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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 Davos sobreviverá?
 por Vilmar Berna

Quando Jesus quis disseminar sua mensagem pelo mundo já sabia que precisava de multiplicadores de opinião, os tais ‘fermentos da massa’, e espalhou seus apóstolos pelo mundo então conhecido. Deu certo. O Cristianismo ganhou força e dois mil e poucos anos depois ninguém pode desconhecê-lo. O que não significa aceitá-lo. Nem o próprio ‘Filho de Deus’ conseguiu tal proeza. Os fiéis ao Cristianismo ainda são em menor número que os fiéis somados do Judaísmo, Induísmo, Budismo, Islamismo, etc. Isso não tira em nada o mérito do sucesso da campanha de divulgação de Cristo, mas mostra o grau de dificuldade para se tentar mudar valores e princípios, mesmo hoje, com todos os modernos meios de comunicação à disposição.

Isso mostra um pouco o tamanho do desafio que temos pela frente diante do conflito de paradigmas colocados pelo Fórum Econômico Mundial, de Davos, e o Fórum Mundial Social, de Porto Alegre. O que está em discussão é um novo modelo de valores e princípios que deverá nortear nossa ação no mundo. A grosso modo existem duas grandes visões em confronto. Uma visão economicista não solidária, que transforma tudo em mercadoria, incluindo a força de trabalho e a inteligência humana e todo o planeta junto, para o fortalecimento e enriquecimento de um pequeno grupo de nações e grandes empresas. Esta é a visão dominante, que nos trouxe até aqui e que Davos pode significar sua culminância e também decadência. E outra visão, de uma economia solidária, são só com as pessoas, exigindo melhor justiça social e distribuição de riquezas, mas também mais respeito ao Planeta e todas as suas formas de vida. Esta nova visão foi referendada por mais de 50 mil multiplicadores de opinião, os tais ‘fermentos da massa’ em Porto Alegre, e tenderá a crescer em importância e influência daqui para diante.

Entretanto, não devemos apostar muito no triunfo de uma visão contra a outra, pois os privilegiados de sempre tenderão a fazer como os monarcas do passado: liberar alguns anéis para não perder os dedos. E isso já começou se observamos os discursos dos poderosos em Davos que incluíram o tempo todo a necessidade de combate à pobreza. Não deixa de ser irônico ver os representantes das superpotências defendendo o fim da pobreza quando são eles os representantes de uma situação de exploração dos estados-nações em desenvolvimento, via juros impagáveis de dívidas externas e apoio a administrações corruptas que contraem tais dívidas para o enriquecimento de uma minoria, além de darem abrigo a mega empresas multinacionais, que se colocam acima das nações, das pessoas e do meio ambiente em suas metas de lucros crescentes.

Soa falso, diante de exemplos como o dos EUA que sozinho gasta cerca de 1 bilhão de dólares por dia em armamentos. Parece que a proposta está mais para acabar com a pobreza eliminando os pobres. A preocupação dos poderosos com o destino do conjunto da Humanidade soa ainda mais falso quando um de seus membros mais poderosos, os EUA, se recusam a assinar o Protocolo de Kyoto para não reduzir seus enormes índices de poluição para todo o Planeta, mostrando ao mundo que coloca seus interesses econômicos acima dos interesses coletivos de toda a Humanidade.

Quando pensamos em mudanças, precisamos enfrentar um fato objetivo: de onde vem o poder dos poderosos? Da força das armas e de seus exércitos? Claro que não. Vem do povo. É o povo quem dá força aos poderosos. É o povo quem elege e deselege políticos e é quem compra ou deixa de comprar produtos e serviços que criam ou destróem as  mega empresas. Só que o povo não tem a consciência dessa sua força, como um enorme elefante que permanece prisioneiro numa corrente que agora é fraquinha, mas não era quando ele era pequeno e tentava se libertar.

Será que o povo deseja mesmo uma economia solidária, como se fôssemos uma enorme colméia de abelhas onde cada um faz a sua parte para o bem de todos, ou no fundo no fundo, que vença o melhor e o mais forte? O que está em discussão, é o grau de civilidade que a Humanidade como um todo está disposta a adotar. Precisamos nos olhar diante do espelho para saber se nossas palavras, pensamentos, valores, desejos, não contradizem nossos atos. Como agimos no nosso dia a dia? Quais são os valores e princípios que nos movem em nosso cotidiano? O que sonhamos para os nossos filhos no futuro e que futuro é esse que estamos construindo para nossos filhos e netos? Enfim, qual é a nossa idéia de felicidade, para nós e para os que dependem de nossos atos aqui e agora para ter qualidade de vida no futuro?

Davos sobreviverá, enquanto nossa idéia de felicidade for baseada na posse de bens materiais e na acumulação de riquezas, enquanto ter for mais importante que ser. Então, se pretendemos que os poderosos do mundo mudem, precisamos também saber se estamos mudando a nós próprios, para não continuarmos a criar poderosos com nossos falsos sonhos e perspectivas de felicidade.



Vilmar Berna é editor do Jornal do Meio Ambiente e autor de diversos livros entre os quais É possível ser Feliz e O Desafio do Mar.


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