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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 É possível uma outra globalização? Parte 1
 por Gilberto da Silva

“-Os computadores das mega-corporações trabalham full-time, dia-após-dia. Seus altos executivos circulam num mundo de fanatismo e devoção, venerando o onipresente deus Naiq. Mesmo quando deveriam estar de folga, eles não param de pesquisar, investigando as ruas, buscando novas pistas. Há décadas, eles vêm comprando e subornando congressistas, democratas, modernos, liberais, patrocinando campanhas presidenciais, financiando planos de governo, armando, tramando novos consórcios globais que assumem rapidamente o controle de imensos e estratégicos patrimônios estatais – enfim, conquistando pequenos, médios, grandes mercados emergentes em todos os continentes (aquilo, aquilo que antes chamávamos de países).

“Não, não, não estamos falando só de macroeconomia ou geopolítica. Estamos falando de mutações, instituições, partidos, valores e concepções (religiões, no final das contas) que se anulam ou se reciclam vulgarmente a cada rotação da terra. De almas e mentes mutantes. Dos abjetos seres PDM – Portadores de Deficiência Moral. Mas exibindo seus reluzentes celulares digitais, palm-tops, pára-brisas blindados e bonés Naiq, esses são apenas os patéticos vilões da nossa história. Para enquadrarmos os heróis, temos que deslocar o cenário.  Visualizemos uma zona metropolitana de um mercado decadente, berço de um verdadeiro exército de desajustados batedores.  Becos da fome... Cassetetes...Escopetas...

Nesse ambiente hostil, a senha para a sobrevivência consiste numa resposta equilibrada para um recorrente conflito. De um lado a duvidosa e farsesca resistência das consagradas tradições, e de outro a perigosa sedução das antenas...”  

Trecho da música Batedores (Grupo Mundo Livre S/A– álbum: Por Pouco. Ano 2000 – Abril Music). 

1. Introdução 

“Hoje em dia, tudo parece levar no seu seio a sua própria contradição. Vemos que as máquinas, dotadas da propriedade maravilhosa de reduzir e tornar mais frutífero o trabalho humano, provocam a fome e o esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recém-descobertas se convertem, por artes de um estranho malefício, em fontes de privações. Os trunfos da arte parecem adquiridos ao preço de qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é cada vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se transforma em escravo de outros homens ou da própria infâmia.”
Karl Marx – Discurso pronunciado na festa de aniversário do “People´s Paper”

Para efeito deste artigo nos baseamos fundamentalmente nas seguintes obras, A Armadilha da Globalização – o assalto à democracia e ao bem-estar social, de Hans-Peter Martin e Harald Schumann e no livro Por uma outra globalização – Do Pensamento Único à Consciência Universal, de Milton Santos, porém recorremos a outras literaturas na expectativa compreender a globalização nas suas várias dimensões e na interdisciplinaridade. Não existe um consenso sobre esta questão, sobre o termo globalização ou mundialização como é usado em alguns países, ou até por Renato Ortiz, o que pode alterar ainda mais a semântica deste delicioso debate. Questões como a modernidade e o papel da comunicação de massa no processo de globalização merecem um grande destaca, porém, pelo conteúdo das duas obras aqui analisadas podemos deixar este debate para um momento posterior.

A globalização foi muito propagada pelos defensores do neoliberalismo e ainda deve ser vista como um processo excludente e que em nosso país está sendo usada como artifício de dominação e submissão aos interesses dos países ricos. Os executivos das multinacionais, as elites das corporações e das comunicações e os intelectuais “orgânicos”, usando uma expressão de Gramsci. Vendem-nos a economia de mercado como o único e duradouro remédio contra a pobreza.

Durante muito tempo nos disseram que a globalização era benéfica, um processo que traria muitos benefícios para as pessoas, que o governo devia sair do caminho do mercado— Menos Estado, mais Mercado — deixando para as corporações econômicas o papel de produzir e gerar empregos. O planeta é uma grande mercadoria, profetizava os mais radicais e entusiastas. Tudo deveria ser privatizado da água até a terra, a ciência e a tecnologia. Tudo conduzido pelo Deus Mercado e o Deus do Lucro. O privado invadindo o público. Devíamos deixar o caminho para o mundo livre, sem fronteiras para o fluxo irrestrito de bens e capital. Muitos só acordaram quando a crise financeira asiática, em 1997, deixou perplexo até o Fundo Monetário Internacional – FMI. Mas até o momento uma grande reação contra este processo de globalização não foi efetuada, salvo algumas raríssimas exceções.

Mas a globalização tem mostrado que nada mais é do que a face moderna, uma nova forma de dominação internacional baseada nas velhas práticas imperialistas e etnocêntricas.  A globalização prevê uma homogeneização de todos os procedimanetos do capital, mas sua lógica é essencialmente desigulatitária.

A globalização vem exercendo seu papel violador das culturas e da história, destruindo toda civilização que queira enfrentá-la.  Podemos até falar numa globalização do paladar, onde as pessoas comem para não sentir prazer e sim para se nutrir. É o gosto universal da Coca-Cola, dos BigMacs.

O econômico domina e a desigualdade avança junto com a desigualdade social. A cidadania foi praticamente banida. Globalizados, seremos cidadãos do mundo? E que mundo? Qual Estado?

Aquilo que nos parecia (ou foi imposta como) uma esperança para a sociedade excluída do país, tornou-se um pesadelo.

Os intelectuais favoráveis à esse tipo de globalização pregam a modernização econômica como o melhor remédio para combater a pobreza e a ignorância, e em muitos casos, encerram um preconceito religioso. 

MARTIN (p.24) nos ilustra com uma forte imagem do poder da sedução globalizante: “Na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, um vendedor ambulante hasteia orgulhoso a bandeira alemã. O homem negro de alguma forma é descendente de nacionalistas germânicos, mas os admira ´pela justiça existente na Alemanha, onde as pessoas humildes não são miseráveis´”

Este papel violador e tirano – e em muitas vezes assassina - é que passa pelo crivo crítico das duas obras básicas vista neste estudo.  

2. A balança desequilibrada 

“Sonhos continuam sendo sonhos, mesmo depois de provado que o caminho está errado” (MARTIN P.51). 

Na balança da globalização não há equilíbrio, pois ela tende a  otimizar o ganho, através da racionalidade do mercado. Neste sentido o livro A Armadilha da Globalização – O Assalto à democracia e ao Bem-Estar Social é um instigante trabalho empreendido por um advogado e engenheiro que atuam como jornalistas/correspondentes. O livro discute a globalização do ponto de vista jornalístico e europeu. É um dos primeiros livros sobre o processo de globalização. Um de seus autores participou como observador de um encontro de lideranças mundiais em São Francisco, em 1995. As elites reunidas resolveram “agradecer” o ex-presidente da ex-União Soviética, Mikhail Gorbachev, pelo desmonte que este realizou em seu país, ajudando o “pai da glasnost” a organizar o encontro.

 

Certos que estavam caminhando para a nova civilização, os organizadores do encontro sacramentaram a fórmula 20 por 80, “a sociedade de um quinto, e nela os sem-emprego terão de ser controlados por meio do tal “entretetanimento”” (MARTIN p.12).  No século XXI as elites empreenderão uma nova civilização onde 20% da força de trabalho bastará para girar a economia, a roda da produção, enquanto os demais 80% da população ficarão com o panis et circensis.

O “entretetanimento”, termo apresentado pelo ex-assessor de Segurança Nacional americano, Brzezinski, nada mais é do que a velha política do “pão e circo” mundializada. Numa sociedade extremamente tecnológica, elitizada, como manter uma imensidão de desempregados sem o uso da famosa fórmula da guerra? 

É esta visão de mundo pautada pela ótica da Disneylândia, do ideal americano, sobretudo californiano, de padrão de vida. Uma idéia de liberdade, de uma sociedade sedutora, informal, democrática, e feliz. Disney é cultura de massas, eficaz na infantilização, na técnica perfeita e no marketing eficiente. Já nos anos 70 o conteúdo imperialistas do quadrinhos de Disney era brilhantemente denunciado no panfleto “Para Ler o Pato Donald”, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Os autores examinaram como os personagens de Disney reproduziam a lógica capitalista, onde o dinheiro e a acumulação tinham papel predominante nas relações “interpessoais” entre os personagens e a visão que os quadrinhos passavam sobre outros povos. Os autores destacam o papel de dominação exercida pelos heróis americanos sobre os países subdesenvolvidos. 

Nos anos 90, Frederic Jameson, autor de Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio, elabora uma crítica a panacéia da globalização, analisada em todos os seus componentes: tecnológico, cultural, econômico, social e político  e elabora uma proposta ampla de resistência. Todos denunciando a padronização das culturas nacionais e locais e a abertura para a música, a literatura, o cinema e as roupas americanas. Muitos entendem esta padronização como a essência mesmo da globalização.1 

3. A democracia em risco 

Os componentes não democráticos da globalização são destacados pelos autores alemães que realizaram um delicioso panfleto contra a globalização excludente.  São marcados pela visão européia, que foram também realçados por Ignácio Ramonet, semiólogo e diretor do jornal francês Le Monde e criador da expressão globalitarismo fruto da fusão de globalização com totalitarismo: “Chamei os regimes que aplicam a globalização de forma radical de regimes globalitários. E esse totalitarismo põe em causa profundamente a democracia, porque, precisamente, transfere os centros de decisão para locais que não estão submetidos ao veredicto democrático. Os mercados financeiros não são democráticos”.2

Dentro desta perspectiva dos “regimes globalitários” e “pensamento único”, os autores alemães entendem a integração global como uma cilada para a democracia. O autores alemães entendem os arautos do mercado como utopistas, pois a raiz do problema está na internacionalização descontrola dos mercados e da avidez pelo lucro dos grandes conglomerados industriais. 

A globalização, na sua visão mais fundamentalista,  propõe a homogeneização dos espaços, do mundo. Milton Santos trata extensamente sobre este tema e um de seus últimos e mais interessantes livros, Por uma outra globalização (Record 2000) realiza uma reflexão crítica sobre o processo de globalização, com uma visão notadamente brasileira. Através do pensamento dialético o pensador baiano vê a saída no próprio bojo da globalização, pois ela é uma realidade histórica e não um dado da natureza. Para Milton Santos,  a construção do Brasil se fez de maneira que as mudanças não puderam ser registradas, a tal ponto que não sabemos exatamente o que é este país.  O pensador baiano, nascido em Brotas de Macaúbas, acredita que o Brasil nunca teve cidadãos e nem uma democracia consolidada e que a globalização provocava o “assassinato da solidariedade”. A racionalidade única não existe, assim com as formas de pensar são diversas e formas de viver e interagir no mundo são heterogêneas. 

Para SANTOS (p.45) é uma forma de “totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em noções que pareçam centrais à própria idéia da democracia — liberdade de opinião, de imprensa, tolerância —, utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é o mundo, e do que são os países e os lugares.”

Milton Santos, detentor do prêmio internacional Vautrin Lud (espécie de Nobel da Geografia) com uma sólida experiência com a intelectualidade européia e, sobretudo, francesa — morou e lecionou na França — acredita também que a globalização na sua atual forma exclui a democracia e é ela própria um sistema totalitário, perverso, sem ética e que elimina a política.  

Com as pessoas não tendo controle de suas vidas profissionais, e nem segurança no emprego, nem controle das instituições às quais pertencem, à medida que o sistema de informação está nas mãos de companhias privadas e internacionais, teremos direito à democracia?

 continua na próxima edição...



Gilberto da Silva é jornalista e editor da revista Partes. E-mail gilberto@partes.com.br

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