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Creio
expressar o sentimento de muitos brasileiros quando afirmo que
nunca foi tão difícil ter esperança como nos dias de hoje. Esse
estado, paradoxalmente, é fruto de um fator positivo: a liberdade
de imprensa.
Provavelmente,
tudo o que tomamos conhecimento hoje, e que nos estarrece, já vem
sendo praticado há muitos anos, quiçá décadas, provavelmente séculos,
como numa peça teatral que atravessa os tempos, mudando, apenas,
seu elenco. A encenação é de péssimo enredo, mas somos
obrigados a assisti-la, pagando um preço extorsivo, às vezes
nossa própria vida!
Escândalos
políticos, envolvendo todas as esferas de poder e partidos, vêm
produzindo um quadro dantesco de violência e impunidade, que
demonstra que o povo nunca é, nem foi, protagonista nessa
“democracia”. O que vem importando a esses poucos, na verdade,
é atingir o poder, exercê-lo, mantê-lo e tirar o maior proveito
possível dele, tal qual uma praga de gafanhotos, não importando
os efeitos sobre a população.
Ideologias
só aparecem sob forma de discurso inócuo, para justificar o
injustificável, e travestir atitudes iníquas.
Ideologia,
no Brasil, aliás, é algo tão vago como a direção dos ventos,
e flutua ao seu sabor.
É
curioso observar alguns pensadores brasileiros “influentes”.
Formam curiosos grupos, de posturas divergentes, mas que
compartilham gostos refinados, além de um onipresente culto a si
próprios.
Existem
os que propõem fórmulas e regras para convivência em sociedade,
mas que evitam participar de sua prática como forma de evitar
desgaste político e pessoal. Definem sociedades igualitárias e
perfeitas, na qualidade de mentores e juizes, jamais como
elementos intrínsecos. A posição de eterno crítico e a
justificativa de que suas “idéias” foram adulteradas acabam
servindo como um escudo que defende o altar em que se colocam,
esquecendo que cultura e inteligência, sem sabedoria, não têm
nenhum valor pragmático.
Há
os que participam de governos, abandonado-os nos primeiros percalços,
propalando que a prática do poder não é compatível com suas
crenças. Demonstram, na verdade, que seu discurso está longe do
mundo “real”, e que pouco, ou nenhum, poder transformador
apresenta. Na verdade, estão mais preocupados em zelar por sua
“reputação” perante outros “intelectuais” ou, quem sabe,
temerosos de concluírem que a imagem que fazem de si próprios é
tão frágil que seus discípulos, por mais deslumbrados que
sejam, também possam chegar a mesma conclusão.
Existem,
ainda, aqueles que abraçam – melhor seria: agarram – o poder,
e pedem para que esqueçam tudo o que pensaram e escreveram;
aqueles cujos ideais sucumbem aos projetos pessoais de grandeza;
os que fazem oposição “ideológica” oportunista, aguardando
que o incômodo que provocam lhes abra as portas do poder, momento
a partir do qual, todas as suas críticas são
“relativizadas”, e todo o objeto de escândalo é justificado.
São adeptos de uma espécie de mimetismo de caráter,
adaptando-se sem, jamais, admitirem sua leviandade e empáfia.
E
o que dizer de alguns de nossos políticos? Quanto benefício
conseguiram para a sociedade e quanto para si próprios? Quanto se
dedicam aos interesses do povo e quanto aos seus projetos
pessoais?
Como
analisar as leis dúbias que criam, o clientelismo, a corrupção
ativa e passiva, o enriquecimento ilícito, o nepotismo, o
loteamento de cargos, o fisiologismo, a negação de suas
plataformas eleitorais, o voto secreto, o desvio de verbas, a
impunidade, a eterna justificativa de que o eleitorado lhes
conferiu o mandato e que suas atitudes – quaisquer que sejam - são
respaldadas por ele?
Como
analisar uma democracia em que o voto nada mais é que moeda, que
só tem valor para os políticos? E moeda que tem um estranho
valor de câmbio pois, se nada vale para o eleitor, valoriza
absurdamente para os eleitos.
É
possível justificar as fortunas gastas em campanhas eleitorais -
que as remunerações e verbas de exercício dos cargos jamais
cobririam – sem o comprometimento do financiado com o
financiador?
Para
esses políticos, a longa história da corrupção em nosso país,
passada como um bastão de revezamento, transformaram a
imoralidade em uso e costume!
Apesar
do esforço investigativo da imprensa livre, do Brasil, escândalos
políticos e administrativos só vieram à tona porque partícipes
de seus esquemas sentiram-se prejudicados, ou descobriram que
tinham doenças incuráveis, sendo acometidos de súbita crise de
patriotismo ético!
Menos
mal.
Alguém
ainda acredita que o modelo eleitoral brasileiro permite ao
eleitor punir, pelo poder do voto, o político inadequado? De
cargos eleitorais pode ser, mas todos acabam nomeados em cargos públicos,
permanecendo no exercício do poder para o qual a sociedade o
desautorizou.
Isto
faz com que o Brasil seja, tradicionalmente, considerado uma nação
problemática no quesito idoneidade. Faz jus, com “méritos”,
a essa classificação: pedindo emprestado o que não pode pagar,
submetendo-se ao jugo das potências econômicas de plantão e
seus braços globalizados, mantendo o “coronelismo”, o
“paternalismo”, o “apadrinhamento”, o enriquecimento ilícito,
e exacerbando, até os últimos limites, a prática nefasta do
mote: “tudo tem seu preço”. O problema é que o preço é
sempre pago pela sociedade, enquanto os atores permanecem imunes
aos efeitos de seus atos, mantendo um discurso repleto de ética e
moral, indignados e inconformados com as críticas que recebem,
pois, em suas mentes deturpadas, estão fazendo o que é natural e
histórico, sendo a “vez deles” de fazê-lo, por direito.
Será
que eles não atinam que os atos que praticam tem conseqüências
sociais terríveis? Freqüentando, hipócritas, suas igrejas e
templos, têm coragem de encarar sua fé e seus irmãos sem
remorsos? Ou crêem, sinceramente, que, como Judas Iscariotes,
suas atitudes são necessárias à redenção da Humanidade?
Obras
superfaturadas e/ou desnecessárias, verbas desviadas de programas
sociais, propinas, tráfico de influência e outras falcatruas,
matam de sede, de fome e de doença, geram analfabetismo, induzem
ao crime, frustram perspectivas de ascensão profissional e
social, alienam gerações! Não seria nenhum absurdo se sua prática
fosse assemelhada a genocídio ou crime contra a Humanidade, tão
graves são suas conseqüências e injustificáveis seus motivos.
Esse
caos moral e ético tem levado a conseqüências terríveis no
cotidiano das vítimas que somos nós. O crime organizado grassa,
transformado em negócio lucrativo, e transformando seu
“combate” em algo igualmente vantajoso, num círculo vicioso
que tende a se perpetuar, se depender de seus protagonistas;
falsos profetas tiram proveito do desespero do povo, incentivando
a intolerância entre credos, e transformando religião em
atividade competição de mercado; a ascendência divina da
nobreza de outrora foi substituída pela arrogância secular da
burguesia abastada que, como aquela, encastela-se para proteger-se
da plebe faminta e desnorteada, ignorando ou execrando sua existência.
Daí para pregações eugênicas basta um passo!
Complementando
o quadro, temos uma absoluta falta de consciência nacional,
fomentada por anos e anos de alienação, patrocinada pelas elites
dirigentes e seus rivais da oposição, cada um a seu modo,
igualmente, eficiente. Se no Carnaval e nas conquistas esportivas
somos todos brasileiros, nas mazelas e vícios de nosso país,
dizemos que não temos nada com isso. Somos, então: portugueses,
espanhóis, libaneses, italianos, ingleses, japoneses, etc., com
dupla cidadania e tudo o mais, esquecendo que, lá, somos tratados
como cidadãos de segunda categoria, obrigados a “matar um leão
por dia”, para provar que fugimos ao estereótipo cuidadosamente
cultivado pelos que exportam a imagem de nosso país, e pela nossa
total incapacidade de transformar essa realidade funesta.
Também
é deprimente constatarmos que, com grande cota de nossa
responsabilidade, os sonhos da maioria de nossa juventude monossilábica,
assexuada, masoquista (tatuam e perfuram sua pele, e estouram seus
tímpanos com sons hipnóticos) limitam-se a: mudar para os
Estados Unidos ou Europa (mesmo na clandestinidade); alcançar
“status” na contravenção e no crime (mesmo a custa da vida
de outros ou da própria); ter experiências sensoriais precoces,
intensas e sem limites; ou buscar seus “quinze minutos” de
fama na mídia em atividades artísticas ou esportivas de gosto e
qualidade duvidosos além de degradantes.
O
Brasil precisa deixar de ser a terra do oportunismo, para
transformar-se em terra de oportunidades. Precisa livrar-se dos
que criam dificuldades para vender facilidades, dos que apascentam
rebanhos para melhor tosquiá-los, e dos que cultivam e se
alimentam da miséria humana, para tê-la como mercadoria barata.
Necessita de uma visceral revolução, que nada tem com a
ideologia fenecida da “luta armada”, que pregava a extinção
das elites aristocráticas e burguesas em nome da soberania
popular, mas que – apesar de alguns aspectos positivos - criavam
outras, burocráticas, igualmente autoritárias e hegemônicas, tão
vinculadas a (e sustentadas por) interesses externos (primeiro da
URSS, depois do Leste Europeu e, agora, de Cuba) quanto o
capitalismo e o neo-liberalismo. Essa revolução tem que ser de
ordem moral e ética; globalizada, no sentido de convivência pacífica
e tolerante entre povos, mas nacionalista, buscando a estabilidade
social e econômica, e um ambiente favorável ao desenvolvimento
de todas as potencialidades do povo brasileiro que, contrariamente
a grande parte dos que dirigem os destinos da Nação, é de boa
índole, trabalhador, honesto, sincero, inteligente, solidário e
com uma imensa capacidade de superação.
Nesse
contexto, o esforço deve ser de cada um, pois, independente de
formação acadêmica, ascensão social, credo religioso ou ideológico,
todos somos pensadores e políticos, apesar do incansável e
eficiente esforço das elites - sejam de esquerda ou direita –
em alienar-nos para, melhor, dirigir-nos, tratando-nos como se
fosse impossível alcançar a felicidade sem o seu auxílio.
Precisamos
de menos líderes e mais porta-vozes, de mais ideais e menos culto
a personalidades, de mais crises de consciência (seria sadismo mórbido
pedir por mais traições ou doenças incuráveis), de menos
discurso e mais ação contra a corrupção e a inércia. Essas,
sim, são as maiores inimigas do Brasil, e delas decorrem todos os
males que afligem nossa Nação!
Cabe a Imprensa Livre, uma vez mais, papel
preponderante nesse processo. Não esperamos menos que isso dela!
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