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“-Os
computadores das mega-corporações trabalham full-time, dia-após-dia.
Seus altos executivos circulam num mundo de fanatismo e devoção,
venerando o onipresente deus Naiq.
Mesmo quando deveriam estar de folga, eles não param de
pesquisar, investigando as ruas, buscando novas pistas. Há décadas,
eles vêm comprando e subornando congressistas, democratas,
modernos, liberais, patrocinando campanhas presidenciais,
financiando planos de governo, armando, tramando novos consórcios
globais que assumem rapidamente o controle de imensos e estratégicos
patrimônios estatais – enfim, conquistando pequenos, médios,
grandes mercados emergentes em todos os continentes (aquilo,
aquilo que antes chamávamos de países).
“Não,
não, não estamos falando só de macroeconomia ou geopolítica.
Estamos falando de mutações, instituições, partidos, valores e
concepções (religiões, no final das contas) que se anulam ou se
reciclam vulgarmente a cada rotação da terra. De almas e mentes
mutantes. Dos abjetos seres PDM – Portadores de Deficiência
Moral. Mas exibindo seus reluzentes celulares digitais, palm-tops,
pára-brisas blindados e bonés Naiq,
esses são apenas os patéticos vilões da nossa história. Para
enquadrarmos os heróis, temos que deslocar o cenário.
Visualizemos uma zona metropolitana de um mercado
decadente, berço de um verdadeiro exército de desajustados
batedores. Becos da
fome... Cassetetes...Escopetas...
Nesse
ambiente hostil, a senha para a sobrevivência consiste numa
resposta equilibrada para um recorrente conflito. De um lado a
duvidosa e farsesca resistência das consagradas tradições, e de
outro a perigosa sedução das antenas...”
Trecho
da música Batedores (Grupo
Mundo Livre S/A– álbum: Por Pouco. Ano 2000 – Abril Music).
1. Introdução
“Hoje
em dia, tudo parece levar no seu seio a sua própria contradição.
Vemos que as máquinas, dotadas da propriedade maravilhosa de
reduzir e tornar mais frutífero o trabalho humano, provocam a
fome e o esgotamento do trabalhador. As fontes de riqueza recém-descobertas
se convertem, por artes de um estranho malefício, em fontes de
privações. Os trunfos da arte parecem adquiridos ao preço de
qualidades morais. O domínio do homem sobre a natureza é cada
vez maior; mas, ao mesmo tempo, o homem se transforma em escravo
de outros homens ou da própria infâmia.”
Karl Marx – Discurso pronunciado na festa de aniversário do
“People´s Paper”
Para efeito deste artigo nos baseamos fundamentalmente nas
seguintes obras, A Armadilha
da Globalização – o assalto à democracia e ao bem-estar
social, de Hans-Peter Martin e Harald Schumann e no livro Por
uma outra globalização – Do Pensamento Único à Consciência
Universal, de Milton Santos, porém recorremos a outras
literaturas na expectativa compreender a globalização nas suas várias
dimensões e na interdisciplinaridade. Não existe um consenso
sobre esta questão, sobre o termo globalização ou mundialização
como é usado em alguns países, ou até por Renato Ortiz, o que
pode alterar ainda mais a semântica deste delicioso debate. Questões
como a modernidade e o papel da comunicação de massa no processo
de globalização merecem um grande destaca, porém, pelo conteúdo
das duas obras aqui analisadas podemos deixar este debate para um
momento posterior.
A globalização foi muito propagada pelos defensores do
neoliberalismo e ainda deve ser vista como um processo excludente
e que em nosso país está sendo usada como artifício de dominação
e submissão aos interesses dos países ricos. Os executivos das
multinacionais, as elites das corporações e das comunicações e
os intelectuais “orgânicos”, usando uma expressão de
Gramsci. Vendem-nos a economia de mercado como o único e
duradouro remédio contra a pobreza.
Durante muito tempo nos disseram que a globalização era
benéfica, um processo que traria muitos benefícios para as
pessoas, que o governo devia sair do caminho do mercado— Menos
Estado, mais Mercado — deixando para as corporações econômicas
o papel de produzir e gerar empregos. O planeta é uma grande
mercadoria, profetizava os mais radicais e entusiastas. Tudo
deveria ser privatizado da água até a terra, a ciência e a
tecnologia. Tudo conduzido pelo Deus Mercado e o Deus do Lucro. O
privado invadindo o público. Devíamos deixar o caminho para o
mundo livre, sem fronteiras para o fluxo irrestrito de bens e
capital. Muitos só acordaram quando a crise financeira asiática,
em 1997, deixou perplexo até o Fundo Monetário Internacional –
FMI. Mas até o momento uma grande reação contra este processo
de globalização não foi efetuada, salvo algumas raríssimas
exceções.
Mas a globalização tem mostrado que nada mais é do que a
face moderna, uma nova forma de dominação internacional baseada
nas velhas práticas imperialistas e etnocêntricas.
A globalização prevê uma homogeneização de todos os
procedimanetos do capital, mas sua lógica é essencialmente
desigulatitária.
A globalização vem exercendo seu papel violador das
culturas e da história, destruindo toda civilização que queira
enfrentá-la. Podemos
até falar numa globalização do paladar, onde as pessoas comem
para não sentir prazer e sim para se nutrir. É o gosto universal
da Coca-Cola, dos BigMacs.
O econômico domina e a
desigualdade avança junto com a desigualdade social. A cidadania
foi praticamente banida. Globalizados, seremos cidadãos do mundo?
E que mundo? Qual Estado?
Aquilo que nos parecia (ou foi
imposta como) uma esperança para a sociedade excluída do país,
tornou-se um pesadelo.
Os intelectuais favoráveis à
esse tipo de globalização pregam a modernização econômica
como o melhor remédio para combater a pobreza e a ignorância, e
em muitos casos, encerram um preconceito religioso.
MARTIN (p.24) nos ilustra com uma
forte imagem do poder da sedução globalizante: “Na praia de
Copacabana, Rio de Janeiro, um vendedor ambulante hasteia
orgulhoso a bandeira alemã. O homem negro de alguma forma é
descendente de nacionalistas germânicos, mas os admira ´pela
justiça existente na Alemanha, onde as pessoas humildes não são
miseráveis´”
Este papel violador e tirano –
e em muitas vezes assassina - é que passa pelo crivo crítico das
duas obras básicas vista neste estudo.
2. A balança desequilibrada
“Sonhos
continuam sendo sonhos, mesmo depois de provado que o caminho está
errado” (MARTIN P.51).
Na balança da globalização não
há equilíbrio, pois ela tende a
otimizar o ganho, através da racionalidade do mercado.
Neste sentido o livro A
Armadilha da Globalização – O Assalto à democracia e ao
Bem-Estar Social é um instigante trabalho empreendido por um
advogado e engenheiro que atuam como jornalistas/correspondentes.
O livro discute a globalização do ponto de vista jornalístico e
europeu. É um dos primeiros livros sobre o processo de globalização.
Um de seus autores participou como observador de um encontro de
lideranças mundiais em São Francisco, em 1995. As elites
reunidas resolveram “agradecer” o ex-presidente da ex-União
Soviética, Mikhail Gorbachev, pelo desmonte que este realizou em
seu país, ajudando o “pai da glasnost” a organizar o
encontro.
Certos que estavam caminhando
para a nova civilização, os organizadores do encontro
sacramentaram a fórmula 20 por 80, “a sociedade de um quinto, e
nela os sem-emprego terão de ser controlados por meio do tal “entretetanimento””
(MARTIN p.12). No século
XXI as elites empreenderão uma nova civilização onde 20% da força
de trabalho bastará para girar a economia, a roda da produção,
enquanto os demais 80% da população ficarão com o panis et
circensis.
O “entretetanimento”, termo
apresentado pelo ex-assessor de Segurança Nacional americano,
Brzezinski, nada mais é do que a velha política do “pão e
circo” mundializada. Numa sociedade extremamente tecnológica,
elitizada, como manter uma imensidão de desempregados sem o uso
da famosa fórmula da guerra?
É esta visão de mundo pautada
pela ótica da Disneylândia, do ideal americano, sobretudo
californiano, de padrão de vida. Uma idéia de liberdade, de uma
sociedade sedutora, informal, democrática, e feliz. Disney é
cultura de massas, eficaz na infantilização, na técnica
perfeita e no marketing eficiente. Já nos anos 70 o conteúdo
imperialistas do quadrinhos de Disney era brilhantemente
denunciado no panfleto “Para
Ler o Pato Donald”, de Ariel Dorfman e Armand Mattelart. Os
autores examinaram como os personagens de Disney reproduziam a lógica
capitalista, onde o dinheiro e a acumulação tinham papel
predominante nas relações “interpessoais” entre os
personagens e a visão que os quadrinhos passavam sobre outros
povos. Os autores destacam o papel de dominação exercida pelos
heróis americanos sobre os países subdesenvolvidos.
Nos anos 90, Frederic Jameson,
autor de Pós-modernismo: a
lógica cultural do capitalismo tardio, elabora uma crítica a
panacéia da globalização, analisada em todos os seus
componentes: tecnológico, cultural, econômico, social e político
e elabora uma proposta ampla de resistência. Todos
denunciando a padronização das culturas nacionais e locais e a
abertura para a música, a literatura, o cinema e as roupas
americanas. Muitos entendem esta padronização como a essência
mesmo da globalização.1
3. A democracia em risco
Os
componentes não democráticos da globalização são destacados
pelos autores alemães que realizaram um delicioso panfleto contra
a globalização excludente.
São marcados pela visão européia, que foram também realçados
por Ignácio Ramonet, semiólogo e diretor do jornal francês Le
Monde e criador da
expressão globalitarismo fruto da fusão de globalização com totalitarismo: “Chamei
os regimes que aplicam a globalização de forma radical de
regimes globalitários. E esse totalitarismo põe em causa
profundamente a democracia, porque, precisamente, transfere os
centros de decisão para locais que não estão submetidos ao
veredicto democrático. Os mercados financeiros não são democráticos”.2
Dentro
desta perspectiva dos “regimes globalitários” e “pensamento
único”, os autores alemães entendem a integração global como
uma cilada para a democracia. O autores alemães entendem os
arautos do mercado como utopistas, pois a raiz do problema está
na internacionalização descontrola dos mercados e da avidez pelo
lucro dos grandes conglomerados industriais.
A globalização, na sua visão
mais fundamentalista, propõe
a homogeneização dos espaços, do mundo. Milton Santos trata
extensamente sobre este tema e um de seus últimos e mais
interessantes livros, Por
uma outra globalização (Record 2000) realiza uma reflexão
crítica sobre o processo de globalização, com uma visão
notadamente brasileira. Através do pensamento dialético o
pensador baiano vê a saída no próprio bojo da globalização,
pois ela é uma realidade histórica e não um dado da natureza.
Para Milton Santos, a
construção do Brasil se fez de maneira que as mudanças não
puderam ser registradas, a tal ponto que não sabemos exatamente o
que é este país. O
pensador baiano, nascido em Brotas de Macaúbas, acredita que o
Brasil nunca teve cidadãos e nem uma democracia consolidada e que
a globalização provocava o “assassinato da solidariedade”. A
racionalidade única não existe, assim com as formas de pensar são
diversas e formas de viver e interagir no mundo são heterogêneas.
Para SANTOS (p.45) é uma forma
de “totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em
noções que pareçam centrais à própria idéia da democracia
— liberdade de opinião, de imprensa, tolerância —,
utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de
conhecimento do que é o mundo, e do que são os países e os
lugares.”
Milton Santos, detentor do prêmio
internacional Vautrin Lud (espécie de Nobel da Geografia) com uma
sólida experiência com a intelectualidade européia e,
sobretudo, francesa — morou e lecionou na França — acredita
também que a globalização na sua atual forma exclui a
democracia e é ela própria um sistema totalitário, perverso,
sem ética e que elimina a política.
Com as pessoas não tendo
controle de suas vidas profissionais, e nem segurança no emprego,
nem controle das instituições às quais pertencem, à medida que
o sistema de informação está nas mãos de companhias privadas e
internacionais, teremos direito à democracia?
continua na próxima
edição...
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