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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 À MEDIDA QUE/NA MEDIDA EM QUE - Tornar públicas
 por Maria Tereza de Queiroz Piacentini
São duas locuções diferentes, embora semelhantes na aparência, o que tem levado muitas pessoas - mesmo com bom conhecimento da língua - a fazer um cruzamento entre elas, como li há pouco tempo:

:(*À medida em que recuavam, o exército russo e a população civil iam queimando plantações e destruindo fábricas.

A locução conjuntiva à medida que - com crase e sem a preposição ‘em’ - está classificada entre as conjunções subordinativas proporcionais; portanto, tem o mesmo significado de à proporção que, como nos seguintes exemplos:

(1) "À medida que o regime foi se consolidando, só o caminho que Jango preconizava, de resistência política, é que podia mesmo prevalecer", reconhece Brizola.

(2) No caso do Mal de Alzheimer, que é a principal doença da memória, os neurônios são destruídos à medida que a enfermidade avança.

A segunda locução, de uso mais recente, não se encontra nos livros de gramática tradicionais. Não sendo legitimada, não era ensinada na escola. Para desfazer a confusão: na medida em que se encaixa nas conjunções causais, tendo o sentido aproximado de "pelo fato (razão, motivo) de que, uma vez que, já que, porquanto":

(3) O Estado, na medida em que se responsabiliza apenas pelo financiamento do Ensino Fundamental, estaria se abstendo de cumprir seu papel de promotor do bem comum.

(4) Essa concepção de linguagem está associada à teoria da comunicação e é falha na medida em que reserva ao emissor um papel ativo e ao receptor um papel passivo.

(5) O currículo escolar daria então sua contribuição na medida em que abrisse discussões ideológicas e metodológicas.

A quem gosta de utilizar essa expressão, alerto: cuidado para não abusar dela, pois é muito forte, e sua repetição contínua pode deixar o texto pesado. Às vezes você pode fazer a troca por uma oração reduzida de infinitivo, veja:

(3) O Estado, ao se responsabilizar pelo financiamento do Ensino Fundamental, estaria se abstendo de cumprir seu papel de promotor do bem comum.
(4) Essa concepção de linguagem está associada à teoria da comunicação e é falha ao reservar (quando reserva) ao emissor um papel ativo e ao receptor um papel passivo.
(5) O currículo escolar daria então sua contribuição ao abrir discussões ideológicas e metodológicas.



TORNAR PÚBLICAS AS MANOBRAS

:(* Ela voluntariamente tornou público as manobras do governo.


Atendendo às regras da concordância nominal – o adjetivo concorda em gênero e número com o substantivo a que se refere – corrija-se essa frase para:

- Ela voluntariamente tornou públicas as manobras do governo.

Acredito que o redator foi induzido ao erro pelo fato de ser mais usual a expressão "tornar público" (no masculino), que é assim usada com o conectivo "que":

- A empresa Santec torna público que estão abertas as inscrições...
- O governo do Estado torna público que no dia 17 dará início ao processo.

Não havendo o conectivo, mas sim um substantivo, é preciso fazer a devida concordância:

[masc. singular] ...torna público o balanço da empresa.
[masculino plural] ...torna públicos os resultados obtidos.
[feminino singular] ...torna pública a realização de processo licitatório.
[feminino plural] ...torna públicas as datas de abertura dos envelopes.



Maria Tereza de Queiroz Piacentini, autora dos livros "Só Vírgula" e "Só Palavras Compostas", é diretora do Instituto Euclides da Cunha, www.linguabrasil.com.br


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