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“Sempre
gostei de contar histórias aos meus filhos e depois aos meus
netos. Eu os divertia inventando patacoadas, como também me
divertia interpretando-as.”
(Zélia Gattai no livro Códigos de Família)
A
poucos dias terminei uma leitura muito interessante que acabou por
me inspirar a escrever este artigo.
O livro
chama-se “Códigos de Família” da escritora Zélia Gattai e
trata de histórias, falas, expressões do dia a dia que foram
colecionadas pela família e por meio delas a escritora descreveu
fatos e situações vividas e relatadas com muita naturalidade e
alegria.
A
partir dos Códigos, a escritora resgatou a sua história de vida
ao lado de Jorge Amado e de seus filhos Paloma e João Jorge,
tendo como cenário a Bahia e vários países do mundo onde
residiram ou visitaram, muitas vezes a convite dos governos em
homenagens ao grande escritor brasileiro.
Zélia
Gattai escreveu esta obra numa fase muito difícil, quando seu
marido e companheiro estava adoecido e bastante fragilizado. Ela
encontrava-se muito desanimada e triste e provavelmente cairia em
depressão se não fosse o estímulo de sua filha Paloma, que
carinhosamente forneceu-lhe a lista de códigos que
inspirou a escritora a relatar de maneira suave e bem
humorada as histórias colecionadas pela família.
Zélia
Gattai estava com mais de 80 anos de idade quando escreveu o livro
em agosto de 2001, e ao meu entender demonstrou a importância da
elab oração e execução de novos projetos que, quando
realizados
com prazer, nos impulsionam para a vida levando ao enfrentamento e
superação das dificuldades.
A
leitura me fez perceber que todas as família possuem seus próprios
códigos que são criados dentro de uma determinada situação e
passam a ser repetidos, sempre que nos deparamos com ocasiões
semelhantes.
Na
minha família, por exemplo existe um “código”, criado há
muitos anos por uma senhora portuguesa, que vivia no Brasil há
mais de vinte anos, mas ainda carregava o forte sotaque da Ilha da
Madeira. Sempre que nos visitava, queixava-se dos enteados e
sempre em tom muito dramático, muitas vezes às lágrimas,
aconselhava: “Não te cases com viúvo com filhos”. Quando
ouvimos a frase pela primeira vez foi difícil conter as
gargalhadas, que explodiram quando a pobre senhora deu-nos as
costas. Desde então essa expressão é sempre repetida quando
alguém vem reclamar dos filhos do primeiro casamento, e, em
geral, acaba por descontrair a conversa.
Penso
que a idéia de resgatar códigos pode ser utilizada junto ao
trabalho desenvolvido em grupos de terceira idade, como estratégia
para reavivar a memória do idoso relembrando fatos e
acontecimentos tanto da sua vida, como da comunidade ou ainda
situações que passaram a ser folclóricas ou emblemáticas. Se
constitui também numa oportunidade de conhecimento mútuo entre
os integrantes do grupo e na possibilidade de recordar e
reelaborar momentos da vida e da sociedade. Por outro lado o grupo
pode criar e colecionar seus próprios “códigos” surgidos nos
diversos momentos de convívio como passeios, festas e atividades
do cotidiano da vida grupal.
O
grupo de Terceira Idade é reconhecido pelos idosos como um espaço
de convívio, de aprendizado e de desenvolvimento de novas relações
afetivas e sociais. A participação e convivência em grupo traz
fortalecimento pessoal e uma maior motivação para a vida.
É
importante para o idoso manter-se interagindo com as novas gerações.
Na medida em que ele relembra suas próprias histórias e as
relata aos mais jovens ele estará passando também a memória
social, familiar e grupal. Estará também ocupando um maior espaço
na família e na sociedade.
Por esses e muitos outros motivos eu recomendo a
leitura de “Códigos de Família”, de Zélia Gattai,
principalmente para os profissionais que atuam e se interessam
pelo tema da Terceira Idade. |