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Outro
dia pensava sobre os tipos de classes sociais ou classes
de comportamento existente em nossa sociedade baseado na escolha da mídia
televisiva (TV aberta e não por assinatura), o que, de alguma forma, pode parecer uma
visão talvez enviesada de minha parte, mas de qualquer modo acho que esta visão reflete
um pouco do conjunto de valores éticos que fundamentam nossa sociedade atual. Visualizei
3 grupos televisivos e seus conjuntos de valores (ética, moral, comportamento, etc.),
distribuídos pelas seguintes redes de TV: TV Cultura, TV Globo, Outras Tvs. Pode
parecer um pouco restritiva esta percepção mas identifico alguns traços peculiares
nestes grupos a partir da análise da programação exibida e considero que a mesma
reflita a ideologia e imaginário destas classes sociais.
TV
CULTURA
A
programação da TV cultura reflete uma aspiração e sensibilidade para uma sociedade
mais justa e equilibrada, onde os valores e preocupações ideológicas desenvolvem uma
crítica e análise da sociedade atual, no sentido de questioná-la quanto à conduta que
as pessoas têm construído na atividade econômica, política e todas as atividades que
envolvem regras coletivas. O programa Repórter-Eco, por exemplo, explora
com uma seriedade e profundidade respeitável a preocupação de como as questões
ambientais têm se desenvolvido, apresentando reportagens nas quais informa com amplitude
e proporciona crítica no telespectador.
Outro
exemplo bastante interessante da programação desta Rede é o Jornal da Cultura
que explora igualmente o conteúdo jornalístico de uma forma crítica e questionadora, ao
invés de simplesmente apresentar o fato; mas inserindo o mesmo dentro de contextos nos
quais a opinião pública mantém atenção e atualidade, enfocando análises geralmente
abrangentes e imparciais.
Vale
a pena citar mais um exemplo, que é o caso da programação infantil. É indiscutível a
qualidade e a visão de desenvolvimento que fundamenta a proposta e formato destes
programas. Programas como Castelo Rá-Tim-Bum, Co-có-ri-có e
outros, expressam claramente sua preocupação de que a criança, seu principal cliente
(não há como não categorizar numa visão de consumo o telespectador), mais do que mero
entretenimento, está em pleno desenvolvimento e que todo o momento de lazer deve se
refletir como crescimento e oportunidade de aprendizagem (de relações sociais,
intelectuais e emocionais), ou seja, uma visão de que a educação infantil, por exemplo,
não se restringe à guarda e alimentação das crianças numa creche ou escolas
(lembro-me do comentário do pai de um coleguinha do meu filho, referindo-se à uma
determinada escola de educação infantil particular, cuja mensalidade este pai
considerava muito elevada apenas para
brincar. Na visão deste pai, a educação é acumulo de conhecimento e ela só se
inicia na a partir da 1ª série do ensino fundamental, ou seja, a brincadeira e o
brinquedo não agrega e não proporciona desenvolvimento. Exatamente ao contrário da
programação infantil da Cultura (como também do canal Futura, na TV paga).
TV
GLOBO
É
curiosa a vinheta da Rede globo e você, tudo a ver. Afinal o que tem tudo
a ver? Qual a ideologia que fundamenta a programação da Rede Globo? Reflete qual
população? Uma população ora crítica, ora alheia. Sensível a um formato de programa
(estética e plasticamente) e ávida por emoção mundana. Ocorrem-me dois exemplos. O
especial O quinto dos infernos expressa um formato mais cuidado, mas não
endereçada, provavelmente, a uma população
de percepção mais rude ou alheia aos fatos e à história da nação, do ponto de vista
estético e plástico e sociológico Não chega a ser um ensaio histórico de maior
profundidade, mas ressalta e destaca, com um tom criticamente irônico, e real, suponho,
pois mostra algo que os livros de história tradicionais não mostravam até algum tempo
atrás (nos faz lembrar inclusive o filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati, que
mostra uma família real muito curiosa, engraçada e atrapalhada). Quem assiste este
conteúdo pode não ser exatamente um seguimento da população totalmente engajado com
questões éticas, mas também não representa uma população totalmente alheia
desinformada.
Por
outro lado o programa Linha Direta expressa uma visão de informação e
crítica engajada, sim, numa ideologia de
olho-por-olho-dente-por-dente, ou seja, onde a reflexão e ponderação não fazem muito
sentido na busca de soluções para problemas sociais de maior gravidade. O programa aborda dois aspectos interessantes: o
universo da violência e da emoção mundana explorando com requinte de detalhes através
das simulações apresentadas, atendendo bem o gosto do freguês pela emoção crua da
realidade, o que vai de encontro com um perfil e aspiração de um segmento social que
não exerce uma habilidade ou possibilidade de refletir sobre isso. Outro aspecto
interessante abordado no programa é a perspectiva da crítica, quando propõe ao
telespectador a denúncia de fatos e situações violentas conhecidas. Aí, sim, há uma
tentativa de proporcionar na população uma atitude e um exercício de cidadania, no
sentido de chamar a atenção e intervir, de alguma forma, no que acontece na
sociedade.
Outras
tvs
Por
que todas as redes menos Globo e Cultura? Pois todas as outras (novamente da TV aberta)
parecem não ter nenhuma preocupação em produzir algum tipo de programação que de
alguma forma proporcione reflexão sobre nossa realidade social. Ou seja, a ideologia
produzida nas outras redes (alguma exceção à TV Bandeirantes, especialmente por seu
jornalismo) produzem um conjunto de programas que expressa um alheamento e alienamento
social muito forte dotado, quando não de viés religioso, de viés antiético. Uma
característica forte no universo deste segmento da população é o emocionalismo e o
lazer desprovido de um conteúdo que expresse aspiração e evolução por exemplo
os musicais de auditório - ou seja, onde, como e para onde vamos, e como melhorar as
relações desta nossa sociedade tão carente de regras e referências éticas mais
fortalecidas.
Alguns
exemplos: Ratinho. As situações apresentadas neste programa expressam e sugerem
uma conduta de catarse na platéia e, em menor proporção, por não estarem presentes
fisicamente no programa, no telespectador. Tais situações, as vezes, parecem anedóticas
e, portanto, simuladas, mas certamente desenvolvem no telespectador emoções e um
imaginário de crueza, senão crueldade na visão e elaboração das relações
interpessoais e portanto éticas. Num dos programas o apresentador mediou um debate (se
podemos chamá-lo assim) entre o deputado federal José Genoíno, que participava a
distância através de telão, e o deputado estadual Afanásio Jazadi presente no
programa, na época do seqüestro do prefeito de Santo André, Celso Daniel. A discussão
era naturalmente sobre a questão da
segurança pública. O interessante no evento era a forma dramática e ostensiva que se
dava a discussão a respeito de temas como pena de morte e ostensividade da ação
policial.
Outro
exemplo bastante interessante desta categoria é o programa do apresentador Sergio
Malandro. O programa explora abusivamente da imagem da sexualidade feminina e de
situações, senão vexatórias, baratas no sentido da pobreza e crueza do relacionamento
humano. O programa mostra situações em of de pessoas (homens normalmente)
que estariam sendo testadas quanto a sua fidelidade conjugal. O tema até é interessante
não fosse o formato e o abuso de recursos visuais apelativos nas situações
apresentadas.
A
mais triste das ignorâncias é aquela que, nascida do orgulho e da arrogância, é
alimentada pela falta de memória e incapacidade de perceber a própria responsabilidade
por suas dores... (anônimo)
Paulo
de Abreu Lima
Partes-abril/2001 |