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Revista Partes ano II abril de 2002 n.21

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 Enchentes e complexidades
 por Gilberto da Silva

Baixa renda

Ainda sobre as enchentes, vamos destrinchar nesta edição um pouco mais deste assunto tão polêmico e atual.

A população de baixa renda da cidade de São Paulo teve seus problemas agravados à medida que a mancha urbana crescia.

As soluções apresentadas pelas autoridades governamentais são sempre paliativas gerando uma deterioração da qualidade de vida. 

Habitações inadequadas
Cerca de 40% das habitações são construídas de forma inadequada na Grande São Paulo. A maior parte desta população encontra-se localizada em áreas de risco associada à chuva (enchentes ou desabamentos) e sujeita aos demais problemas ambientais e sanitários, tais como, prejuízos materiais, doenças e mortes. 

Características comuns

As enchentes têm entre si características comuns e bastantes conhecidas, tais como: impermeabilização dos solos, retificação de cursos d`água, assoreamento, ocupação de várzeas, entre outros. O assoreamento dos cursos de d`água (córrego, rios e represas) deriva principalmente do lançamento indiscriminado de lixo e de entulhos de construção nos rios, ocupação de terrenos em áreas de alta declividade, surgimento de edificações ao longo dos cursos d`água e crescente impermeabilização dos terrenos. 

Procav

São Paulo tem um projeto em andamento que pode de certa forma minimizar os efeitos desta ocupação desenfreada e contribuir para a diminuição das enchentes. O Procav (Programa de Canalização de Córregos, Implantação de Viário e Recuperação Ambiental e Social de Fundos de Vale) ajuda na redução de enchentes, diminuindo a poluição destes corpos de água.

O programa em sua essência visa retirar a população instalada em áreas de riscos e de escorregamento de terra, enchentes ou contaminação pelos recursos hídricos poluídos e levá-los para áreas de assentamento, geralmente conjunto habitacionais. De certa maneira o programa melhora a qualidade de vida desta população ao proporcionar melhores condições de saúde e habitação. 

Concepção viária

O grande defeito, ao meu ver, deste programa é o acentuado reforço no sistema viário. O programa deixa nítido que o mais importante é abrir uma nova malha viária. Aspectos sociais e ambientais entram em segundo plano (quando entram!). No lugar de novas ruas nas beiras de rios, poderíamos, por exemplo, criar uma bela faixa de árvores e áreas de lazer e recreação para a comunidade.

Muitos técnicos consideram que do ponto de vista da estruturação do espaço urbano, construir vias em áreas de fundo de vales representam uma única opção possível para a ampliação da malha viária do município. 

Riscos e desafios

É um grande risco pensar o urbano apenas sob o aspecto da ampliação da malha viária.

Com custos menores dá para aproveitar os vazios urbanos de fundo de vales ainda não edificáveis, para a reservação das águas (piscinões) com melhores resultados do ponto de vista da drenagem. As populações que ainda continuarem em área de riscos devem sofrer uma política social e habitacional de porte mais duradouro, levando-se em conta os aspectos das despesas que causam novos reassentamentos (aumento dos custos de transportes, água, abastecimento; prestações dos imóveis etc). 

Água e doença

No inicio da década de 90, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), aproximadamente um quarto dos leitos existentes em todos os hospitais do mundo estarão ocupados por enfermos, cujas doenças são ocasionadas pela água. O alerta permanece atual.

Resíduos sólidos e lixo eletrônico

A cultura do lixo
O lixo continua sendo um dos problemas mais graves vividos pela nossa sociedade. Calcula-se que no Brasil são gerados, diariamente, uma carga de 125 mil toneladas de rejeitos orgânicos e de material reciclável. Estima-se que o Brasil desperdice R$ 4,6 bilhões por não reaproveitar o lixo reciclável. A geração de lixo e a destinação dos resíduos sólidos estão em constante debate na sociedade. Não podemos esquecer o importante papel dos
catadores e das cooperativas de catadores e de reciclagem.

O aterro sanitário
O aterro sanitário é um sítio, um terreno, no qual é utilizado um processo de disposição de resíduos sólidos, particularmente o lixo domiciliar, com fundamento em critérios de engenharia e normas operacionais específicas. Não de vemos confundir aterro sanitário com lixão. O lixão é um mero lugar de descarga a céu aberto.

Pneus triturados
Por uma questão emergencial a Prefeitura de São Paulo e a Cetesb em outras cidades do estado estão triturando os pneus e depositando nos aterros. Isto não pode ser uma questão definitiva. Os pneus podem e devem ser totalmente
reutilizados através da sua reciclagem. Podem, por exemplo, servir para melhorar o composto asfáltico.

Sociedade de consumo
A sociedade de consumo e sus a cultura do desperdício que atinge sobretudo as grandes metrópoles é o fator gerador deste problema. Embalagens e mais embalagens, mais embalagens que produtos inunda as lojas e nosso lixo.
Embalagens não retornáveis, geralmente desnecessárias.

Sociedade da informação
A sociedade da informação, leia-se computadores e celulares trouxe à tona a questão do lixo eletrônico. Em 2004, serão 315 milhões de computadores fora de linha, só nos EUA. Pouco ou quase nada é reciclado. Nossos lixos a cada dia que passa está sendo tomado pelo lixo eletrônico. É bom saber que
computadores e celulares contem elementos perigosos e preciosos. Os materiais perigosos são: cádmio níquel existente nas baterias e os circuitos eletrônicos  com mercúrio, arsênico e outros metais tóxicos. Os materiais preciosos são ouro e prata (dos circuitos eletrônicos), plásticos e vidro.

Dia Mundial da Água
Na sexta, 21 de março é comemorado o Dia Mundial da Água. Muito oportuno para a conscientização da importância da água, discutir a capacidade hídrica e a necessidade de gestão pública do saneamento. Não pode ser apenas fonte de lucro: água é vida!

Flotação
A flotação do Rio Pinheiros, com previsão final de tratamento de 50 mil litros das águas rio é motivo de discussão entre o governo estadual, deputados a oposição e entidades civil. O projeto parte de um piloto com capacidade de 10 mil litros que serão bombeados para a Billings, com o objetivo de ampliação de energia da usina Henry Borden. Entre outros fatores reclamam do custo elevado que envolve o tratamento e a falta de Eia-Rima, estudo de impacto ambiental e relatório de impacto ao meio ambiente e da falta de discussão com a população e com a comunidade científica e profissionais que atuam no setor.



Gilberto da Silva é jornalista e editor da revista Partes. E-mail gilberto@partes.com.br


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