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Quando Jesus quis disseminar sua mensagem pelo mundo já sabia que
precisava de multiplicadores de opinião, os tais ‘fermentos da
massa’, e espalhou seus apóstolos pelo mundo então conhecido.
Deu certo. O Cristianismo ganhou força e dois mil e poucos anos
depois ninguém pode desconhecê-lo. O que não significa aceitá-lo.
Nem o próprio ‘Filho de Deus’ conseguiu tal proeza. Os fiéis
ao Cristianismo ainda são em menor número que os fiéis somados
do Judaísmo, Induísmo, Budismo, Islamismo, etc. Isso não tira
em nada o mérito do sucesso da campanha de divulgação de
Cristo, mas mostra o grau de dificuldade para se tentar mudar
valores e princípios, mesmo hoje, com todos os modernos meios de
comunicação à disposição.
Isso mostra um pouco o tamanho do desafio que temos pela frente
diante do conflito de paradigmas colocados pelo Fórum Econômico
Mundial, de Davos, e o Fórum Mundial Social, de Porto Alegre. O
que está em discussão é um novo modelo de valores e princípios
que deverá nortear nossa ação no mundo. A grosso modo existem
duas grandes visões em confronto. Uma visão economicista não
solidária, que transforma tudo em mercadoria, incluindo a força
de trabalho e a inteligência humana e todo o planeta junto, para
o fortalecimento e enriquecimento de um pequeno grupo de nações
e grandes empresas. Esta é a visão dominante, que nos trouxe até
aqui e que Davos pode significar sua culminância e também decadência.
E outra visão, de uma economia solidária, são só com as
pessoas, exigindo melhor justiça social e distribuição de
riquezas, mas também mais respeito ao Planeta e todas as suas
formas de vida. Esta nova visão foi referendada por mais de 50
mil multiplicadores de opinião, os tais ‘fermentos da massa’
em Porto Alegre, e tenderá a crescer em importância e influência
daqui para diante.
Entretanto, não devemos apostar muito no triunfo de uma visão
contra a outra, pois os privilegiados de sempre tenderão a fazer
como os monarcas do passado: liberar alguns anéis para não
perder os dedos. E isso já começou se observamos os discursos
dos poderosos em Davos que incluíram o tempo todo a necessidade
de combate à pobreza. Não deixa de ser irônico ver os
representantes das superpotências defendendo o fim da pobreza
quando são eles os representantes de uma situação de exploração
dos estados-nações em desenvolvimento, via juros impagáveis de
dívidas externas e apoio a administrações corruptas que
contraem tais dívidas para o enriquecimento de uma minoria, além
de darem abrigo a mega empresas multinacionais, que se colocam
acima das nações, das pessoas e do meio ambiente em suas metas
de lucros crescentes.
Soa falso, diante de exemplos como o dos EUA
que sozinho gasta cerca de 1 bilhão de dólares por dia em
armamentos. Parece que a proposta está mais para acabar com a
pobreza eliminando os pobres. A preocupação dos poderosos com o
destino do conjunto da Humanidade soa ainda mais falso quando um
de seus membros mais poderosos, os EUA, se recusam a assinar o
Protocolo de Kyoto para não reduzir seus enormes índices de
poluição para todo o Planeta, mostrando ao mundo que coloca seus
interesses econômicos acima dos interesses coletivos de toda a
Humanidade.
Quando pensamos em mudanças, precisamos enfrentar um fato
objetivo: de onde vem o poder dos poderosos? Da força das armas e
de seus exércitos? Claro que não. Vem do povo. É o povo quem dá
força aos poderosos. É o povo quem elege e deselege políticos e
é quem compra ou deixa de comprar produtos e serviços que criam
ou destróem as mega
empresas. Só que o povo não tem a consciência dessa sua força,
como um enorme elefante que permanece prisioneiro numa corrente
que agora é fraquinha, mas não era quando ele era pequeno e
tentava se libertar.
Será que o povo deseja mesmo uma economia solidária, como se fôssemos
uma enorme colméia de abelhas onde cada um faz a sua parte para o
bem de todos, ou no fundo no fundo, que vença o melhor e o mais
forte? O que está em discussão, é o grau de civilidade que a
Humanidade como um todo está disposta a adotar. Precisamos nos
olhar diante do espelho para saber se nossas palavras,
pensamentos, valores, desejos, não contradizem nossos atos. Como
agimos no nosso dia a dia? Quais são os valores e princípios que
nos movem em nosso cotidiano? O que sonhamos para os nossos filhos
no futuro e que futuro é esse que estamos construindo para nossos
filhos e netos? Enfim, qual é a nossa idéia de felicidade, para
nós e para os que dependem de nossos atos aqui e agora para ter
qualidade de vida no futuro?
Davos sobreviverá, enquanto nossa idéia de felicidade for
baseada na posse de bens materiais e na acumulação de riquezas,
enquanto ter for mais importante que ser. Então, se pretendemos
que os poderosos do mundo mudem, precisamos também saber se
estamos mudando a nós próprios, para não continuarmos a criar poderosos
com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade. |