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A biotecnologia, ao lado da microeletrônica, é um dos ramos
do conhecimento que se encontra no centro de uma verdadeira revolução
tecnológica a que assistimos neste fim de século. As novas
descobertas científicas e tecnológicas nessa área têm trazido
inúmeros benefícios: melhor conhecimento de muitas doenças, o
desenvolvimento de novos remédios, contribuindo, assim, para uma
sensível melhora na qualidade de vida e no desenvolvimento
humano.
O aperfeiçoamento da tecnologia de clonagem, que ganhou as
manchetes dos jornais quando, no dia 27 de fevereiro de 1997, a
revista Nature noticiou que pela primeira vez um mamífero – a
ovelha Dolly – havia sido clonado a partir do tecido de um
animal adulto, faz parte desse esforço e deve ser saudado como
importante avanço da humanidade na sua incessante busca do domínio
sobre a natureza.
O domínio da tecnologia de clonagem nos permite vislumbrar,
embora ainda como vaga promessa, a possibilidade de se produzir órgãos
e tecidos a partir das células da própria pessoa, eliminando não
apenas os riscos de rejeição, como livrando-a da espera de um
doador que poderá surgir tarde demais.
Não sem razão, entretanto, ao mesmo tempo em que se saudou
a descoberta, afloraram preocupações com o possível mau uso da
nova tecnologia por parte de homens de negócios e líderes políticos
inescrupulosos e cientistas sinistros. A clonagem humana, por si só,
poderia estimular alguns aventureiros ao desenvolvimento de
"novas" teorias de raças superiores e de outras
bestialidades que a humanidade ainda não esqueceu.
Por isso, foi praticamente unânime, em todo o mundo, o apoio
à necessidade de se aprofundar o debate sobre o tema e
estabelecer uma legislação apropriada coibindo experimentos antiéticos
com seres humanos. Foi com esse objetivo que, no dia 13 de janeiro
passado, apresentei à Câmara dos Deputados o Projeto de Lei N.º
4.060 que proíbe a clonagem de seres humanos completos. De acordo
com a proposta por mim apresentada, fica proibida, em todo o
território nacional, qualquer experiência ou tentativa de
intervenção cujo objetivo seja o de criar um ser humano
geneticamente idêntico a outro ser humano, vivo ou morto.
Orientação idêntica está sendo tomada por cerca de 20 países
da Europa que, acolhendo recomendação do Conselho Europeu,
assinaram um protocolo em que se comprometem a criar leis
proibindo tais experimentos em seu território.
Conforme observou o professor R. C. Lewontin, da Universidade
de Harvard, nos Estados Unidos, em artigo publicado na The New
York Review, de 23 de outubro de 1997, clones de seres humanos não
são propriamente algo desconhecido. Diariamente nascem no mundo
algumas centenas de gêmeos idênticos que são a mais perfeita
forma de clones. O problema, portanto, não está na possibilidade
de existência dos clones em si mesmos. A questão são as concepções
subjacentes e os riscos envolvidos na tentativa de clonagem
artificial de seres humanos completos. O que poderia levar alguém
a tentar clonar um ser humano completo ?
Em primeiro lugar, alguém que se propusesse a clonar um
outro ser humano na esperança de obter uma pessoa, um indivíduo
idêntico, estaria partindo de uma visão equivocada baseada no
determinismo biológico, isto é, na suposição de que a simples
reprodução de um organismo idêntico pudesse garantir a formação
de uma pessoa idêntica. Dado que isso é absolutamente impossível,
uma vez que a pessoa humana, na sua individualidade, é fruto de
um complexo processo social de formação, um indivíduo que fosse
clonado, com o objetivo de tornar-se uma pessoa idêntica à que
lhe deu origem, estaria, no mínimo, sujeito a pressões psicológicas,
da parte de seus criadores, inaceitáveis para um ser humano.
Não fosse esse o objetivo, qual seria então?
Dar continuidade a uma determinada linhagem pelos "laços de
sangue". De novo o determinismo biológico. Pior, estaríamos
abrindo caminho para a eugenia. E não se diga que isso são
coisas do passado. Willian Pfaff, em artigo publicado na mesma The
New York Review recorda que até 1973 estavam em andamento, nos
Estados Unidos, programas de esterilização de pessoas visando
melhorar a "raça". Na Suécia, entre 1935 e 1976, mais
de 60.000 pessoas foram esterilizadas contra a vontade, entre elas
ciganos, mendigos e as que não eram da "raça pura
sueca". O mesmo aconteceu, segundo o autor, em outros países
nórdicos e, também, na Suíça, na França, na Inglaterra, no
Japão, nos Estados Unidos e em outros lugares. Churchill, em
1942, mandou tropas australianas no lugar das inglesas para a ilha
de Singapura, alegando que poderiam ser sacrificadas por que
tinham "sangue ruim". Como se vê, tais idéias surgem
em lugares e pessoas mais insuspeitas. Faríamos bem, portanto, em
proibir esse tipo de experimento, pelo bem da própria humanidade.
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