Cidade
ilegal
Em tempos de enchentes devemos falar um pouco do processo de
urbanização da cidade e as conseqüências para este processo
acumulativo de carências sociais e da degradação do meio
ambiente. A ausência de políticas públicas mais compatíveis
com o processo de crescimento populacional resultou no
aparecimento e expansão da chamada “cidade ilegal”, que foi
ocupando os espaços vazios da cidade, junto aos córregos, nas
periferias e nos mananciais.
Crescimento
desordenado
O crescimento urbano da cidade de São Paulo foi caótico.
Não se desenvolveu nenhum plano urbano para a metrópole. O que
se viu foi uma maciça imigração de população atraída pelas
oportunidades de emprego e ascensão social: um processo que
aumentou a demanda por habitação, sistema viário, saneamento básico,
transportes, enfim, por uma rede de infra-estrutura urbana.
A
ocupação dos fundos de vale
Os vales dos rios que cortam a bacia sedimentar de São
Paulo têm servido, ao longo da história, de sítio preferencial
para a instalação industrial, uma vez que duas estradas de ferro
foram instaladas nesta região (Estrada de Ferro São Paulo
Railway, conhecida como a “Inglesa” e concluída em 1867) e a
Estrada de Ferro Central do Brasil, ligando São Paulo ao Rio de
Janeiro, que acentuou ainda mais a bipartição do espaço disponível
na cidade) e, posteriormente, o transporte rodoviário, com a
“Caminho do Mar”, e depois a Via Anchieta, inaugurada em 1947.
Este processo de ocupação foi muito bem estudado pelo geógrafo
Aziz Ab`Saber (será que vão esperar pela sua ausência física
para reconhecerem este grande cientista?).
Degradação
ambiental
Os fundos de
vale são na sua maioria ocupados por populações de baixa renda.
As favelas foram obrigadas a ocupar as margens dos córregos
diminuindo a largura dos canais. A falta de saneamento e a coleta
de lixo deficiente transformaram os leitos dos córregos em depósitos
de entulho e refugos em geral, criando obstáculos ao escoamento
das águas.
Vale notar que a política de construir avenidas de fundo
de vale — adotada como a solução para a crescente circulação
de transporte individual na cidade —acabou por tornar o fluxo de
pessoas refém dos espasmos climáticos na cidade (enchentes no
Aricanduva, Pinheiros e Tietê, por exemplo).
Impermeabilização
indiscriminada
Com a ocupação caótica vieram a impermeabilização
indiscriminada do solo urbano, fazendo com que as águas pluviais
cheguem mais rapidamente aos fundos de vale, e com ela a erosão,
resultando no crescente assoreamento dos rios, córregos e
galerias e no volume de águas que mais rapidamente chegam aos
fundos de vale.
Política
ambiental
Uma política ambiental em São Paulo, em especial nos fundos de
vale, deve aprofundar a utilização dos parâmetros do meio físico,
de forma a incorporar as características sócio-econômicas e
culturais da população, contribuindo para a melhoria da
qualidade de vida.
Gastos públicos e privados
As enchentes constantes são fazem aumentar o gasto com a saúde pública
derivado de problemas tais como a leptospirose; desperdício de
recursos representados por perda de bens privados; altos custos
com a recuperação de equipamentos públicos danificados; perdas
de horas trabalhadas e recursos econômicos derivados no caso da
cidade ficar paralisada por inundações.
Só
perdas
Portanto, a cidade só tem a perder com a falta de
investimentos em obras de drenagem, de recuperação de fundos de
vale e do não aproveitamento dos vazios urbanos nos fundos de
vale não edificados para a reservação das águas (piscinões). |