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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 A urbanização e as enchentes
 por Gilberto da Silva

Cidade ilegal
Em tempos de enchentes devemos falar um pouco do processo de urbanização da cidade e as conseqüências para este processo acumulativo de carências sociais e da degradação do meio ambiente. A ausência de políticas públicas mais compatíveis com o processo de crescimento populacional resultou no aparecimento e expansão da chamada “cidade ilegal”, que foi ocupando os espaços vazios da cidade, junto aos córregos, nas periferias e nos mananciais.

Crescimento desordenado
O crescimento urbano da cidade de São Paulo foi caótico. Não se desenvolveu nenhum plano urbano para a metrópole. O que se viu foi uma maciça imigração de população atraída pelas oportunidades de emprego e ascensão social: um processo que aumentou a demanda por habitação, sistema viário, saneamento básico, transportes, enfim, por uma rede de infra-estrutura urbana.

A ocupação dos fundos de vale
Os vales dos rios que cortam a bacia sedimentar de São Paulo têm servido, ao longo da história, de sítio preferencial para a instalação industrial, uma vez que duas estradas de ferro foram instaladas nesta região (Estrada de Ferro São Paulo Railway, conhecida como a “Inglesa” e concluída em 1867) e a Estrada de Ferro Central do Brasil, ligando São Paulo ao Rio de Janeiro, que acentuou ainda mais a bipartição do espaço disponível na cidade) e, posteriormente, o transporte rodoviário, com a “Caminho do Mar”, e depois a Via Anchieta, inaugurada em 1947. Este processo de ocupação foi muito bem estudado pelo geógrafo Aziz Ab`Saber (será que vão esperar pela sua ausência física para reconhecerem este grande cientista?). 

Degradação ambiental
Os fundos de vale são na sua maioria ocupados por populações de baixa renda. As favelas foram obrigadas a ocupar as margens dos córregos diminuindo a largura dos canais. A falta de saneamento e a coleta de lixo deficiente transformaram os leitos dos córregos em depósitos de entulho e refugos em geral, criando obstáculos ao escoamento das águas.
Vale notar que a política de construir avenidas de fundo de vale — adotada como a solução para a crescente circulação de transporte individual na cidade —acabou por tornar o fluxo de pessoas refém dos espasmos climáticos na cidade (enchentes no Aricanduva, Pinheiros e Tietê, por exemplo).

Impermeabilização indiscriminada
Com a ocupação caótica vieram a impermeabilização indiscriminada do solo urbano, fazendo com que as águas pluviais cheguem mais rapidamente aos fundos de vale, e com ela a erosão, resultando no crescente assoreamento dos rios, córregos e galerias e no volume de águas que mais rapidamente chegam aos fundos de vale.

Política ambiental
Uma política ambiental em São Paulo, em especial nos fundos de vale, deve aprofundar a utilização dos parâmetros do meio físico, de forma a incorporar as características sócio-econômicas e culturais da população, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.

Gastos públicos e privados
As enchentes constantes são fazem aumentar o gasto com a saúde pública derivado de problemas tais como a leptospirose; desperdício de recursos representados por perda de bens privados; altos custos com a recuperação de equipamentos públicos danificados; perdas de horas trabalhadas e recursos econômicos derivados no caso da cidade ficar paralisada por inundações.

Só perdas
Portanto, a cidade só tem a perder com a falta de investimentos em obras de drenagem, de recuperação de fundos de vale e do não aproveitamento dos vazios urbanos nos fundos de vale não edificados para a reservação das águas (piscinões).



Gilberto da Silva é jornalista e editor da revista Partes. E-mail gilberto@partes.com.br


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