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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 Brasil: um país que precisa mudar
 por
Adilson Luiz Gonçalves

Creio expressar o sentimento de muitos brasileiros quando afirmo que nunca foi tão difícil ter esperança como nos dias de hoje. Esse estado, paradoxalmente, é fruto de um fator positivo: a liberdade de imprensa.

Provavelmente, tudo o que tomamos conhecimento hoje, e que nos estarrece, já vem sendo praticado há muitos anos, quiçá décadas, provavelmente séculos, como numa peça teatral que atravessa os tempos, mudando, apenas, seu elenco. A encenação é de péssimo enredo, mas somos obrigados a assisti-la, pagando um preço extorsivo, às vezes nossa própria vida!

Escândalos políticos, envolvendo todas as esferas de poder e partidos, vêm produzindo um quadro dantesco de violência e impunidade, que demonstra que o povo nunca é, nem foi, protagonista nessa “democracia”. O que vem importando a esses poucos, na verdade, é atingir o poder, exercê-lo, mantê-lo e tirar o maior proveito possível dele, tal qual uma praga de gafanhotos, não importando os efeitos sobre a população.

Ideologias só aparecem sob forma de discurso inócuo, para justificar o injustificável, e travestir atitudes iníquas.

Ideologia, no Brasil, aliás, é algo tão vago como a direção dos ventos, e flutua ao seu sabor.

É curioso observar alguns pensadores brasileiros “influentes”. Formam curiosos grupos, de posturas divergentes, mas que compartilham gostos refinados, além de um onipresente culto a si próprios. 

Existem os que propõem fórmulas e regras para convivência em sociedade, mas que evitam participar de sua prática como forma de evitar desgaste político e pessoal. Definem sociedades igualitárias e perfeitas, na qualidade de mentores e juizes, jamais como elementos intrínsecos. A posição de eterno crítico e a justificativa de que suas “idéias” foram adulteradas acabam servindo como um escudo que defende o altar em que se colocam, esquecendo que cultura e inteligência, sem sabedoria, não têm nenhum valor pragmático. 

Há os que participam de governos, abandonado-os nos primeiros percalços, propalando que a prática do poder não é compatível com suas crenças. Demonstram, na verdade, que seu discurso está longe do mundo “real”, e que pouco, ou nenhum, poder transformador apresenta. Na verdade, estão mais preocupados em zelar por sua “reputação” perante outros “intelectuais” ou, quem sabe, temerosos de concluírem que a imagem que fazem de si próprios é tão frágil que seus discípulos, por mais deslumbrados que sejam, também possam chegar a mesma conclusão. 

Existem, ainda, aqueles que abraçam – melhor seria: agarram – o poder, e pedem para que esqueçam tudo o que pensaram e escreveram; aqueles cujos ideais sucumbem aos projetos pessoais de grandeza; os que fazem oposição “ideológica” oportunista, aguardando que o incômodo que provocam lhes abra as portas do poder, momento a partir do qual, todas as suas críticas são “relativizadas”, e todo o objeto de escândalo é justificado. São adeptos de uma espécie de mimetismo de caráter, adaptando-se sem, jamais, admitirem sua leviandade e empáfia.

E o que dizer de alguns de nossos políticos? Quanto benefício conseguiram para a sociedade e quanto para si próprios? Quanto se dedicam aos interesses do povo e quanto aos seus projetos pessoais?

Como analisar as leis dúbias que criam, o clientelismo, a corrupção ativa e passiva, o enriquecimento ilícito, o nepotismo, o loteamento de cargos, o fisiologismo, a negação de suas plataformas eleitorais, o voto secreto, o desvio de verbas, a impunidade, a eterna justificativa de que o eleitorado lhes conferiu o mandato e que suas atitudes – quaisquer que sejam - são respaldadas por ele?

Como analisar uma democracia em que o voto nada mais é que moeda, que só tem valor para os políticos? E moeda que tem um estranho valor de câmbio pois, se nada vale para o eleitor, valoriza absurdamente para os eleitos.

É possível justificar as fortunas gastas em campanhas eleitorais - que as remunerações e verbas de exercício dos cargos jamais cobririam – sem o comprometimento do financiado com o financiador?

Para esses políticos, a longa história da corrupção em nosso país, passada como um bastão de revezamento, transformaram a imoralidade em uso e costume!

Apesar do esforço investigativo da imprensa livre, do Brasil, escândalos políticos e administrativos só vieram à tona porque partícipes de seus esquemas sentiram-se prejudicados, ou descobriram que tinham doenças incuráveis, sendo acometidos de súbita crise de patriotismo ético! 

Menos mal. 

Alguém ainda acredita que o modelo eleitoral brasileiro permite ao eleitor punir, pelo poder do voto, o político inadequado? De cargos eleitorais pode ser, mas todos acabam nomeados em cargos públicos, permanecendo no exercício do poder para o qual a sociedade o desautorizou.

Isto faz com que o Brasil seja, tradicionalmente, considerado uma nação problemática no quesito idoneidade. Faz jus, com “méritos”, a essa classificação: pedindo emprestado o que não pode pagar, submetendo-se ao jugo das potências econômicas de plantão e seus braços globalizados, mantendo o “coronelismo”, o “paternalismo”, o “apadrinhamento”, o enriquecimento ilícito, e exacerbando, até os últimos limites, a prática nefasta do mote: “tudo tem seu preço”. O problema é que o preço é sempre pago pela sociedade, enquanto os atores permanecem imunes aos efeitos de seus atos, mantendo um discurso repleto de ética e moral, indignados e inconformados com as críticas que recebem, pois, em suas mentes deturpadas, estão fazendo o que é natural e histórico, sendo a “vez deles” de fazê-lo, por direito.

Será que eles não atinam que os atos que praticam tem conseqüências sociais terríveis? Freqüentando, hipócritas, suas igrejas e templos, têm coragem de encarar sua fé e seus irmãos sem remorsos? Ou crêem, sinceramente, que, como Judas Iscariotes, suas atitudes são necessárias à redenção da Humanidade? 

Obras superfaturadas e/ou desnecessárias, verbas desviadas de programas sociais, propinas, tráfico de influência e outras falcatruas, matam de sede, de fome e de doença, geram analfabetismo, induzem ao crime, frustram perspectivas de ascensão profissional e social, alienam gerações! Não seria nenhum absurdo se sua prática fosse assemelhada a genocídio ou crime contra a Humanidade, tão graves são suas conseqüências e injustificáveis seus motivos.

Esse caos moral e ético tem levado a conseqüências terríveis no cotidiano das vítimas que somos nós. O crime organizado grassa, transformado em negócio lucrativo, e transformando seu “combate” em algo igualmente vantajoso, num círculo vicioso que tende a se perpetuar, se depender de seus protagonistas; falsos profetas tiram proveito do desespero do povo, incentivando a intolerância entre credos, e transformando religião em atividade competição de mercado; a ascendência divina da nobreza de outrora foi substituída pela arrogância secular da burguesia abastada que, como aquela, encastela-se para proteger-se da plebe faminta e desnorteada, ignorando ou execrando sua existência. Daí para pregações eugênicas basta um passo!

Complementando o quadro, temos uma absoluta falta de consciência nacional, fomentada por anos e anos de alienação, patrocinada pelas elites dirigentes e seus rivais da oposição, cada um a seu modo, igualmente, eficiente. Se no Carnaval e nas conquistas esportivas somos todos brasileiros, nas mazelas e vícios de nosso país, dizemos que não temos nada com isso. Somos, então: portugueses, espanhóis, libaneses, italianos, ingleses, japoneses, etc., com dupla cidadania e tudo o mais, esquecendo que, lá, somos tratados como cidadãos de segunda categoria, obrigados a “matar um leão por dia”, para provar que fugimos ao estereótipo cuidadosamente cultivado pelos que exportam a imagem de nosso país, e pela nossa total incapacidade de transformar essa realidade funesta.

Também é deprimente constatarmos que, com grande cota de nossa responsabilidade, os sonhos da maioria de nossa juventude monossilábica, assexuada, masoquista (tatuam e perfuram sua pele, e estouram seus tímpanos com sons hipnóticos) limitam-se a: mudar para os Estados Unidos ou Europa (mesmo na clandestinidade); alcançar “status” na contravenção e no crime (mesmo a custa da vida de outros ou da própria); ter experiências sensoriais precoces, intensas e sem limites; ou buscar seus “quinze minutos” de fama na mídia em atividades artísticas ou esportivas de gosto e qualidade duvidosos além de degradantes.

O Brasil precisa deixar de ser a terra do oportunismo, para transformar-se em terra de oportunidades. Precisa livrar-se dos que criam dificuldades para vender facilidades, dos que apascentam rebanhos para melhor tosquiá-los, e dos que cultivam e se alimentam da miséria humana, para tê-la como mercadoria barata. Necessita de uma visceral revolução, que nada tem com a ideologia fenecida da “luta armada”, que pregava a extinção das elites aristocráticas e burguesas em nome da soberania popular, mas que – apesar de alguns aspectos positivos - criavam outras, burocráticas, igualmente autoritárias e hegemônicas, tão vinculadas a (e sustentadas por) interesses externos (primeiro da URSS, depois do Leste Europeu e, agora, de Cuba) quanto o capitalismo e o neo-liberalismo. Essa revolução tem que ser de ordem moral e ética; globalizada, no sentido de convivência pacífica e tolerante entre povos, mas nacionalista, buscando a estabilidade social e econômica, e um ambiente favorável ao desenvolvimento de todas as potencialidades do povo brasileiro que, contrariamente a grande parte dos que dirigem os destinos da Nação, é de boa índole, trabalhador, honesto, sincero, inteligente, solidário e com uma imensa capacidade de superação.

Nesse contexto, o esforço deve ser de cada um, pois, independente de formação acadêmica, ascensão social, credo religioso ou ideológico, todos somos pensadores e políticos, apesar do incansável e eficiente esforço das elites - sejam de esquerda ou direita – em alienar-nos para, melhor, dirigir-nos, tratando-nos como se fosse impossível alcançar a felicidade sem o seu auxílio.

Precisamos de menos líderes e mais porta-vozes, de mais ideais e menos culto a personalidades, de mais crises de consciência (seria sadismo mórbido pedir por mais traições ou doenças incuráveis), de menos discurso e mais ação contra a corrupção e a inércia. Essas, sim, são as maiores inimigas do Brasil, e delas decorrem todos os males que afligem nossa Nação!

Cabe a Imprensa Livre, uma vez mais, papel preponderante nesse processo. Não esperamos menos que isso dela!

 

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Adilson Luiz Gonçalves, 42. Engenheiro Civil, Professor Universitário e Perito-Avaliador, residente em Santos - SP)

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