intensidade muito grande
especialmente na expressão do menino cujo pai é catador de papel pois, apesar da
pobreza, dos limites, da tristeza da carência, da violência (a nossa sociedade se
mostra cada vez mais restritiva e cheia de limites para a liberdade lembro-me,
quando era criança, de brincar na rua até altas horas; hoje não nos atrevemos a ousar
este procedimento com nossos filhos, pois até para nós, adultos, não sentimos
segurança), apesar disso tudo então, a referência do pai para este menino é de um
modelo de valentia, coragem e generosidade (para quem não lembra são os
atributos-condição, determinados pela fada madrinha, para o Pinóquio tornar-se menino).
Mas acima de tudo, é um modelo de autenticidade e lealdade.
Portanto, a reportagem lembra um item muito importante nas relações
interpessoais, especialmente familiares, que é a questão das referências, dos modelos
de comportamento, de conduta, de atitudes e de valores, destacando, especialmente nas
relações pai-e-filhos, a referência do ser pai e não ao que ele é
ou tem.
Paulo de Abreu Lima
Fevereiro/2002
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