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Revista Partes ano II março de 2002 n.20

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 "Não te cases com viúvo com filhos"
 por Fátima Teixeira

Sempre gostei de contar histórias aos meus filhos e depois aos meus netos. Eu os divertia inventando patacoadas, como também me divertia interpretando-as.

                                                        (Zélia Gattai no livro Códigos de Família)

A poucos dias terminei uma leitura muito interessante que acabou por me inspirar a escrever este artigo. O livro chama-se “Códigos de Família” da escritora Zélia Gattai e trata de histórias, falas, expressões do dia a dia que foram colecionadas pela família e por meio delas a escritora descreveu fatos e situações vividas e relatadas com muita naturalidade e alegria. 

A partir dos Códigos, a escritora resgatou a sua história de vida ao lado de Jorge Amado e de seus filhos Paloma e João Jorge, tendo como cenário a Bahia e vários países do mundo onde residiram ou visitaram, muitas vezes a convite dos governos em homenagens ao grande escritor brasileiro. 

Zélia Gattai escreveu esta obra numa fase muito difícil, quando seu marido e companheiro estava adoecido e bastante fragilizado. Ela encontrava-se muito desanimada e triste e provavelmente cairia em depressão se não fosse o estímulo de sua filha Paloma, que carinhosamente forneceu-lhe a lista de códigos que  inspirou a escritora a relatar de maneira suave e bem humorada as histórias colecionadas pela família. 

Zélia Gattai estava com mais de 80 anos de idade quando escreveu o livro em agosto de 2001, e ao meu entender demonstrou a importância da elaboração e execução de novos projetos que, quando realizados com prazer, nos impulsionam para a vida levando ao enfrentamento e  superação das dificuldades.  

A leitura me fez perceber que todas as família possuem seus próprios códigos que são criados dentro de uma determinada situação e passam a ser repetidos, sempre que nos deparamos com ocasiões semelhantes. 

Na minha família, por exemplo existe um “código”, criado há muitos anos por uma senhora portuguesa, que vivia no Brasil há mais de vinte anos, mas ainda carregava o forte sotaque da Ilha da Madeira. Sempre que nos visitava, queixava-se dos enteados e sempre em tom muito dramático, muitas vezes às lágrimas, aconselhava: “Não te cases com viúvo com filhos”. Quando ouvimos a frase pela primeira vez foi difícil conter as gargalhadas, que explodiram quando a pobre senhora deu-nos as costas. Desde então essa expressão é sempre repetida quando alguém vem reclamar dos filhos do primeiro casamento, e, em geral, acaba por descontrair a conversa. 

Penso que a idéia de resgatar códigos pode ser utilizada junto ao trabalho desenvolvido em grupos de terceira idade, como estratégia para reavivar a memória do idoso relembrando fatos e acontecimentos tanto da sua vida, como da comunidade ou ainda situações que passaram a ser folclóricas ou emblemáticas. Se constitui também numa oportunidade de conhecimento mútuo entre os integrantes do grupo e na possibilidade de recordar e reelaborar momentos da vida e da sociedade. Por outro lado o grupo pode criar e colecionar seus próprios “códigos” surgidos nos diversos momentos de convívio como passeios, festas e atividades do cotidiano da vida grupal.  

O grupo de Terceira Idade é reconhecido pelos idosos como um espaço de convívio, de aprendizado e de desenvolvimento de novas relações afetivas e sociais. A participação e convivência em grupo traz fortalecimento pessoal e uma maior motivação para a vida.  

É importante para o idoso manter-se interagindo com as novas gerações. Na medida em que ele relembra suas próprias histórias e as relata aos mais jovens ele estará passando também a memória social, familiar e grupal. Estará também ocupando um maior espaço na família e na sociedade. 

Por esses e muitos outros motivos eu recomendo a leitura de “Códigos de Família”, de Zélia Gattai, principalmente para os profissionais que atuam e se interessam pelo tema da Terceira Idade.



Fátima Teixeira é assistente social. E-mail fatima@partes.com.br


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